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Reciclar a vida

História de: Carlos Antonio dos Reis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/08/2005

Sinopse

Carlos teve uma adolescência marcada pelo crime e pelas drogas. Ao sair da prisão, teve de lidar com o alcoolismo. Encontrou ajuda nos Alcoólicos Anônimos e no trabalho em uma cooperativa de catadores. Faz parte de um grupo chamado "Reciclar a Vida" e tornou-se também um ativista em prol da reciclagem de materiais e da valorização dos catadores.    

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História completa

 

P/1 – Carlão, nós queríamos começar o depoimento perguntando primeiro o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – O meu nome é Carlos Antonio dos Reis. Eu nasci em dezoito de janeiro de 68. Tenho 36 anos. E o que mais?

 

P/1 – Que cidade?

 

R – Nasci em São Paulo.

 

P/1 – Na capital?

 

R – Na capital, no Jardim Romano, que é no Itaim [Paulista], onde eu moro. Só que eu moro num bairro hoje, que é na Cidade Kemel, no outro lado. Eu nasci num outro bairro, que é na beira de um rio, esse Rio Tietê. Da minha casa ao Tietê, onde eu nasci, é mais ou menos uns cinco minutos.

 

P/1 – Por favor, diga pra gente o nome dos seus pais, completo.

 

R – O meu pai chama Antonio Leandro dos Reis. Minha mãe, Raimunda Júlia da Silva.

 

P/1 – E qual a origem dos seus pais, de onde eles são?

 

R – De Minas.

 

P/1 – E você sabe por que eles vieram pra São Paulo?

 

R – Meu pai veio porque [tinha] uma cacetada de irmão, muitos irmãos. O pai dele tinha várias famílias e ele se viu avexado. Veio pra São Paulo, trabalhou por um tempo. Voltou em Minas, casou com minha mãe. E minha mãe, ela alega que veio porque casou com o meu pai. Veio pra conhecer São Paulo.

 

P/1- E o seu pai trabalhava com o quê, nessa ocasião?

 

R – O meu pai sempre trabalhou em construção civil, serviço pesado. Começou como servente de pedreiro, depois ajudante de eletricista. Depois, eletricista. Findou se aposentando nisso daí, em construção civil.

 

P/1 – E quantos filhos eles tiveram?

 

R – O meu pai e minha mãe, três comigo. Tem eu, Carlos, a minha irmã Sueli, o meu irmão caçula, que é quatorze anos mais novo do que eu, [se] chama Eduardo. E com a minha mãe eu tenho mais uma outra irmã que se chama Aline.

 

P/1 – Conta pra gente um pouco, Carlão, como é que foi a sua infância nesse bairro, Jardim Romano. Conta pra gente a convivência com os seus irmãos, as brincadeiras.

 

R – Eu lembro muito pouco. Lembro mais de coisas ruins, porque o meu pai e a minha mãe brigavam muito. Briga mesmo. Eles brigavam porque não se gostavam. Aí vieram os filhos. Pra não separar, naquele tempo esse negócio de divórcio, desquite, eu acho que era difícil. Mas éramos só eu e minha irmã.

A minha mãe começou a trabalhar, eu me recordo, eu tinha já sete anos de idade. A minha mãe foi trabalhar e nos deixou com minha avó, que é a mãe dela que veio de Minas. Minha avó foi pro Paraná e veio pra São Paulo cuidar da gente.

Eu falei no começo do Rio Tietê; nós íamos nadar lá, eu e minha irmã. E a situação financeira nossa era muito difícil. O meu pai, naquele tempo... Construção civil não dava dinheiro, era desvalorizada essa profissão. O que minha mãe ganhava era pra ela, era pouco e ela cuidava dela, da vaidade dela. Eu lembro que a minha mãe gostava muito de fazer unha, cuidar do cabelo. E o meu pai, o que ele ganhava era pra trazer o alimento. Eu lembro que era do dia dez ao dia vinte… Era dia vinte e 25 o pagamento e a gente só comia carne no dia dez e no dia 25 à noite. Isso é verdade mesmo. Fora isso, a gente só comia ovo ou cebola.

Eu e minha irmã, nós pegávamos... Ela estudava das sete ao meio-dia. Eu, das sete às onze. Quando a gente ia à escola a gente ia catar ferro velho. A gente falava que era ferro velho pra comprar doce, que a gente gostava muito de comer, e juntar um dinheiro. A gente falava que queria ajudar o meu pai a construir a casa. Então nós fizemos um cofre de madeira, eu e a Sueli, parecendo uma casa, e guardava o nosso dinheiro lá. Eu tenho um primo - faz muitos anos que eu não o vejo -, ele ia lá direto abrir esse cofre, que era com parafuso. A gente não sabia o esquema, era parafuso. Ele abria, catava o dinheiro e levava embora. E a gente não sabia, então ia jogando. No final do ano a gente abriu, quando foi ver tinha aquilo que a gente tinha jogado naquele dia. [Essas são] algumas das coisas que eu lembro.

Brincava muito com a minha irmã de escola. Até os dez anos a gente brincava muito juntos. Aí eu fui crescendo, fui brincando com os moleques na rua. Gostava muito de bola e de empinar pipa. E nessa época eu já estudava das uma às cinco, acho que era esse horário. E já estava cabulando muita aula, não estava mais ligando pra escola.

Não tinha harmonia dentro de casa. Minha mãe e meu pai já não se davam bem, já não ligavam tanto. O meu pai era Testemunha de Jeová. Minha mãe também, ia só por ir. Eu gosto de ser meio realista com as coisas. Meu pai não, meu pai era firme. Ele até hoje, hoje minha mãe também é firme nessa religião deles. Mas o meu pai desde aquela época.

O meu pai sempre nos carregou nas costas. Sempre. Isso eu nunca vou esquecer, com todos os defeitos dele. E aí eu comecei a [me] distanciar da família. E sempre quis trabalhar. Trabalhava em feira fazendo… Não sei se vocês se lembram, naquele tempo tinha carrinho de rolimã, de madeira, com rodinha de rolimã. Fazia muito carreto na feira. No final da feira eu já tinha ganhado um dinheiro, porque eu catava algumas daquelas coisas e levava pra mim e pra minha irmã.

Quando eu tinha quatorze anos, meu irmão nasceu. Eu tenho um tio, que se chama Abelardo, e eles têm família grande. Eu sempre quis ter família grande, porque eu... Criança sempre briga. Quando eu e minha irmã… [Quando] ela ficava sem conversar comigo eu me sentia muito mal. Então, pra não perder a amizade dela, eu fazia os gostos dela. Isso era ruim porque, na época, mesmo ela sendo mais nova do que eu, ela usava de malandragem pra ficar conversando comigo.

Quando a minha mãe ficou grávida do meu irmão, eu sempre pedi a Deus: “Eu quero ter um irmão homem pra ele crescer e eu ensinar as coisas pra ele.” Quando ele nasceu, eu estava com quatorze anos, aí a nossa vida tomou outro rumo. Minha mãe foi embora, meu pai ficou com a gente. O meu irmão nasceu [e] com dois anos, um ano, eu não lembro, minha mãe foi embora. Largou meu irmão, eu e a minha irmã.

Nessa época, eu já estava envolvido com malandragem. Eu já tinha ido pra Febem, aí o meu pai ficou com a gente. Minha mãe separou, se juntou com um cara lá e pediu o divórcio. Só que ela queria a metade do que nós tínhamos. Nós só tínhamos uma casa. E meu pai pagou pra ela a metade dela e ainda ficou com a gente. Não podia casar porque era divorciado, era desquitado. Só podia casar depois de alguns anos. Nesse período, quem foi a dona da casa foi minha irmã; eu com quinze, ela com treze e um menino com dois anos. Ela aguentou tudo, segurou, a Sueli.

 

P/1 – Ela que cuidava do menino então, do seu irmãozinho.

 

R – Cuidava do meu irmão, ela que cuidava do Eduardo. Minha mãe vinha também, só que não era mais aquilo.

Eu esqueci de falar uma coisa. Aos nove anos, eu tive paralisia facial. E foi uma das épocas, foi quando eu… Eu sempre gostei de estudar, mas com dificuldade pra aprender porque eu penso que as coisas vêm de dentro de casa. Então, você não tinha harmonia, você… Os estudos não entravam. Quando eu me engajei na escola foi que eu peguei paralisia. Eu não podia, minha boca entortou, entortou tudo. E a molecada na escola ficava tirando barato. Eu falava pra minha mãe: “Eu não quero ir, não quero ir.” Minha mãe cuidou de mim.

Quando ela foi embora, que eu estava envolvido com droga, deu a paralisia. Só que, por eu estar envolvido nas drogas, eu não senti. Por um tempo eu fiquei, dos meus quinze até os dezoito, dezessete anos. Nos meus quatorze… Eu já estava envolvido desde antes, mas pegando as coisas bem mesmo foi dos quatorze até os dezessete e meio. Envolvido em droga, indo preso direto pra Febem. Passava dois meses, três meses, um mês, quinze dias. A última eu passei quase um ano ou mais de um ano, eu não lembro agora.

Saí, falei que ia parar. A paralisia de novo me atacou. Fiz fisioterapia por seis meses, sarei. Aí fui embora pro Mato Grosso. Aconteceu umas coisas ruins lá onde eu morava, no Jardim Romano. O meu pai chamou o meu tio, esse que tinha uma família grande; me levaram escondido pra rodoviária, me mandaram pro Mato Grosso. Eu fui pro Mato Grosso sem conhecer ninguém, sem saber de nada. Sozinho, aos dezessete anos, fui pro Mato Grosso do Norte.

 

P/1 – Mas por que você teve que sair?

 

R – Eu vinha vindo de uma… Eu estava com uns camaradas, vindo de uma festa. Um cara veio nos matar e nós sentamos bala. Ele veio com uma calibre doze pra atirar no cara que estava comigo e o meu revólver estava com o cara que estava comigo. E eu.. Em mim ele não ia atirar. Ele apontou a arma, o cara bateu e deu um tiro, deu uns três ou quatro tiros na cara dele. E esse cara era irmão de uma namorada que eu tinha, que a família já não ia com a minha cara porque eu mexia com roubo. Aí ocasionou tudo. E o primo dele tava junto, então o primo dele falou: “Carlinhos que matou.” Aí eu fui embora.

Dali pra cá eu não conhecia ninguém no Mato Grosso. Só tinha a minha avó lá e os parentes da minha mãe. Preguiçoso, porque você acostuma na vida do crime, você desacostuma a trabalhar. Só que eu fui na mentalidade de trabalhar. Tanto que eu cheguei lá, arrumei um trabalho, saí, arrumei numa serraria, numa olaria - trabalho ruim, porque lá é muito quente. Eles me colocaram pra trabalhar na boca do forno, tirando tijolo e telha. Aí a minha tia… Eu saí; me injuriei, me invoquei, falei: “Eu não vou mais.” Voltei pra casa da minha tia.

