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História

São Paulino até nos ares

História de: Luiz Cássio dos Santos Werneck
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/10/2013

Sinopse

Filho e neto de advogados, a família manteve escritório em São Paulo e no Rio de Janeiro por mais de cem anos, abrindo outros escritórios pela redondeza. Cresceu no bairro de Perdizes, de onde tem boas lembranças, sendo onde começou a jogar futebol. Com família são-paulina desde a época do Paulistano, seguiu os mesmos passos, assistindo a jogos desde 1930, quando tinha oito anos, fazendo parte da construção do tricolor paulista, com histórias que rondam diversos campeonatos que o São Paulo disputou.

Lembra do São Paulo dos seus oito anos como o mesmo de hoje. Atuou na equipe juvenil no início da década de 40, quando chegou a enfrentar o time profissional que contava com Leonidas e Sastre, chegando a ser marcador de Leonidas. 

Em 1939 atuou no serviço militar. Após um tempo fez o CPOR da aeronáutica e um curso de piloto de combate a força aérea do exército americano, morando em diversas regiões do Texas durante um tempo (alistou-se em 1942 e foi para os EUA em 1943, voltando em 44), atuando durante a guerra que começou em 1942. Morando no Rio de 1944 a 45. Tornou-se então um apaixonado pela aviação.

Luiz se apresenta como um dos idealizadores do Estádio do Morumbi, contando sobre a obtenção do terreno.

Na época da entrevista já destacava sua família tricolor formada. Dele aos netos, todos vestem a camisa do clube.

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História completa

P- Por favor, seu nome completo, a data e o local de nascimento.

 

R- Luiz Cássio dos Santos Werneck, nasci em 25 de julho de 1922, no ano do Centenário, na Rua Ana Cintra, em frente à Igreja de Santa Cecília. Naquele tempo se nascia em casa, não havia maternidade.

 

P- O nome completo dos seus pais.

 

R- Meu pai era Cássio Guerra dos Santos Werneck, e minha mãe era Helena de Andrade dos Santos Werneck. Ambos já faleceram.

 

P- Nasceram em São Paulo?

 

R- Meu pai nasceu em São Paulo, minha mãe nasceu em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro.

 

P- E sobre os avós, o senhor tem alguma memória? Chegou a conhecê-los?

 

R- Tenho, tenho memória muito boa de minha avó Aninha. Era Ana de Azevedo Castro de Andrade, que era minha avó materna. E de meu tio, Eugênio de Andrade, meu avô também Eugênio de Andrade. Nós tínhamos um tio também com o mesmo nome. Ele era engenheiro, foi um dos construtores da Rio-Petrópolis, engenheiro de nome na época. E vovó Aninha era assim muito boa conosco, com os netos. Agora, meu avô paterno eu não conheci, ele morreu com 49 anos, não cheguei a conhecê-lo. Ele nasceu no Rio de Janeiro, chamava-se Antônio Luiz dos Santos Werneck, e ele foi membro da Comissão dos cinco que preparou a primeira Constituição da República, né? E aí ele foi nomeado juiz federal, foi o primeiro juiz federal em São Paulo, veio pra cá, morou na... Ali na... Perto da Amaral Gurgel, agora não me recordo bem o nome da rua. Mas ele ficou doente, foi pro Rio, nós já morávamos aqui, eu era muito pequeno então, não cheguei a conhecê-lo.

 

P- Mas a família chegou a morar no Rio na sua infância?

 

R- Não. Passávamos temporadas lá, porque a maior parte da família é do Estado do Rio. Não do Rio propriamente dito, mas do Estado do Rio de Janeiro. Agora a minha avó Chiquinha, que era minha avó paterna, essa eu conheci durante muitos anos, conviveu conosco, foi uma vida muito boa com eles.

 

P- Qual era a atividade profissional do seu pai?

 

R- Meu pai era advogado.

 

P- Trabalhava, tinha escritório?

 

R- Tinha escritório. Manteve o escritório de meu avô em São Paulo, e meu tio Antônio Luís manteve o escritório de meu avô no Rio de Janeiro. E meu pai tinha escritório na Rua Boa Vista em frente à Rua 13 de Dezembro, e eu ia pra lá. Mas como o escritório dele já estava um pouco “populado” demais, então abri o escritório ao lado, na Rua 13 de Dezembro. E mantemos o escritório que meu avô abriu em sete de abril de 1881. Então veja que já temos cento e poucos anos aí de... A família sempre trabalhando no mesmo local.

 

P- Como era o bairro que o senhor morava aqui em São Paulo?

 

R- Eu morava nas Perdizes, na Rua Monte Alegre. Era uma beleza de bairro. Não tinha esse trânsito que tem hoje, você jogava futebol na rua com a maior tranquilidade. E quando nós voltamos, antes de morar aqui em São Paulo, morei em Franca. Meu pai era gerente do Banco Comercial do Estado de São Paulo lá. E em Franca era um casarão enorme de cidade de interior, que era a última cidade digamos do Estado de São Paulo, que Pedregulho, que hoje está muito em moda porque o Quércia parece que é de lá, e o Quércia é bastante comentado, né? Mas tirando Pedregulho, que era uma vila mínima, tinha Franca. É a última cidade antes do Rio Grande, antes de Minas. E lá tínhamos uma vida muito boa, comecei lá menino, né? Nasci aqui, mas fui pra lá com dois meses e meio. E lá vivemos até 29. No fim de 29 voltamos pra São Paulo. Aí, nesse espaço de tempo, meu pai já tinha terminado a casa na Rua Monte Alegre, e lembro que nosso quarteirão tinha a nossa casa, uma em frente tinha um empório... Que se dizia assim na época, na esquina, e depois tinha um trilho que dava no Largo das Perdizes, bem em frente à igreja São Geraldo das Perdizes. Então era uma vida assim muito boa. Cresci lá, fiz o... Saí de lá pra fazer o Grupo Escolar Caetano de Campos, na Praça da República, depois fiz um preparatório no Externato Meira, depois fiz o exame de admissão no Colégio São Luís, depois eu completei os cinco anos de ginásio.

 

P- Ainda em relação à infância: como era a vizinhança?

 

R- A vizinhança era a melhor possível. Porque todo mundo conhecia todo mundo. Você conhecia casa por casa, todo mundo se entendia bem, todo mundo se dava bem, quer dizer, não havia os conflitos que existem hoje. E era um bairro de classe média muito boa, quer dizer, todo mundo trabalhando, todo mundo se dando bem, os filhos sempre juntos. Era aquela meninada sempre na rua. Chamava-se “troça”, o grupo... Por exemplo, a “troça da Paraguassu” era o grupo de Paraguassu. Não sei de onde surgiu essa ideia de troça. Tinha a troça da Monte Alegre, da Água Branca, da Cândido Espinheira, mas eram grupos que se davam bem, e inclusive disputávamos aqueles jogos de futebol dessas ruas do bairro, né. Isso era muito comum em São Paulo naquela época. Porque por exemplo, você atravessava a Avenida Água Branca, do lado de lá, hoje é a Avenida Francisco Matarazzo. Mas do lado de lá era um campo de futebol atrás do outro. Tinha uma serraria, uma grande serraria Salim Maluf, que parece que foi do pai do Paulo Maluf. Mas o resto, de lá, até a fábrica do Matarazzo que já existia também, era um campo atrás do outro, era a várzea que se dizia. E lá que o São Paulo, na segunda fase, começou a treinar no campo de Perdizes.

 

P- Quando é que o senhor começou a jogar futebol? O senhor lembra disso?

 

R- Bom, eu acho que comecei a jogar futebol pra valer no São Luiz. Lá havia campeonato interno, você entrava às oito horas e saía às cinco, né? Então você tinha três recreios. Havia, então, campeonatos internos que você disputava normalmente nos... Jogava futebol os três recreios, consecutivamente. E sábado não tínhamos aula, aliás, tínhamos até meio-dia. E sábados e domingos você jogava futebol em clubes que você mesmo organizava então. Havia clubes de várzea de grandes nomes, como por exemplo o Lapa, o Lapianinho, o Penhense Glorioso, era tão bom que chamava-se Penhense Glorioso, era clube da Penha. E havia aqueles times todos da várzea do Glicério, havia o Éden, Liberdade, da Rua da Liberdade, Avenida da Liberdade hoje, tinha um campo muito bom. A cidade era coalhada de campos. Do Glicério até o Museu do Ipiranga era praticamente um campo ao lado do outro. Então é por isso que se formava aquelas gerações de grandes jogadores, a várzea produzia jogadores. Hoje você não tem mais campos dessa forma.

 

P- Mas esses jogos de turma de rua, de troças, eram jogos organizados?

 

R- Eram organizados.

 

P- Tinham uniformes...

 

R- Eram organizados. Faziam-se desafios. Você mandava uma carta pro clube da rua, convidando para um jogo em tal campo. Nós tínhamos o campo de Perdizes, o campo do Democrata aqui embaixo... Onde hoje está o viaduto da General Olímpio da Silveira. Então você convidava por carta, recebia uma resposta por carta, marcava-se o dia do jogo e jogava-se.

 

P- O senhor jogava em que posição?

 

R- Eu sempre joguei na defesa, jogava de back.

 

P- O senhor lembra de algum jogo desses?

 

R- Ah, lembro diversos, inúmeros. Não, folclórico não me lembro de nenhum porque o jogo era muito sério na época... Não havia, por exemplo, não havia essas agressões, essa coisa que existe hoje. Quer dizer, podia haver choques, alguma desinteligência durante o jogo, mas nunca houve... Eu não me lembro de nenhuma briga séria em jogos nossos. Naquela época. Mais tarde sim, quer dizer, os jogos entre os colégios eram jogos muito disputados, por exemplo, São Luiz e Dante Alighieri era uma guerra só. São Luiz e Arquidiocesano era outra. Mas mais pela disputa em si, não pela violência.

