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História

Sou um cara que cheira livro

História de: Eliardo França
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/07/2008

História completa

IDENTIFICAÇÃO:  Eliardo Neves França. Nasci em 17 de junho, em Santos Dumont, Minas Gerais. Eu brinco com o pessoal de lá que nasci na terra dos irmãos Wright. Eles quase me matam. Mas é uma Santos Dumont diferente de hoje, era uma cidade bonita, arrumada e muito agradável na minha época. Hoje está meio “enfeiada”, se é que eu poso usar esse termo. Não sei houve o aumento da população e o empobrecimento. Porque era uma cidade rural, tinha as fazendas Santos Dumont, era uma bacia leiteira muito grande. Tinha a indústria de queijo, o famoso queijo Palmira, queijo do reino também, que era muito vendido aqui em São Paulo, no Norte, Nordeste. Começou lá, começou exatamente em Santos Dumont. Era o queijo bola, que era uma delícia. Eu acho que hoje tem umas imitações por aí, mas não é mais aquele queijo, pelo menos não pra mim.

 

PAIS:  Meu pai é José França Gontijo e minha mãe é Hélia Neves. Minha mãe era professora. Ela nunca exerceu a profissão, mas ela era formada o que na época se chamava curso normal. Que eu acho mais interessante que magistério, magistério parece um bicho pré-histórico. Magistério, megatério, climatério... Ela era professora e meu pai era bancário, contra a vontade dele. Ele viveu 35 anos em banco absolutamente infeliz, porque a mãe dele morreu quando ele era uma criança, ele tinha quatro anos, e ele viveu assim com os parentes, com o irmão mais velho, depois com a irmã mais velha que o criou, cuidava dele e tal. E quando ele tinha 18 anos ele queria fazer o curso Rio Branco, ser diplomata. Ele tinha um amigo que era da mesma cidade dele, de Dores do Indaiá, e a intenção deles era fazer o curso de diplomacia. Mas a minha tia disse que não, que aquilo não dava em nada, que esse negócio de diplomata não era pra ele. Ela era amiga de um outro conterrâneo deles que tinha um banco, era banqueiro, e ela disse: “Você vai trabalhar em Banco, porque a profissão do futuro é ser bancário.” Então ele foi ser bancário e viveu 35 anos querendo fazer outra coisa. Meu pai era meio que artista, ele gostava de desenhar, mas nunca desenvolveu nada disso. Ele tinha uma habilidade para desenho, mas não desenvolveu. Mas era um leitor, sempre foi um leitor, e talvez essa coisa minha de gostar de ler vem daí. Talvez não venha daí, porque na minha casa sempre teve livros, sempre convivi com livros. Mas essa foi a história dos meus pais.

 

AVÓS:  Os maternos eu conheci, e quando e a minha avó morreu eu já tinha 18 anos. Meu avô foi bem depois. Meu avô era português e ele tinha laticínio em Santos Dumont, ele tinha uma indústria de queijos e leite e tinha uma fazenda que mantinha essas coisas. Parte da minha infância também foi passada na fazenda ferias e tal. Aquilo era um paraíso. Eu nadava em rio, pescava, tinha cavalo. Imagina um menino de seis ou sete anos ou oito anos com um cavalo. Podia montar a cavalo e sair passeando. Eu aprendi a nadar em rio, subir em árvore, pegar fruta no pé e essas coisas todas de fazenda. Foi uma infância muito legal porque a infância do interior naquela época você não tinha preocupação. Porque Santos Dumont era uma cidade pequena e continua sendo, mas não tinha bandido. Os únicos bandidos éramos nós que brincávamos de mocinho e bandido. Os bandidos que a gente conhecia era o pessoal da turma, que brincava pela rua. Tinham poucos automóveis, e você passava o dia inteiro lá. Quando não estava na escola, era brincando na rua com a turma. Todo mundo conhecido. Uma infância muito enriquecedora.

 

BRINCADEIRAS DA INFÂNCIA:  A gente fazia os nossos próprios brinquedos. Era o carinho de rolimã, que a gente andava pelas duas ou três oficinas mecânicas da cidade atrás de rolimã para fazer os nossos carrinhos. O carrinho de rolimã, para quem não sabe, é um carrinho que você faz com tábuas e tem aquelas rodinhas de rolimã, e você despenca numa descida e vem com tudo. Você o dirige com os pés, porque as rodas dianteiras são móveis, então é ali que você dirige. Às vezes eu tinha arranhões absolutamente saudáveis, sem maiores conseqüências. A gente jogava muito bolinha de gude, jogo de botão, tinha um negocio de um finco, que era uma haste de metal em que você jogava no chão e aquilo tinha que cair em pé fincado. Depois você fazia um triângulo ali e ia jogando o finco e ia fechando o círculo. Vencia quem prendia o outro. Então, você jogava o finco aqui e puxava uma linha, o outro jogava mais na frente e ia te fechando e você tentando e saindo. Tinha o aro, que você fazia um aro de metal com uma haste de metal, e ia equilibrando, tocando o aro...enfim eram esses os nossos brincados. E a cachoeira. A gente pescava de guarda chuva lá em Santos Dumont Tinha uma cachoeira em que a gente pescava com guarda chuva, porque tem uma época do ano, acho que fevereiro, se não me engano, que tem a desova. Hoje eu sei que é uma tremenda de uma sacanagem, mas na época a gente não sabia. E na época da desova o peixe sobe o rio, e quando chega à cachoeira, ele salta. O lambari salta para ultrapassar a cachoeira. Então, você põe um guarda chuva ali aberto e ele cai ali. Você leva quilos de lambari pra casa. Aquilo frito passado no fubá de milho é uma delícia. Eu nasci numa casa muito grande, muito boa. O meu avô era uma pessoa de posse, era um cara rico na cidade por causa da indústria de queijo que ele tinha. E ao lado, tinha a minha casa, que era muito menor, mas ela tinha comunicação. Tinha uma cerquinha lá, mas só para constar. Então eu tinha um quintal grande, e a casa dos meus avós era uma casa muito bem estruturada, muito bonita. Quando meu avô era jovem, que ele voltou à Europa, ele e o irmão dele compraram uma planta de um engenheiro francês e ele fez essa casa em Santos Dumont, que é uma planta de um francês. E o irmão dele fez a mesma casa, igualzinha, em Copacabana, no Rio. Eles importaram tudo, porque na época você importava vidros, aqueles vidros coloridos. Então, era uma casa chique, mas na época a gente não estava interessado em casa chique, nos lustres e cristal. A gente estava interessado no quintal, e em brincar com os cachorros. Os nossos amigos cachorros, pegar passarinhos, essas coisas. Eu pegava passarinho, mas eu soltava. Eu matei um único passarinho na minha vida, sem querer. A gente tinha atiradeira, que era um outro brinquedo, o estilingue, e uma vez eu joguei uma pedra e ela acertou no passarinho sem eu querer. Eu não queria matar o passarinho e eu acabei matando um passarinho, o que me deu uma dor na consciência por muito tempo. Mas a gente pegava passarinho e soltava. Pegava tiziu, canarinho e acabava soltando. O prazer era pegar e vê-lo entrar debaixo da arapuca e prendê-lo. Nós construíamos a arapuca, que era uma pirâmide feita com pauzinhos. Você fazia primeiro a estrutura e ia colocando pauzinhos até fechar em cima, uma pirâmide mesmo. Então, ali você levantava uma parte dela e colocava um esteio. Nesse esteio tinha uma outra madeirinha transversal que o passarinho quando pisasse, ele derrubava. Como aquilo sustentava a arapuca, ele ficava preso ali em baixo. E a gente colocava ali fubá, canjiquinha e tal, o passarinho que entrava lá para comer esbarrava naquela haste de madeira e se prendia ali. Ou então, às vezes, nessa própria haste, a gente colocava uma linha, um fio, e quando ele entrava em baixo, a gente puxava e prendia o passarinho. Pobre do passarinho. A gente fazia pipa. Cortava o bambu, aparava as varetas e construía a pipa. Às vezes tinha briga de pipa. A nossa turma da rua soltava pipa e da outra rua também e elas se cruzavam no ar. A gente passava cerol, que era um grude com caco de vidro na linha, que passava próximo da pipa. Aí, quando vinha a outra, você puxava e você cortava a linha do outro. Então, o papagaio do cara ia embora. Às vezes, o nosso ia embora. E cerol era uma cosia terrível, porque isso era um perigo, isso corta mesmo. E nós somos dois. É um irmão. Eu sou mais velho dois anos, mas para mim ele já era menino, não entrava na turma, não. Até hoje eu tenho amigo daquela época. Amigos de quando eu tinha sete anos. Amigos e amigas. Também várias meninas que estudaram comigo. Então, até hoje a minha razão para voltar a Santos Dumont é ver essa turma.