Eu estava dormindo um dia de tarde, tinha terminado de almoçar. Minha avó tinha me dado almoço, fui dormir. Eu acordei - lá as paredes, as casas são de madeira - e escutei a minha tia falando na outra casa, na casa vizinha: “A Raimunda é foda, ela manda o filho dela pra comer e dormir na minha casa.” Aquilo foi um tapa na minha cara. Eu levantei, acendi um cigarro, tomei um café, arrumei minhas coisas e fui embora.

Arrumei um serviço numa serraria. Fiquei por quase um ano lá. Ali eu me adaptei, conheci as pessoas. E tive outra perda na minha vida. Até então eu tinha acostumado, eu ia viver lá. Não estava usando droga, só estava bebendo muito. Eu já era alcoólatra nesse tempo, já era alcoólatra mesmo.

A minha tia falou essas coisas. Eu fui trabalhar, trabalhei por um bom tempo. O dono dessa serraria gostava muito de mim. Ele era uma pessoa fantástica. Ele me chamava de paulistinha. Eu lembro do nome dele até hoje, é Jair de Carli. Ele foi prefeito dessa cidade por vários anos. É uma pessoa burguesinha mesmo, capitalista. Mas eu, como pessoa, eu não sei o que eu tenho, eu sempre cativo as pessoas. Isso serve de bom e de ruim também, é uma parte boa e uma parte ruim pra nós. Eu o cativei.

Quando eu fiquei doente, foi virada de ano. Não era registrado. Eles tinham pagado todo o décimo terceiro, férias; eu não tinha direito. Eu acordei de manhã, minha boca estava torta. Foi uma perda pra mim, porque lá não tinha tratamento: era em São Paulo ou em Cuiabá. Fui lá nele, chorei mesmo. Falei: “Eu não quero ir embora. Se eu for pra São Paulo eu sei o que vai acontecer.” Ele falou: “Paulistinha, vai, se trata e volta. O seu emprego tá guardado.”

Foi o que eu fiz. Vim, me tratei, só que errei uma coisa: eu me envolvi novamente com as pessoas erradas. Já não do [Jardim] Romano, porque no Romano eu já não ia mais. Meu pai namorava no Romano. Comecei a me envolver com as pessoas de São Miguel [Paulista], [Vila] Jacuí, [Vila] Curuçá, Itaim [Paulista]. Pessoas que eu já conhecia do tempo de Febem, só que até então eu já era maior [de idade]. Aí eu me invoquei e falei: “ Eu vou lá no Romano.” Eu automaticamente obriguei o meu pai a vender uma casa porque ele vendia ou ia ver o filho dele morrer, porque eu não podia andar na rua. Lá era desse jeito, porque eu mexi com uma família muito grande, muito forte. E eles…

O meu pai vendeu a casa. Nós mudamos de manhã, à tarde eles invadiram pra me matar. Eles souberam que eu estava lá. Aí meu pai… Na mudança eu não quis ir, à noite. Eu fui dentro de um guarda roupa, junto com a mudança. Eu lembro que os meus tios pegaram o guarda roupa assim e falaram: “Nossa, guarda roupa antigo é pesado.” E eu estava deitado lá dentro.

Mudamos pro Itaim [Paulista]. Eu conheci a minha primeira esposa, que se chama Vilma, e comecei a namorar com ela. Ela ficou grávida. Nisso eu já estava envolvido já com cocaína, droga mais pesada. Cocaína, maconha e o alcoolismo junto.

 

P/1 – Só um pouquinho... Nessa primeira fase que você estava aqui, que você foi pra Febem, você estava envolvido só com maconha?

 

R – Só com maconha e roubo.

 

P/1 – E roubo. Roubava pra comprar...

 

R – Pra comprar droga, pra comprar roupa.

 

P/1 – E aí, nessa segunda fase, você já se envolve com droga, com a cocaína.

 

R – Eu me envolvi com cocaína e ali foi pesado porque eu me envolvi com baque, tomei na veia. Cheirava muito.

De todas as drogas que eu experimentei a pior é o álcool, eu acho, que é liberado. O álcool acaba, é destruidor mesmo. E a Vilma ficou grávida. Automaticamente - eu era tão canalha, canalha mesmo, safado - ela ficou grávida, eu perdi o gosto, falei: “Ah...” Ela também não queria mais nada. Ela foi pro lado dela, eu fui pro meu.

No dia nove de março de 87 a minha filha nasceu, se chama Juliana. E eu fui preso nesse dia. Eu tinha terminado de fazer um assalto, fui pra casa, guardei as armas e fui pra boca pegar fumo, pegar a coca. Eu terminei de pegar a farinha, estava indo pra uma quebrada pra diluí-la na colher, pra jogar na veia. Os homens vieram em cima, na hora. E eu estava com um menor junto comigo, que tinha feito o assalto. Ele era maior, mas na fisionomia passou que era menor e eu não. Também passava como menor, eu já tinha ido preso.

Esqueci de falar aqui. Aos dezoito anos eu fui pra Febem, passei como menor. Lá dentro eles me descobriram. Não podia fazer nada, tinha passado já algumas horas. Eles me mandaram pra rua, assinei uma sindicância. Mas naquele dia eu estava com o certificado de reservista. E a vítima, porque eu tinha assaltado, estava dentro da Apolo. Naquele tempo era uma perua, a Apolo. Aí me pegaram, me levaram pra delegacia.

Eu já era conhecido, aí já subi direto pro pau de arara. Fiquei quatro dias no pau de arara, pra assinar B.O. que eu tinha feito quando era menor. Ali eu falava: “Não, eu não vou assinar.” Eles me tiraram da delegacia, me levaram aqui pro DEIC [Departamento Estadual de Investigações Criminais] na Luz. Passei mais quinze dias. Ficava de manhã numa boa; da meia-noite às sete da manhã era pau, porque eles queriam acabar os camaradas do Romano. Eu não tinha mais contato. Queriam saber o que eu tinha feito no Mato Grosso.

 

P/1 – Queriam que você caguetasse o pessoal do Romano?

 

R – É, aí fui. Eles viram que não virava nada. E ninguém descolou advogado, porque a minha família também perdeu o contato. Para o meu pai, até então, eu fui preso. Pro meu pai e pra minha mãe eu fui preso, normal, eu fui só preso. Mal sabiam eles que, quando eu era menor, eu ia preso e o delegado era obrigado a me mandar pra Febem. Dava um pau de dois, três dias, mas era obrigado a me mandar pra Febem. Ali não, ali eu já era maior e não tinha boca.

Fiquei mais uns quinze dias no Deic, aí fui transferido pro Hipódromo. Fui pro juiz, fui condenado e fui pra Casa de Detenção. [Quando] eu cheguei na Casa de Detenção, que eu olhei, aí caiu a ficha. Eu falei: “Puta merda, cara, onde eu estou. Eu me ferrei.”

 

P/1 – No Carandiru?

 

R – No Carandiru, Pavilhão Nove. Falei: “Eu me ferrei. Aqui, agora, a casa caiu.” Não pelo ambiente, porque eu tinha muito conhecido no crime. Hoje não, porque tem muitos anos, minha vida tomou um outro rumo. Muitos morreram, muitos estão presos.  

Cheguei lá. Na triagem, esse pessoal já falou: “Família, o Carlinhos tá aí. O Carlinhos do Romano tá aí e pá.” Foi lá que eu consertei a morte daquela pessoa lá atrás. Lá você bate de frente com as pessoas, não tem como fugir. Cheguei e já falei: “Chama fulano, beltrano e sicrano.” Já trocamos uma ideia. “A morte do seu irmão foi assim, do seu primo foi assim, assim. E tamos aí, Carlos.” “Eu fugi porque vocês iam me matar. Eu não quero morrer, mas agora estamos aqui.” Aí eles falaram: “Você foi sujeito homem assim, assim. E aí?” Eu falei: “Tamos aí.”

Fiquei na Casa de Detenção por um bom tempo. Dali fui pra Penitenciária. Estava preso, já.

Ao invés de eu [me] aquietar, lá dentro comecei a traficar droga. Com três meses eu peguei uma isolada, que é castigo. Fiquei um mês na isolada. Saí da isolada. Um mês [depois] que eu estava fora da isolada, voltei de novo. E cada uma dessa você assina. Você assina tráfico lá dentro, lá dentro é cadeia na cadeia.

Um dia, eu [me] injuriei, falei: “Não vou usar mais droga.” Foi na última isolada que eu saí. Falei: “Não vou usar mais. Acabou.” Sofri, fiquei uns três dias me remoendo. Só que no lugar da droga, lá dentro a gente fabricava cachaça. E a cachaça era pior do que a droga lá dentro. Era pior.

 

P/1 – Fabricava de que? De arroz?

 

R – De arroz. A gente fazia um bem bolado louco. A gente conseguia fazer o perfume entrar lá dentro. Comprava o álcool dos ‘funça’, álcool mesmo. Deixava o arroz azedar e… Porque ela fede, ela cheira lá embaixo.

Eu era do quinto andar. No Pavilhão Nove eu estava no quinto andar. Então a gente começava a ferver. Quando ela fervia, que molhava o pano, ali era pinga. Torcia ali. Era a gota que era a pinga. Só que o cheiro isolava a cadeia toda, então você tinha que pagar pros caras, pros funcionários. Era umas pegadas loucas. Além de eu vender, eu ainda tomava.

 

P/1 – Só um minutinho. Você morou uma época no Pavilhão Nove. Em que época? Foi na época do massacre, não?

 

R – Eu saí um ano antes, menos de um ano. O massacre foi em 92, não foi isso?

 

P/1 – Foi.

 

R – Eu saí em 90. Eu fiquei de 87 a 92, só que quando houve o massacre eu já… Eu estava preso, mas não estava no Carandiru.

Quando eu comecei a me envolver com alcoolismo lá dentro, eu peguei pneumonia. Fui transferido pra Penitenciária do Estado. Na Penitenciária do Estado eu fui transferido pra Penitenciária de Araraquara. Da Penitenciária de Araraquara eu voltei pro Carandiru. Do Carandiru eu fui transferido pra São José do Rio Preto.

Eu já tinha parado com todas as drogas, só que eu era visado porque eu não tinha visita. Então você tinha que arrumar a sobrevivência lá dentro. Ou você arruma a sobrevivência ou você vira mulher de alguém, cara, ou zica.

 

P/1 – O quê que é zica?

 

R – Zica é quem não faz nada na vida. Você morre. Você vira… Mendigo na rua, hoje, tem alguém que luta por ele. Lá não tem. É crime, é vida do crime. Então, você tem que ter sua sobrevivência, tem que arrumar alternativas.

A minha alternativa era fazer jogo de bicho, vender as coisas lá dentro. A companheirada vem, a visita vem e traz bolacha, então você vai e troca por cigarro. A companheirada vai, as visitas trazem pra companheirada açúcar, café, óleo, roupa, camiseta; você vende por cigarro e por próprio dinheiro, porque lá dentro também rola dinheiro - acho que nem é bom falar isso. Rola muita coisa lá dentro.

