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História

Tipo sanguíneo: Quilombaque

História de: Janice Fernandes Albuquerque
Autor: Comunidade Cultural Quilombaque
Publicado em: 26/07/2017

Sinopse

Nascida em Caieiras, aos quatro anos, a família se muda para Franco da Rocha, onde Janice passa toda a infância. Morando numa vila, todo seu núcleo social era bem próximo, como professores e amigos da escola. Aos 18 anos, quando torna-se mãe pela primeira vez, a família novamente faz as malas, desta vez, com destino a Perus. Foi um longo período de adaptação, sendo mãe jovem e buscando novas amizades. O encontro com a arte se deu com o trabalho com biscuit, renda que ajudava na criação do filho. Mais tarde, aprendendo marchetaria, conhece Fofão e Dedê, com quem logo de início tem empatia. Com eles, apoia o início da Associação Quilombaque, aprendendo na prática sobre os desafios que o trabalho com empoderamento na periferia traz.

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História completa

O meu nome é Janice Fernandes Albuquerque, eu nasci no dia 05 de março de 1980, no município de Caieiras, São Paulo. A minha mãe nasceu em Perus e meu pai nasceu na Bahia, na região da Chapada Diamantina. Meu pai saiu de lá quando a exploração de diamantes começa a cair e, com a família, resolvem vir para São Paulo. Sou a filha do meio e tenho mais quatro irmãos. Minha infância começou em Perus e quando eu tinha quatro anos, a gente foi morar em Franco da Rocha. Foi uma infância muito boa porque lá era um lugar sossegado, uma vila próxima do Juqueri, o manicômio, onde todo mundo se conhecia. Eu e meus irmãos éramos muito unidos então as brincadeiras eram muito mais entre a gente. Foi uma infância bacana. Lá em Franco também tem as penitenciárias, um complexo com várias colônias. A gente andava de bicicleta por elas e também tinha um moinho onde a gente ia nadar . O que é hoje o Parque Estadual do Juquery, que antigamente era o campo de aviação, era um dos lugares também que a gente ia muito quando a gente era pequeno.

 

A maioria dos professores eram próximos da vila, então tinha toda uma integração. Essa fase da escola foi bem tranquila e me fez projetar várias coisas que hoje faço. Também era a época que as ETECs [Escola Técnica Estadual] estavam surgindo. Tinha aquilo: “Você tem que ter uma coisa que você se encaixe porque você tem que se formar e ganhar dinheiro”.  Como eu tinha duas irmãs já formadas, prestei também, passei no curso de Agrimensura, que na época eu nem sabia muito bem o que era. O curso era de três anos, só que na metade eu percebi que não era o que eu queria. Eu sempre cresci muito indignada e eu via que aquilo ali não ia me levar pra outros caminhos que eu já projetava. Voltei pra escola que eu estudava para terminar o segundo e o terceiro anos lá.

 

Eu me indignava muito com esse processo de ter que diferenciar as coisas, as pessoas. Por que eu tenho e meu amiguinho da escola não tem? Como eu podia fazer para ele ter igual? Tinha aquela coisa de pedir pra minha mãe um lanche a mais pra eu dividir. Via que muitos dos meus amigos moravam muito próximos da vila, mas em situações mais precárias. Então me indignava. Como é que eu faço pra poder mudar? Eu sempre cresci com essa indignação.

 

Em fevereiro de 99, voltamos para Perus. Foi um longo período vivendo essa transição, até me encontrar em Perus de novo. Como meu filho era recém-nascido, eu passei muito tempo com minha família. Acho que tem um processo também, a criação do filho. Eu era nova e, ao mesmo tempo, eu queria sair, queria curtir, mas tinha uma responsabilidade. Comecei a sair pra Perus e me relacionar com outras pessoas a partir de amizade dos meus irmãos, muito mais ainda do meu irmão mais novo. Ele tinha uma banda de rock e eu ia com ele para os shows. Então o círculo de amizade do meu irmão passou a ser o meu círculo de amizade também. Foi um tempo bem difícil porque eu estava com 18 anos, via os meus amigos saindo e eu em casa cuidando do meu filho. Mas também acho que foi uma das melhores épocas da minha vida. Os meus filhos chegaram em épocas que deveriam chegar pra me dar um breque. Me deram muita responsabilidade, me trouxeram muitas coisas. Ser mãe me trouxe amadurecimento, todas as questões. Mas foi difícil no começo.