 

O LIVRO DA INFÂNCIA:  Eu sempre convivi com os livros. Era uma coisa que fazia parte do cotidiano. O que eu me lembro é que o meu presente quando eu tinha seis anos foi um livro do Andersen, que foi O Patinho Feio. Eu gosto do cheiro de livro, a memória olfativa é muito forte. É mais forte que tudo em termos de memória. Eu sou um cara que cheira livro e quando eu cheiro aquele cheiro de livro eu volto imediatamente à infância. Tenho uma amiga que vocês já entrevistaram aqui, que é uma figura maravilhosa, a Tatiana Belinky, e ela fala que ela tem um livro de cheirar e quando ela quer voltar à Rússia. Ela nasceu lá e quando ela quer voltar à Rússia, ela dá uma cheirada nesse livro, dá uma cafungada e vai direto pra lá. Então, eu sempre tive essa convivência com livro e hoje uma das minhas diversões prediletas é exatamente a da leitura. Eu aprendi a ler na escola. Antes do grupo escolar, eu tinha uma professora que dava aula para algumas pessoas e eu aprendi a ler com ela, a Dona Miquita Horta. Fazia também um pastel maravilhoso. Na minha época, tinha o Monteiro Lobato. Seguramente eu comecei a ler com toda a obra dele: As Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, Matemática de Emília, Poço do Visconde, toda obra dele e, um pouquinho mais tarde, Os Doze Trabalhos de Hércules, que eram livros maiores e eram absolutamente fascinantes. Eu era apaixonado por essas coisas. O Monteiro Lobato também escreveu uma peça, na verdade uma peça publicitária, mas que hoje é um clássico: Jeca Tatuzinho, que ele fez isso para o laboratório do Biotônico Fontoura. Era um cara que vivia amarelo e era na roça, era um capiau que vivia descalço, até o dia que ele toma o Biotônico Fontoura e fica alegre, satisfeito, gordo, bonito, rosado. Era uma coisa maravilhosa. Eu acho que tenho esse livro até hoje, era um folhetim, Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato. Eu adorava a Caçada de Pedrinho, toda obra de Monteiro Lobato eu gostava muito. Era o que a gente tinha. Tinham outros livros que eles diziam que era para criança e a gente era obrigado a ler, mas que era um desincentivo à leitura. Eu me lembro que tinha um conto do Coelho Neto, que eu cometi uma injustiça muito grande com Coelho Neto, porque eu achava que ele era chato e depois eu descobri que ele era muito chato. Então, ele tinha um conto que era a história de um menino, uma coisa terrível. O menino fingia que estava se afogando e gritava socorro para a turma ir lá e pegá-lo. A turma ia e pegava ele ria, gozava todo mundo “Não estou afogando nada, estou gozando vocês.” Até que um dia ele estava gritando socorro e ninguém foi lá, porque achavam que ele estava gozando e ele estava se afogando mesmo. E o moleque morreu. Era uma coisa terrível. E, coincidentemente, eu tinha um amigo que sentava comigo no ginásio que morreu afogado lá em Santos Dumont numa represa. Ele desenhava bem. Eu me lembro dele desenhando uns cavalos. Eu ficava com uma inveja danada do cara. José Antônio, o nome dele.

 

OS PRIMEIROS DESENHOS:  Tinha essas coisas que diziam que eram contos para criança, contos de exemplo. Eu não me lembro bem, mas você era obrigado a ler essas histórias. No dia seguinte você tinha que contar a história que você tinha lido. Isso eu não gostava. Eu acho que era um desincentivo à leitura. Assim como o desenho. Eu sempre fui o desenhista da sala, aliás, voltando aos sete anos, eu era o desenhista da sala. Então tinha lá um jornal que era uma cartolina e tal e você fazia nas datas o dia do índio, o dia da árvore, 21 de abril e tal. Aí, a professora me deu uma cartolina, que ela tinha comprado uma cartolina branquinha, e era o dia da árvore. Ela pediu para que eu desenhasse uma árvore para o jornal. E eu desenhei uma árvore azul e fiquei de castigo por causa disso, porque não existem árvores azuis, as árvores são verdes com o tronco marrom. Ela me botou de castigo porque eu tinha estragado a cartolina dela. Se eu não fosse tão cabeça dura, era para parar de desenhar ali no ato. Nunca mais pegava num lápis. Ia ser mesmo engenheiro, médico, cortando os outros, mas eu continuei. É uma história exemplar. E mais tarde, eu li uma frase do Picasso que ele dizia que aos doze anos de idade ele desenhava igual ao Rafael Sanches – mentira, ninguém desenha aos doze anos de idade igual ao Rafael Sanches – e que ele levou 70 anos para aprender a desenhar igual a uma criança. O primeiro desenho que eu me lembro de ter feito foi de uma história em quadrinho. Tinha um dever de casa na época que a professora lia uma história e você chegava em casa e o dever era reproduzir essa história. A gente chamava de composição. E um dia a professora leu lá a história do Rato do campo e o rato da cidade e eu não escrevi, eu fiz uma história em quadrinhos daquilo. É uma pena que tenha perdido isso, mas eu me lembro perfeitamente dos desenhos que eu fiz na época. Então, sempre foi uma convivência e eu sempre soube que eu queria desenhar e que era isso que eu queria fazer da minha vida. Sempre soube, nunca tive dúvidas a esse respeito. Em princípio, todo mundo achava bonitinho, mas quando a coisa ficou séria, aí não podia, “Você não pode fazer isso Como é que você vai viver de desenho”? Não dá para você ficar desenhando aí caricatura, garatuja, eles falavam “garatuja”. “Garatuja nas costas de caderno não vai te dar camisa, você tem que se formar, você tem que ser advogado, você tem que ser médico”. Principalmente médico e engenheiro que era coisa da época, você tinha que ser um doutor. Mas eu nunca dei bola para aquilo. Tinha uns primos que formaram, tenho um primo que foi pro ITA e ele era o exemplo. Eu ficava morto de raiva do cara. Tinha vontade de matar esse cara, porque não tinha nada a ver comigo, eu não queria ser médico, ser engenheiro. Eu queria desenhar. E na época de vestibular, eu terminei o curso, hoje 8ª série, e tinha que fazer vestibular. Aí eu fui fazer um vestibular num cursinho de Arquitetura, que pra mim era a coisa mais próxima do que eu queria. Pelo menos tinha uma prancheta, tinha régua, tinha lápis, e você fazia alguma coisa de desenho. Eu fiz cursinho na Escola de Arquitetura, que era uma das melhores do Brasil. Na época era em Belo Horizonte a Escola de Arquitetura. E um professor virou pra mim e falou: “Cara, teu desenho não é Arquitetura, não. Você tem que pintar, você tem que desenhar. Isso aqui é outra coisa”. E eu agradeci a ele e nunca mais voltei lá. Então, terminou aí a minha carreira de arquiteto.