Eu fazia correria. Por fazer correria lá dentro eu era visado pelos funcionários, porque lá atrás eu já era muito… Aprontava demais. Então, direto eu estava tomando blitz.

Quando você é visado numa cadeia, que é transferido pra outra, automaticamente o seu prontuário já chega sujo lá. [Quando] eu cheguei em Araraquara peguei logo sessenta dias de isolada, sem fazer nada. Fiquei injuriado, meu. Isolada, cara. E de short e camiseta, sozinho na cela, sem visita.

 

P/1 – Isolada á a solitária?

 

R – Solitária. Sem visita, sessenta dias. Eu não sei como funciona hoje, mas naquele tempo era radical mesmo. Era como se fosse ditadura. Porque quem comanda a cadeia são os caras da ditadura de antigamente. Eles que comandam, é nesse sistema.

Voltei pra [Casa de] Detenção, aí eles já me conheciam, sabiam que eu estava maneiro. A Detenção é outro ritmo, era uma cidade. Quem comandava lá dentro era preso, porque qualquer cadeia quem comanda é o preso. Pra você tê-la na mão você tem que deixar solto o preso. Solto.

Eu cheguei, já me conheciam. “O Carlinhos chegou.” Voltei pro Pavilhão Nove. Aí que caiu a ficha. Minha filha já estava grande, com quase cinco anos. Eu já tinha perdido dois recursos. Aí eu, porventura…

Um dia de manhã, eu inventei de falar com uma pessoa lá - lá tinha preso que batia os negócios na máquina, como se fosse hoje o computador, e mandava pro fórum. Eu paguei uns maços de cigarro pra ele bater pra mim, [ele] mandou pra fora. De repente, chegou um advogado lá; não sei de onde saiu aquele cara. Falou: “Eu vou pedir a sua colônia.” Aí eu falei: “Tá bom.” Não acreditei também. Passaram-se dois meses, eu ganhei a colônia. Fui pra São José do Rio Preto.

 

P/1 – Só um minutinho, eu não lhe perguntei... Quantos anos você pegou quando você ______?

 

R – Na primeira cacetada, cinco e quatro. E, além de eu ter ganhado a colônia, eu ganhei toda a minha cadeia.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Cada doze que eu assinava lá dentro, eu era condenado a mais… Cada pancada que eu assinava lá, eu era condenado a mais. Eu ganhei as quatro pancada que eu fui, os quatro doze que eu assinei lá dentro.

 

P/1 – Mas você conseguiu reverter isso?

 

R – Consegui. Lá eles alegam [réu] primário, alegam falta de visita, falta de opção; alega [que] uma pessoa [é] coagida a fazer aquilo, senão os presos antigos matam.

Eu ganhei. Só que, quando eu ganhei, eu fui condenado a cinco anos e quatro meses. Quando eu ganhei, minha cadeia, eu já estava tirando cinco [anos]. Fui pra colônia, tirei o resto na colônia.

 

P/1 – E como é que é a colônia?

 

R – A colônia pra mim foi uma escola de vida, porque [quando] eu cheguei na colônia faltavam alguns meses. Vamos supor, eu cheguei na colônia com quatro anos e meio preso, certo? Só que você tem que ficar por três meses na colônia pra pedir algum recurso de liberdade. E é mais três meses pra esses recursos virem. Foi o que aconteceu comigo.

Quando eu cheguei lá eu vi um muro. Eu tinha uma filha aqui fora, que era a Juliana. Tinha a mãe dela, que ‘trincou’ comigo na cadeia. Ela me visitou. Porque até… Lembra que eu falei que no começo eu e ela… Quando fui preso ela ‘trincou’ comigo.

Só teve duas pessoas que ‘trincaram’ comigo: minha mãe e ela. Só não trincaram quando eu fui pro interior, mas quando eu estava em São Paulo elas trincavam, mesmo. Não levavam as coisas, porque eu me virava. Eu sempre falei pra elas: “Eu me viro. Pelo menos venha me ver.” Então, trincavam. Quando não ia minha mãe, ia ela.

Aí eu fui pra colônia. Já estava com isso na cabeça. Eu via aquele muro, eu tinha vontade de fugir. Na colônia agrícola que eu estava, é muita terra. Era, não sei, acho que cinquenta ou era quinhentos alqueires. É muito grande a colônia de São José do Rio Preto; é o IPA que nós chamamos, Instituto Penal Agrícola.

Cheguei, fiquei quinze dias preso dentro do alambrado. É livre também, não é cela. É alambrado, aquelas telas grandes. Fiquei por quinze dias lá. Fui designado pra trabalhar na roça, na quebra de milho. Voltei a muitos anos atrás, quando eu tinha passeado no Mato Grosso, no Paraná, em Minas, quando eu era criança. Aprendi a carpir, a colher café, a quebrar milho, a lidar com porco, com gado. Então, pra mim foi uma escola.

A maior escola foi a escola de determinação, porque eu cheguei lá determinado a não fugir. Com três meses, meu recurso foi negado, não sei por que. O mesmo advogado de São Paulo foi lá. Era um cara muito legal comigo. Nunca mais o vi, nunca paguei nada, ele nunca pediu. Era do governo. Ele foi lá, falou: “Vou pedir outro recurso.” Só que esse demorou.

Vim pra casa por cinco vezes. Sabe o que é você vir à sua casa, ver a sua filha sem ter onde morar - até então eu não sabia que a Vilma trincava comigo, só que a mãe dela tinha posto ela pra fora de casa. Ela trabalhava à noite, deixava a menina dormindo. Quando chegava de manhã, ao invés de ir dormir ia cuidar da menina. Quando eu vi isso, isso me chocou. Mais uma vez, eu falei: “Caramba, como é que eu vou fazer?” E o impressionante, ela não gostava de mim como mulher, pra casar.  E tava junto estar, igual hoje a ideia de ficar.

Saí da colônia. Com três dias ou dois dias eu arrumei um trabalho. Comecei a trabalhar de servente de pedreiro, fui morar com ela. Só que estava bom quando eu estava lá e ela aqui porque quando a gente foi pra debaixo do mesmo teto virou um inferno. Eu trabalhava, eu procurava trabalhar, eu saía de casa [às] quatro horas, só ia chegar à meia-noite, quando ela estava dormindo. Era treta, uma atrás da outra. Briga.

Nisso eu aluguei uma casa. Já não estava com vício. Lembra que um dia eu falei: “Parei, parei com droga”? Parei mesmo. Nunca mais usei. Eu tinha acho que 21 anos, ou era 22? Tô com 36. Parei mesmo. Nunca mais usei. E ela…

Só que eu já tava com alcoolismo. Bebia pra caramba. Bebia, mas trabalhava. Fiquei com ela por três anos; nos separamos, aí acabou minha vida.

Eu trabalhava, fui desenvolvendo. De servente de pedreiro eu passei pra meio oficial. Saí daquela firma, fui trabalhar de camelô. Essa já é a terceira parte. Vi que o negócio dava dinheiro. De camelô eu me profissionalizei naquilo. Comecei a ler, a estudar, a me profissionalizar. Descobri que eu tinha um dom que veio de Deus, Deus deu, que é chegar e… Como é que se fala? Motivar as pessoas a fazer, a comprar o que eu tava vendendo, a comprar o meu produto. E fui bem sucedido.

Comecei a ganhar dinheiro. Eu me separei da Vilma, porque tava bebendo muito. Em vez de seguir a minha vida, não: comecei a beber, a beber. Conheci a Silvana, que é minha atual esposa. Isso dez, doze anos atrás. Ou mais? Acho que mais de doze anos.

Eu já estava bebendo, já não tinha onde morar. Eu a conheci, trabalhava no trem. Larguei o emprego bom, voltei a vender as coisas no trem e morar na Estação da Luz. Não tem um parque ali na Luz? Quando eu não ia pra casa eu dormia ali. Mas não era dormir uma noite. Já cheguei a dormir ali por quatro, cinco meses, direto.

 

P/1 – E como é que vocês tomavam banho, como é que fazia?

 

R – Eu gostava muito de ir naqueles banheiros que tem em estação, então eu tenho… Nesse tempo, eu vinha aqui no banheiro do Tietê, Barra Funda, e hotel também. Eu ficava mais na rua quando eu danava a beber, estava com a companheirada. Porque eu era assim, o alcoolismo é assim. Se você tomar o primeiro gole, acabou. E eu era desse jeito. Se eu tomasse o primeiro gole, acabou o Carlão, cara. Acabou. Eu queria acabar com a pinga que tinha no bar.

Era baba, porque você pegava uma garrafa de refrigerante, dessa de dois litros ou daquela pequenininha, comprava e colocava do lado. E só bebendo. Houve um momento que eu entrava com ela pra dentro do trem. Olha o perigo! Eu caí no trem por várias vezes. Teve uma das vezes que eu caí em pé assim... Não tem o vão do trem com a plataforma? Eu caí naquele buraco. O trem ficou passando, eu o vi passando; eu me encolhi. Só que tinha uns ferros na plataforma, lá no Brás. Na coisa eu acho que passava cano de eletricidade e tinha uns negócios pontudos. [Quando] eu caí eu estava tão bêbado, mas tão bêbado, que rasgou a blusa, a camiseta e as minhas costas e eu não senti. Eu subi. Aí a pessoa, quem me ajudou a subir, passou a mão assim e falou: “Você tá sangrando”; me levou pro hospital. Fiz curativo.

Uma outra vez, eu estava tão bêbado que fui vender cerveja pra um passageiro e eu não vi que ele estava na maldade comigo. Ele me deu dinheiro falso. Só que a gente pega em dinheiro toda hora, a gente sabe. No que eu peguei o dinheiro era falso. Eu joguei do outro lado da janela. Esse cara me deu um couro dentro do trem, eu bêbado. Ele quebrou meus dois braços. Foi verdade, quebrou os dois braços. E nesse tempo eu já estava com a Silvana, a minha atual esposa.

 

P/1 – Quando você conheceu a Silvana?

 

R – Quando eu conheci Silvana ela tinha doze anos. Só que eu tomei… A minha vida tomou um rumo, a dela tomou outro. E ela me ajudou, quando eu separei da Vilma, a sair da rua. Eu fiquei sem ter onde morar. E ela me ajudou. Ela não conseguiu contornar o alcoolismo, mas me ajudou.

Quando nós tivemos a nossa primeira filha, eu não me lembro como a menina nasceu. Verdade, eu não lembro, cara. E eu amo meus filhos pra caramba.

A Silvana, eu a conheci assim, ela me ajudando. E ela não gostava de mim, de homem pra mulher. Então foi aquilo. Ela começou a segurar o material, a mercadoria pra mim no trem.

