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História

"Tinha uma missão especial, servir ao próximo"

História de: Tia Gle
Autor: Leonardo da Silva Dutra
Publicado em: 15/06/2016

Sinopse

“Hoje, aos 76 anos, me dei conta que o tempo passou. Percorri muitos caminhos e venci muitas pedras. Meu nome é Gleci Umbilina Vieira, solteira e mãe emprestada de 10 sobrinhos. Dividi meu coração em muitos amores e me considero uma pessoa feliz”.

POR LEONARDO DUTRA E MÁRCIA SANTOS

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História completa

“A NECESSIDADE DE ESTENDER A MÃO MESMO PARA AQUELES QUE UM DIA NÃO FORAM TÃO BONS, ERA MAIS FORTE QUE TUDO NESSA VIDA”


“Nasci em Porto Alegre, no bairro Menino Deus. Tive uma infância feliz, uma mãe batalhadora e criou a mim e meus irmãos sozinha. Comecei a trabalhar muito cedo, para ajudar no sustendo da família, lavando roupa para fora e realizando as entregas a pé do bairro Menino Deus até a rua Independência. Na época, minha mãe me recomendava a não falar com ninguém no caminho, pois, segundo ela, tudo era feio. Com poucos recursos, os dias eram difíceis, mas graças à fé da família sempre achávamos uma solução. A rigidez da nossa educação colaborou na formação de nosso caráter, lazer era só aos finais de semana se o comportamento era exemplar, e assim nos acostumamos. Um dia meu pai, que havia abandonado a todos, adoeceu e precisava de cuidados. Pedi a minha mãe que permitisse a sua volta e me ofereci para cuidar. Criou-se uma guerra familiar, meus irmãos homens não permitiam e depois de dias de choro, meu pai retornou e terminou seus dias sob meus cuidados. Missão cumprida, a necessidade de estender a mão mesmo para aqueles que um dia não foram tão bons, era mais forte que tudo nessa vida”.

 

“TINHA UM SONHO SECRETO, ME TORNAR BAILARINA OU PROFESSORA”


“Sempre fui muito faceira, meu divertimento quando mocinha era limpar a casa ouvindo música e dançando. Muitas vezes apanhei de minha mãe por isso. Tinha um sonho secreto, me tornar bailarina ou professora, vontade que nunca dividi com ninguém da família, até porque não tínhamos condições financeiras e sempre tinha outras prioridades. Assim, deixei de lado. A vida me preparou muitas surpresas, algumas boas e outras ruins. Certo momento, chegou a notícia que minha mãezinha estava muito doente, foi diagnosticado câncer. Eu já sabia que essa batalha seria mais uma prova na minha vida. Firme e forte, assumi esse posto e, com a ajuda dos ‘maninhos’, ficamos ao lado da nossa querida até o final. Deus a levou, mas retribuí um pouco do sacrifício que ela teve para nos criar, seguindo minha vida. Terminei o ensino médio, mas era bem preguiçosa em relação aos estudos, logo fui trabalhar, deixando de dar prioridade a tal feito. Reservava muito tempo da minha vida em prol da família, não sobrando muito tempo para o restante”.

 

“FOMOS EDUCADOS E ENSINADOS A IMPORTÂNCIA DE UMA FAMÍLIA UNIDA”


“Entre os filhos, éramos somente duas mulheres, o restante de meninos. Minha irmã Lurdes formou sua família e começou sua prole de 10 filhos, sobrinhos que ajudei a criar, pois morei muito tempo em sua residência. Os anos iam passando e senti em meu coração que tinha uma missão especial aqui na Terra, servir ao próximo, em especial minha família. Fomos educados e ensinados a importância de uma família unida, com princípios e muito dentro da religião católica, pois minha casa era frequentada por padres”.