 

MUDANÇAS:  Eu fiquei em Santos Dumont até os 17 anos, até quando eu terminei o ginasial. Depois eu fui estudar em Belo Horizonte, porque em Santos Dumont não tinha o curso científico. Eu fui estudar em Juiz de Fora na Academia de Comércio, depois estava muito apertado lá eu passei para o Colégio São José, que era mais liberal. Bem mais liberal. Juiz de Fora já era uma cidade grande, uma cidade também belíssima. A Avenida Rio Branco era uma avenida toda arborizada de casarões do século XIX de um lado e de outro. A importância que Ouro Preto tinha no século XVIII, Juiz de Fora tinha no século XI. A importância de arquitetura, mas acabaram com tudo. Após a Segunda Guerra Mundial, começou a “modernização” do Brasil, porque você imita o exemplo dos vencedores e nós éramos vencedores da segunda guerra mundial com os Estados Unidos. Até a Segunda Guerra mundial era francês. A Avenida Rio Branco no Rio também era belíssima com todos aqueles casarões. Então, era aquele modelo francês. Depois da guerra, como vencedores, vamos imitar Nova York. Aí começaram os espigões sem nem um sentido, porque o Brasil tinha espaço para crescer na horizontal, mas acharam que os espigões era modernidade, e aí acabaram com a Avenida Rio Branco. Teve um prefeito em Juiz de Fora, formado em Engenharia, com toda turma dele de engenheiros, que formaram vários grupos de construtores. O prefeito, como era amigo, liberou geral. E esse prefeito chamava-se Itamar Franco, se quer dar nome aos bois. Está aí o boi chamado Itamar Franco. Foi ele que começou uma modernização da cidade. Mas tudo bem, era coisa da época. Eu morei no centro. A gente formava uma república de estudantes que vinham de fora, vinham estudar em Juiz de Fora. E depois eu morei em algumas casas de família que alugavam quarto. Em algumas vezes em ruas até muito legais como, por exemplo, a Rua Osvaldo Cruz, que era uma rua também toda de casas. Até hoje ela é toda de casa. Nossa república era uma zona como toda república. Um entra e sai de tudo quanto é tipo de gente que você possa imaginar. Mas era legal, eu nunca tive problema com os amigos da república. E final de semana a gente ia para Santos Dumont, quando não ia no meio da semana. Mas você não podia chegar no meio da semana por causa dos pais. “Que você está fazendo aqui? Devia estar lá estudando”. Então, a gente ia sexta-feira para casa.

 

CONTATO COM A ARTE:  Os artistas locais eu conheci primeiro. A gente tinha pintores, o Bracher, o Rainer Gonçalves, que Deus o tenha, que era um cara que nunca gostou de mostrar o trabalho dele, mas que era um artista fantástico, muito bom; o Paulinho Simões, o Rui Merrepe, meu grande amigo que também já foi, e o Rui, que além de ser um artista, era um intelectual, muito culto. Também era o tipo de amigo que se você tinha problema com a namorada, você ia contar pra ele “Rui como é que eu faço?” ele te dava as dicas: “Faz assim, faz assado”. Então, primeiro eu conheci os locais. Aí, através deles, exatamente através deles e muito através do Rui, que sabia tudo de arte, conhecia outros. Você não tinha televisão. Com 17, 18 anos, na época, a televisão não significava nada. Minas Gerais é um celeiro muito grande, principalmente de desenhista. Tem muito desenhista em Minas. E aí eu comecei a descobrir Guignard, quem era Guignard. Guignard na época era década de 50, final da década de 50, era vivo ainda. Ele morreu, se não me engano, em 61. Eu até tenho uma história interessante do Guignard, porque eu tinha um parente em Belo Horizonte que era muito rico, ele tinha uma casa muito grande com um porão grande lá na casa dele. E o Guignard vivia mudando, ele não parava, ia para Friburgo, ia para Penedo, Mauá, ele vivia por aí, e pagava os hotéis dele com quadro. Teve uma época que ele estava se mudando para Ouro Preto e ele tinha uma batelada imensa de quadros. Então, pediu para esse parente meu para guardar os quadros, disse “Você tem um porão grande, me deixa botar esses quadros lá enquanto eu estou mudando, não sei para onde vou levar isso”. Acho que ele já era professor lá em Belo Horizonte, era professor de Artes, e o cara deixou ele botar os quadros lá, é evidente. Mas os quadros ficaram lá um tempão e um dia esse primo falou com ele: “Olha, você tem que tirar os quadros de lá, porque aquilo é muito úmido, é um porão, e aquilo vai mofar e estragar os teus quadros. Tira eles de lá.” Aí o Guignard já tinha uma casa em Ouro Preto e falou: “Está bom, eu vou tirar”. Então, chegou lá e falou “Você escolhe pra eu te dar seis quadros”. Seis, de presente Meu primo disse: “Não, de jeito nenhum, eu não quero”. “Você vai escolher. Se você não escolher, escolho eu” E acabou escolhendo seis quadros, escolha do Guignard. Inclusive um quadro que eu nunca vi reproduzido por aí. Eu vi esse quadro. Um quadro muito bonito. Eram as montanhas de Ouro Preto, mas era um quadro todo cinza, com aquela névoa. Era um dia cinza meio chuvoso e com umas casinhas brancas. Era maravilhoso o quadro, absolutamente maravilhoso.

 

MARY FRANÇA:  Às vezes brinco que o ilustrador esperto tem que casar com a escritora. Porque você briga em casa, você cria em casa, tudo acontece, então é muito boa essa coisa quando você tem oportunidade de criar um livro juntos, porque no nosso processo de trabalho ela dá opinião sobre o meu desenho e eu opino também sobre o texto dela. A gente cria coisa junto. Às vezes não com tanta calma como eu estou falando, e tem quebra pau, mas é muito legal, não há mágoas, nenhuma mágoa. Ao contrário, é muito gostoso, muito gratificante você ver o seu livro nascer. Eu conheci a Mary em 63. Tem um tempinho. Eu brinco dizendo que eu conheci a Mary num baile fantástico, todo mundo de black-tie e longos e champanhe e rosas e violinos. Mas a verdade não foi essa. Eu conheci a Mary num baile de carnaval. Foi em Santos Dumont, porque a gente ia passar o carnaval lá. Eu já morava em Juiz de Fora nessa época, mas a gente ia passar o carnaval, festa e grandes feriados em Santos Dumont. E, evidentemente, o carnaval era uma festa na época. A gente esperava carnaval, porque era muito diferente do carnaval de hoje, era carnaval de clube. Então, a gente tinha um clube, e tinham os bailes de carnaval no clube, com lança perfume, que a gente jogava. O tesão era jogar lança perfume nas costas das meninas, mas tinha todo aquele clima. Hoje, se eu sentir o cheiro de um lança perfume, eu vou voltar imediatamente àqueles carnavais com serpentina, confete, as grandes marchinhas feitas exatamente para o carnaval, coisa que acabou. Ninguém faz mais marchinha de carnaval. Enfim, era uma festança muito esperada. Tinha gente que vinha ao Rio para comprar caixas de uísque, levava e dividia com a turma. Era a única ocasião em que a gente bebia, porque nós não éramos de beber. Pelo menos a minha turma não era. Nós não bebíamos nada durante o ano inteiro, mas chegava no carnaval entornava, enchia a lata. Não me lembro também de grandes porres, não. Era aquela coisa normal, porque você gastava tudo ali pulando. Eu a conheci nesse baile, Um amigo meu do Rio que estava passando também o carnaval lá e falou: “Olha aquela baixinha lá está olhando para você” eu falei: “Que baixinha?” Eu estava interessado numa outra menina, numa paulistana e eu falei: “Não quero saber de baixinha, não”. “Mas olha a mulher, está lá. Não tira o olho de cima de você” Aí eu bati o olho nela e “Vamos experimentar”. Aí fui pular um pouco com ela e a gente começou ali um namorinho. Isso no carnaval de 63. E deu no que deu. Ela também morava em Juiz de Fora, e também estava passando o carnaval lá. Era divertido. Esse cara que me apontou a Mary, ele chama Johny. Eu perdi o contato com ele e anos mais tarde um amigo no Rio me mostrou uma foto de uma turma de teatro, porque ele fazia teatro no Rio, aí eu bati o olho e falei: “Esse cara é o Johny”? Ele disse: “Como você conhece o Johny”? Eu falei: “Foi ele que me apresentou a Mary”. Uma coincidência assim imensa.