Ela começou a ficar comigo, começou a contornar a minha vida, isso pra mim era ruim. Eu não gosto de ser muito contornado, não. É: “Faz isso, faz isso.” Eu não gosto, eu gosto de fazer. Acho que todo ser humano é assim. Por isso que eu me apego ao movimento, porque o movimento não é ditador. Eu acho que isso é ser ditador, eu sou contra essas coisas.

Ela começou a contornar a minha vida, só que por ela ter usado essa técnica, ela viu que deu resultado, então o nosso casamento se apegou nisso. Eu, com raiva, ia beber. Ficava quinze dias, um mês, sem aparecer em casa, uma pegada louca. E ela com criança lá. Por quê? Porque eu bebia, no outro dia eu acordava cedo sem dinheiro. Não ia pra casa, não tinha jeito. Aí me caía uma depressão fodida mesmo, uma depressão lá no buraco, e voltava a beber de novo.

Meu, pinga na rua você arruma em qualquer lugar. E eu não vou mentir, não, são todos camaradas. Todos. Não é pessoa em situação de rua que manda em pessoa em situação de rua, não. Nós brigamos, eles brigam, mas um procura ajudar o outro. Estão todos na mesma situação, mesmo bêbados. Então pinga não me faltava.

Quando eu conseguia arrumar um dinheiro, que eu estava lúcido, eu levava pra casa. Ficava em casa direto, porque a Silvana me contornava. Passaram-se… A Cauane estava com três anos, aí nasceu a Caliane, que é a minha filha do meio.

A Silvana sofreu tanto na minha mão. Não de bater, eu não sou esses caras de bater em mulher. Por isso que ela ficou comigo até hoje, porque ela é uma baiana arretada. Mas sofria por faltar as coisas. O dente caía, não tinha roupa, não tinha alimento, não tinha gás. Nós morávamos num cômodo, num barraco desse tamanho aqui, só com as telhas, umas madeiras tampando um vitrô que não tinha vidro e uma porta que só fechava por dentro. E barro na beira do rio, na favela.

 

P/1 – Mas onde isso?

 

R – Lá no Kemel, onde eu moro. E ela ficou comigo.

 

(pausa)

 

R - Quando a Caliane nasceu, a Silvana viu que não tinha saída. A menina nasceu, não tinha roupa. E ela sempre me cobrando, na gravidez. Porque a mãe dela… Até então, [eu] era alcoólatra. A mãe dela também não queria, radicalzona. Hoje mudou muito. Por ver a minha mudança, a minha caminhada, mudou muito, então a mãe dela pegou e não dava nada. Pra você ter uma ideia, isso eu vou falar lá na frente, que vai ser na caminhada da Caliane.

A Silvana conheceu um homem que se chama Dias, José Dias, [um] marqueteiro furado. Ele trabalhava numa empresa que se chama Clean Water, de purificador de água, e levou a Silvana. A Silvana foi. No primeiro dia ela fechou quatro vendas, ansiedade de ver. E cada venda que ela fechava, nessa época, era R$ 128,00 que ela ganhava. Só que era em cheque ________. Esse cara pegou todos os cheques, levou e trocou pra ela. Então, [a] cada cheque de R$ 128,00 ele dava R$ 50,00, ficava com a metade do dinheiro.

Mas ali ela me levou... Eu não tinha sapato, não tinha roupa. Depois ela pegou uma calça velha, me levou numa loja e falou: “Compra roupa. Eu quero que você trabalhe comigo.” E aquilo me comoveu. Ela me deu todo o dinheiro na mão. Comprei as roupas, ela foi comigo comprar uma roupa. Aí ela foi trabalhar e falou: “Vai pra casa, ficar com as crianças. Compra um presente pras crianças.”

Eu comprei, tão canalha que eu era… Comprei três salgadinhos, um pra Cauane, um pra Caliane pequenininha e um salgadinho pra sobrinha dela. Catei o resto do dinheiro e bebi todinho. Saiu uma briga em casa, rapaz, uma briga. Ressaca no outro dia, duro.

Fui lá, comprei um litro de vinho fiado, tomei. Fiquei bebendo uns quinze, vinte dias, e ela trabalhando. Não tinha com quem deixar meus filhos, porque se deixasse comigo eu levava pro bar. E eu a segurava também com as crianças. “Se você for, você tem que deixar as crianças.” Homem ameaçador, ditador, canalha.

Nisso ela ia trabalhar, eu ficava com as crianças e a mãe dela de olho. Não tinha o que comer. O que me motivou a dar um breque e a cair mergulhando nas vendas novamente foi que eu vi a minha sogra… A Silvana saía de manhã e eu vi a minha sogra falar: “O que tem aqui eu vou dar para os meus. Se sobrar, eu dou pras suas meninas.” E ela fazia isso mesmo. Aquilo foi me comovendo.

Aí eu comecei a trabalhar com vendas. Consegui dar um breque no alcoolismo. Fui crescendo dentro da empresa, nisso ela ficou em casa. Falei: “Agora você fica. Pode deixar o barco que eu toco.” Só que eu fechava vendas, trocava cheques, dava R$ 10,00 pra ela, o resto eu bebia. Mas dava pra ela ir se virando.

Aí a coisa foi… Reverteu a situação. Em vez dela, de nós crescermos, o negócio foi decaindo cada vez mais. Comecei a parar de vender. Comecei a parar de motivar as pessoas a venderem. Porque lá é assim, você monta uma equipe e sobre tudo o que essa equipe vender eu ganho. Eu ensinava eles a venderem, ensinava as técnicas. Eu tinha uma técnica que eu chamo soco de café. Sorria, concorde, canalize e feche. Soco de café. Sorria, concorde. Você está discordando que o meu produto não é bom, eu estou concordando com você. Desvie o assunto, canaliza e fecha a venda: eu ensinava as pessoas a fazer isso. Eu comecei a crescer, mas bebendo, então eu perdi o respeito com as pessoas.

O dono dessa empresa, ele gostava muito de mim. Ele se chama Arnaldo, gosto muito desse cara. Nunca mais o vi, mas gosto muito. Foi outra perda que eu tive na minha vida por causa do alcoolismo. Ele um dia me falou: “Olha, amizade é uma coisa, trabalho é outra e responsabilidade é outra. Você não tem nem trabalho e nem responsabilidade comigo. A partir de hoje, você não faz parte mais da minha empresa. Qualquer hora que você quiser ir à minha casa… Menos pra pedir alguma coisa.” Porque eles têm muito disso, essas pessoas que têm muito dinheiro. “Se for pra pedir trabalho e eu tiver condições, eu dou trabalho. Alimento não.” Então eu perdi, ali que eu conheci quem era a pessoa. E me vi porque eu também fazia isso, mesmo bebendo.

Eu era meio… Eu passava três, quatro dias na rua com vendas dentro da bolsa, sem responsabilidade mesmo. Isso prejudicava o nome da empresa, porque eu não dava entrada no pedido pra eles levarem o produto. E lá eles cancelavam a venda. Cancelavam a venda, cancelou o cheque, cancelou a minha comissão. E eu bebendo com o dinheiro que estava ali. Houve vezes de eu vender à vista e usar todo o dinheiro; a pessoa cancelar a venda. E eles caíam matando em cima de mim, a empresa pagar e depois não ter como descontar.

Foram ‘n’ coisas que me tiraram dessa empresa. Isso foi em 2000. Quando eu saí dessa empresa, eu fiquei quase um mês sem aparecer em casa. Pra mim, minha família estava comendo, só que eles estavam… Eu já os tinha deixado sem gás, sem nada.

Fiquei vários dias fora; quando cheguei em casa, a Silvana estava na casa da mãe dela. Fui até em casa. Eu fui lá na minha sogra e eu vi, a minha sogra falou mesmo: “Eu só dou o resto pra vocês”, falou pros meus filhos, “porque o seu pai não presta.”

Já tinha nascido o outro, o Cauã. A minha filha mais velha, a Cauani, não falava nada. Sabe criança quando vai se deprimindo pra dentro, vai se matando? A Caliani não. “Ô pai, você prometeu que não ia beber e bebeu de novo.”

O Cauã tinha medo de mim, medo mesmo. Não por eu ser violento, eu nunca bati. Eu não gosto de bater nos meus filhos, não gosto de erguer a mão pra ninguém. Eu acho que violência não leva a nada. Mas o jeito da pessoa. Você vê o seu colega da escola, do pré - eles estudavam no pré da prefeitura - a Cauane levar um caderno, e um filho seu levando uma sacolinha de mercado. Você vê o seu primo comendo fruta e o seu pai não dando e os parentes da sua mãe negando, e a sua mãe chorando. Você se revolta. Eu vi essas coisas.

Voltava a beber, em vez de parar. Eu ia beber, cara. Aí a Silvana decidiu, falou: “Eu vou me separar.” Foi a outra perda que eu tive.

Nisso, a minha mãe veio de Minas. Tentou me ajudar a parar de beber, não conseguiu. Até então, minha mãe… Eram muitas idas e vindas. E cada ida da minha mãe era uma perda que eu sentia. Eu era muito apegado à minha mãe. Eu acho que isso me levou, também, muito pro alcoolismo. Hoje não, hoje a gente tá legal, mas isso me levou muito pro alcoolismo.

Um dia, eu acordei de manhã [e] a Caliane falou assim: “Pai, eu tô com fome.” Eu acordei numa ressaca. Já não tinha luz em casa, tinham cortado. Tinha feito gambiarra, eles vieram e levaram o relógio. Os próprios vizinhos arrancaram o fio, porque eu era canalha com a minha família. A água cortaram. Eu moro numa favela, cortaram a água. E eu não podia fazer esquema, porque é uma viela e é de concreto. Se eu quebrasse, eu tinha que tampar e eu não tinha dinheiro pra comprar cimento.

Acordei e fui à casa da vizinha pedir água; ela me deu com a cara bem feia. A Caliane falou: “Pai, eu to com fome.” Eu falei: “Eu não tenho dinheiro, Caliane.” Isso em meados de 99 pra 2000. Aí ela falou: “Pra beber o senhor tem, né?”

Falei assim: “E agora?” Pensei comigo: “Como é que eu vou fazer?” Eu vi um fogão velho no quintal, bem velho, e tinha um carrinho de mão. Voltei lá atrás, voltei quando eu pegava ferro velho. Eu catei aquilo, levei no ferro velho, catei as crianças, coloquei junto comigo. A Caliane era bem pequenininha. Coloquei dentro do carrinho de mão o fogão. Amarrei direitinho pra não machucá-la, fui pra lá. Pesei como se fosse hoje, R$ 3,00. Catei R$ 1,00, comprei pão. Catei outro real, comprei leite. Catei R$ 1,00, comprei maço de cigarro do Paraguai, que era R$ 0,50 e os outros R$ 0,50 eu tomei uma pinga.

Ali desandou, cara. De novo. Mas ali eu descobri que eu poderia trabalhar e beber ao mesmo tempo, e não ver os meus filhos sofrerem. Eu já estava em casa, separado da Silvana. Ela dormia na cama, eu no chão. Quando eu dormia na cama ela ia pra caminha com as meninas ou ia pro chão. E nisso foi ficando um bom tempo. E o Cauã pequenininho.