 

P- E nessa época o senhor torcia pra que time de futebol.

 

R- Eu torcia pro São Paulo.

 

P- O senhor torce pro São Paulo desde sempre?

 

R- Desde que eu me conheço por gente.

 

P- E por que o senhor escolheu o São Paulo?

 

R- Bom, meu pai era do São Paulo. Meu pai foi primeiro do Paulistano. Depois quando o Paulistano encerrou o futebol e o... O Paulistano encerrou primeiro o futebol e a Associação Atlética das Palmeiras, que era um time organizado pela família Dr. Paulo Machado de Carvalho, a família dos Amarais, que é o lado da mulher do Dr. Paulo. Então eles tinham exatamente esse clube que ficava lá no... O campo deles era lá perto do Largo de Santa Cecília, eu não cheguei a conhecer esse campo. Mas esses dois clubes fundiram-se pra formar o São Paulo Futebol Clube em 30, em 25 de janeiro de 1930. E o São Paulo adotou as cores do Paulistano, branco e vermelho, e da Associação Atlética das Palmeiras, que não se confunde com o Palmeiras de hoje tem nada a ver, que era o preto e o branco. E fundiram até na ata do Paulistano, porque a fusão das três cores formariam as cores da bandeira paulista. E em 30, com oito anos, me lembro que eu ia. Meu pai me levava ao campo do São Paulo que era na Floresta, que hoje é o Tietê. Era uma parte do Tietê. Eu me lembro que era pequeno, às vezes não podia nem chegar se o campo tava lotado, ele arrumava um caixote desses de vendedor de cerveja, alugava um caixote, punha junto da grade e eu em pé ali assistia os jogos. E tenho boa memória, me lembro de bons jogos do São Paulo. Me lembro que o São Paulo jogava, entrava em campo com... Era Moreno, Sílvio e Bartô; antes era Clodoaldo e Bartô. Rafa, Zarzur e Orozimbo; depois Luizinho, Armandinho, Waldemar... Luizinho, Armandinho, Friedenreich, Araken e Hércules; depois no segundo tempo o Friedenreich saía e entrava o Waldemar de Brito. E me lembro de jogos, por exemplo, um que não me esqueço nunca foi a inauguração dos refletores da Floresta, aí já foi acho que em 31, se não me engano foi em 31: O São Paulo ganhou do Vasco de cinco a zero. Foi o primeiro jogo na América do Sul com refletores; o presidente do clube na época era o Edgar de Souza que veio a ser o primeiro brasileiro da Light em São Paulo. Então ele mesmo projetou aquela iluminação e tivemos um campo iluminado. Então houve jogos assim... Assisti a muitos jogos.

 

P- E como era o Friedenreich jogando?

 

R- Ah, ele era um espetáculo. Era magro, espigado, alto, ele entrava... Se ele entrasse na área fatalmente marcaria um gol. Era impressionante. Ele passava muito bem, cabeceava bem. E era um jogador elegante. Ele tinha um aprumo no campo que dava gosto ver. Eu me lembro bem dele porque a figura dele chamava a atenção. Era um sujeito extraordinário.

 

P- A gente tem a informação de que ele jogou no São Paulo até 42. Não, eu não sei que idade ele tinha. Nessa época eu não me preocupava em saber idade dos jogadores, mas é possível que ele tivesse jogado até então. Porque ele era muito magro, não era farrista, não bebia, trabalhava, trabalhava até na Antárctica, assim mesmo não bebia. Mas era um craque, realmente era um craque. Era um jogador... Dizer hoje um jogador como o Friedenreich é difícil, porque ele tinha um estilo assim inconfundível. E ele era filho de pai alemão e a mãe dele era de cor mais clara. E ele saiu assim meio cinza. Era uma figura que dava gosto de ver jogar futebol.

 

P- Nessa época o senhor tinha algum ídolo? Quando criança tinha algum jogador que...

 

R- Não, meu ídolo mesmo era o time do São Paulo. Eram todos. Porque era realmente um time de primeira grandeza. São Paulo naquela primeira fase teve um time excelente, quer dizer, esse time todo quando se dissolveu em 35, em maio, todos os jogadores, quase todos, foram contratados pelos clubes do Rio. Foi um erro essa extinção do São Paulo porque se o São Paulo tivesse, por exemplo... Havia dívidas, mas se ele quisesse vender aquele time, ou parte do time, poderia permanecer. Mas houve uma série de desavenças internas, talvez pelo fato de o clube ter surgido da fusão de outros dois, os dois grupos não se entendiam bem e realmente encerraram o time de futebol. O São Paulo permaneceu associado ao Tietê, mas o Tietê ficou o Clube de Regata Tietê São Paulo. E o Tietê... Formalizaram um contrato de convivência mútua e da fusão dos dois clubes. Mas lá figurava que se o São Paulo um dia voltasse a surgir com o mesmo nome jogando futebol, eles retirariam, como retiraram, o nome do São Paulo, deixou de ser Clube de Regatas Tietê São Paulo para ser Clube de Regatas Tietê. Tanto é que o São Paulo acabou. Mas já em dezembro do mesmo ano, no dia 16, ele foi refundado, como eu digo, ou ressurgiu. Mas aí ressurgiu com um time com poucos valores. E assim mesmo eu acompanhava esse time. Me lembro que o primeiro jogo dele foi com a Portuguesa Santista já no campo do então Palestra Itália, na Água Branca. Depois houve um torneio que o São Paulo não tinha dinheiro nenhum, promovido pela Portuguesa de Desportos, pelo Palestra e pelo Corinthians, e com o próprio São Paulo. Esse torneio foi para que o São Paulo arrecadasse fundos. E arrecadou fundos também de outras formas, quer dizer, mediante coletas e assinaturas. Finalmente, aos poucos ele foi crescendo, tanto que em 38 ele quase foi campeão, foi vice-campeão paulista, e aí herdamos o campo... Porque quando o São Paulo terminou, formou-se o Independente, formou-se o Clube Atlético Paulista, aliás já existia, formou-se o Clube Atlético Estudantes Paulistas. Depois o Independente somou-se ao Estudante, o Atlético Paulista encerrou as atividades, os jogadores também vieram pro Estudantes, e o Estudantes na verdade ficou com mais gente do São Paulo de então, da época anterior, do que o próprio São Paulo. Mas em 38, graças ao trabalho principalmente do Dr. Piragibe Nogueira e do Deocleciano Dantas de Freitas, o São Paulo conseguiu se reunir novamente. Com a fusão com o Estudantes em 38, o time ficou tão bom que foi vice-campeão.

 

P- Dr. Werneck, o senhor foi testemunha ocular da decisão do campeonato de 38?

 

R- Fui da primeira parte. Que em 38 foi exatamente o ano que eu tinha terminado o Colégio São Luiz, foi no final, o campeonato... Acho que ultrapassou até... Ou foi no final de 38 que houve a Copa do Mundo de 38 então. O campeonato prolongou-se mais. E no domingo, o jogo era decisivo porque o Corinthians tinha um ponto na frente, se o São Paulo ganhasse seria campeão. O que seria um sucesso para um clube reorganizado em 35, três anos depois vir a ser campeão paulista. Mas no domingo eu fui assistir o jogo, me lembro que o Corinthians tinha aquilo que a gente chamava de... Tinha uma arquibancada pequena que até há pouco tempo existia, com aquele estilo inglês. E do outro lado tinha um barranco. Realmente, tinha uma fileira de talvez dez ou doze degraus, e o resto era um barranco de terra cavado, que todo mundo assistia o jogo ali. E me lembro que assisti o jogo de domingo lá. E o Mendes, que era o nosso ponta direita na ocasião, Mendes, Armandinho, Elízeo, Araken e Paulo - era a linha do São Paulo. E o Mendes tinha um chute fortíssimo, começou um temporal, mas antes do temporal formar aquele lago, ele acertou um chute de fora da área e marcou. No canto. Acho que o José, que jogou no São Paulo era o goleiro do Corinthians, se não me engano. Mas aí o jogo foi interrompido porque o campo ficou completamente alagado. E ficou programado pra continuar na terça-feira, o São Paulo vencendo de um a zero, portanto quase campeão. Na terça-feira, eu era office boy da Companhia do Brasil, naquela época na Florêncio de Abreu, não me deixaram sair de jeito nenhum, nem pra compensar sábado, ou até domingo, e eu não pude assistir a final. Então pude acompanhar pelo rádio, e pude assistir, por exemplo, o bi, me lembro até hoje a Gazeta Esportiva na época era um tablóide, e tiraram a fotografia do alto da arquibancada, então você vê o Carlito - era Carlito e Carlinhos; Teleco, Carlito e Carlinhos, a área esquerda e o centro-avante do Corinthians - você vê perfeitamente o Carlito marcando o gol com a mão, aí ele adquiriu o codinome de Carlito, "mãozinha de ouro", porque deu um campeonato ao Corinthians. Eles empataram no final. Mas essa fotografia é interessante, ela tá na Gazeta. Fotografaram da arquibancada, então você vê o Carlito subindo e o juiz atrás dele olhando ele jogar; portanto ele viu a jogada perfeitamente. De onde se conclui que os juízes são sempre assim. Não é só agora que eles manipulam resultados. E ficou essa história durante muito tempo, o Carlito "mãozinha de ouro", mas fato é que perdemos o campeonato e que fomos vices. Aliás, na primeira fase nós fomos campeões de 31, fomos vice em 30, vice em 32, vice em 33. E 34 também, se não me engano.

 

P- O senhor já considera esse título de 31 como um título do São Paulo?