 

“FUI IMPEDIDA DE ACESSAR O PRÉDIO, POR SER NEGRA”


“Minha vida pessoal caminhava conforme se encaixasse as necessidades alheias. Sempre que precisassem de mim de alguma forma lá estava eu, pronta e operante. Desde menina tinha sensações que tinha medo de dividir. Ouvia vozes, tinha avisos, mas era muito pequena e não sabia o que isso significava. Quando comentei, meus irmãos me xingaram, porém, minha amada mãe me defendia, repreendendo-os. Com o passar do tempo, a vida me fez entender que era capaz de assumir mais esse compromisso, dentre tantos que eu já tinha. Um ser humano completo preciso ser feliz em quase todos os âmbitos da vida, é isso que a sociedade nos cobra. Tive bons empregos, trabalhei muitos anos em uma joalheria da rua Andrade Neves. Meu chefe era uma pessoa excelente, muito humana, tinha toda a confiança no meu trabalho. Eu convivia com sua família e isso se transformou num laço de amizade. Passei por um episódio bem delicado nessa época. Fui fazer a entrega de um relógio na residência de uma cliente, quando fui impedida de acessar o prédio por ser negra. Na época a questão racial era bem forte, não existiam as leis que hoje nos protegem, era normal sermos destratados pela diferença de cor. Tínhamos que baixar a cabeça e ir embora como se fossemos o culpado. Sempre aproveitando as oportunidades e sinais que a vida nos dá, fui convidada a trabalhar no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). Comunicativa rapidamente me adaptei, com novos ciclos de amizades, churrascos e muita animação”.

 

“POSSO DIZER QUE FOI O ÚNICO E GRANDE AMOR DA MINHA VIDA”


“Entre chegadas e saídas do trabalho, via um rapaz muito bem-apanhado, alto, sempre muito bem trajado, que nunca passava desapercebido. Minhas colegas adoravam pegar no meu pé. Tudo era feio, então tinha medo de retribuir os olhares lançados, até o dia que Luiz Carlos veio falar comigo. Descobri naquele exato momento que essa era a pessoa que faria parte da minha história. Vivemos uma linda história de amor. Moramos juntos por algum tempo, momentos felizes e marcantes. Posso dizer que foi o único e grande amor da minha vida. Houve muitas idas e vindas, inclusive engravidei. Por inexperiência, infelizmente perdi, sem nem saber do quadro. Com a maturidade nos damos conta de nossos erros, o que eu poderia ter feito diferente, suposições que hoje não podemos voltar atrás”.

 

“POR SER ESPIRITA, TER FÉ E ACREDITAR NA PROTEÇÃO DOS NOSSOS ANJOS DE GUARDA, NUNCA ME DEIXEI ABATER POR NADA”


“Uma das questões mais importantes é a Umbanda, religião herdada por minha descendência negra. A magia das ervas e o poder da cura com rezas, através de entidades começou muito tímida em mim, pois a família, por conta da base católica, era contra. Foi uma fase bem difícil. Pessoas precisavam de ajuda espiritual e nem sempre pude atender, pois morava com outras pessoas. Foi quando optei pela minha independência e assim fui morar só, para adquirir autonomia. Por ser espirita, ter fé e acreditar na proteção dos nossos anjos de guarda, nunca me deixei abater por nada. Sempre acreditei que na vida há solução para quase tudo. Realizando exames de rotina, descobri a necessidade de colocar um marca-passo. Meu velho coração necessitava de cuidados. Feito o procedimento, fiquei em repouso absoluto, difícil para uma pessoa inquieta. Com os cuidados da minha sobrinha Maria do Carmo, estava pronta para outra”.

 

“FIQUEI AO LADO DELA ATÉ O FINAL” 


“Passei muitos anos envolvida com minha irmã Lurdes. Auxiliava na casa, com os sobrinhos. Devido a hereditariedade de algumas doenças na família, ela recebeu um diagnóstico de câncer severo nos ossos. No primeiro momento foi preocupante, mas com avanço da ciência, acreditamos que haveria uma chance. Em meio a muitas orações e pedidos, não tivemos êxito, ela veio a falecer depois de muito sofrimento, com dores terríveis. Fiquei ao lado dela até o final, consolando meus sobrinhos queridos nessa hora tão triste. Mais um capítulo se encerra, uma dor que jamais esquecerei, ficando assim como matriarca única. Lidar com o próximo nunca foi muito fácil. Cada um tem uma forma de levar a vida e solucionar seus problemas. Eu, como orientadora espiritual, tenho o compromisso de alertar e direcionar para o caminho correto, mas nem sempre as pessoas aceitam o que o futuro lhes reservou”.

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