 

ESCOLHENDO CARREIRA:  Aí foi nessa época desse carnaval que eu estava desistindo de Arquitetura, e eu pensei também em fazer Jornalismo também por causa de livro, mas também desisti. Também não era pra mim. Então, eu estava naquela coisa de como eu ia começar a carreira de desenhista, que eu queria ser. Eu sempre quis. E eu queria fazer história em quadrinho e a maior editora talvez da América Latina era a Editora Brasil América, no Rio. Então, eu fiz uma série de desenhos, e nessa época eu já estava indo para Belo Horizonte, porque eu morei uma temporada em Belo Horizonte. Mas aí eu fiz umas páginas de história em quadrinho e fui ao Rio. Levei à Editora Brasil América sem avisar, sem telefonar sem nada. Bati lá na porta, o editor que era o Adolfo Aizen, que hoje é uma lenda, porque foi ele que trouxe a história em quadrinho pro Brasil através do Suplemento Juvenil naquela época do Jornal A Noite, meio que sócio do Roberto Marinho. Aí encontrei com ele na porta da editora e digo: “Senhor Aizen, eu quero falar com o senhor, eu quero mostrar um desenho” E olhou pra mim e falou: “Vem cá” me levou na sala dele e mostrei os desenhos. Ele falou: “Você tem jeito, mas história em quadrinho vem pronta dos Estados Unidos, você não tem jeito de concorrer com eles. Porque já vem um filme que já rodou o mundo inteiro, então é muito pequeno no que eu teria que te pagar. Esquece história em quadrinho, o futuro da ilustração, do desenho, são os livros para criança.” Ele cantou a pedra na época. Isso aí década de 60. Profético. Aí me deu um texto “Ilustra esse texto aqui, deixa ver como você se sai”. Eu fiquei lá uma semana, dez, quinze dias, não sei, e voltei lá com os desenhos prontos. A história se chamava Zé e o Jacaré que era do Fernando Oballi. O Fernando Oballi trabalhava lá na editora, escrevia também. Hoje ele tem livros publicados. O Fernando Oballi fez um livro importantíssimo sobre o Oscar. Toda a história do Oscar de todos os anos. Ele faleceu ano passado e até o ano passado ele tinha toda a história do Oscar. Bom, aí ele me deu esse texto para ilustrar e eu fiz as ilustrações e levei. Ele achou legal, me pagou e nunca publicou. Porque não estava bom, mas ele pagou para incentivar. Anos mais tarde você saca essas coisas. Na época você não vê isso, você não enxerga isso. Foi muito legal, foi uma figura importantíssima na minha vida. E ele encomendou outro texto. Eu fiz as ilustrações. Ele pagou também, e na terceira vez ele falou assim: “Tá legal, você vai ilustrar. Vou te dar um autor, umas histórias de um autor muito importante que vai ser muito bom para você”. Era o Malba Tahan. Malba Tahan é uma figura importante na literatura brasileira. Ele tem um livro que até hoje é muito conhecido que é O Homem que Calculava e que também era um dos meus preferidos. Então, Malba Tahan para mim também era um herói. E eu conheci o Malba Tahan. Eu achei que ia encontrar aquele árabe de barba, com aquelas roupas tuareg e tal. Nada, era o professor Júlio César de Mello e Souza. Grande professor de Matemática do Colégio Pedro II, no Rio. Mas uma figura ótima também, muito engraçado, muito espirituoso. Perto dele eu não sabia o que eu falava, porque o cara era um herói. Eu tinha lido livro dele desde menino. E aí nós estávamos na sala conversando e aí entra a neta dele, na época ela tinha oito anos, e ele fala assim: “Esse aqui vai desenhar um livro do vovô”, e ela falou: “Esse cara vai desenhar livro, ele não sabe desenhar, não”. Ela não acreditou. Ela não acreditava que um desenhista estava ali presente, ela achava que era uma entidade, uma coisa que fazia aqueles desenhos. E eu tinha 25 ou 26 anos, por aí. Eu tive que fazer um desenho ali para mostrar que eu sabia desenhar. Imagina, eu não acreditava que eu estava diante de um escritor e ela não acreditava que estava diante de um ilustrador. Muito engraçado. Então, aí eu fiz. Foram seis livros que foram publicados. É uma coleção chamada Malba Tahan Conta Histórias. Hoje está esgotada. Bom, a partir daí, eu conheci o Célio Barroso, que era um desenhista que estava começando um trabalho na Editora Conquista e a Editora Conquista também no Rio, do Sebastião Oliveira Ersen, que era o nome do editor. Uma figura também absolutamente fantástico. Era um cara que queria fazer coisas no Brasil. Um dos primeiros livros que ele publicou foi exatamente O Homem que Calculava.. Os livros do Malba Tahan foram publicados por ele, os primeiros livros da Malba Tahan.

 

ANOS 60:  Eu queria voltar um pouquinho ao final da década de 60, nessa época eu comecei a fazer algumas. Eu conheci o Ziraldo e ele falou: “Nós estamos fazendo uma seção na Revista O Cruzeiro, que era uma revista muito importante na época. O Cruzeiro era uma revista do Diário Associado do Chateaubriand e tinha uma divulgação boa, tinha uma edição com milhares de exemplares que era vendida, distribuída pelo Brasil inteiro. E estava fazendo uma parte, um caderno no Cruzeiro que chamava O Centavo, que eram cartuns. E eu cheguei a fazer lá não sei se um ou dois anos. Hoje eu vejo aquilo e acho muito bobo os meus. Mas foi uma época que apareceu muita gente que está aí hoje, o Juarez Machado, o Nani, muita gente importante que está aí fazendo coisas e até hoje aí trabalhando nisso. Em 1960, o Jornal do Brasil criou um caderno infantil chamado Caderno I, que durou dois ou três anos, e eu fiz muita coisa pra eles, trabalhava com muita coisa para eles. Conheci pessoas assim que são minhas amigas até hoje, por exemplo, a Marina Colasanti, que é uma pessoa que eu adoro, que é minha amiga. Eu gosto muito dela e do marido Affonso Romano, também de Juiz de Fora. Tinha uma pagina só de história em quadrinho baseada nesses contos clássicos, fábulas de Esopo, A Raposa e as Uvas. Enfim, uma re-interpretação em quadrinhos das fábulas, e eu fazia capas para esses cadernos. Foi uma época muito gostosa e uma época áurea do JB. O Dines era o editor, tinha um pessoal lá.

 