 

R - Ah, claro. Tal seria. Você veja: Você tem, tinha um time chamado São Paulo Futebol Clube, que tinha as cores da bandeira paulista, que tinha o uniforme que tem até hoje, faixa vermelha, faixa preta, o mesmo emblema, o escudo que o Fiumiano Pinto Filho copiou, mandou copiar de um time alemão, você tem o mesmo uniforme, a mesma bandeira, a mesma camisa, o mesmo nome, e hoje você tem um time exatamente igual, então esse São Paulo não é o São Paulo, quer dizer, o São Paulo surgiu do nada? Inventaram o clube ou copiaram aquilo ou praticaram estelionato? Claro que o São Paulo é sempre o mesmo! Ainda mais por que... Você deve ter encontrado algumas divergências nesse sentido no clube. Há uma ala mais nova no clube que acha que o São Paulo de 30 não tinha nada a ver com esse, mas tem, tem tudo a ver, porque ele é que deu forma ao São Paulo, foi o primeiro São Paulo. E tanto assim é que o São Paulo, veja você, depois que ele se reuniu ao Estudantes em 38 e montou realmente um grande time, todos os antigos dirigentes do São Paulo da Floresta, como o Paulo de Carvalho, o Zuzu da Cunha Bueno, todos eles vieram para o São Paulo. Décio Pedroso, Cássio Villaça, que era um grande médico em São Paulo. Então quando eles viram que o São Paulo não era mais aquele “São Paulinho”, como eles diziam, de 35, mas tinha se tornado um grande clube, todos eles vieram. E foi a volta de toda essa geração, Firmiano Pinto Filho, por exemplo, foi a volta de todo esse grupo que proporcionou o avanço do São Paulo. Primeiro pela mudança da sede da Avenida São João junto à Praça Júlio de Mesquita, já era a segunda sede. Porque a primeira, quando foi fundado, era na praça Carlos Gomes. Então na Praça Júlio de Mesquita era uma casinha como aquelas que se viam na época, com uma porta e uma janela. Era a sede do São Paulo. Foi quando entrou Décio Pedroso, que foi do São Paulo antigo, foi sócio do São Paulo da Floresta. Quando o Décio começou a movimentar, foi o primeiro presidente que pensou em termos de clube, não só em time de futebol. Ele e o Piragibe. Mas o Décio teve a vantagem de promover uma fusão com a Associação Alemã de Esportes, que era no Canindé então, e lá ele montou o primeiro campo de futebol do São Paulo, dele próprio mesmo. Montou uma sede nova na Rua Dom José de Barros esquina com a Av. São João, e o São Paulo começou a crescer muito, foi a época de 40, foi exatamente em 43, na presidência do Décio Pacheco Pedroso que nós ganhamos o primeiro campeonato da segunda fase. O São Paulo tem duas fases distintas. A primeira, que vai de 30 a 35, maio, e a segunda que começa em 16 de dezembro de 35 e espero que continue infinitamente. Mas não há dúvida nenhuma, é o mesmo São Paulo. Nós não poderíamos copiar a camisa, seria uma cópia ridícula, nós copiarmos a camisa de um clube como o São Paulo e dar o nome de Uberaba Futebol Clube, ou coisa que o valha. Se é o mesmo São Paulo, o mesmo nome, mesma camisa, só pode ser o mesmo time. Ou você vai escolher por nada, quer dizer, havia uma razão pra você escolher. Era o passado dele. Tanto que você tava me contando que foi buscar um gol do Friedenreich, portanto na época da primeira fase, e vai incluir neste memorial, vai gravar.

 

P- Fazendo parte da história do São Paulo, né?

 

R- É. Não tem sentido, quer dizer, mas não tem o menor sentido dizer que não é o mesmo. Eu não sei por que há um grupo assim que implica com a ideia. Não sei por que. Se o São Paulo tinha uma sede em Trocadero, ali ao lado antigo Hotel Esplanada, que era uma beleza de sede, então era considerado um clube assim de ricaços, mas não era. Tanto não era que praticamente quebrou. Resolveram encerrar o futebol Não precisariam ter encerrado, mas encerraram o futebol. Agora se ele morre, digamos, em maio de 35, e ressuscita, digamos assim, em dezembro do mesmo ano, é uma diferença aí de quantos meses? Seis meses... Surge novamente com as mesmas cores, a mesma camisa, mesmo uniforme, mesma bandeira e mesmo nome, e não é o São Paulo? Então praticamos estelionato!

 

P- O Zé Silveira fala que o São Paulo é o Lázaro do futebol.

 

R- É? Por que que ele diz isso?

 

P- Porque ele morre, ressuscita e continua.

 

R- Taí. É esse mesmo. É o mesmo São Paulo. Por que que nós vamos jogar fora uma parte da nossa história? Quer dizer, jogar fora o campeonato de 31, os vice-campeonatos de 30 até 34, o segundo quadro que foi naquele tempo você tinha o primeiro e segundo quadro, e tinha o extra, que seria, digamos, o terceiro quadro; o segundo quadro foi campeão acho que cinco vezes consecutivas. Era um timaço. E hoje você encontra, encontra no São Paulo, por exemplo, o Toledinho, o Carlos Eduardo Toledo, que jogou no Estudantes, jogou no Estudantes depois que, ele era do São Paulo, do extra do São Paulo, quando houve a cisão, quando o São Paulo parou aí ele foi pro Estudantes. Jogou no Estudantes, jogou até contra o São Paulo uma partida. Pergunte ao Toledinho. Ele diz que o São Paulo é o mesmo. Ele saiu do São Paulo, foi pro Estudantes, voltou pro São Paulo. É nosso conselheiro, advogado...

 

P- O senhor jogou futebol pelo São Paulo?

 

R- Joguei futebol pelo São Paulo. Joguei quase... Eu comecei a jogar... Eu jogava muito futebol. Antes disso, tivemos dois clubes muito bons, tivemos o Bandeirantes, chamava-se Universitários Bandeirantes, claro que era vermelho, branco e preto também, mas ninguém era universitário, todo mundo tava no pré: pré-médico, pré-jurídico, mas dava o nome Universitários porque achava que ficava mais importante. E depois tivemos o Clube da Caveira. Onde jogou o Blota Júnior, jogava o Paulinho de Carvalho, o Américo, um grupo enorme. O Caveira, a base era mais ou menos o Rio Branco, o São Luiz e o Mackenzie. E esse clube fez um sucesso muito grande em São Paulo, nessa nossa época, até 40, 41.

 

P- Eram estudantes, universitários?

 

R- Eram estudantes, mas não eram universitários ainda. Estávamos no pré. O pré não era considerado, era o colégio universitário, não era a Universidade de São Paulo. Esses dois times eu joguei muitos anos neles, acho que uns quatro, cinco anos, jogando primeiro no Bandeirantes, depois no Caveira. Mas havia muita... Como eu disse, você confiava, desafiava, tinha convites... Eu no fim saí do Bandeirantes para o Caveira, e joguei no Caveira contra o Bandeirantes. Sem briga nenhuma. Porque era um grupo muito unido, o esporte na época era realmente o esporte, não é o que é hoje.

 

P- Vocês jogavam onde?

 

R- Nós jogávamos em todos os campos. Por exemplo, o Palmeiras sempre nos cedia o campo dos fundos para os nossos jogos. Jogávamos muito no campo do Pinheiros, no campo do Democrata, isso no tempo do Bandeirantes. E jogávamos também nos campos colegiais. Jogávamos, desafiávamos os colégios, jogávamos com os colégios também. E a mesma coisa o Caveira. O Caveira jogou muito na várzea. Tivemos um jogo entre Caveira e São Paulo, eu nessa época já estava treinando no São Paulo no juvenil. Nós jogamos contra o juvenil do São Paulo um jogo-treino na Rua Müler, que era onde nós treinávamos no São Paulo, e o jogo empatou zero a zero, foi um jogo disputadíssimo, mas muito bom. Bauer contra nós, essa coisa toda. Mas foi um jogo muito bem disputado e acabou zero a zero. Eles não marcaram um gol no Caveira mas nós também não conseguimos marcar um gol no São Paulo. Mas pouco antes, o Cid Mattos Vianna assistiu um jogo do Caveira, se não me engano um jogo nosso no Colégio Arquidiocesano, e me convidou. Ele era o encarregado, o diretor do juvenil do esporte amador. E me convidou pra treinar no São Paulo. E eu fui treinar no São Paulo e joguei, isso foi em final de 40, então eu joguei, de 40 até início de 42. Eu treinava muito no São Paulo. Eu digo treinava, porque eu participei de muitos jogos nas preliminares, que então eram realizadas no Pacaembu. Os jogos principais do São Paulo eram todos no Pacaembu. A não ser quando tínhamos que jogar no campo do Corinthians ou do Palmeiras, na época Palestra, ou quando jogávamos no campo da Portuguesa. Normalmente o São Paulo jogava no Pacaembu e eu disputei muitas preliminares, como juvenil e algumas delas como aspirante.

 

P- Começou jogar no juvenil com quantos anos?

 

R- Entrei no juvenil com 18 anos, não, com 17 anos. Não, 18, foi princípio de 40. Eu tinha 17, não tinha 18 ainda. Mas joguei bastante, treinei. Me lembro, era o Novelli no gol, há pouco tempo estive com ele, depois de anos sem vê-lo estive com ele lá no São Paulo. Uma dessas festas que nós fazemos reunindo jogadores mais antigos. Jogava o Bauer... Era Justi, Bauer e Barbuí, a linha média, jogava Savério e eu... Ou Savério e... Como era o nome dele, era um preto forte, Jaú, mas era um preto forte, não tinha nada a ver com o Jaú do Corinthians. Ou jogávamos eu e Jaú, quer dizer, eu revezava muito na... Nunca fui titular absoluto, mas sempre joguei, sempre participava dos jogos. Mas depois, nessa época eu tinha feito exame pra faculdade e começou a misturar muito o curso pré-jurídico com futebol, eu faltava muito aos treinos. Mas me convocavam sempre. Uma coisa engraçada é que nós jogávamos como os profissionais treinavam contra nós. Eu me lembro, na defesa, na “bequeira do juvenil”, o juvenil já mesclado com aspirantes, de enfrentar uma linha que tinha Luizinho, Sastre, Leônidas, Remo e Teixeirinha. Era uma covardia, né? Mas fazíamos o nosso papel, treinando, não dava pontapé em ninguém, eles ganhavam quase sempre por quatro ou cinco, mas era uma maneira de aprender e de você se divertir.

