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Se o Senhor quiser, eu vou ser costureira!

História de: Rosaria Braga da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Rosária Braga da Silva veio do interior de Minas Gerais para o Distrito Federal com 22 anos e três filhos, mas foi na roça, ao lado da mãe, que ela aprendeu a costurar. Se na roça a vida não era fácil, em Brasília não foi diferente, mas Rosária superou e continua superando todos os obstáculos com sua máquina de costura.

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História completa

Nasci em 24 de junho de 1954 em Vazante, Minas Gerais. Meu pai era carinhoso com a gente, nunca deu um tapa em nenhum filho. Agora, a minha mãe é mais forte, porque a vida inteira dela foi luta, foi ela que batalhou para criar os seis filhos, porque meu pai não tava muito aí, não. Eu via ela muito no tear, tecendo e lutando. As pessoas encomendavam, já levavam a linha prontinha, e ela só tecia. Ela também fiava pra fazer roupa pra marido, filhos. Eu mesma tive vestidinho de algodão feito por ela. Eu ajudava a minha mãe a fiar. Eu não tive boneca na minha infância. Eu fazia boneca, eu colocava peitinho nelas, eu fazia o “sutiãzinho”, eu fazia a roupinha. Uma prima da minha mãe falou: “Uai, Maria, a sua filha vai ser costureira, porque ela já faz coisa que eu não sei fazer”, e elas eram costureiras.

  Eu tinha 12 anos, a minha mãe andou comigo o dia inteiro, a pé, atrás de uma costureira pra fazer uma roupa pra gente ir a uma festa. E em todo lugar que a gente chegava estava cheio. Eu lembro que eu olhei pra cima, o céu estava com aquelas nuvens bem miudinhas, eu falei: “Senhor, se o Senhor quiser, eu vou ser costureira pra eu não ver a minha mãe andar mais desse jeito atrás de costureira”. E aí eu comecei. Teve um dia que eu invoquei com ela e falei: “Agora a senhora vai cortar o meu vestido e eu vou fazer”. Ela: “Você quer que eu bote o pano a estragar?”. Eu falei: “Se estragar, estraga no cortar, não no costurar, por isso que a senhora vai cortar”. Na casa do meu pai não tinha uma mesa, não tinha nada pra poder fazer aquilo. Eu peguei uma lata, coloquei de um lado, peguei outra lata, pus do outro, peguei uma tábua, pus em cima, peguei um lençol, forrei, aí dobrei o pano e pus lá, dobrei o vestido e pus em cima, e falei: “Agora a senhora corta”. E foi assim o primeiro vestido que eu fiz. Ele era assim um rosa pink, de um tecido molinho. Pensa numa festa que eu fui com aquele vestido, quantos rapazes quiseram me namorar! Só de uma aposta, eram oito!

  Eu tive duas chances de vir estudar, uma em Paracatu, outra em Brasília, mas a família muito rigorosa, muitos irmãos, “porque não pode isso, não pode aquilo”... Então não me deixaram sair pra estudar por pura ignorância, que até que eu era uma menina quietinha. Casei com o primeiro namorado. Namoro de roça, sabe como é. Um de lá, outro de cá e as crianças vigiando na frente. Foi desse jeito que namorei. Como você sabe que gosta de alguém que você nunca tocou nele, que você nunca beijou? Me empurraram pro casamento, por isso que eu separei mais tarde. Eu vivi com meus pais até casar. Quando eu vim pra Brasília, eu já tinha casado. Eu tive três filhos em Unaí, a caçula nasceu aqui. Já tinha saído de Vazante, já tava em Unaí. A minha família queria vir pra Brasília, e o meu ex-marido não. E eu fiquei: “Eu quero ir pra Brasília, eu quero ir pra Brasília, eu quero ir pra Brasília”. E foi uma confusão danada, até que ele resolveu vir.

  Quando chegou aqui, a gente teve briga no meio da rua, e ele dizendo que não queria estar. E brigou, brigou, mas pra ele só fez bem, porque ele capinava roça. Chegou, entrou na Ciplan. Porque quando eu morava lá em Unaí, eu costurava, eu tinha três filhos pequenos, e fazia comida pra levar na roça, que ele trabalhava na roça, nove horas eu tinha que estar com o almoço pronto, e duas horas da tarde tinha que ter um bolo, ou um arroz doce, ou uma canjica, alguma coisa de merenda. E cinco horas estar com janta pronta. E ainda costurava pra fora numa máquina de pedal, na maquininha de pé, com três crianças pequenas, fazendo tudo isso. E às vezes eu costurava à noite com aquela lamparina ali. Aquela lamparina foi que iluminou muitas das minhas noites lá em Unaí, com as crianças pequenas.

  Quando eu vim pra Brasília, me disseram que aqui, se não tivesse corte e costura, não costurava. Eu falei: “Eu faço”. Paguei uma pessoa que costurava, pra ensinar só pra mim. Eu já fazia roupa, eu precisava aprender a riscar. Eu já fazia tudo, só precisava aprender a fazer o molde. Com três dias eu aprendi, eu tinha 22 anos e tinha três crianças pequenas. Fiquei acho que um ano e meio, mais ou menos, em Sobradinho. Depois a gente veio pra essa chácara da Ciplan, e meu marido falou: “Mas lá não tem luz”. Eu falei: “Vamos comprar um pedal e colocar na máquina”. E eu mudei pra essa chácara fazendo trinta vestidos no pedal por semana pra uma pessoa que vendia roupa lá na torre. O dia que eu cheguei nessa chácara, eu dobrei o meu joelho no meio da sala e falei: “Senhor, eu quero sair daqui pra minha casa”. Aí comecei a fazer uma poupança. Comprei esse lote, que era pra eu pagar de três vezes. Aí comecei, fiz outra poupança pra comprar as telhas. Não sei por que eu pensei primeiro na telha, sendo que a casa precisa de outras coisas primeiro. Eu queria um teto pra eu morar e comecei a juntar, a comprar material daqui e dali. Foi graças a esse serviço pra mulher que vendia roupa lá na torre que eu consegui tirar dinheiro pra ter a minha casa, porque isso aqui pra mim é meu paraíso, é meu cantinho. Aqui não tinha quase ninguém, era morro, barranco, aí o povo foi acertando e construindo. E estão esbarrancando e construindo até hoje.

  Eu vivi o quanto pude com meu marido, fiquei casada 23 anos com ele. Família pra mim é uma coisa sagrada, mas chegou a um ponto que eu não dei conta, não. A única coisa que eu tinha medo era de que os homens não me respeitassem porque eu era uma mulher separada. Depois que eu separei foi que eu vi que quem me fazia ser respeitada era eu, e não o homem que estava do meu lado. Eu cheguei no banheiro, olhei assim bem dentro dos meus olhos lá mesmo e conversei como se eu estivesse conversando com outra pessoa. Primeira coisa que eu falei: “Você não precisa de psicólogo, nem de psiquiatra, que você não tá doida coisa nenhuma. Você precisa separar do seu marido, que é quem está te fazendo mal”.

  Eu digo que hoje eu tenho uma vida de rico, que eu fui criada de pés no chão, não tinha calçado pra calçar, não tinha roupa pra vestir, não tinha nada. Tinha dia que na casa do meu pai não tinha nem sal pra comer. Eu tive que viver e sofrer pra aprender. E, assim, não fiquei triste com isso. Eu acho que hoje eu vivo uma vida de princesa, eu tenho água dentro de casa, eu tenho televisão, eu tenho telefone, eu tenho uma caminha quentinha pra dormir. 

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