OS LIVROS INFANTIS NO ANOS 70:  Olha, tem muita coisa nascida na década de 70 assim da maior importância que estão aí até hoje. Eu não vou citar, porque fatalmente eu vou esquecer alguém, mas foram coisas muito importantes que aconteceram a partir da década de 70 com a criação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, que deu um incentivo nisso muito grande. Eu não sei foi um momento mágico em que os editores também se conscientizaram de que era importante fazer coisas no Brasil. O que tinha, o que vinha de fora não era de boa qualidade e que a gente tinha gente e material gráfico para fazer isso. Hoje, você tem livros no Brasil tão bem impressos e tão bem feitos como qualquer parte do mundo, da Europa, Estados Unidos. Enfim, nós temos uma qualidade gráfica muito boa. Eu acho que a gente hoje tem gente, equipamentos gráficos da mais alta qualidade, nós podemos concorrer graficamente com qualquer editora aí de fora do Brasil. E também nós temos hoje grandes autores, pessoas que são lidas aí no Brasil inteiro e as crianças adoram. Mas, nessa época dos 70, pouca gente estava publicando livro para criança. O que a gente tinha era tudo importado. As editoras importavam os fotolitos e se faziam uma adaptação do texto. Tinham as histórias clássicas, mas muito mal feitas. Na verdade, muito comerciais. Vinham principalmente da Espanha. A Espanha era a China dos livros infantis, porque eles exportavam toneladas. Eu me lembro de um espanhol que ia lá na Editora Brasil América, ele levava um malão cheio de fotolitos e não sei o que de contratos. E se fazia Chapeuzinho Vermelho, a Branca de Neve, mesmo as histórias do Andersen, mas era tudo adaptado, um desenho cafona. Pegava aquelas histórias e alguém fazia uma adaptação daquilo. Era isso a maioria das coisas que a gente tinha para criança pequena. E o Ersen queria fazer da Editora Conquista uma coisa diferente, ele queria fazer uma coisa boa com autores brasileiros, com ilustradores brasileiros, feita no Brasil. Ele era um idealista, uma pessoa genial. A gente gostava muito dele como pessoa, como editor. Nessa época a gente, eu e a Mary, a gente ia e voltava, entre Rio e Juiz de Fora. Tinha um trem em Juiz de Fora chamado Litorine, era um trem que ia de Juiz de Fora. Só não era um trem bala, porque não andava muito veloz como uma bala, mas era muito confortável, com ar refrigerado, tinha ferromoça, a ferromoça servia biscoitinho e tal no trem. Aí eu ficava indo e vindo. Isso aí foi por volta de 68 e eu comecei a fazer ilustrações para a Conquista. Teve um dia, logo no princípio, que ele falou pra mim assim: “Olha, eu vou te comprar esse desenho, mas eu tenho que arranjar alguém para escrever um texto para isso, porque eu não tenho quem escreva. Eu tenho a ilustração, mas não tenho o texto”. Eu falei: “Não seja por isso, a gente vai dar um jeito” E aí eu falei com a Mary “Escreve, tenta fazer alguma coisa.” Porque ela sempre gostou de escrever e ela tinha habilidade para fazer isso. Então, ela fez um texto que ele gostou, mas falou assim: “Eu vou colocar uma pessoa de nome, alguém que já tenha certo nome junto com ela no texto para ele dar uma mexida, porque ajuda a levantar. E ele chamou o Oranício Franco para fazer um texto junto com ela. O Oranício Franco teve uma época em que ele era muito conhecido por um programa que ele tinha na Rádio Nacional chamado “Histórias do tio Janjão”. Oranício também era mineiro, nasceu em Aiuruoca. A gente tinha que torcer a boca para falar Aiuruoca, mas ele vivia em São João Del Rei naquele tempo e depois se mudou para o Rio. Então, ele fez junto com a Mary um texto que é a história do menino que voa, que é a história de Santos Dumont quando criança, porque Santos Dumont era o nosso herói, nosso conterrâneo da qual a gente tem o maior orgulho. E acho até que o Brasil dá pouco valor a isso. Você fala dos irmãos Wright nos Estados Unidos e todo mundo fala “Inventaram o avião”. Tem avenidas com o nome deles. Aqui você fala: “Quem foi Santos Dumont”? Você entra numa sala aí no interior “Quem foi Santos Dumont”? E ninguém sabe quem foi Santos Dumont. Em São Paulo nem tanto, a gente tem a Avenida Santos Dumont, tem Praça 14 Bis, enfim, tem algumas coisas. Em Paris tem mais do que aqui no Brasil. Tem uma placa, tem até uma fotografia minha embaixo dessa placa na casa que ele morou no Champs-Elysées. Está lá “Nessa casa morou o aeronauta Alberto Santos Dumont”. Hoje, em Santos Dumont tem o Museu de Cabangu, que é a casa em que ele nasceu e que é administrada hoje pelo pessoal da Aeronáutica. Ainda bem, porque eles cuidam. Bom, mas aí nós fizemos um livro chamado O Menino que Voa e foi a primeira história publicada da Mary, e eu fiz as ilustrações. E aí daí pra frente a coisa foi evoluindo. Na época a gente era solteiro quando fizemos isso, e eu queria casar, aí falei: “Erson, eu preciso de uma garantia que eu vou continuar tendo trabalho, porque eu vou casar”. Ele falou: “Então, vem cá, tira carteira de trabalho porque eu vou assinar pra você, você vai ser funcionário da editora.” Eu era funcionário da editora, mas morava em Minas. Quer mamata melhor do que essa? Ele mesmo marcava o meu cartão de ponto lá, eu nunca faltei um dia sequer no trabalho, apesar de morar em Minas Mas ele era uma figura maravilhosa, nós ficamos até 76 lá na editora, foi quando eu comecei a fazer coisas aqui para Editora Ática em São Paulo.

 

CASAMENTO:  Um pouco antes, na verdade, casamos e mudamos pro Rio, passamos seis anos no Rio. Nós moramos na Tijuca. A gente morava num apartamento muito legal, um prédio muito familiar, as pessoas se conheciam, era prédio pequeno. E depois eu me mudei para uma rua que era uma delícia de rua, chamada Rua Sabóia Lima, que na época só tinha casas. Tinha lampiões, aqueles lampiões de ferro. Também lá mais no alto da Tijuca a rua terminava na subida do Sumaré, que era aquele morro ali. Enfim, era um lugar muito agradável. No fundo da casa passava um riacho que é o Rio Trapicheiros, que foi canalizado. O projeto de canalização dele foi todo do Tiradentes, Joaquim José da Silva Xavier dito o Tiradentes. Tiradentes fazia coisas incríveis. Ele era polícia rodoviária ali em Barbacena também. No trecho pra atravessar a Serra da Mantiqueira tinha um posto de guarda para evitar o contrabando de ouro e pedras preciosas. Então, eu brinco que ele era polícia rodoviária porque ele ficava tomando conta ali, vigiando quem passava ali, as tropas de burros e tal. Bom, mas aí voltando ao Rio, nós moramos lá até 76. Quando a gente começou a trabalhar para São Paulo, a gente morava no Rio fazendo coisas para São Paulo, e eu falei: “O que a gente está fazendo no Rio se a gente tem uma casa em Juiz de Fora” Nessas alturas do campeonato eu já tinha construído uma casa em Juiz de Fora, então falei: “Por que nós vamos pagar aluguel aqui se eu estou trabalhando para São Paulo? A gente pode morar em Juiz de Fora e continuar trabalhando para São Paulo.”

 

GATO E RATO: Eu sempre vivi de literatura. Eu nunca vivi de outra coisa, nunca me deram tempo para trabalhar, não tinha tempo para trabalhar eu ficava só desenhando. Quer coisa melhor que isso? E como dizia o Tom Jobim: “Ainda tira um dinheirinho disso aí”. E, então, nós fizemos uma viagem com o pessoal da Editora Conquista, fomos visitar colégio em Fortaleza. Fortaleza tinha um distribuidor muito importante pra Editora Conquista, que era o Carlos, o Carlos era um grande imitador de cachorro, ele sabia imitar cachorro. Ele ligava para você e começava a latir no telefone. Bom, então nós fomos a Fortaleza para visitar colégio e depois nós fomos até Belém e fizemos um tour, e o Carlos, que também era distribuidor da Ática lá no nordeste, ele falou assim: “O pessoal da Ática não conhece o seu trabalho.” Eu falei: “Acho que não, não tive nenhuma notícia, não”. Ele falou: “Eu posso mostrar o seu desenho pro pessoal lá?” “Pode, é claro” e ele mostrou o desenho aqui em São Paulo, mandou uns livros da Conquista. Aí a editora, na época, era Regina Mariano. Ela era muito importante na área de literatura infantil, era uma editora importantíssima. Então, ela nos ligou, se apresentou e falou: “Olha, eu vou ao Rio”. Nessa época nós ainda estávamos morando no Rio. Ela foi lá em casa e falou assim: “Nós estamos pensando em fazer uma coleção pra criança que está começando a ser alfabetizada, quer bolar alguma coisa”? Aí nós bolamos, fizemos um primeiro livro, e ela escreveu uma carta dizendo que o livro estava ótimo, que era aquilo mesmo que ela queria. Ela não tinha certeza que esse tipo de livro podia ser feito em língua portuguesa, porque foi o primeiro livro da coleção Gato e Rato que hoje tem 35 títulos. Então aí começou. Então, eu conheci o professor Anderson, que era o dono da Ática. Eu tive a maior sorte em conhecer essa gente. O Anderson era um cara idealista também, ele gostava das coisas do Brasil, ele queria fazer coisas do Brasil, queria fazer autores brasileiros. Então, ele deu o maior apoio “Vocês vão fazer sim, pode ficar por minha conta, vocês vão ficar com exclusividade com a gente”. A primeira coisa que nós fizemos pra Ática chamava-se O Rabo do Gato. O Anderson tinha uma visão. Ele sabia tudo de livro, aí ele falava: “Não adianta lançar um livro só, porque vai se perder no mercado. A gente tem que lançar mais. Nós vamos lançar quatro títulos.” Aí nós fizemos quatro títulos. Isso foi em 74, e eles foram lançados na Bienal de 78 em São Paulo, lá no Ibirapuera. Fez o maior sucesso. Tinha fila para autografar, eu nunca tinha visto um negócio daquele. Fila para eu autografar? Quer dizer que eu estou importante Mas eu nem pensava nisso, não tinha esse negócio de importante. A gente ficava feliz porque todo mundo falava com você “Parabéns, que maravilha” E eu sempre, desde aquela época, desde o primeiro autógrafo, eu sempre faço um desenho. É um desenho genérico, não é um desenho de grife. Tem que ser rápido. Aliás, a gente aprende isso ao longo dos anos: quando a fila está pequena, você capricha, vai fazendo um desenho para a fila aumentar. Aí quando a fila aumenta, você manda bala, se não o pessoal fica chateado de ficar esperando tanto tempo na fila. E desde aquela época a gente visitava escola. Era ainda muito São Paulo, porque os colégios de São Paulo usavam nosso livro para a alfabetização. Depois, posteriormente viajamos o Brasil inteiro por conta desses livros. E nós, nessa época, já tínhamos os quatro filhos: Augusto, Patrícia, Daniel e Lucas. O Lucas nasceu no Rio, o Lucas nasceu em 74 a gente estava morando no Rio nessa época ainda, então ele nasceu no Rio, mas não tem sotaque carioca, não. Os outros em Juiz de Fora, mas eles foram alfabetizados no Rio, eles estudavam no colégio lá no Rio. Aí depois nós fomos para Juiz de Fora. Eu já tinha uma casa que foi aumentando ao longo dos anos. A gente vai sempre acrescentando, e hoje é uma casa maior do que devia ser, porque dá um trabalho de cão. Depois da coleção do Gato e Rato, o Anderson queria uma coleção de animais brasileiros, aí nós fizemos uma coleção que chama coleção Corre Cutia. Parece que ela tem que nove títulos, também feitos meio que paralelo com a Gato e Rato. Não dava para fazer assim bateladas em seguida, então eu fiz algumas ilustrações, fiz muita capa de livros didáticos e fiz algumas ilustrações também para livro didático para preencher também o tempo.