 

P- Nessa época o presidente do clube era o Cid Mattos Vianna?

 

R- O Cid Mattos Vianna era o diretor do departamento juvenil.

 

P- Mas ele se tornou presidente do clube?

 

R- Não. O Cid Mattos Vianna não chegou a presidente... Chegou sim.

 

P- Por curto espaço de tempo.

 

R- Ele substituiu... Acho que o Paulo de Carvalho? Não. Agora vocês me pegaram. Eu não me lembro quanto tempo ele ficou e quem é que ele substituiu.

 

P- Mas eu achei essa experiência interessante. Como era marcar o Leônidas?

 

R- Bom, era não conseguir marcar. Era ir pra cima dele, ele dar o nó em você, você passava por um lado, ele saía pelo outro, era muito difícil tomar uma bola do Leônidas. O Leônidas era muito bom jogador. Do Remo era um pouco mais fácil porque ele adiantava um pouco a bola antes de dar o chute dele. Então era fácil, era fácil... Bom, dava pra tirar a bola dele! Mas marcar o Leônidas era impossível. O Leônidas era chamado o "homem borracha" ele era um sujeito terrível. Ele não era muito alto, eu era mais alto que ele, mas ele saltava uma barbaridade. Ele tinha que dar aquelas bicicletas, era um jogador assim que... Foi uma pena que no tempo dele você não tivesse tido o que você tem hoje em termos de vídeos, de televisão, de cinema, você aguardava, por exemplo, da Europa que viesse por mar, não, já havia algumas linhas aéreas em 38, mas demorava muito. O cinema Rosário, que ficava no prédio Martinelli, na Rua São Bento, passava os jogos da Copa do Mundo de 38. Então você ia pra lá, mas uma semana depois, pra assistir os jogos que tinham sido realizados. Nós perdemos na semifinal para a Itália, um o jogo que foi muito comentado.

 

P- Na íntegra?

 

R- Passava o jogo na íntegra. Mas em filme, aí não é 16 mm, é 30, né?

 

P- É 35.

 

R- É 35 mm. Na tela do cinema. Você assistia o jogo inteirinho. Eu assisti todos os jogos do campeonato de 38 lá no Cine Rosário! Eu só não, eu e uma multidão. Era sessão corrida, começava de manhã o campeonato, ia o dia inteiro até à noite, todo mundo ia assistir, porque você não tinha outra maneira de ver o jogo.

 

P- O senhor falou que trabalhou como office-boy. Como era conciliar futebol, trabalho...

 

R- Não, aí eu trabalhava o dia inteiro. Porque quando eu saí do São Luiz, meu pai teve uns problemas de... Primeiro uns problemas dele em 30, como todo mundo que perdeu com o café. E depois, em 34, ele também não teve um bom resultado quando resolveu cultivar e ter uma máquina de algodão lá em Guarantã, lá na Noroeste, perto de Lins. Então nossa situação ficou muito difícil. Eu não podia, por exemplo, sair do São Luiz e iniciar imediatamente... Foi preciso que fosse trabalhar como meu irmão mais velho também foi. Então eu tive que trabalhar, e trabalhei realmente durante dois anos, e lá meu serviço era de office-boy, incluía até levar cafezinho, fazer fichário, alguma coisa, como eu já tinha ginásio completo, então passei a ter serviços de fichas e lançamentos, essa coisa toda. Mas entrava as oito e saía às seis. E sábado entrava as oito e saía ao meio-dia, porque não havia a tal semana inglesa na época. Mas eu nessa época, foi em 39/40, no fim de 40 eu deixei... Arranjei um outro emprego numa biblioteca e tinha assim mais tempo livre, mais tempo disponível, e podia me enfiar nos livros como eu gostava, você numa biblioteca tem que ler os livros. E foi aí que eu acho que eu consegui a minha formação mais para o português, a literatura, foi a literatura que me deu a base para a literatura portuguesa, literatura estrangeira e brasileira quando entrei no pré-jurídico. Então eu tinha uma base muito boa e teve um incidente interessante. Eu estava muito cansado para o exame, estava cansado estudando sem dormir para a seleção, estudava muito, então a minha mãe falou para eu parar um pouco de estudar, ela acompanhava muito: "lê um livro". Então eu passei a mão no livro "A Carne" de Júlio Ribeiro, e eu gostei do livro, me interessei pelo livro. Eu leio muito rápido e eu li aquele livro em dois dias, liquidei o livro. Isso era um sábado, e segunda começava o exame. Sorteei o ponto. O quê caiu em literatura brasileira? "A Carne" de Júlio Ribeiro, e então eu dei um show. Tinha que dar né? Então foi interessante, mas aí é que eu comecei, tinha mais tempo, ia começar o pré, eu jogava no time da escola, jogava no time do pré-jurídico...

 

P- Mas nessa época, por exemplo, não se questionava invés de fazer a universidade se tornar um jogador de futebol profissional?

 

R- Não, você não era muito bem visto. Havia lugares em que eu ia e que eu não era muito bem visto. "Esse cara joga no São Paulo", mas eu não era profissional, eu era amador puro.

 

P- Mas por que que não era bem visto?

 

R- Não sei, talvez porque a época fosse uma época mais rançosa, mais antiga. Se você fosse trabalhar no teatro estava perdido, e se fosse jogar futebol também passava a ser um sujeito de outra categoria. Mas isso por pouco tempo. Mas de qualquer maneira foi uma temporada muito boa, e eu joguei muito. Com Bandeirantes, com Caveira, nós excursionamos pelo estado inteiro com a faculdade de direito. Quantas vezes nós fomos jogar, até em Venda Branca, você nunca ouviu falar, mas é perto de Casa Branca por isso se chama Venda Branca. Até lá nós jogamos com o Bandeirantes. E éramos muito bem recebidos pelo interior, sempre com churrasco depois do jogo. Cediam-nos casas, Venda Branca não tinha hotel, então eu me lembro de Venda Branca porque marcou por isso, cada família ofereceu um ou dois quartos e era uma cidade que tinha uma pequena igreja, um campo de futebol e a cidade em volta. Mas como jogamos em tantos lugares, em Campinas, em Ribeirão, o Bandeirantes excursionou muito e a faculdade excursionava muito pelo interior. E a faculdade de direito sempre teve assim um apelo interessante, embora se tivesse a Politécnica, a Medicina... Mas ela tinha um apelo mais interessante porque nós formávamos o que se chamava de caravana artística, que ia um grupo para jogar futebol, um grupo para representar... Lá que se formavam os jograis. Os jograis começaram na faculdade. Era um grupo de alunos da faculdade. O Rui Afonso. Era o Rui Afonso, Rubens Falco...

 

P- Aquele outro que faleceu o ano passado...

 

R- Esse já era de um grupo bem mais na minha frente. Mas lá que começaram os jograis. E a faculdade tinha um coral que tem até hoje. Então ia a turma da faculdade, a turma do futebol, a turma do coral, a turma dos jograis e a turma que ia lá só pra fazer farra, que não fazia nada, então era interessante, eram viagens ótimas, quase sempre de trem, e reservavam vagões pra nós, aquela coisa toda. Valia a pena!

 

P- Dr. Werneck, vamos então abordar um pouco as viagens que são marcantes na vida do senhor. Parece que desde pequeno o senhor já viajava...

 

R- Eu viajei. Tinha essa promessa, então com dois meses e meio eu saí de São Paulo de trem, é o que se usava na época. Eu me lembro de que fomos até Barra do Piraí, não, eu não me lembro, me contaram, eu tinha dois meses e meio e não era tão gênio assim, e de lá fizemos baldeação, Leopoldina, Petrópolis, onde morava minha avó materna, ficamos hospedados lá, segundo conta minha mãe. Depois fui batizado na catedral, voltei pra São Paulo pelo mesmo caminho e chegando a São Paulo dois dias depois, meu pai foi pra Franca, né? Antiga Vila Franca do Imperador. Vocês sabem por quê?

 

P- Não.

 

R- Porque Franca foi o único município do Brasil que se rebelou contra a República. Ficou do lado do Império porque Dom Pedro II havia estado lá. A primeira navegação fluvial do Estado de São Paulo era no Rio Grande através da Cia. Mogiana, a Cia Mogiana de Ferro, ela também tinha a Cia Mogiana de Navegação. E Dom Pedro II foi lá para a inauguração dessa linha, e passou a se chamar Vila Franca do Imperador. Mas fomos para Franca e depois minha mãe me dizia mais tarde, porque em 42 nós vivíamos viajando. Eram viagens de trem, você descia em Barrinha, perto de Ribeirão Preto, depois você ia para Franca, atravessava lá o Rio Pardo. Agora quando se ia de automóvel as estradas eram todas de terra, você levava sempre correntes por causa da chuva, aquelas correntes de pneus e fazia sempre grupos de três, quatro, cinco carros, porque tinha muito bandido naquela época pelo interior. Tinha a balsa do Rio Pardo, à noite, se você chegasse à noite, você atirava para o ar para acordar o balseiro que estava do outro lado e ele atirava de lá para dizer que tinha ouvido. Então vinha a balsa de lá, no meio daquela escuridão, com uma lanterna, você atravessava. Tinha onça, eu não me lembro, não posso nem me lembrar, mas matavam onça no caminho. Então realmente Franca era uma... Eu vou na Franca, se dizia, assim como se falava eu vou no Jaú... E na Franca não era uma viagem fácil. Voltando para São Paulo... Porque mamãe reclamava das minhas viagens, dizia que a culpa era dela? Em 42 houve a guerra, eu já tinha passado o primeiro ano da faculdade, tinha ingressado no primeiro ano da faculdade, já tinha feito o vestibular e em 22 de agosto o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália. Não que eu seja tão patriota e guarde as datas, mas é que em 22 de agosto era aniversário de minha mãe, e eu me alistei no dia seguinte na força aérea.

