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História

Sou um resgate

História de: Elenilde Dias Fernandes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2009

Sinopse

Elenilde Dias Fernandes nasceu em 14 de julho de 1960, em Araguatins (GO). Após ser enganada por um "gato" e trabalhar em condições de escravidão contemporânea, conseguiu ter uma vida nova. Hoje é trabalhadora cooperada da fábrica de brinquedos artesanais Codigma (Cooperativa para Dignidade), em Açailândia (MA), cooperativa mantida pelo Centro de defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia. Elenilde, aliciada aos 17 anos para trabalhar em uma boate, conta as lições que tirou desta terrível experiência. Hoje, trabalhando em uma cooperativa, fala de sonhos e de realizações. Sonha com o futuro melhor para ela e para os companheiros.

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História completa

A minha vida foi uma novela desde o começo: quando eu nasci, a minha mãe me deu pra outra pessoa me criar. Cresci sem estudar, casei antes do tempo. Nunca brincava ou ia para as festas: não tinha essa liberdade. Casei com 14 anos e com 15 eu tive meu primeiro filho.

 

Fui trabalhar numa boate por um engano. Eu tinha 17 anos e me falaram que iam me levar para um garimpo no Xingu. Fomos em uma turma só de mulheres. Quando chegamos, era uma boate. Chegamos já devendo, porque o dono tinha nos adiantado um dinheiro e deixamos com nossos filhos. Não tinha como sair.

 

Eu era escrava lá. Devendo não tinha como sair. Então metade das mulheres fugiram. Eu não saí fugida porque eu achei um homem que me tirou de lá. Ele perguntou se eu não queria morar com ele. Ele era um homem de 40 anos e eu tinha 17. Eu fui.

 

Ele trabalhava com poço, então fomos morar na fazenda do patrão dele. Eu só ficava na cozinha, cuidando da minha casa, cuidando do alimento dos filhos. Eram três: dois dele e um meu. Tem a fazenda, o pátio, aí tinha aquelas carreiras de casas que eram das pessoas que trabalhavam lá. Cada casa morava uma família.

O encarregado que sempre dava as ordem lá dentro da Fazenda. Quando a pessoa trabalhava normal, sem procurar problema, ele tratava bem. Agora quem não trabalhava, porque todo lugar tem gente de todo tipo, né, tem uns que é mais humilde, outros que é mais desobediente, então aqueles que era mais desobediente… Se você vacilou, ele dá um passeio com ele aí não volta mais, é assim.

 

Dessa vez, saí fugida. A gente também devia para o dono e não tinha como pagar. Fugimos à noite, a partir de meia-noite, a hora certa de fugir.Tinha a saída e a entrada pro lado de Xinguara e tinha saída que vinha pro lado de Araguaína. Passamos pelo rio Araguaia no Porto da Balsa, a gente já pegou o barco e atravessou pro outro lado, foi assim que a gente fez. Porque lá não tinha como a gente pagar a conta, porque não tinha saldo de jeito nenhum.

 

Muita pouca pessoa saía com saldo da fazenda, muitos poucos pessoas que saíam, mas a maioria só sai devendo. Hoje eu não sei como está, o Ministério do Trabalho bate muito em cima, pode ser que tenha melhorado porque nessa época que eu trabalhava lá não tinha melhora.

 

Tudo tinha que comprar: a carne, os instrumentos. Não tinha como plantar porque lá só era a produção deles: capim! Fazendeiro você sabe como é que é né, eles acham que nunca se come o arroz, o feijão, essas coisas, só é capim pra criar o gado, só isso.

 

A vida já me ensinou muita coisa, muitas coisas já, eu já fui sacrificada muito eu, muito mesmo. Eu, toda vida, trabalhava assim em casa. Às vezes eu pegava uma roupa dos outro pra lavar, sempre fui uma pessoa que nunca fiquei parada. Mas achava que aquilo ali era muito cansativo, lavar roupa pros outro, passei trabalhar pra mim mesma vendendo perfume, vendendo produto. Fui trabalhando pra mim mesma. Cansei de trabalhar para os outros!

 

Até que eu achei esse serviço aqui, que é trabalhar aqui na Código. Soube pela televisão. Eu tinha uma amiga minha que trabalhava lá, então procurei ela e disse: “Gisela, tu não tem uma vaga por lá não nesse serviço por lá não pra trabalhar?”, aí ela disse assim: “Mulher, lá é difícil porque lá só pega pessoas que é resgate escravo, da escravidão”, eu falei assim: “Dá, pode dar certinho comigo, eu sou um resgate”

 

Eu fui na entrevista no sábado, na segunda já comecei a trabalhar. Aqui, o serviço é muito bom porque a gente trabalha, não é cansativo, você trabalha na sombra, então o serviço que eu acho que um dia vai ter um futuro! A gente trabalha pra que cresça né, eu quero que isso aí um dia seja uma coisa que vai aumentar e que seja de futuro pra cada um que trabalha aqui.

 

Eu acredito que vai melhorar cada vez mais essa dignidade pra nós, não é não? Um serviço digno né, as pessoas tem que pensar isso no futuro, não pensar negativo. Se a pessoa viver só negativo toda vida, não tem como ir pra frente, então a gente só pensa no futuro. Depois de velha as coisas melhorar na vida da gente, não é não? Se a gente nova não teve uma melhora tem que melhorar depois de velha, não é mesmo? Eu acredito que seja assim.

 

Hoje eu até estudo! Tô aprendendo a ler porque antes eu não sabia, a gente tá divulgando muito bem hoje a leitura, letras que a gente não sabia hoje a gente sabe, então, porque eu não tive essa capacidade de estudar, eu não tive esse momento de alegria de estudar quando eu era jovem, então agora eu tô estudando. Veio muitas pessoas às vezes mais velho que eu já aprendeu, por que que eu não vou aprender, né? Eu acho que eu vou aprender. Nós todos unidos, vencemos toda batalha, não é não? Então eu acho que a cooperativa seja isso.

 

Dos brinquedos que a gente faz aqui na cooperativa Código, o que eu mais gosto de fazer é lixar na mão, é o que eu mais gosto, tirar a massa lixando na mão. A gente se sente feliz quando compram um brinquedo porque ali é uma dignidade pra uma criança, é um projeto que foi feito pra isso mesmo, pra tirar as pessoas da escravidão, então a gente quando vê aquilo ali, uma criança brincando com aquele brinquedo, então a gente acredita que aquilo ali tá indo pra frente o nosso trabalho, porque as pessoas tá comprando, então acredito que seja assim.

 

Eu não sei se falei do jeito que vocês queriam, vocês que me desculpem por ter falado alguma coisa às vezes que não foi do jeito que vocês queriam, mas o que eu sabia falar, o que eu tinha de falar eu falei! Só peço para que nenhuma pessoa caia no que eu já caí, pra nenhuma pessoa passar o que eu já passei. O que eu já passei eu não desejo nem pra meu pior inimigo, então a gente tem que dar um exemplo.

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