 

OS PINGOS:  Mais tarde foram os Pingos, nós criamos os Pingos que são os personagens que hoje tem sei lá com os livros publicados na Ática, e com os livros publicados na nossa editora, eu acredito que tem sei lá uns 50 títulos, talvez. Nesse tempo todo, todos os nossos livros publicados a gente tem segundo o pessoal da Biblioteca Nacional que tem os registros dos títulos e tal, nós temos lá perto de 300 ou mais de 300 títulos. É muita coisa. Ave Maria, eu não sei como eu fiz tanta coisa. A gente vivia por conta disso, eu não tinha que fazer outra coisa, não trabalhava em outra coisa, a gente vivia por conta de fazer livro. Ainda tem os livros didáticos que eu ilustrei nesse meio tempo aí, além dos livros lá. Mas, os Pingos surgiram assim: em 86 teve um intervalo de dois anos na nossa exclusividade com a Ática, e foi exatamente em 86 até 88 foi uma época que a gente falou: “Não queremos exclusividade, a gente quer fazer outras coisas”. O Andersen também achou que era melhor dar um tempo. Aí nós começamos a publicar os Pingos pela Editora Globo e também começamos a fazer uma coleção para a Editora Mercado Aberto de Porto Alegre. Quando a gente publicou o primeiro livro pelo Mercado Aberto, o Andersen viu o livro e falou: “Não, não vão fazer concorrência”. Ligou pra mim e falou: “Vem cá, precisamos conversar, vem de volta.” Aí chamou a gente de volta, e ele era uma pessoa ótima, eu gostava muito dele e acabamos voltando. Aí voltamos, fizemos um acordo com ele e voltamos pra Ática. Na Gato e Rato cada título tem os seus personagens, os personagens não se repetem nos títulos. Então, a gente imaginou que devíamos criar uma família de personagens que pudessem aparecer em vários títulos, em várias situações e foi aí que a gente começou a brincar com essa coisa de “O que vai ser? Vai ser uma gota? Não, mas a gota... Só uma gota de tinta? Podia ser uma gota colorida” Aí fizemos. Começamos a brincar com a gota, botar olhinho nela, nariz. E nasceram os Pingos, imaginamos as sete cores que são as cores do arco íris, então são sete personagens. Sete é um número mágico, é um número atávico. A humanidade tem os sete pecados capitais, as sete emoções do japonês, as sete maravilhas do mundo, enfim, o sete é um número atávico para humanidade, as sete cores do arco íris. Então, criamos os sete personagens que são absolutamente iguais, mudam só a cor. Estão vivos até hoje, mas foram criados em 86. E foram publicados primeiro pela editora que na época se chamava Rio Gráfica e hoje é Editora Globo. A Rio Gráfica era de um grupo lá do Roberto Marinho, mas no Rio Grande do Sul tinha Editora Globo que era do Bertazo, uma editora que publicava o Érico Veríssimo, tinha 2500 títulos da maior importância: Alberto Camus, Marcel Proust toda obra do Érico Veríssimo. E o Roberto Marinho queria trocar o nome de Rio Gráfica para Editora Globo, mas ele não podia por causa da Editora Globo do Rio Grande do Sul. Então, o caminho era comprar a Editora Globo, e eles compraram a Editora Globo com o seu acervo de 2500 títulos, que eu não sei eles não estão publicando isso tudo. É uma pena, porque eles têm coisas fantásticas, obras do Proust, Mario Quintana.

 