 

P- Por quê?

 

R- Porque eu gostava e achava que era minha obrigação.

 

P- Mas o senhor estava com vinte anos.

 

R- É.

 

P- E já tinha feito o serviço militar?

 

R- Já. Eu fiz serviço militar lá no Grupo de guerra nº 35, na Praça Marechal Deodoro, em 1939. Já tinha saído há um ano do São Luiz. Mas o tiro de guerra você fazia durante um ano, você aprendia a atirar e aquelas coisas todas. Mas eu gostava muito de aviação e quando houve a guerra, eu me alistei, um grupo muito grande de São Paulo se alistou, não só eu, muita gente, eu me alistei no dia seguinte. Era o Coronel Luna, que estava retirado do vôo, que tinha uma lente de óculos terrível, e era na quarta zona aérea, que ficava na Rua Epitácio Pessoa, onde hoje mais ou menos está o Hilton Hotel. Então eu me alistei lá, fui designado para o CPOR da Aeronáutica, e fui designado para fazer o curso no exército americano, na força aérea americana. E engraçado que dividiam as turmas de brasileiros, metade iam para a força aérea do exército e metade ia para a força aérea da marinha. E eu fiz o curso de piloto de combate na força aérea do exército americano durante um ano.

 

P- Em que cidade?

 

R- Em diversas. Comecei em San Antonio, depois fui para Corsicana, depois para Waco, depois fui para Black Land, que era uma vila junta a Waco, todas no Texas. E eram vôos muito interessantes. Nunca tinha feito um vôo de caráter militar, com treinamento, de bombardeio, de nada... De tiros. Então foi uma experiência assim extraordinária. Também foi um aprendizado de vida. Porque lá você... Você não era cadete importante, você era um cadete como “praça”, e você lavava, você arrumava sua cama, você lavava... Só não lavava sua roupa, para isso havia a tinturaria. Havia tinturaria não, como é que se diz? Lavanderia. Mas você era obrigado a lavar o chão, tinha o seu turno de lavar o banheiro, lavar a privada, e aquilo foi mostrando a vida era outra coisa. Precisa de eu sair daqui de uma situação muito boa, para ir lá você via a necessidade de fazer. Então foi um aprendizado de vida. Hoje eu não reclamo de mais nada porque o que eu, quer dizer, fiz naquela época, muita gente se recusaria talvez a fazer. Mas terminei o curso lá, vim pro Brasil, modéstia a parte ganhei até um prêmio, podia ter ido para Nova Iorque, mas acontecesse eu não tinha nem um tostão para ficar quinze dias lá. Prêmio de primeiro da turma, 44 F.

 

P- E quanto tempo durou esse curso?

 

R- Um ano e pouco.

 

P- Isso em 42?

 

R- Em 42 eu me alistei, fui para os EUA em 43 e voltei em 44. Em junho de 44, aí fui designado para o terceiro grupo de bombardeio médio no Galeão, que eram os B-25, o Mitchel. Vocês não viram um filme antigo chamado "A Trinta Segundos Sobre Tóquio"?

 

P- Não.

 

R- Foi a primeira vez que um bimotor grande decolou de um porta aviões com (?), bombardearam Tóquio e depois perderam. Foram obrigados a iniciar, isto é história, iniciar o ataque, a decolagem muito cedo porque viram um cargueiro japonês que naturalmente estava transmitindo pelo rádio. Então eles saíram antes e não tiveram gasolina suficiente para chegar às posições demarcadas na China, era voar sobre Tóquio, bombardear e pousar no continente chinês. Alguns se perderam, diversos morreram, outros foram aprisionados e poucos se salvaram. Mas eu fiquei nesse avião. Ele iria para o Pacífico, estávamos em junho de 44 e a guerra terminou em maio de 45. Já havia o grupo de caças indo para a Itália e todo mundo queria ficar nesse grupo. Quando eles desfizeram a ideia de mandar os Mitchels para o Pacífico eu fui então designado para o segundo grupo de patrulha, e aí fiquei, eram os Catalinas, os aviões eram muito grandes, com autonomia de 21 horas, voávamos sobre o mar, o Atlântico, fazíamos o Atlântico até as costas da Bahia, do Rio até a Bahia e do Rio até Florianópolis. Eram quinze aviões. Voávamos permanentemente. Havia sempre dois na patrulha sul e dois na patrulha norte, permanentemente no ar. Eles só saiam quando eram substituídos por outros, fora aqueles que eram destacados para comboio, porque o comboio era um vôo muito difícil, com às vezes cem, oitenta navios ou mais, com tropas, munição, com mantimentos, e com os aviões, nós cobríamos. Enfim, transportava de tudo. E você com os aviões cobria. Tínhamos o radar, não como o de hoje, mas era um radar incipiente que dava, demonstrava por exemplo se havia submarino por perto ou não, e você via à noite, você voando sobre o comboio, você voava com todas as luzes apagadas, inclusive internamente. Mas você pelo radar, pela tela do radar, você via os navios, a formação completa que você estava sobrevoando. Então esses vôos eram demorados, alguns deles demoravam 14, 15 horas. Nossa autonomia de vôo era de 21 horas, mas teria quatro beliches de maneira que a tripulação poderia se revezar. Havia um fogão elétrico, onde se podia fazer comida, mas eu só comi bife e ovo estalado porque eu acho que ninguém sabia fazer outra coisa melhor do que aquilo, não se levava comida pronta, fazia-se no ato. Foi um tempo muito bom. Aí em 45 a guerra acabou, como eu tinha curso no exterior, e havia uma lei que me obrigava a prestar serviço aqui, e eu servi como instrutor de Catalina até janeiro de 47.

 

P- E nesse caminho... A faculdade de Direito, o senhor deixou?

 

R- Não, eu poderia fazer... Eu comecei com a minha turma e terminei com ela. Porque pelos regulamentos, pela legislação que existia à época quem estivesse convocado poderia chamar a banca a qualquer momento. Eu não pude chamar a banca durante o período da guerra porque eu não tinha folga. Mas quando acabou a guerra e eu passei a instrutor, eu fui encontrar a minha turma já no... Eu tinha começado em... Fui encontrar minha turma no terceiro ano. Então foi aquela correria, tive que estudar, examinar, tinha as apostilas, enquanto voava dava instrução, sempre dava tempo de você ler um pouco, à noite também para estudar, e eu chamava a banca, fazia os meus exames. Fui fazendo os meus exames até que finalmente, quando minha turma estava no quarto ano, eu empatei com eles.

 

P- E o senhor se formou em que ano?

 

R- Me formei em janeiro de 1948, não perdi um único ano. Perdi dois anos porque tive que trabalhar, mas com a minha turma de faculdade não perdi um único ano.

 

P- Para a gente voltar a aterrissar os gramados, eu queria antes que o senhor me contasse como é essa coisa da sensação de voar. De estar na cabine, como é? Como é essa coisa de...

 

R- É a melhor sensação que você pode sentir, você pilota, e como dizia o Saint-Exupéry, que ele... Há um livro dele, "Terra dos Homens", em que ele descreve uma decolagem, e ele era um poeta, né? Ele descreve uma decolagem, dá a manete, o avião treme e ele corre pela pista de grama e se desprende do solo como se colhesse uma flor. Que dizer, é a imagem que ele dá, o Saint-Exupéry, que morreu durante a Guerra num serviço de patrulha na Itália, no Mar Adriático. Mas o vôo é uma sensação de liberdade, você sabe? Você é independente, realmente é a hora em que você se sente independente. Você não depende de ninguém, você é o dono daquele avião, quando eu solei pela primeira vez num Perchise, lá nos EUA, que era o PT-19... Depois eu tive um outro solo no PT-15, e um outro solo, finalmente, um outro solo no Banbubomber, que era um cesna. Chama-se Banbubomber porque era de tela, mas era onde se fazia o treinamento para bombardeiro, mas o solo é uma sensação indescritível, porque o instrutor sempre fazia um pouquinho de onda, uma hora ele levantava, você treinava nos campos auxiliares, tinha inúmeros campos, tinha o campo principal que era todo de concreto, as pistas e os campos auxiliares. Em Corsicana nosso campo de treinamento só tinha uma pista muito pequena de concreto e se pousava no terreno, no chão, no gramado mesmo. Então aí de repente, ele mandava você parar, você parava. Ele ficava na frente, você atrás. Ele levantava, punha o pé na asa, você dizia: “Bom, vou solar”. Aí ele olhava para cima, olhava para o chão, olhava pra você, subia de novo: "decola de novo". Então você dizia: “não vou solar afinal”. Na terceira vez que ele fez isso ele realmente saiu e disse: "é por sua conta". Então a sensação que você tem é uma sensação extraordinária. Você tem uma máquina, aquele motor que você vai comandar, você vai verificar aqueles instrumentos todos, como você vai virar, como você vai cortar a gasolina depois para poder pousar, dar flap, diminuir a velocidade, “redondar” o avião e pousar, e pousei bem. Todo mundo pousava bem porque eles eram grandes instrutores. E quando davam treinamento você saia do treinamento com habilidade suficiente, com conhecimento suficiente para voar bem, para cumprir bem a sua parte. Era uma coisa, uma sensação extraordinária. O solo noturno foi o que mais me impressionou. Fizemos o solo noturno com o Voltizin, era um avião com motor radial mais potente, Pract-Witney, era um avião todo de metal, quer dizer era um...