Ela me pegou catando ferro velho. Eu pegava de manhã, chegava à tarde, levava arroz, um quilo. E ela pedia dinheiro e eu não tinha. Aí eu via Danone, levava um, dois pros meus filhos. Entre um Danone e uma garrafa de pinga, eu comprava pinga. É canalhão mesmo, alcoólatra mesmo. E pegava, isso foi indo.

Quando foi… A Copa foi em 2002, não foi? Em 2002 eu estava num auge, estava tomando dois litros de 51 por dia. Eu respirava, era álcool. E o pior, eu não inchava. Estava magro e puxando carroça.

Nisso ela se injuriou e foi embora, ali ela foi de vez. No dia que o Brasil ganhou o penta, ela veio trazer os meus filhos. Eu vi o Cauã entrando, engatinhando no barraco onde nós morávamos. Subiu pra cima da cama e virou pro canto, me olhou, virou pro canto e se encolheu. A Caliane sentou no chão, encolhida, e a Cauane abaixou a cabeça.

Vocês vão ver meus filhos. A Cauane era muito quieta, muito pra dentro. Hoje ela é bem desinibida, solta, já uma moçona. Eu olhei assim e falei: “Porque que as crianças estão assim?” A Silvana, com ignorância: “Tô com fome. Discuti lá na minha mãe.” Aí eu falei pra ela: “Me ajuda. Me ajuda a parar de beber.” Ela falou: “Mais?” Eu falei: “Me ajuda.”

Nisso começou o jogo, de manhã bem cedo. Eu assisti ao jogo. Aquela vontade de beber, não fui. [Quando] terminou o jogo, ela falou: “Eu te ajudo, só que você tem que fazer um tratamento.”

Foi onde eu conheci o primeiro movimento organizado - eu chamo de movimento organizado -, os Alcoólicos Anônimos. Foi ali que eu passei novamente, porque não acreditava mais em nada, em ninguém. Eu só tinha perdas. Hoje eu tenho perdas também, mas eu as encaro de frente. Eu não acreditava em amor, não acreditava em nada. Mas sempre pedi a Deus: “Me ajude, me mostre alguém que possa me fazer sair dessa vida.”

A pior coisa que tem nesse mundo é você ver um filho seu passar fome, gente. É a pior coisa que tem mesmo, você olhar uma pessoa e julgar, falar assim: “É bêbado.” Mas será que quando ele está são ele não quer parar, gente? Será que quando ele olha o pé dele inchado, ele sujo, sem tomar banho, igual eu fiquei - quinze dias sem tomar banho -, será que ele não quer parar?

Foi ali que eu vi isso. Ela me levou. Eu dei o meu voto; eu tenho um costume que se eu der a minha palavra eu gosto de cumprir. Nem tudo a gente consegue, mas eu dei o meu voto ali.

Eu ouvi vários testemunhos. Ouvi o testemunho de um homem que me comoveu muito. Ele já tinha parado de beber. Pra você ver como eu falo que o alcoolismo é a pior droga. Esse homem, ele já tinha parado de beber há 25 anos e ele tremia.

Eu vi uma mulher que já tinha parado de beber há vinte anos; conversando com você, você achava que ela estava bêbada. E quem a conheceu antes dela ser alcoólatra, ela era uma excelente mulher. Ela perdeu tudo. No dia que eu a conheci, ela estava vindo do velório, do enterro do filho dela, que morreu bêbado num bar. Isso me comoveu. Foi choque assim, foi pá, pá, de todos os lados.

Aí eu dei o meu voto. Não podia falar o testemunho. Porque no AA é assim, nos Alcoólicos Anônimos. Você senta, cada um fala um pouco de si. E é um barato tão legal, cara, que você começa a lembrar mesmo. Aquilo te lava por dentro. Você vai colocando pra fora tudo aquilo e vão entrando coisas novas, parece que vai fazendo uma lavagem dentro de você.

Foi o primeiro mês, o segundo mês. Na primeira semana que eu parei de beber eu dei o voto. Até então, eu vendia material no ferro velho e o dono do ferro velho me dava pinga. Isso foi num domingo. Eu dei o voto. Na segunda, quando eu cheguei, ele falou: “A sua tá lá guardada.” Fui lá pegar a carroça, o carrinho. Eu falei: “Não quero.” Aí deu aquele ‘tuim’. Sabe quando você sente o gosto da pinga na boca, assim? Aí eu: “Não quero, não quero.” Ele falou: “Ó, tá doente.” Eu falei: “Não quero.”

Saí pra rua, passei em frente ao mercado que eu comprava. Quando eu não comprava no mercado eu comprava fiado, uma garrafa cheia no bar. Passei lá, não comprei. E tinha dinheirinho. Tinha acho que três reais no bolso. Passei no outro, não comprei. Venci aquele dia. Falei: “Pô, meu Deus. Eu consegui, cara.”

Cheguei em casa. A Silvana achou que eu ia chegar bêbado. Eu trouxe, eu lembro o que eu levei pros meus filhos: eu levei bolacha, Danone, macarrão pra Silvana fazer - a Cauane tinha me pedido macarrão de manhã. A massa de tomate e um frango. Todo o dinheiro. Comprei o meu cigarro e fui pra casa, aí dei pros meus filhos. Eu vi a alegria, só que a Silvana ainda [estava] desconfiada.

Um dia, dois dias, três dias, quatro, cinco. No sétimo dia eu voltei no AA. Ouvi novamente os mesmos testemunhos de outras pessoas que perderam como eu perdi. Perderam a família, perderam lar, perderam tudo. Porque eu perdi muito, gente. Dos meus vinte e poucos anos até os trinta e poucos eu perdi muito. Foram nove anos de alcoolismo brabo, fora os que eu tinha bebido pra trás. Eu bebi fincado nove anos, eu não vi minha vida. Eu não vi.

Hoje eu sou doente. Tenho um problema aqui no baço, tenho problema de coluna, sinto uma dor de cabeça que quando ataca eu não aguento. Só tem uma coisa que me motiva quando me dá dor de cabeça, é quando eu tô na pegada do movimento dos catadores - eu esqueço, eu me desligo da tomada, então nem a dor de cabeça eu sinto. Mas quando eu tô assim, ela vem, ela me ataca. Tudo consequência do alcoolismo. Por isso que eu falo que é a pior droga.

Aí foi a outra semana. Eu consegui vencer. Passaram-se quinze dias, eu já podia falar. Comecei a falar, a falar. Com três meses eu peguei a minha primeira medalha: três meses sem alcoolismo. Ali a Silvana voltou comigo. Ali eu vi que ela me amava, que o que ela estava fazendo comigo, se distanciando, era amor, cara.

Foi onde eu conheci - eu já catava papelão -, conheci o movimento organizado dos catadores. Isso [foi] em 2002. Em 2002, eu conheci a cooperativa que eu trabalho hoje, que se chama Recifran [Serviço Franciscano de Apoio a Reciclagem]. É um projeto, nós estamos formando a associação agora, estamos estudando agora o nome. Mas eu faço parte de um projeto, que é o Recifran.

Eu conheci uma mulher que se chama Dona Júlia, que trabalha lá dentro, ela e o marido dela, que é o Seu José. Quando eu era alcoólatra eles passavam por mim na rua, eu fingia que não via. Mas também sentiam dó de mim, por ver meus filhos naquela situação. Aí eles conversaram na Recifran com o coordenador e assistente social e me chamaram lá. Eu fui lá e abri o jogo; eles fizeram uma pá de perguntas. Falei: “Eu era isso, isso e isso. Quero mudar e quero ajuda.” Era alcoólatra por três meses sem beber. “Ah, mas vai ser difícil porque a maioria bebe.” Eu falei pra eles: “Eu não tô falando deles, eu tô falando de mim. E eu quero ajuda. Se vocês quiserem me ajudar...”

Ela me mandou esperar lá fora. Os catadores que já estavam organizados se organizaram entre eles. Eu pegava material lá no bairro onde eu morava; eu não tinha carroça, não tinha nada. Arrumaram uma carroça pra mim naquele momento. Ali eu falei: “Caramba, cara. Os caras acreditaram em mim sem me conhecer.”

Eu, até então, catava papelão, bebia e também criticava: “Ah, a gente é catador de lixo, cara.” Eu também criticava.

Eles me arrumaram uma carroça. O Seu José me levou. Tem uma diferença pegar material no bairro e aqui no centro; ele levou e me mostrou como que é que se pega o material aqui. Aí me levou lá, me ensinou o trabalho.

Nisso, no entender da assistente social, a Dona Vera, e no entender do Seu Natan, eu estava lá esperando. Quando caiu a ficha pra eles eu já estava lá com o material. Eles viram que eu queria trabalhar.

Foi numa quinta, na sexta eu vim. Quando foi no sábado tinha que fazer um mutirão, porque aqueles catadores já tinham uma história - eles estavam num lugar e fizeram aquele lugar de lixão. Um lugar que eu também participei com drogas e tudo, bebida.  Fizeram esse lugar de lixão e me cataram pra ir limpar esse lugar. Teve um lugar lá, uma cozinha, que nós tiramos mais ou menos meio metro de lixo. Você imagina catador vivendo nesse lugar, aqui no centro de São Paulo. Nós tiramos. E catador morava ali. Esses catadores que me ajudaram.

 

P/1 – No meio do lixo?

 

R – No meio do lixo. Porque aí já é a história do Recifran, que também é a minha história, a história desses catadores, que também têm a mesma caminhada minha, o Recifran enquanto Província Franciscana.

O Recifran tinha os catadores que ficavam em frente à praça, ali no Largo São Francisco. A prefeitura queria tirar esses catadores e a Província também. Aí a prefeitura falou assim: “Nós vamos tirar vocês daqui e levar vocês pra um lugar.” Pegaram a Província Franciscana, a Ação Local de São Francisco. Cataram esses catadores e levaram lá pra baixo, só que a prefeitura colocou educadores que não têm nada a ver com catador. Eles largaram os catadores lá. Aí você imagina o que virou. Catador sem instrução e organização, catador sem saber o que é organizado. E as pessoas que são aparistas, os atravessadores, os depositários, viram um campo aberto pra invadir aquilo. Não só eles - traficantes, alcoólatras invadiram aquilo e dominaram.

As pessoas que moravam na periferia, como eu, levaram os seus filhos pra lá. Ficou mais fácil, cara. Onde eu trabalho meu filho está perto de mim. Eu não preciso gastar dinheiro pra ir pra casa. Passaram a morar ali, no meio do lixo.

Passaram-se alguns anos ou um ano. A Província veio, contratou dois educadores. Um pedagogo ou sociólogo, não sei a profissão dele, e uma assistente social. Pegou esses dois e eles vieram com uma proposta pra companheirada. Quem for brasileiro saia daqui agora, nos acompanhe. Catou essa companheirada e levou pra debaixo do viaduto. Passou-se uma semana, eu cheguei com essa mudança, aí nós tivemos que ir lá limpar.