DINAMARCA:  Em 89 surgiu o projeto do Andersen. A gente queria fazer diferente da Gato e Rato, diferente da Corre Cutia, queria fazer uma coisa para criança que fosse maior um pouquinho, que dominasse a leitura. Que tivesse lido a Gato e Rato, mas já estava na hora de pegar outros livros, e a gente imaginou exatamente por causa dos nossos livros de infância, os meus livros de infância O Patinho Feio, eu falei: “Vamos fazer Andersen?” “Como que a gente vai fazer Andersen”? “Vamos para Dinamarca, ver onde o cara morou. Ver como era a vida dele, sentir o clima, sentir o frio” passamos o inverno lá. Ficamos lá quase um ano, oito meses acho. Bom, o Anderson falou: “Tudo bem, vocês vão para Dinamarca”. Mas nesse meio tempo ele morreu e acabou não vendo o processo, ou então está vendo, está sabendo de tudo. Mas aí a diretoria falou assim: “Tudo bem, ele prometeu e vocês vão, mas nós damos a passagem de um ano”, que é uma passagem mais cara que a passagem de vai e volta. A gente ficou com a passagem e, na época, a gente tinha condições. Alugamos uma casa muito legal, é um condomínio com cinco casas, condomínio fechado não era bem o termo, porque tinha lá um portão, mas vivia aberto dia e noite e não tinha esses problemas, pelo menos até então, não tinha problema nenhum. E a gente morou lá esse tempo. Fizemos amizade com o nosso senhorio, ele ficou nosso amigo e ia jantar lá em casa, porque ele namorava uma brasileira. Ele namorava brasileira, a Rosana, e ela tinha um apartamento em Copenhagen, no centro de Copenhagen, um lugar muito bonito, muito agradável. Ela não queria mudar pra lá para esse bairro, então ele foi morar com ela no apartamento dela e a casa dele ficou vazia. Nisso a gente alugou a casa dele. Ele fez baratíssimo, acho que ficou quase que a despesa de condomínio. E a embaixada ajudou a entrar em contato com o pessoal da Universidade de Odense, que é a cidade onde o Andersen nasceu. E se colocou à nossa disposição, porque o dia que nós fomos lá à embaixada, veja como são as coisas, era uma época de eleição no Brasil, tinha uma eleição qualquer no Brasil que não me lembro e a gente tinha que justificar o voto. Eu fui à embaixada e o embaixador era o Sérgio Rouanet e eu falei com a secretária dele: “Nós queremos conhecer o embaixador, a gente podia dar uma palavrinha com ele na sala”? Ela falou assim: “Um momento”, foi lá dentro e daqui a pouco ela voltou e falou: “O embaixador falou que não quer receber vocês aqui, é para você tomar um uísque na casa dele de noite”, isso porque a filha dele, que na época tinha oito anos, foi alfabetizada na coleção Gato e Rato. Aí abriu as portas e fizemos amizade com o Rouanet. Fomos lá tomamos uísque, conversamos bastante. E depois, mergulhar no universo de Andersen foi fantástico, primeiro porque nós descobrimos que o Andersen é um herói nacional dinamarquês, ele é tratado lá como um grande herói, que a gente tem talvez aqui como o Tiradentes, não como o nosso Monteiro Lobato. Porque o brasileiro já não dá muita bola para a importância de Monteiro Lobato. Devia. O museu dele na cidade dele, em Odense, é a antiga casa onde ela morou, expandida para um prédio moderno, e tem tudo sobre o Andersen, tudo que foi publicado no mundo sobre o Andersen eles têm. Tem histórias contadas, narradas. Você pega aquele fone de ouvido e você ouve o Patinho Feio contado, por exemplo, por Laurence Olivier, gravado com a voz do cara, gravado com a voz do Michael Hedges Grey, e grandes atores do teatro inglês que gravaram vários contos de Andersen. Então, tem a sala de vídeo onde eles passam vídeos feitos pelo mundo a fora, principalmente pelos tchecos, porque os tchecos fizeram muita coisa, e, enfim, eles têm tudo sobre Andersen. É um Museu fantástico, muito bem organizado e bonito, e tem a casa antiga onde o Andersen nasceu. Bom, para o começo dos trabalhos na Dinamarca, nós escolhemos as histórias que a gente tinha um amor, tinha um contato pessoal como o Patinho Feio, o Rouxinol, A colina dos Elfos e aquelas histórias que a gente já conhecia daqui. E depois, com o tempo, nós fomos descobrindo outras histórias. Nós demos uma entrevista para um jornal dinamarquês, o jornal de maior circulação lá na época e demos o nosso telefone, porque se tivesse alguma pessoa que tivesse alguma coisa sobre Andersen que ligasse pra gente. Ah Pra quê? Tivemos que instalar secretária eletrônica, se não a gente ia passar o dia inteiro no telefone, não fazia outra coisa a não ser atender telefone. Aí tinha sempre gente dizendo: “Eu conheço a história assim” “Tem uma história que é muito pouco publicada que é dessa maneira” “Eu tenho um livro que eu herdei do meu avô com ilustrações antigas e não sei o quê” Todo mundo queria ajudar, não queriam aparecer, não queriam nome de lugar nenhum, queria ajudar a gente no trabalho, porque se tratava do herói deles, eles queriam te mostrar mais coisas do Andersen. E aí fizemos amigos. A gente estava sempre achando uma brasileira nessa história. Um amigo dinamarquês casado com uma brasileira. Uma moça muito legal, e ele falava português perfeitamente por ele ser casado há muitos anos com ela. Então, ajudou muito a gente na tradução direta do dinamarquês. Nós fizemos muita amizade lá e foi um período ótimo, descobrimos coisas assim da vida do Andersen. As coisas mais manjadas, mais conhecidas todo mundo sabe. Por exemplo, O Patinho Feio é uma história autobiográfica, a autobiografia dele está ali. Ele era um cara feio, ele se considerava um cara feio, ele não tirava fotografia de jeito nenhum de frente. Se ele tivesse dando entrevista para vocês, ele estava de lado, porque ele achava que de lado ele era passável e que de frente ele era uma coisa horrorosa. De fato, ele era meio feiinho mesmo. Ele também nunca teve casa dele própria. A única casa própria dele foi a casa que ele nasceu, porque ele vivia viajando e se hospedava sempre na casa de amigos, na casa dos reis da Europa, na época. Ele foi o patinho feio exatamente por isso, ele nasceu feio, pobre e se transformou num belo de um cisne, e realmente foi o que aconteceu. Ele teve essa glória de viver todo esse sucesso em vida. Era amigo de pessoas importantíssimas, era amigo, por exemplo, do Charles Dickens, trocava correspondência com o Dickens. Vivia na Europa e contando histórias para as crianças que estavam ali em volta. Ele ia contando histórias e fazendo recortes e fazendo silhuetas e os personagens, recortando personagens mostrando e tal. Falavam num príncipe e ele recortava a silhueta de um príncipe, dava para a meninada. Devia ser uma figura muito interessante. E o Andersen tem também muita coisa também baseada em folclore. Por exemplo, tem uma história dele que chama Nicolau Pequeno e Nicolau Grande que é ótima a história, mas é uma história de folclore, é uma das aventuras do Pedro Malazarte, porque a primeira notícia que se tem de Malazarte é de 1500 e qualquer coisa. Então, ele pega essa história e reescreve a história com o nome de Nicolau Pequeno e Nicolau Grande. Bom, depois dessa pesquisa toda resultou que quando nós voltamos pro Brasil, a Mary sentou e eu fui fazer as ilustrações. Nessa época a gente já morava em São Paulo e fizemos aí dois livros de capa dura, quase 100 páginas cada um e que posteriormente foram subdivididos em várias brochuras. Tanto o público quanto o pessoal da crítica receberam muito bem. Tinha uma coisa engraçada que eu achava do Andersen. Ele andava com a mala dele nessas viagens, tinha a mala de roupa dele, tinha uma caixa de cartola, aquela caixa comprida de cartola, um guarda chuva e um rolo de corda. Ele sempre andava com um rolo de corda, não separava do rolo de corda de jeito nenhum, e ele se hospedava sempre até o segundo andar. Não ia para o terceiro andar de jeito nenhum. Quando ele se hospedava numa casa, um castelo, ele ficava no segundo andar que era onde dava a corda se pegasse fogo no negócio, e lá ele saía pela janela. Isso é sensacional, eu acho ótima essa história. A literatura hoje existe e se tornou conhecida eu acho que muito por causa dele, um dos criadores da literatura que a gente entende hoje para jovens e crianças. Na verdade, é para todo mundo, porque aquilo é muito bonito, o texto original dele é maravilhoso. A gente procurou, a Mary procurou fazer muito dentro do que ele escreveu. Por exemplo, quando ele vai descrever que uma coisa é: “Passava um riacho perto” ele não se limita a falar que é um riacho perto, “Passava um riacho perto, mas era muito perto, mas era muito perto mesmo”, ele descreve assim, desse jeito. A folha da mulher que escondia a pata de onde nasceu o patinho feio era grande, mas era muito grande, era grande mesmo. Tem um livro dele também, que nós descobrimos depois em Portugal, numa época que ele morou em Portugal. Ele passou uma temporada em Portugal na casa de uns amigos e ele tem uma história maravilhosa que ele não fala isso, mas a gente acha que ele escreveu essa história em Portugal por causa do sol. Um sol que não tem na Dinamarca. O livro chama A Sombra, que é a história de um cara sentado numa varanda e bate o sol e a sombra do cara atravessa a rua e vai na varanda da casa vizinha. É linda a história. Maravilhosa a história. Então, por causa desse sol, dessa veemência do sol. Isso só pode ter sido feito em Portugal. Então essas coisinhas, essas miudezas importantíssimas. A gente descobriu muita coisa dele.