 

P- E durante esses anos não jogou futebol?

 

R- Jogava assim no time da Base Aérea do Galeão. E nós tínhamos o campeonato das bases no Rio de Janeiro. Tinha a base área do Galeão, a Escola de Especialistas em Aeronáutica, que era também do outro lado da Ilha do Governador... Nós tínhamos a escola de Aeronáutica Cruz Afonsos, tínhamos o Grupo de Transportes Santos Dummond e o Grupo de Caças da base de Santa Cruz, então nós tínhamos o campeonato entre todos os clubes, e ganhamos duas vezes o campeonato. As duas finais contra a Escola de Aeronáutica, Base do Galeão contra Escola de Aeronáutica, no campo do Botafogo.

 

P- E continuava torcendo para o São Paulo?

 

R- Claro. Você veja uma coisa. Fanático pelo São Paulo, no campeonato de 31 eu me lembro assim vagamente da gritaria, da correria, porque em 31 eu tinha nove anos, então eu não posso me lembrar exatamente de como foi o campeonato. Eu me lembro da gritaria, meu pai satisfeito, eu nos ombros dele e a festa depois na sede. Mas me lembro muito vagamente. Em 43 eu estava na força aérea americana. Foi o primeiro campeonato do São Paulo, eu não pude assistir. Recebi uma comunicação, havia censura, as cartas vinham truncadas, cortadas... Aqui tinha censura e lá também. Se bem que lá a censura era por motivo de guerra e censura aqui era para que você não soubesse o que estava acontecendo. Que em 43 houve aquele episódio em que os estudantes se rebelaram contra o Getúlio. Foi quando morreu o Jaime Silva Teles, o João Brasil Vita, que vocês entrevistaram. O presidente do conselho, ele tem uma bala ao lado do coração que nunca pôde ser retirada. Então eu recebi cartas de colegas contando o que realmente tinha acontecido, mas não dava para você entender exatamente o que tinha acontecido porque eles cortavam, era cortado com gilete ou tesoura, né?

 

P- Mas as informações de futebol também?

 

R- Não. Meu pai mandava muitos jornais, eu pedia e ele mandava sempre jornais, até que um dia chegou um jornal junto com uma carta dele dizendo que o São Paulo tinha sido o campeão de 43. E eu nos EUA, na base da força aérea americana não pude assistir.

 

P- E o bi de 45/46?

 

R- Em 45 eu também não assisti, porque nós estávamos durante a guerra, no final da guerra e eu não pude vir a São Paulo, porque eu fui logo pra... Terminou a guerra fui diretamente para a instrução. Então não pude assistir ao campeonato de 45. A final de 46 eu pude assistir, consegui licença, vim para cá e assisti o jogo final.

 

P- O senhor viveu no Rio quanto tempo?

 

R- Ein?

 

P- O senhor viveu no Rio, morava no Rio...

 

R- Ah, eu morava no Rio, mas eu morava na base praticamente. Saia muito pouco porque no tempo da... Durante guerra não se saia da base.

 

P- Isso foi no ano de 45...

 

R- Isso de 44 até 45, até maio de 45. Mas depois tinha um apartamento ali na Gustavo Sampaio, no Leme, e como instrutor eu tinha mais folga, podia sair fim de semana, estava calor também. Então você tinha mais folga, dava pra sair, dava pra você ir um pouco mais pra praia. Dava pra você aproveitar o Rio. Mas eu tinha uma família muito grande no Rio, duas irmãs de meu pai e um irmão dele, Antônio Luiz, também mais velho, também morava no Rio, então tinha bastante família. Duas irmãs de minha mãe e um irmão dela também, tio Paulo, moravam no Rio de Janeiro, de maneira que eu tinha sempre um acesso perfeito à família. Era uma época que para se falar de telefone do Rio para São Paulo, parece mentira contar isso, você pedia a ligação de manhã cedo, mamãe falava "vou falar com Zélia", que era tia Zélia no Rio, ela pedia a ligação de manhã para talvez conseguir falar à noite. Então só aquele cenário de pedir a ligação telefônica, reunia os filhos todos para assistir, e ficávamos o dia inteiro esperando. Tocava o telefone e falavam que estava completando. Completava só dez, doze horas depois, parece inacreditável, né.

 

P- Estamos nos oito minutos finais da entrevista...

 

R- Então tá acabando o jogo.

 

P- E eu queria que então o senhor pudesse falar um pouco da participação do senhor na vida do clube.

 

R- Bom, foi essa inicialmente como jogador. Eu joguei. Se eu tivesse me dedicado um pouco mais poderia ter chegado a um... Mas eu fui um jogador razoável, você pergunte ao Novelha, ao Bauer, eu fui um jogador razoável pro meu tempo, mas dali chamei a atenção do Cid Mattos Vianna, porque quando havia reunião do juvenil ele sempre me dava a palavra para fazer a saudação pelo juvenil...

 

P- Ele foi presidente em 38...

 

R- Então foi em 38 e ele substituiu... Não, o presidente em 38... Só se o Cid foi presidente dos Estudantes então. Porque o presidente em 38, quando da fusão do São Paulo, foi primeiro o Frederico Menzen, depois, logo em seguida, o Dr. Piragibe Nogueira. Talvez o Cid Mattos tivesse sido vice-presidente... Eu não me lembro bem dele como presidente... Mas aí depois veio, eu acompanhei essa época toda, o Canindé, eu frequentava muito... Depois veio a administração do Cícero. Me lembro do tempo do Pedrosa, que era um bom amigo meu, o Roberto Gomes Pedrosa, que foi goleiro da seleção brasileira em 34 e em 38, e jogou no São Paulo também em 38; era o nosso goleiro em 38. Pedrosa foi presidente do São Paulo, como foi presidente da federação, foi o homem da lei do acesso, né. Eu tinha conhecimento com todos eles, e engraçado, eu estava na FAB. Quando eu saí da FAB entrei na Real, porque na Real como comandante você ganhava muito bem, né? Basta dizer que depois de dois meses eu comprei um carro novo à vista. Na época, se vê hoje o que significaria, quanto é que eu precisaria ganhar pra ter um carro. Não dava. Mas aí o Cícero foi eleito e meu convidou; havia um grupo, ele montou um grupo que era o departamento de recepção. Realmente, eu não recepcionava ninguém, a não ser alguma ocasião assim muito extraordinária. Mas era um grupo que auxiliava a diretoria. E fui eleito conselheiro deliberativo em 50. Fui eleito, e fui logo eleito primeiro secretário do conselho, eleição que reproduzi por mais duas vezes. Daí vim a ser diretor geral de esportes amadores, que era o tempo do Dietrich Gerner... Nós fomos, ganhamos o deca campeonato de atletismo estadual em São Paulo. Você não tinha time de fábricas, só times de clubes, inclusive clubes do interior. Fomos deca campeões, chegamos ao décimo quarto campeonato, mas aí eu já não era mais o diretor. Montei o time de vôlei do São Paulo que foi bi campeão no centenário, foi de 54 e 55, da cidade e do estado. Tinha o time de vôlei, o grupo do boxe, que o Naum tomava conta, porque eu realmente nunca apreciei realmente muito o boxe. Mas tava dentro do Departamento Geral do Esporte Amador; mas o atletismo era o nosso forte. Ganhamos o Troféu Brasil inúmeras vezes, povoamos a seleção brasileira com atletas do São Paulo, seleção paulista então nem se fala, fomos a inúmeros sul-americanos, tivemos recordistas mundiais, como Adhemar Ferreira da Silva, que foi campeão olímpico duas vezes, campeão mundial duas vezes, o Carlos Luiz Mossa, que foi um excelente atleta campeão sul-americano pelo São Paulo, nossa equipe era extraordinária lá. E depois disso eu continuei no São Paulo como conselheiro, quando veio a época do estádio, né, eu consegui. O Cícero me pediu que tomasse conta dessa parte da prefeitura, porque nós precisávamos obter uma doação do Jardim Leonor. Veja, Jardim Leonor, quando você faz um loteamento, você é obrigado a ceder uma parte de área livre pra prefeitura; você cede, a prefeitura recebe e normalmente transforma aquela área livre numa bela favela, né, nos dias de hoje. Na época já era assim. Ou então formava uma praça abandonada. Bom, nós então tivemos um trabalho grande no jurídico da prefeitura, eu já exercia, já era advogado, no jurídico da prefeitura com o Dr. Carlos Alberto Gomes Cardim, que eu vi no jornal ontem acabou de falecer, com quase 90 anos, 94 anos acho. Ele era o Diretor de Obras. E o Pedro França Pinto era o Diretor de Urbanismo, ou vice-versa. E os dois se interessaram pela ideia... Eu disse: “Os senhores nos permitam que a prefeitura nos doe a área de terreno, a prefeitura não que o Jardim Leonor, a Sociedade Aricanduva, nos doe a área de terreno, a prefeitura anui, não há necessidade que a Câmara Municipal se manifeste, não há necessidade de ceder em comodato, a área é nossa e considerem como área livre a área esportiva que nós vamos montar lá”. E eles viram a maquete, viram o projeto e concordaram plenamente. Realmente, essa praça vai ser totalmente ocupada, vai ter lazer, porque vai ter tênis, vai ter atletismo, tem tudo, tem piscina, então é uma área útil, é um pulmão pra cidade. Concordaram, a ideia foi, mas demorou meses pra conseguir. Até que o Zé Aranha conseguiu falar com o Armando Arruda Pereira, ele era o prefeito de então, apressou, assinamos o contrato e ficamos com o estádio. Aí houve a campanha do lançamento das cadeiras cativas, lançamos as cadeiras cativas, com o dinheiro das cadeiras cativas começamos os tubulões, com os cinco milhões emprestados pela Antárctica. Aliás, emprestados não, a Antárctica ficou com direito de uso do estádio, das dependências do estádio durante, se não me engano era um prazo de dez anos, ou 20 anos, não me lembro bem agora. E ficamos então com esse dinheiro e começou. Mas não dava, porque era muito dinheiro. Foi quando o Laudo assumiu; o Cícero ficou doente, o Laudo inventou o Paulistão. O Paulistão era aquele sorteio de carro, vocês pegaram esse tempo? Acho que não.

