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Sem ar pelos ares

História de: Leandro Oliva
Autor: Leandro Oliva
Publicado em: 31/01/2018

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Em um daqueles domingos da década de 90, um anúncio no caderno de empregos chamou minha atenção: no mínimo 1,75m de altura, inglês nível intermediário e peso proporcional à altura. Bingo! Eu me enquadrava em todos os quesitos! Eu que nunca havia pensado neste ofício, me inscrevi e fui sendo aprovado em cada uma das rigorosas fases para me tornar um comissário de voo.

 

O dia a dia na profissão era exaustivo, a aviação comercial herdara muito da aviação militar e a rigidez era uma característica. O comandante é a figura máxima dentro da aeronave, quase tínhamos que beijar o sapato de cada um deles. Entre os comissários, há sempre um chefe na tripulação e os auxiliares são distribuídos em diferentes funções dentro do avião. Em um voo, eu ali começando na carreira, estava na galley dianteira - aquela área sobre a qual muitos amigos me perguntavam: “E aquele cafofo que vocês fecham a cortina e ninguém sabe o que acontece? Ou: “É impressionante como de uma cozinha tão minúscula sai todo o tipo de prato”. Em um Boeing 737, era responsável por atender a cabine: comandante e copiloto. Eis que durante a entrada de passageiros, o comandante – um homem alto, com cara de alemão, cabelo loiro curto, que caia, desordenadamente, na testa, uma vermelhidão na face com musculatura tensa, olhos claros, saído das histórias de suspense de algum capitão do mar – me chamou à cabine e pediu um whisky. “Whisky”, pensei, “é isto mesmo que ouvi?” Fiquei preocupado, achei melhor perguntar ao chefe daquela tripulação: - “O comandante pediu whisky, o que faço?” A resposta foi ríspida: - “Você está doido? Leve já, sem pestanejar, talvez seja para limpar algo, funciona como álcool”. Eu, sem graça, sempre focado no exemplar padrão de qualidade e atendimento, levei rapidamente.

 

Momentos depois, com a porta fechada, escape-slide conectado - lembro do nervoso de não poder esquecer aquilo de jeito nenhum, era motivo de demissão por justa causa, afinal, em uma emergência, aquela simples barra, como num passe de mágica, se transformaria em um escorregador cinza inflável gigante para salvar todo mundo, praticamente, uma rampa da Arca de Noé repaginada) - enfim, com tudo em ordem e motor ligado, ouço a chamada da cabine apitar, era o comandante que solicitava mais uma dose de whisky. Eu, tenso, apreensivo, achando estranho e sentindo-me cúmplice do que poderia se tornar um acidente aéreo, sentia o suor escorrer pelas mãos e da testa inundar vincos até o maxilar.

 

Após a decolagem, sinal de cinto de segurança desligado e serviço de passageiros realizado, o comandante pede mais uma dose. Ao adentrar a cabine senti minha pálpebra, em menos de três segundos, ganhar uma elasticidade até então nunca imaginada, deparei-me com a figura germânica completamente fora de si, o copiloto com cara de que todo seu dinheiro da poupança havia sido confiscado pelo Plano Collor, fuzilando-me com seu olhar, eu desesperado, trêmulo, sentindo-me culpado e, extremamente, nervoso. A saliva passava com dificuldade pela garganta. Poderia ser a última viagem para todos que estavam naquela aeronave, “o-pi-or-se-a-pro-xi-ma” - piscava como um letreiro em minha mente. Ao olhar no relógio, os minutos se arrastavam, os ponteiros se moviam lentamente, como embriagados. O trajeto parecia não ter fim...

 

Com as nuvens ficando distantes e os prédios ganhando escala natural diante das lacrimosas castanhas janelas de meu rosto que se desconfiguravam grudadas à uma embaçada janela do avião, a sensação de alívio se aproximava. Enfim, pousamos, acho que em Confins/Belo Horizonte. Pude respirar, mas a pele não relaxava, um corpo tenso caminhava em direção ao desembarque do aeroporto. Na van com toda a tripulação reunida, noto todos cochichando e rindo, ao que ouço do comandante: - “Então, o Oliva caiu no trote!” O instantâneo e gigantesco reflexo da brancura e amarelado de tantos dentes expostos simultaneamente, bocas mais que abertas, lábios expandidos, pescoços que iam para frente e para trás, o volume alto das gargalhadas, trouxeram em mim raiva e desconfiança. Estes sentimentos cresceram ao concluir que todos sabiam que era um trote desde o início, já que era meu primeiro voo sem instrução.

 

Aos 21 anos, a partir do meu silêncio e ódio a caminho do hotel, percebi o quanto eu também era rígido. Faltava-me sorrir com a alma. A seriedade de mãos dadas à sisudez era como um sinal de padrão de qualidade. Fui ganhando aos poucos o bom humor no cotidiano profissional, principalmente, após abandonar a aviação e decidir viver de e com arte enchendo os pulmões com ar, aguçando os sentidos, colorindo a imaginação e reconhecendo o poético da vida! Nada como relembrar 22 anos depois…

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