 

PROCESSO DE TRABALHO:  Eu tento me libertar do estudo, eu não gosto muito do estudo, não eu sou mais aquela coisa do Picasso colocar uma tela branca e pensar “Vamos ver o que vai sair daqui.” Na verdade, eu costumo fazer várias vezes uma ilustração, de várias maneiras e de várias técnicas. Às vezes eu pego uma ilustração que eu fiz e descartei, mas está guardada lá e eu pego essas ilustrações e falo: “Porque eu não usei, está legal essa aqui?” Mas na hora eu achava que não estava legal e eu repetia e fazia de novo, fazia outra coisa completamente diferente. Então, eu gosto muito de variar técnicas. a coleção Gato e Rato, por exemplo, ela tem de tudo, ela tem tinta acrílica, livro ilustrado com acrílico, livros com guache, livros com aquarela, com lápis de cor, só lápis de cor esse lápis de cor escolar, esse lápis de cor comum, normal. E agora recentemente a gente esteve na Europa, na Eslováquia, encontrei com um cara que fez parte lá de um trabalho que a gente estava fazendo. Nós fomos jurados juntos. É um ilustrador eslováquio muito bom, e eu conversando com ele sobre materiais e ele falou: “Eu só gosto de usar material comum.” Porque eu perguntei pra ele: “Onde é que eu compro um lápis assim...” Porque a Boêmia, aquela região é grafite, eles tem grafites maravilhosos “Qual é a loja que eu vou comprar uns lápis geniais? ” “Ah Eu não sei” “Como você não sabe? Você mora aqui” ele falou: “Eu só uso coisa comum, eu uso papel comum, nada papéis de grandes, tinta comum”. Eu falei: “Eu também gosto muito dessa história”, mas já que eu estava lá tinha que comprar uns lápis. E eu continuo pintando árvores azuis graças a Deus, felizmente. Felizmente. Eu tenho gatos azuis, Gato e Rato está cheia de gatos azuis, cachorro roxo... A criança não vê essa coisa, quer dizer, ela vê, ela percebe, mas ela entende aquilo muito mais do que o adulto “Mas, pô, gato azul”? O adulto questiona, a criança, não. Aceita aquilo naturalmente. Um gato azul, qual é problema de um gato ser azul? Muito menos preconceito. Ela não tem preconceito nenhum. Depois que a gente cresce é que fica preconceituoso, tem essas bobagens todas aí.

 

EDITORA PRÓPRIA:  Aí, no final dos 90, é que surge a nossa editora. O Anderson já tinha morrido, e a gente achou melhor parar com a exclusividade, porque a gente queria fazer outras coisas, e resolvemos criar a nossa editora, a nossa própria editora que está de pé até hoje com um pouco mais de 50 títulos. Quer dizer, para uma editora isso ainda é pouco, mas a gente chega lá. A idéia é publicar a nossa obra e alguma outra coisa que a gente acha que vale a pena, que é importante, por exemplo, a gente tem livro lá do Elias José. A gente tem livro do Yasser Freitas, que é um poeta maravilhoso e que fez um livro lá que é genial. Ele viu umas ilustrações que eu tinha feito pra nada, fiz uma série de quadros chamado O Circo, gente de circo gente fazendo malabarismo, equilibristas e tal. Eu desafiei “Yasser, porque você não escreve alguma coisa sobre isso?” Ele topou e uma semana depois estava tudo pronto. Agora, a Mary dá um duro danado na editora, porque eu não me meto nessa história. Eu faço o livro, eu não sou administrador, não quero administrar, mas a Mary toca a coisa direitinho. A coisa da grana, de pagar de receber, é com ela, ela é ministra das finanças, é o Banco Central e tudo junto, o Ministro da Fazenda tudo junto, enfim, é com ela. E os filhos também. A Patrícia trabalha com a gente. Ela é a pessoa que faz as montagens, faz o texto, faz a diagramação, trabalha efetivamente com a gente lá. Agora, os outros, eles têm a vida deles independentes, mas fazem coisas também pra gente. O Lucas, por exemplo, é ilustrador e muito bom, diga-se de passagem... A velha frase “Não é porque é meu filho”, mas ele é muito bom, dito por outras pessoas, outras editoras. Um exemplo: ele fez uma coleção para a Editora Nova Dimensão em Belo Horizonte e foi muito bem aceito, eu acho que foi o único livro da Editora Dimensão que foi comprado pelo PNDE. Um texto da Mary e ilustrado por ele. Desde pequeno ele gosta de desenhar. E ele é muito bom também na coisa gráfica de computação gráfica e tal, por exemplo, agora ele está desenvolvendo os Pingos em 3D que a gente pretende também num futuro fazer pequenos filmes de animação para internet, celular, é um campo de trabalho bem interessante. O Augusto tem a firma dele lá, ele tem um birô para impressão muito bem montada. E o Daniel trabalha com computação também, mas já é uma área técnica, já é outro tipo de coisa, ele fez um trabalho para São Paulo.

 

PRÊMIOS:  Em 75 eu ganhei um prêmio, foi uma coisa muito importante porque foi o primeiro latino americano que ganhou o prêmio na Bienal de Ilustração de Bratislava, na época era Tchecoslováquia, hoje é Eslováquia. Eu fui lá receber o prêmio, mas eu cheguei lá eu não sabia que tinha um prêmio, mas de qualquer jeito eu iria porque é uma coisa que participavam ilustradores do mundo inteiro. Mas eu não sabia que tinha um prêmio, eu acho que na época não tinha sido escolhido ainda, foi nesse meio tempo de viagem. Quando eu cheguei lá é que tinha saído o resultado e foi também muito emocionante, porque eu cheguei lá me apresentei “Eu sou fulano de tal” e o cara olhou na lista lá e falou “You have a prize” eu falei: “Eu tenho um prêmio? Tem certeza”? O cara me mostrou a lista e foi uma coisa também muito emocionante. E agora, recentemente, eu voltei lá uma vez ou duas, conheci gente ilustradores também fantásticos. Aí fizemos bastante amizade lá. O diretor lá da feira está lá até hoje, e eu encontrei com ele agora e ele falou assim: “Eu lembro quando você foi lá buscar o prêmio”, isso é muito legal. Mas eu tive lá o ano passado não mais concorrendo, mas como integrante do júri internacional de Bratislava da Bienal de Ilustração o que é também muito legal. E tinha gente do mundo inteiro lá, eram nove integrantes do júri, tinha Dinamarca, Rússia, Bulgária, Suíça, Canadá, Bélgica, Irã, nove pessoas do mundo. Muito importante também conhecer essa gente toda.

 

CARREIRA:  Olha, eu não sinto esses 40 anos, não. Você vê, eu estou sempre planejando, e eu não sou de aposentar, acho que a gente morre com um lápis na mão. Tal qual um El Cid que desembainha um lápis e ataca. O artista não aposenta, não tem jeito. Como o artista vai aposentar? Eu posso aposentar, tudo bem, mas aí o que eu vou fazer? Eu vou desenhar, já que estou com tempo folgado, estou aposentado mesmo, então vou desenhar, vou pintar. É uma coisa muito sem sentido. O contato com os leitores é emocionante, é a parte mais emocionante de tudo isso, mais gostoso que prêmios ao longo da carreira. Outro dia, por exemplo, no Rio nós fomos fazer uma tarde de autógrafos no salão do livro infanto-juvenil, que é feito lá pela Fundação Nacional do Livro Infantil e que é feito lá no Museu de Arte Moderna. A gente estava fazendo um lançamento, uma tarde de autógrafos, e aí chegou um rapaz, um jovem simpático, bonito, com um filhinho pequeno e emocionado, absolutamente emocionado, e falou: “Eu estou emocionado de falar com você” eu falei: “Estou vendo” “Porque eu aprendi a ler nos seus livros e agora eu estou ensinando ele.” O menino, o filho dele a ler. Eu falei: “Então, agora você vai me dar um abraço.” Isso é emocionante. Uma ocasião a gente estava também no Rio, lá na casa de Rui Barbosa, também fazendo um bate papo com a criançada lá de um morro em frente, uma favela, e a gente estava comentando sobre personagem e falando sobre o personagem. Eu fiz um desenho do pingo lá. E eu falei: “Alguém aí sabe que personagem é esse”? Silêncio, eu falei: “Pô, eles não conhecem, os livros não chegaram lá” Aí deu aquele silêncio e, de repente, um menino no meio levantou e falou assim: “É o pingo”. Você chora. Aquela coisa mais humilde, ele conhece e gosta. Nós fizemos um boneco, cortamos na madeira um formato do pingo e tal para uma feira de livros em Juiz de Fora e a criançada passava “Olha lá o pingo” ia lá e abraçava.

 

PARTICIPAÇÃO NO PROJETO:  Olha, eu acho importantíssimo, eu acho que é a única coisa que você tem no Brasil pra gente guardar essa memória, esse depoimento das pessoas, eu não conheço nada semelhante ao que está sendo feito, que vocês estão fazendo aqui. Eu acho que isso aí é um arquivo que pensando no futuro.

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