 

P- Não, mas todo mundo comenta ele nas entrevistas.

 

R- Então, o Paulistão foi um sucesso, porque ele arrecadou uma fortuna com sorteios permanentes de automóveis, e então ele pôde terminar as obras. Mas assim mesmo demorou, e demorou tanto que hoje nós estamos começando uma nova fase que é da construção da sede social. É um sonho de 43 anos. Em 52 começamos o trabalho do estádio, 51, 52 realmente. E a sede até hoje não pudemos fazer. Nós estamos em uma sede provisória, aliás, nem é uma sede, que parte da diretoria está espalhada, mas para os sócios, além da parte esportiva nós não podemos dar nada em termos de lazer. Agora é que vamos dar com esse trabalho feito com esse pool de bancos e de corretoras. Então, dentro de um ano e meio, a partir do início das obras, nós teremos uma sede no Morumbi.

 

P- Hoje o senhor ocupa que atividade no clube?

 

R- Eu sou secretário, sou presidente do Conselho Deliberativo. Fui vice-presidente na gestão anterior, durante dois anos. São quatro anos que estou sentado naquela mesa, acho que já devem estar fartos de mim já. Porque eu fui vice-presidente do Toninho Galvão e depois, na saída dele, fui candidato e passei a presidente, cargo que vou entregar agora em abril. Mas a minha vida sempre foi muito ligada ao São Paulo, ainda que eu não tivesse nenhum exercício ou cargo ou atividade interna, eu raramente perco um jogo do São Paulo.

 

P- Durante esses anos todos ligados ao São Paulo, qual foi o jogo que mais lhe marcou? Tem um especialmente que tenha lhe marcado mais, que tenha ficado registrado...

 

R- Olha, o que mais me marcou foi o seis a zero em cima do Palestra. No campo da rua da Moóca. Com Pedrosa, Agostinho e Iracino; Lysandro, Posoníbio e Felipeli; Mendes, Armandinho, Elízio, Araken e Paulo. Salvo erro, mas acho que era esse mesmo o time. Aquele seis a zero em cima do Palestra que era um timaço na época, e o São Paulo em 40 tava recém-nascido novamente, porque já tinha nascido em 30. Mas recém-nascido em 35, em 40 ele, em 38 ele não tinha três anos de vida. E demos essa surra homérica no Palestra, que eles nunca engoliram, fizeram o máximo pra um dia devolver, não conseguiram chegar. Chegaram no máximo a um cinco a dois contra nós. Mas foi um jogo extraordinário. Mas são essas coisas do futebol. O time ficou embandeirado, acho que era o maior, ia ganhar o campeonato na certa, no domingo seguinte perdemos pra Portuguesa de Desportos por cinco a zero na Rua da Moóca. (Risos) Você vê o que é o futebol, o esporte, né.

 

P- Doutor Werneck, então eu queria que o senhor finalizasse o depoimento.

 

R- Bom, você perguntou sobre o jogo que mais me impressionou no São Paulo. O jogo que me impressionou no São Paulo, esse foi o jogo da campanha normal do São Paulo. Agora, o que me impressionou no São Paulo foram os dois campeonatos da Libertadores e os dois mundiais. Os dois mundiais eu assisti, e o segundo da Libertadores eu também assisti lá em Santiago do Chile. E o primeiro da Libertadores eu assisti porque a final foi aqui. Então esses quatro jogos são os quatro jogos fundamentais do São Paulo que marcam o desenvolvimento da administração do presidente Mesquita Pimenta. Porque ele montou, pra ele o São Paulo não é apenas o futebol, também é a sede que ele lançou agora. Mas ele deu tudo o que precisava pro Departamento de Futebol pra conseguir atingir este...

 

P- Então Sr. Werneck, o senhor falou que tem quatro jogos que são muito importantes: As duas Libertadores e as duas finais do mundial. O senhor assistiu todas elas?

 

R- Assisti todas elas.

 

P- Vamos lá: A primeira Libertadores.

 

R- Bom, a primeira Libertadores foi o jogo Newlls Old Boys, né? Primeiro nós perdemos em Buenos Aires por um a zero e ganhamos aqui por um a zero. Então houve aquele famoso desempate nos pênaltis. E o Zetti, São Zetti, garantiu. Os nossos, todos entraram. E eles perderam então. O segundo nós tínhamos ganhado aqui por quatro a um do Universidad Catolica do Chile. E fomos jogar lá. A viagem era curta...

 

P- Não era cinco a zero?

 

R- Sim, cinco a zero. Não, eles marcaram um gol no final: cinco a um. Marcaram um gol no final, aliás, impedido, mas o juiz, acho que com aqueles cinco, deixou marcar. Então fomos jogar no Chile, e lá foi um desastre em termos de nervoso, porque começou o jogo, daqui a pouco eles marcaram um a zero, em seguida dois a zero. Se eles marcassem três, nós poderíamos ter que disputar por pênaltis lá. Mas finalmente o time melhorou, não sei o que deu no São Paulo aquele dia, jogou pessimamente, jogou nervoso, mas ganhamos o jogo em pleno estádio Nacional do Chile. E aplaudido. A torcida não hostilizou, não, a torcida do chileno é terrível. No final do jogo nós saímos aplaudidos de campo. E os dois jogos finais do Japão. No primeiro ano levei minha mulher. Mas ela não estava muito bem pra ir, achou muito pesada a viagem, você vai e volta quase numa semana, em oito dias. Então levei meus netos, desde que tivessem boas notas e passassem de ano. Levei os dois, têm 17 anos e pra eles foi...

 

P- São são-paulinos?

 

R- São, todos eles, todos os netos são. Porque nasceu, já põe boné, põe camisa, põe tudo, pra evitar que eles tomem um rumo assim que não sirva, né. Então, são sócios, todos, têm título, então não há meio de sair. Porque se sair também eu expulso de casa, né. (Risos) E aí esses jogos eu achei que foram sensacionais pro São Paulo, quando você pensa no São Paulo que eu conheci no Canindé, com uma sedezinha ridícula na Júlio de Mesquita, uma sede um pouco melhor depois na Avenida Ipiranga, e vê o São Paulo chegar ao máximo, quer dizer, igualou-se ao Santos, acho que foram dois jogos sensacionais...

 

P- O primeiro jogo com o Barcelona.

 

R- Foi. Eles entraram com aquela máscara típica do espanhol, que é o rei do mundo, e mal cumprimentavam a gente, tem uma pose... Porque o espanhol é muito posudo, né, o espanhol é daquele que desembarca e pergunta: “Hay govierno? Hay. Soy contra”. Porque ele é... São as anedotas típicas do espanhol. Eles têm aquela arrogância natural, marcaram o primeiro gol e acabaram tomando de dois a um. Ficou por isso mesmo, foram embora tranquilos. Já no jogo dos italianos, o Milan tem realmente um belíssimo time. Mas não sei se faltou garra ou vontade a eles, ou se eles jogam mais parados, sei que nós marcamos primeiro, eles empataram, esperava, bom, vem agora uma reação brutal do Milan, campeão da Europa. Não houve a reação esperada, nós marcamos pela segunda vez, eles também não se abalaram muito, mas, marcaram o segundo gol de empate, mas não foram para a frente como deveriam, né. E nós tivemos aquela jogada final que o Muller marcou aquele gol batendo de calcanhar, e alguns até disseram que não foi ele, que foi o Buda que desceu, entrou na área e marcou o gol por ele.

 

P- Gol de letra, né?

 

R- Mas foi um gol de letra, porque ele realmente jogou o pé pra bola e alcançou, alcançou de uma maneira meio diferente do que ele alcança. Mas foram os jogos que mais me marcaram realmente. Claro que todos os campeonatos marcam a gente, os campeonatos brasileiros, os campeonatos paulistas, principalmente aqueles campeonatos paulistas e brasileiros que nós fomos afastados por fatores extraordinários, digamos assim, não digo extraterrestres porque são terrestres. Mas na semifinal do campeonato paulista do ano passado, nós jogávamos com o Corinthians e tivemos um gol do Neto contra nós completamente impedido que o juiz validou, e um gol do Palhinha que ele anulou. Com aquilo, foi-se a oportunidade de disputar com o Palestra a final. Como também agora, no último brasileiro o ano passado. Nós poderíamos ter ido pro Japão com uma vitória, um campeonato na mão, perdemos. Foi o terceiro tri campeonato que nós perdemos. É o quinto tri campeonato que nós perdemos até hoje. Cinco vezes nós chegamos ao bi, e no tri perdemos.

 

P- Dr. Werneck, esses últimos quatro anos têm uma marca muito grande do São Paulo ter se tornado realmente uma equipe internacional, o fenômeno de “planetarização” do time. Foi criado um fã clube no Japão do São Paulo...

 

R- Tem mais de 2.500 sócios.

 

P- Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre isso?

 

R- Bom, nós fomos convidados, eu nesse dia até não pude ir. Fui representar o Pimenta que estava muito gripado na reunião da Federação japonesa. Mas o pessoal que foi ficou entusiasmado. Eram 2.600 sócios japoneses, que nunca estiveram no Brasil e que formam esse fã clube do São Paulo lá.

 

P- A que o senhor atribui isso?