Ali começou a minha história novamente dentro de uma comunidade. Nós construímos uma comunidade. Foi ali que eu… Até então eu só tinha perdas. Eu tive mais um ganho na vida. Ganhei amigos, que começaram a me trabalhar num processo de coletivo. Se você perdeu até então sozinho, vamos ver se você ganha no grupo? Porque eu tô ganhando, vamos ver se você consegue ganhar isso num grupo?

Passou-se um mês, dois meses. Eu tava desistindo. No dia eu não tinha falado com ninguém, só eu e Deus, porque Deus sabe o que nós pensamos. Sabia disso. Eu falei: “Hoje eu vou voltar a beber, porque eu não tô ganhando dinheiro. Eu vi os meus filhos voltarem a sofrer.” Isso por dois, três meses já na Recifran. Aí eu falei: “Vou voltar a beber, cara.” Aí um companheiro lá de dentro falou: “Você não vai beber, hein?” Como ele sabia? “Você não vai beber. O que está acontecendo com você?” Eu falei: “Ah, eu não arrumo dinheiro, cara. Não arrumo ponto.”

 

P/1 - O que é o ponto?

 

R – É ponto de coleta. Você coletar material, porque a gente depende do material. Isso foi num dia, aí eu subi. Quando foi à noite esse mesmo companheiro falou: “Dona Vera tá te chamando lá embaixo, pra você chegar amanhã bem cedo: sete horas, sete e meia. Ela disse que tem um ponto pra você.”

Essa Dona Vera me indicou uma pessoa que também gosto muito, que foi mais uma [pessoa] ganha na minha vida, que é a Dona Rosana. Ela era uma assistente social dentro do Grupo Ikezaki. Ela tem acesso direto com o presidente, que é o dono da Ikezaki, o Seu Ikezaki. Ela me levou num quarto, falou assim: “Olha, esse material é todo seu.” Tudo bem, era material que custava, na época, quatro centavos o quilo. Só que eu levei em torno de… Mais ou menos, uns dois mil quilos. E ela deixou uma porta aberta pra mim. Ela falou assim: “Você me levou num outro local, que hoje nós coletamos material lá.” Ela me mostrou em torno de mil quilos de papelão. Falou: “Esse material vai ser seu, só vai depender de você.” E fechou a porta. Japonês, né? Subiu e eu fui embora.

Nisso eu comecei a conversar, persistir, a conversar com ela. Ela me levou num acesso direto com esse homem. Eu expliquei a minha história, de onde eu estava vindo. Expliquei a história da Recifran. Expliquei que a Recifran é um projeto de resgate de pessoas, de resgate de vida, de busca de cidadania. E é um projeto que trabalha com pessoas em situação de rua e que sobrevivem da rua, que é o caso do catador.

Expliquei tudo isso pra ele e ele fez duas perguntas pra mim. A primeira: “O que você espera do projeto e o que você quer da sua vida?” Eu falei: “Eu espero que o projeto não só ajude a mim, como a várias pessoas. E eu espero sair dessa merda de situação que eu estou. E o único jeito é organizado, cara, é no coletivo.” Falei desse jeito.

Voltei pra Recifran. Passaram-se alguns dias, eu inventei de passar lá. A Dona Rosana falou: “Você pode tirar material uma vez por semana, mas o material que tiver aqui uma vez você tem que levar tudo.” Ninguém sabia que tinha um funcionário deles que estava vendendo material. Então, por eu ser catador, ele não sabia. Ele achou que eu não conversava com o pessoal, que aquilo foi doado mesmo. E [quando] eu chegava lá ele falava assim: “Pega quatro caixas.” Você imagina no meio de mil quilos você pegar quatro caixas. Quatro caixas. Se eu pegasse mais ele xingava.

Um dia eu falei pra ele: “Você tá vendendo, não tá?” Ele falou: “Tô.” Eu falei: “Vamos fazer um bem bolado, cara. Eu tô precisando do material, tenho filhos pra criar. Eu compro de você. Se eu levar esse caso pra Dona Rosana, você vai ser mandado embora.”

Fiquei entre a cruz e a espada: se eu levasse o caso, eu ia ferrar com ele; se eu ficasse lá, eu estava ferrando com a minha família, então eu arrumei uma técnica. Chamei a Dona Vera e chamei a Dona Rosana. Joguei a batata na mão delas. Falei: “O material tá aí, o cara não me deixou levar.” Aí ela o chamou, ela desconfiou. A Dona Vera deve ter conversado com ela pra não mandá-lo embora. Ela o chamou e falou: “A partir de hoje, todo esse material é do Carlão. Todo.”

Você sabe o que isso representa? Isso representou… Até então eu morava num cômodo; isso representou uma mudança na minha vida financeiramente. Representou de você ganhar cem, duzentos reais por mês [e] você [passar a] ganhar quinhentos reais. Um exemplo assim.

Só que eu já estava com aquele espírito do coletivo, eu já estava com aquele espírito de querer ajudar alguém. Eu sempre quis ajudar. Chamei o Seu José. Falei: “Se mil vai me ajudar, quinhentos também me ajuda.” Eu o chamei e falei pra ele: “Esse ponto é nosso agora. Vamos trabalhar no coletivo, eu e o senhor. A gente vem, coleta e vem, repassa.” Não é vender, é repassar pra cooperativa, pra cooperativa agregar valor e passar o valor pra nós. Juntos, eu e _______. Ele falou: “Beleza.” Ajudei mais uma pessoa, então. Ela me ajudou e eu ajudei mais um, nisso nós trabalhamos juntos.

Estamos até hoje trabalhando juntos, no coletivo, no grupo. Formamos um grupo. E a Recifran nos ensinou isso. Até então, eu não acreditava em nada de religião. Então a Província Franciscana fez isso conosco. Ela pegou o catador, pôs na mão de educadores e falou: “Trabalha.” Fizeram um projeto, que envolve o catador, trabalho nesse catador.

Isso é o que eu sou hoje. Eu sou um fruto da Província Franciscana, do Recifran e do Movimento Nacional dos Catadores. É o que eu sou. Com essas conquistas que eu tive, eu tenho, consegui morar num cômodo e construir uma casa de dois cômodos pra minha família. Até então, eu dormia numa cama que eu mesmo tinha feito. Tinha pegado uns pedaços de madeira que eu achei quando pegava sacaria, pegava material onde eu moro. Achei duas portas velhas, fiz uma cama de casal. Achei um colchão no lixo, dormia naquele colchão ruim com a minha esposa.

Hoje eu tenho uma casa digna pros meus filhos. Hoje eu sento na mesa com os meus filhos e converso. Hoje não só os meus filhos, mas a minha filha Juliana, que está namorando, vai casar, que tem dezessete anos; se Deus quiser, daqui a dois anos, um ano ela casa. Não só esses três filhos, mas a minha filha, a minha esposa, a minha sogra, toda a minha família passou a me respeitar.

Hoje eu sento na mesa com os companheiros, eu sempre falo: “Se você bebeu um copo de cerveja você é alcoólatra. Se você bebeu uma cerveja aqui e não conseguir parar você é alcoólatra.” Há pessoas que têm controle, eu não tenho. Eu sento na mesa, a companheirada toma cinquenta. Eu não bebo. Eu não bebo mesmo, [me]  divirto porque eu tô ali. O que eu bebia até então, pra ficar alegre, hoje eu fico alegre por estar com os meus companheiros. Hoje eu fico alegre por ver minha família feliz.

Eu não vou falar que eu não passo dificuldades, passo várias. Hoje eu passo mais dificuldades financeiras - tô falando a verdade -, mesmo estando organizado. Não é que o movimento organizado não ajude, é que hoje eu sustento dez pessoas. Somos eu, a minha esposa, os meus três filhos, são cinco. Com a minha outra filha, seis. Ajudo a minha sogra, a sobrinha da minha mulher, que é órfã de pai e mãe, ajudo a minha mãe e a minha irmã. Então, são dez pessoas que saem do meu bolso. E ainda tem o meu genro de contrapeso, então a gente passa mais dificuldade hoje. Eu passo mais dificuldades com a vida do que eu passava até então e não bebo. Eu as venço, eu supero e isso eu aprendi com o grupo organizado.

Eu sabia que existia o Movimento Nacional dos Catadores e sempre quis fazer parte, mas eu sou… Eu, particularmente, penso assim: pra tudo na vida tem um momento. E o meu momento aconteceu esse ano, em 2004. Já vinha acontecendo, eu já vinha participando um pouco, mas ali. Sendo movimento, mas participando paralelo, não totalmente. Em 2004 foi-se formando; o movimento, hoje, está se organizando em nível do Estado de São Paulo. Então, o ano passado a companheirada organizou todos os municípios, todas as regionais, e agora ficou pra organizar São Paulo. Então, foi-se tirando comissões. Porque São Paulo é muito grande, a metrópole aqui de São Paulo, então foi-se dividido em regiões. São cinco regiões. Leste, oeste, norte, sul e centro. E numa dessas regiões eu fui encaixado. A companheirada votou e me tirou. Eu sou da comissão que hoje nós chamamos de Comissão Centro de Catadores. Após então eu comecei a ver o Movimento Nacional dos Catadores com um outro leque. Eu comecei a ver que ele era o mesmo segmento que é o Recifran, de inclusão de catadores, de inclusão de pessoas em situação como eu estava.

Descobri que fui incluído pelo movimento sem saber, porque a Província pegou todos os princípios de incluir pessoas no segmento do Movimento Nacional e montou um projeto que me incluiu. Nesse ano eu fui tirado da comissão. Comecei a participar da companheirada e fui me desenvolvendo, fui abrindo o meu conhecimento.

Fui saber... Eu já sabia que solidariedade não é só eu partilhar, são várias coisas. Solidariedade vai mais além do que isso. Solidariedade também não é eu aguentar você bater na minha cara. Solidariedade é eu te ajudar a entender que não é pra bater, é pra conversar. Não é pra bater, é pra construir. Vamos construir.

Fui aprendendo que o Movimento Nacional não é em nível só de São Paulo, é nacional. E o leque foi se abrindo. Ganhei vários companheiros, várias pessoas que, não sei, mas vários companheiros que a gente sente falta, que passam a ser mais do que irmãos. Porque - não sei se ficou claro nessa fita - eu, com todas as perdas que eu tive de família, eu passei a entender que eu não tinha família. A minha família era a minha mulher e os meus filhos, mas família de sangue...