 

R- Eu atribuo exatamente a essas vitórias do São Paulo e a essa promoção. Por exemplo, o Santos quando jogou, já havia televisão, foi em 63, se não me engano. Mas nós estamos 31 anos depois. Hoje a televisão é um outro aparelho, quer dizer, é uma outra promoção. Você tem o vídeo, você tem o cinema, tem os jornais que reproduzem diariamente o noticiário do exterior. Então houve muito mais impacto, apesar da era Pelé, houve mais impacto nessas duas vitórias do São Paulo. Mesmo porque os brasileiros não ganhavam lá há muitos anos, não ganhavam título, e as duas vitórias consecutivas, o bi campeonato contra dois times de grande expressão como são o Barcelona e o Milan, quer dizer, deram ao São Paulo projeção internacional. E você sente lá fora, sente no Japão, você vê a torcida japonesa era toda São Paulo. Era São Paulo. Eles têm uma afinidade conosco, quer dizer, desde que vieram pra cá os imigrantes japoneses, eles sabem de São Paulo, tem o mesmo nome o clube... Então todos eles conhecem a história do Japão, dos imigrantes, da imigração, do sucesso dos japoneses no Brasil, hoje você vê japoneses como professor, como empresário, como poetas, como pintores, desfrutando as melhores posições na sociedade brasileira e paulista. Então o São Paulo só por isso é um atrativo pra eles. E o clube pegou. Nós estamos formando clubes no interior. Você vai a Recife, como outro dia veio um amigo meu de lá, num jogo qualquer do Santa Cruz, que aliás tem a camisa do São Paulo, o que tinha de gente com a camisa do São Paulo. Por exemplo, os meninos nós estamos formando uma geração de torcedores mais novos, essa geração realmente é que vai solidificar o São Paulo dentro de dez anos. Uma meninada terrível. Os meus netos. Eu tenho um neto de quatro anos que tá sempre com a camisa do São Paulo.

 

P- Dr. Werneck, o senhor, aos 72 anos de vida, não é isso?

 

R- Estou com 71. Faço 72 esse ano.

 

P- Com 71. O senhor ainda tem algum sonho que ainda quer realizar?

 

R- Não, propriamente não. Acho que eu tive uma vida trabalhosa, complicada em algumas ocasiões, essa parte, por exemplo, de não ter podido estudar, mas eu tive uma vida assim muito diversificada. A aviação militar me marcou muito, o serviço militar me marcou bastante também, a aviação comercial também, então eu tive uma vida assim muito aberta, muito livre. Pela profissão, como advogado também viajei muito pro exterior, viajei pros Estados Unidos, viajei pro México, viajei pra Europa quase que inteira, fui a Rússia, na época a Rússia era fechada, hermética, né. Só não fui à China, mas fui ao Japão também, a serviço... Uma, duas vezes. Então eu viajei muito, quer dizer, eu trabalhei bastante, continuou trabalhando, eu só peço a Deus que eu tenha disponibilidade de continuar trabalhando até que termine a minha hora, né. Eu não quero é ficar parado sem fazer nada. Por isso que ainda dou um pouco de atividade ao São Paulo. (Risos)

 

P- E o senhor queria colocar algo mais, pra gente encerrar o depoimento?

 

R- Eu quero agradecer essa oportunidade que vocês me deram, a oportunidade, por exemplo, de... Não digo de me imortalizar, porque não seria o caso, mas de oferecer às gerações que vierem daqui a 20, 30, 40 anos, que eu não tenho dúvida que o São Paulo vai chegar lá, vai chegar lá. Então eles vão verificar o que pensavam os diretores da época, os conselheiros da época, vão ver como é que nós vivíamos, encarávamos o clube... E eu quero dizer finalmente que eu encaro este meu clube como a projeção da bandeira paulista nos campos de esporte. Repito uma frase do Porfírio: "Paulista, o São Paulo Futebol Clube é o teu clube, porque tem o nome da tua terra, as cores da tua bandeira e a alma da nossa gente". Essa frase eu nunca esqueci. Ele declamava sempre. E esse é o São Paulo pra mim. Sem desdouro dos demais, mas o São Paulo pra mim é isso. Não fosse isto talvez eu não fosse fanático até a idade de hoje, estar aqui torcendo, acompanhando futebol, fazendo gravação, suado como estou aqui. (Risos)

 

P- Me falhou uma pergunta: O senhor esteve na inauguração do Pacaembu em 39, no episódio do "mais querido"?

 

R- Estive. Foi uma cena inesquecível. Essa foi uma coisa impressionante. Veio... A inauguração do Pacaembu. O Pacaembu foi construído na administração do Prestes Maia. E eu me lembro perfeitamente que na arquibancada estava lá o Adhemar de Barros, que era o interventor federal, estava lá...

 

P- Vou ter que repetir a pergunta aqui: O senhor esteve na inauguração do Pacaembu em 39?

 

R- Estive. Eu estava dizendo que foi um espetáculo desses que nunca mais vou me esquecer, porque estava o Getúlio, em 37, esse cavalheiro que subiu com a horda do sul pra ocupar São Paulo e o Rio de Janeiro, ele queimou as bandeiras de todos os estados, quer dizer, isso já demonstra, quer dizer, uma falta de patriotismo, de sensibilidade. Eu dou um exemplo: a Suíça, cada cantão tem sua bandeira, seu brasão, seu escudo e alguns até o seu hino, né. O Brasil sempre teve as bandeiras. E as bandeiras são importantes. Por exemplo, a bandeira paulista, antes da República ser decretada era desfraldada em São Paulo com a bandeira que seria a bandeira substituta da bandeira imperial. E cada bandeira, você veja, a Confederação do Norte, a Confederação do Equador, aquela bandeira tem um histórico. A bandeira gaúcha tem um histórico da Guerra dos Farrapos, dos Farroupilhas, essa coisa toda. Então são bandeiras que destaca, você tem que ter um símbolo. Por que que o clube é um símbolo? A família também é um símbolo, você tem que se juntar a ela. Então ele havido queimado a bandeira paulista com as demais na praia do Russell, ali junto ao Hotel Glória. E nesse dia, quer dizer, ele era muito hostilizado em São Paulo, ainda em 39, apesar da Revolução ter sido realizada em 32. Mas já tinha muita gente aderindo a ele, porque o brasileiro tem mania de aderir ao governo, né. De um modo geral ele gosta se aproximar, ficar à sombra. E quando houve aquele desfile, eu me lembro que impressionou muito o desfile do Pinheiros, que era o Esporte Clube Germânia, na época. Acho que talvez já tivesse mudado, porque mudou o Palestra Itália passou a ser Palmeiras

 

P- Isso em 42.

 

R- Foi em 42 que ele mudou, quando houve a guerra. Então o Pinheiros fez um desfile magnífico. Aquela multidão, e eles eram muito germânicos, quer dizer, aquela cadência mesmo. Além do Pinheiros, causou muito boa impressão o próprio Corinthians, o Paulistano, uma belíssima impressão, que era uma equipe muito grande. E o São Paulo, recém-fundado, recém-restaurado, digamos assim, “recém-ressurrecto”, ele tinha então, de 35 pra 39, não tinha quatro anos de vida, porque nasceu em dezembro e essa festa foi em meados do ano. O São Paulo foi dos últimos clubes a entrar, exatamente pela letra, pela ordem alfabética. Entrou com o que ele tinha. Quer dizer, 30 ou 40 jogadores de futebol não mais do que isso, com a bandeira na frente. E quando ele surgiu, na porta de entrada, o estádio inteirinho se levantou, foi uma ovação extraordinária. Contam até que o Getúlio perguntou ao Adhemar, "mas que clube é esse". "É o São Paulo Futebol Clube". Então que o Getúlio teria dito: "eles estão apoiando as cores da bandeira". Não sei se é verdade, mas é uma história que corria na época. “Se non é vero, é benne trovatto”, como dizem os italianos. Sei que foi assim uma coisa espantosa, porque havia ali clubes de todas as categorias, assistentes de todos os clubes. O São Paulo foi ovacionado pelo estádio inteiro. Foi uma coisa de arrepiar.

 

P- E daí veio "o mais querido"?

 

R- Daí veio... Veio o "mais querido da cidade" quando ele ganhou. Isso foi em 39, quando a Gazeta promoveu um concurso com carros alegóricos, o São Paulo desfilou, mas isso foi mais tarde... Já acho que foi em 43, quando a moeda caiu em pé, que nós desfilamos com um carro e uma moeda grande de 400 réis, 400 réis naquela época valia o seu peso, né, não é como as nossas moedinhas de hoje. Com 400 réis você fazia muita coisa. Fazia pelo menos três viagens de bonde, usando o carrinho traseiro. Mas aí então nesse desfile pela Avenida São João, pela cidade toda, o São Paulo foi aclamado, ele tinha sido campeão, a moeda tinha caído em pé, fizemos até essa festa ultimamente, representativa, vocês foram? Tava bonita, né? Então esses marcaram muito. Agora, o São Paulo no Morumbi você vê que a torcida só vai nas grandes finais. O torcedor tricolor gosta de ficar em casa, no sofá, se ele tem o “canal 3” ele fica tomando seu uísque e assistindo jogo direto, se ele não tem, ele espera e assiste depois tomando seu uisquezinho. Ele não vai sair do sofá pra ir ao Morumbi. Agora, se é Copa do Mundo, se é Libertadores, se é final de campeonato, então ele se abala. Mas agora, essa nova geração, essa meninada, eu acho que vai suprir essa falha. Não vamos mais ter estádio vazio. Se Deus quiser. E vocês que são todos jovens, moços, tenham a oportunidade única na vida agora de se converterem ao São Paulo, não é? Se é que têm outro clube ou estão desorientados, então adiram imediatamente ao São Paulo. Que já dizia São Paulo aos coríntios: “Fora do tricolor não há salvação”. (Risos) Está na Bíblia, portanto alguém tirou.

 

P- Obrigado Dr. Werneck.

 

R- Eu é que agradeço a vocês.

 

P- Pois. Todos são convertidos.

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