Eu sempre quis ter irmão, você lembra que eu falei? Pra que um irmão? Pra você sentar e conversar com ele, desabafar. Tem uma hora que você está tão atarefado. Acho que irmão é pra isso, família é pra isso. Não é só pra pensar no seu umbigo. E eu achei esses irmãos dentro de um movimento. Tenho alguns companheiros que a gente tem mais contato, é o Roberto, o Eduardo. Quando a gente fica muito tempo junto a gente começa a sentir falta, porque nós temos os mesmos ideais, que é fazer com que… Ajudar as pessoas a não só pensar em se organizar. Tem que se organizar sim, mas que as pessoas entendam que esse segmento nosso de catador de reciclagem, ele vai mais além do que isso. E que o meu filho possa, daqui a vinte anos, falar: “O meu pai foi um catador. Eu hoje sou um catador, mas dentro de uma indústria formada. Que essa indústria, a ponta dela, foi formada por catadores que um dia ninguém deu nada [por eles].”

Nós, enquanto movimento, entendemos que esse preconceito com os catadores da origem [tem que] acabar. Nós, enquanto catadores, entendemos que outros catadores têm que ser valorizados. Não é que você está desempregado.

Hoje, nós estávamos conversando e na Europa há vários desempregados. Você tá desempregada, você é uma assistente social, por exemplo, uma repórter. Você ficou desempregado, você optou [por] ir lá buscar o material, mas que a sociedade dê valor a você também. Que não a exclua porque começou trabalhando num lixão, do lixão ela entrou numa cooperativa. Foi feito um trabalho com ela que, se nós formos analisar, é um trabalho de Deus. Você só consegue mudar o coração de uma pessoa se houver o espírito de Deus operando em você. Essa é a verdade. Essa é… Isso eu chamo [de] missão. Isso é indiferente de religião, de qualquer coisa, porque Deus existe. Então, é um trabalho que ele começa por aí. Nós, enquanto movimento, acreditamos e queremos que daqui a vinte, trinta, quarenta anos os nossos filhos e os nossos netos falem: “Eu vivo hoje de reciclagem. A reciclagem é dominada pela classe trabalhadora, que começou lá atrás. Porque o segmento tá tão forte e tão arraigado que várias indústrias estão se preparando pra, novamente, pisar…

Algumas entidades, eu conheço várias que investiram nessas pessoas. O Recifran, mesmo - se nós formos olhar como um todo, o Recifran fez um agente multiplicador de caráter, de [como ser] bom pai, bom amigo, bom marido. Eu vivo hoje com a minha mulher, nós vivemos às mil maravilhas. Cada dia que passa, cada dia que eu vou ficando mais velho, de cabeça mais branca, parece que ela gosta mais de mim. Então, você vê o sorriso dela. Isso é bom. Quem fez isso? Foi uma organização que se organizou em prol daqueles...

Eu conheço a Organização de Auxílio Fraterno, que é a que vocês entraram em contato, a OAF, que pegou a Copa Mário, que é do Carlinhos, o companheiro que vai vir amanhã aqui. A trajetória dele é imensa. Como conseguiram resgatar esse companheiro? Como conseguiram resgatar o Carlão? Com trabalho. Com trabalho com a pessoa, com trabalho social. Quando nós falamos enquanto movimento social, nós não estamos nos referindo à cesta básica, não é verdade? É muito fácil.

Outra coisa que eu aprendi com o Seu Ikezaki e com a Dona Rosana é: “Eu te ensino a pescar, agora o peixe eu não te dou, não. Então tá aqui. Você vai lá, pega o anzol,” ele falou bem assim, “cata o anzol,  você põe a minhoca e joga lá. É isso que é pescar. Então, todo dia você vai pescar.” Ele me ensinou a trabalhar, que é buscar o material. Diferente de toda semana ele me dar uma cesta básica, que eu ia me acomodar em casa.

Quando nós falamos de social, é trabalhar o resgate mesmo da pessoa. Necessitamos da cesta básica; se ela vier, é bem vinda. É mesmo, porque a companheirada precisa também. Todos nós precisamos. Mas quando nós falamos assim de resgate, é você trabalhar dentro da pessoa. E que isso tem que ficar bem claro pra todos nós, que enquanto nós não olharmos o catador - nós mesmos, sociedade civil, não olharmos o catador com o olho e coração e mente de catador, de pessoa em situação de rua, e saber o porque que o Carlão foi parar lá na Praça da Luz, no Parque da Luz, e morava lá... Por que o Carlão ficava quinze dias sem aparecer em casa? “Ah, é preguiçoso, é vagabundo.” Mal sabe ele que o Carlão quando estava só, chorava. Chorava mesmo.

Hoje eu não choro quando eu conto essas histórias. Quando eu fiz o documentário que foi pra França, eu chorei. Eu chorei porque eu lembrei da minha casa. Eu estava dentro da minha casa. O documentário foi feito dentro da minha casa, que eu construí. Na nossa casa, minha, dos meus filhos e da minha esposa. Por que eu nunca tratei, então eu não tinha onde morar.

Hoje eu não choro, mas se nós olharmos as pessoas que estão à margem da sociedade com um olho… Não tô falando [em] ir lá, porque nós não temos essa mentalidade de ir lá ficar com eles. Eu conheço pessoas que saíram de cima e foram viver com eles, pra sentir na pele. Eu acho que não é o caso, não sei. Eu acho que o caso é olhar e se colocar no lugar daquela pessoa, mas não só se colocar. É arrumar ferramentas para se trabalhar essa situação.

Eu ouvi de uma pessoa que eu admiro muito no segmento dos catadores, que é catadora de coração mesmo. É uma irmã que se chama Irmã Regina Maria. Ela é oblata. Eu ouvi dela uma vez: “Eu posso não mudar o mundo, mas eu tenho como mudar o que está em minha volta.” Eu posso não mudar toda a tecnologia do mundo, um exemplo, mas eu posso mudar o meu computador, não é? Eu troco a caixa, ponho outra. Não gostei, pinto, então eu mudo. Eu posso não mudar toda a miséria no mundo, mas eu posso pelo menos tentar, mudar a miséria que existe no lado da minha casa, na minha frente. Vou mais além: em mim mesmo. Deixar de achar que sou coitado, que sou feio. Passar a me amar, em primeiro lugar. Eu não tenho como amar você e gostar de você, dele ou de outros, sem antes eu me amar, sem antes eu me conhecer por dentro, eu saber quem eu sou e o que eu quero.

Certa vez, eu li num livro assim: “Pra você se encontrar nesse mundo você tem que saber a sua finalidade e da vida.” Hoje, você é um excelente profissional, você descobriu a finalidade da sua profissão. O que você quer com o segmento do seu estudo e da sua profissão? Ah, é divulgar um trabalho social. Descobrir movimentos populares como o nosso, movimentos sociais populares, como o Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis é descobrir o que é isso e que eu posso somar com isso. Aí você descobriu a sua finalidade. E o catador, a pessoa em situação de rua, a pessoa, mesmo que não seja catador em situação de rua, mas que hoje é um desempregado, um alcoólatra, um drogado, ele só tem como sair de tudo isso se ele descobrir a finalidade. E sozinho ele não consegue.

Eu já fui em várias palestras, em várias reuniões - nós chamamos de reuniões, de encontros de catadores. Os catadores do lado de lá estão cansados, eu tô falando de catador mesmo. Estão cansados de ouvir muito gregregrê de pessoas que estão cheias de diplomas. Quando chega um catador falando que viveu aquilo, que é aquilo, e que eu puxo uma carroça aqui no centro da cidade pra sustentar os meus filhos, e que eu saio daqui e vou pra Minas, pro Rio, pra algum lugar conversar com catadores de igual pra igual, eles acreditam. Então a solução tá na nossa mão. Porém nós, enquanto catadores, sabemos muito bem disso. Sozinhos nós não vamos conseguir, nós queremos parceria pra isso. Parceria, ser parceiro. E sermos olhados como iguais.

Eu tenho o terceiro ano primário, vou voltar a estudar esse ano. Não sei mexer com computador, não sei nem mandar um e-mail pra você. Se eu for mandar um e-mail eu tenho que pedir pra alguém mandar. Nem um computador eu tenho, mas eu vou ser olhado de igual pra igual. Porque vai unir, do lado do apoio, que o apoio venha com experiências e com estudos, pra unir a experiência que o catador tem de chegar e consertar essas coisas. Isso nós acreditamos. Nós acreditamos que tudo pode mudar, tudo vai mudar. É difícil. Não é fácil quando você lembra que hoje existem várias pessoas que estão em situações piores do que eu estava, e que nesse exato momento, agora, tem algum pai e uma mãe chorando porque quer sair do alcoolismo, porque quer uma alternativa na vida. E eu vou mais além: nesse exato momento, tem alguma mãe chorando porque está com os filhos dentro de um lixão nesse nosso Brasil, e o atravessador que tá comprando o material dela tá falando bem assim pra ela: “Era dez. Vou abaixar o preço, porque caiu o material.” Mal sabe ela que o material tá aumentando. E ela começa a chorar porque estava fazendo um cálculo: “Eu tô com cem quilos de papelão, custa dar dez reais. Eu vou comprar... Ah, não. Cem quilos de papelão agora são cinco reais. Como eu vou sustentar dez crianças?”

 

P/1 – Carlão, que instrumentos que vocês usam no movimento pra fazer, trazer essas pessoas assim? Vocês fazem encontros, reuniões? Explica um pouco pra gente essa dinâmica.

 

R – Hoje, a gente começa pelos encontros. E a própria divulgação do movimento, ele está se expandindo. Alguma cooperativa organizada que quer fazer parte do movimento… O movimento é o quê? O Movimento Nacional de Catadores são todos os catadores em movimento. Só que o movimento tem princípios. Quais são os princípios do movimento? Que façam parte deste movimento cooperativas, associações e grupos em organização que são de catadores. Por que? Porque o movimento foi formado por catadores e para os catadores, então não tem lógica uma indústria fazer parte do movimento. Vai melar tudo.

Esse movimento foi fundado, foi reconhecido em 2002, 2000, ele é um processo longo. De 90 até 2000 foi se construindo. Quando ele foi fundado, foi divulgado no Brasil todo. No Brasil se tirou representantes de dezessete estados - ou 26 estados, eu não tenho certeza agora. E esses representantes tiveram a incumbência de começar a alavancar, porque nós temos hoje as entidades que nos apoiam. Eu citei o Recifran, que é a Província Franciscana, tem o AFI, temos várias pelo Brasil. Temos cooperativas também. [Em] São Paulo nós temos uma forte, que é a COOPAMARE [Cooperativa de Catadores de Papel, Papelão, Aparas e Materiais Reaproveitáveis], que é do companheiro que vai vir aqui, temos a CRUMA [Cooperativa de Reciclagem Unidos pelo Meio Ambiente], que é do companheiro Roberto, então isso vai divulgando. [Em] algum encontro os catadores vão lá, falam. As outras pessoas que estão apoiando os catadores nos convidam, aí nós vamos e explicamos o que é o movimento, as diretrizes do movimento e o que o movimento quer alcançar; onde o movimento tem que chegar, o que o movimento tem que fazer para chegar lá e alcançar também. Nós explicamos tudo isso e os convidamos pra fazer parte. É onde as pessoas começam a fazer parte. Vai um divulgando pro outro.

Nós, hoje, enquanto movimento, temos capacitação dada para as lideranças do movimento, como teve uma quinze dias atrás. Temos os encontros do movimento. Estamos planejando já, estamos estudando as formas para fazer um encontro estadual aqui de São Paulo, que estava previsto para fevereiro. Se não me engano está pra março ou abril, [por] falta de recursos. Temos também os encontros nacionais e essas pegadas. Nessas pegadas, ali na Baixada do Glicério vai ter uma pegada igual agora no Rio Grande do Sul e lá [vai ter] o fórum, o Encontro Latino dos Catadores. E vai ter essa pegada: convido alguma cooperativa pra dar informação, então você vai trazendo as pessoas. E aquelas lideranças que vão, elas têm a função de levar pra dentro da sua base, senão não é liderança, foram lá pra passear. Estão brincando, eu vou deixar pra brincar quando estiver bem velhinho. Ele vai lá, leva aquilo pra base, e é um passando pro outro. Se nós não fizermos assim, as indústrias de reciclagem também estão caminhando.

Temos as entidades que divulgam via internet. Temos também o… Hoje eu vejo que nós temos apoio, não sei se pra todos os companheiros. Eu estou falando a minha forma de pensar. Hoje, nós temos apoio também dos governos federais, estaduais e municipais. Queira ou não queiram, eles têm que divulgar. Divulgou catador, divulgou categoria. Divulgou categoria, divulgou o movimento. E nós já somos reconhecidos também.

Há dois anos atrás foi feito uma pesquisa sobre a profissão de catador. O Ministério do Trabalho contratou uma entidade, essa entidade fez uma pesquisa e nos enquadrou dentro da CBO - a CBO tem duas siglas, Código Brasileiro de Ocupação ou Classificação Brasileira de Ocupação. Dentro da CBO nós somos reconhecidos como catadores. Não é nem reciclador, nem papeleiro, nem _______. É catador. Só que dentro da função catador tem vários segmentos de trabalho. Tem o carroceiro, que sou eu. Tem o prensista, dentro de uma cooperativa precisa de um prensista. Tem o triador, que é aquele que separa o material. Tem o pesador e ‘n’ funções. Então, é um documento nosso que nós temos enquanto movimento, que é um documento importante, se chama CBO. Nós já somos reconhecidos, isso foi se difundindo também, foram se abrindo os leques.

Quem não sabe hoje, passa alguém: “E aí?” O cara que ta deitado lá, que não sabe: “E aí, papeleiro?” “Não, eu sou catador. Por quê?” E vai indo. Se ele faz parte de um movimento organizado, ele vai divulgando aquilo. Também estamos… Nós temos uma carta de Brasília; essa carta, quando foi formada, quando teve aquela reunião em Brasília, eu não fazia parte do movimento. Eles levaram a carta que se chama Carta de Brasília: levaram até o ministério, até o senado, e o presidente do senado assinou. Se eu não me engano, é essa a história. Ele assinou lá em Brasília, se chama Carta de Brasília. Fala dos princípios do movimento, o que o movimento quer.

Em 2003, em janeiro, teve um encontro em Caxias e nós também formalizamos uma carta, que se chama Carta de Caxias. É mais um documento, nós estamos nos resguardando. O maior resguardo nosso é que hoje somos reconhecidos como categoria. Estamos na luta por um reconhecimento; se nós formos parar… Nós, enquanto sociedade, pararmos pra pensar, esse reconhecimento já deveria ter  vindo. O reconhecimento é sermos remunerados pelo nosso trabalho. Nós, enquanto categoria de catadores, nós limpamos a cidade, nós economizamos recursos naturais. Você tá deixando de mandar mil toneladas de papel, você economizou mil, tantas árvores. Plástico, você economizou petróleo. Deixou de vir de fora pra dentro pra mandar pra fora. Vidro, você economizou com a bauxita, que vem o alumínio também, que é bauxita. Ferro, você economizou minério e assim por diante. Então, você tá ajudando o meio ambiente, ajudando a sociedade em economizar energia, águas, recursos naturais. E também você tá ajudando o poder público, porque ele está economizando um dinheiro que ia pagar pras empreiteiras que fazem coleta, que ganham por toneladas coletadas.

Por que não estudarmos, sentarmos com o movimento e discutirmos soluções para haver uma remuneração do catador? Qual o tipo de remuneração? Será que é investir nas bases dos catadores? Quando nós falamos em investir, não é colocar lá uma prensa e amanhã mudar o governo e ir lá tirar. É doar essa prensa pro catador, ser do catador. Um caminhão... Isso é uma hipótese, não tô falando que pode ser isso. Remunerar por materiais coletados. É o Governo Federal sentar e pensar: “Vamos mudar essa lei de resíduos sólidos.”

O ministério está tramitando aí no país, no município, no estado, no governo federal mesmo. [Precisamos] mudar isso com a participação do catador, que o catador esteja presente. Porque ele é a ponta; nós, catadores, somos a ponta do iceberg da reciclagem. Pela nossa mão… O dono de uma indústria não vem pegar no lixo, o catador tem coragem de pegar. O dono da indústria não vem puxar uma carroça, o catador vai. O dono da indústria não entra dentro de um lixão pra coletar o lixo. Ele entra pra comprar do catador, e ainda com salto alto. Às vezes nem do carro sai, com nojo dos urubus. O dono do lixão, o dono da indústria não vê o seu filho morrer de fome dentro de um lixão e ser enterrado como indigente. O catador é a ponta disso tudo. Então, custa nós sentarmos e procurarmos ver, com esses cinquenta anos, o que o Brasil fez? O que o catador fez pelo país? O catador é o real ator dessa situação. E isso tudo nós, enquanto catadores, descobrimos por organizações, pela UAF, pelo SEFRAS [Associação Franciscana de Solidariedade], que é a Província Franciscana que nos levou até então. Porque várias, cada um ajuda uma no seu segmento. Eu conheço várias. Não lembro agora, só essas duas, que são as mais próximas, [nas quais] que estamos ali, mas que investiram no catador, que investiram na pessoa em situação de rua. Eles acreditaram. Se elas acreditaram, porque o Poder Público não acredita, senta com o catador e fala assim: “Olha, vamos pegar e vamos reformular essas leis”? Porque quando eles querem, eles abrem brecha pra colocar leis pra eles.

 

P/1 – Deixa eu fazer uma pergunta, Carlão. Como é que você concilia essa militância no movimento? E você continua sendo catador? Você está na rua o tempo todo recolhendo material. Mas no momento que você está no movimento, num encontro, numa reunião, você está deixando de coletar. Como é que funciona isso, até em termos financeiros e de organização?

 

R – Em termos financeiros, há perdas. Eu trabalho em grupo, sou de um grupo coletivo. Nós trabalhamos no coletivo, mesmo: [de] tudo que é produzido, cada um ganha proporcional ao que trabalhou ali.

Até então, o meu grupo… Ele se chama, dentro do Recifran… Nós colocamos um nome simbólico, Recicla a Vida. O nosso grupo Recicla a Vida até entende essa situação, porque nós não somos remunerados, nós tomamos conta do movimento. E se nós começarmos a reclamar, a mesma coisa que eu falaria pra alguém, alguém vai falar pra mim: “Você ta reclamando muito, você não tá fazendo.” E é um momento que… Nós estamos num momento [em que] nós fazemos ou vai passar e quando alguém for fazer vai ser tarde.

Eu não sei se com todo mundo é assim, a militância. Ela entrou dentro de mim de um tal jeito que parece que vai explodir, cara. Eu não sei se é assim. Tanto que eu... Lembra, eu falei: eu não acreditava em nada, mas foi aqui que eu encontrei. Se eu encontrei eu acredito que alguém vai encontrar e que nós devemos ajudar.

Tudo que eu falei aqui quanto ao movimento é o que eu acredito que nós podemos conquistar. Só que, pra companheirada lá na frente conquistar, alguém tem que pagar, cara. Eu vejo que somos nós, por enquanto. Tá meio difícil, é meio embaçado quando envolve financeiro. Minha esposa não, minha esposa nem liga, cara. Ela gosta. Ela fala assim: “É bom que você passa uma semana, quinze dias fora porque quando você vem a gente se apega mais.” Eu também gosto. Eu não me vejo fazendo outra coisa.

Financeiramente, nós perdemos muito, mas eu acredito que vamos ganhar. E é [em] breve. Eu acredito que várias entidades deveriam se sentar com as lideranças do movimento e conversar com elas.

Creio que nós sofremos. Já basta tudo que nós passamos quando não éramos organizados. Mas se pra ser organizado dentro do movimento, pra lutar por esse catador que está lá na rua, aquele morador de rua que é considerado mendigo -  hoje eu penso que é até um crime você chamar uma pessoa de mendigo. Morador de rua, certo? Porque já foi provado que o morador de rua pode ser recuperado, então é morador de rua. Entre lutar por essas pessoas e ir pra dentro da minha base e ganhar mais dinheiro, eu vou lutar por essas pessoas. Enquanto os meus filhos estiverem comendo, que eu sei que alimento não vai faltar porque ninguém vai deixar. Se os meus filhos tiverem comendo, vestindo e eu estiver comendo e vestindo, eu tô aí. Estamos aí.

Eu já falei logo assim porque eu sei que isso não vai faltar. Se eu chegar na minha base e não tem comida, não tem isso, não tem aquilo… Entre conquistar os direitos pra mim, pra nós da companheirada, e ganhar mais dentro da minha base, eu sou mais conquistar os direitos, porque lá na frente vêm as recompensas. E a recompensa não é financeira. A maior recompensa é ver as pessoas organizadas, porque aí vem o financeiro. Nunca nós vamos poder nos esquecer disso. O dinheiro é uma consequência de um bom trabalho. [Com] um bom trabalho feito dentro do movimento vai vir dinheiro pra companheirada. Vem mesmo.

 

P/1 – Você quer falar mais alguma coisa, Carlão. A gente já está mais ou menos caminhando pro final.

 

R – Eu não sei se contei a minha história; eu cortei várias partes que você me falou que era bom cortar. A história da minha vida é que ela foi muito pesada, que nem eu gosto de lembrar. Coisas pesadas mesmo. Mas o pouco que eu falei - eu falei bastante - sobre a minha vida e sobre como eu cheguei até aqui e sobre o que eu sou... Eu sou um cidadão hoje graças a todos os companheiros, todos. Alguém lá atrás investiu em alguém, que investiu em alguém, e alguém tá investindo em mim. É isso. E que isso aqui sirva pra motivar vários na luta. Não sei o tanto da minha fala que vai ficar, mas que essa fala minha - [ou] melhor, nossa, da companheirada toda - motive, leve a companheirada pra frente. Porque isso é movimento, o que nós entendemos como movimento é isso. É se organizar pra buscar conquistas dos catadores. Só isso.

 

P/1 – Muito obrigada então, Carlão.

 

R – Falou.



 

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