 

Minha mãe e meu pai sempre prezaram primeiro o estudo: “Vocês têm que estudar, se formar e depois vocês pensam em trabalhar”. Mas o meu primeiro trabalho, que eu tive uma remuneração que eu pude até fazer a criação do meu filho, foi quando eu volto pra Perus. Eu sempre gostei muito de arte, então comecei a fazer artesanato. Era uma época que o biscuit estava super em alta, gerava uma renda boa e me possibilitou muito trabalho. Foram cinco anos, até que eu peguei uma tendinite, tive que fazer várias fisioterapias e parei. Foi na época que eu comecei a fazer o curso de marchetaria com a ONG Care. E de lá também começa a vir a minha renda: a gente começa a comercializar as peças que a gente produz, começa a fazer feiras.

 

Eu não tinha conhecimento da Quilombaque até esse curso. A gente começa a se conhecer, ver que os ideais batem. Só que assim, era um curso que ia ser terminado e beleza, cada um pro seu lado e já era. Mas durante esse processo, a gente tinha a ideia de fazer o Projeto Pinóquio. Quando a gente se junta, a gente circula com ele, mas sempre levando o nome da Quilombaque. Mesmo com o grupo, a gente não tinha um espaço ainda, teve que fazer várias negociações porque a oficina ia ficar parada depois que acabou o curso, ela não ia ser utilizada e a gente pede esse espaço pra poder produzir. Então a gente começa a produção e através das vendas a gente começa a juntar um dinheiro pra comprar as máquinas. Aí depois vem o espaço que hoje fica a Quilombaque.

 

A gente fica um período com essa oficina na garagem da casa da mãe dos meninos, o Fofão e o Dedê. Com o lance de estar crescendo, lá fica pequeno e a gente aprova um projeto de tambores. Já tinha o propósito de formar um grupo de percussão em Perus, até pra desmistificar e fazer com que a gente conseguisse passar as nossas ações, todas as propostas de se ter a Quilombaque, de se trabalhar a arte e a cultura como ferramentas de transformação. E foi um processo que teve uma construção bem bacana porque seria muito simples a gente fazer esse projeto e colocar ele na Quilombaque. Nessa época, a gente já começava essa ideia do mapeamento pelo bairro e de ver onde que o tambor tivesse esse propósito de transformar. E a gente optou pelo Recanto dos Humildes, que foi uma vila aqui no bairro de Perus que tem um contexto histórico muito pesado, onde foi a primeira grande ocupação do bairro e que demorou anos pra ser legalizada. Tinha essa questão de trabalhar os ritmos regionais através dos tambores e também de lá ser um grande reduto de migrantes, maioria nortista e nordestina. E era um lugar de Perus que não tinha acesso a essas linguagens, à cultura. Então foi essa proposta de colocar essa oficina lá, dentro de uma escola. Eu acho que ali a gente conseguiu juntar mais pessoas, conseguiu atingir o bairro também com as ações. Então foi o projeto que foi integrando a Quilombaque, os ideais de luta, tudo, ao bairro. A gente trabalhava os ritmos regionais, que era o samba reggae, o baião e trazia também todo o contexto histórico do que eram os ritmos. Não era só a técnica, a gente já tinha essa preocupação de resgatar tudo, era bem um resgate da memória e permanência.

 

Todas as questões das referências que eles traziam, eram referências minhas também, eu acho que bateu muito esse lance da ideia, do propósito, ou do porque ter um lugar assim, sabe? Por que ter ações e atividades aqui? Acho que tudo isso fez acreditar que eu estava no lugar certo. E as pessoas, elas comungavam das mesmas ideias que as minhas e tinha esse propósito de unir pra fazer essa ação mais coletiva em prol do bairro, de trazer outras perspectivas. Eu chego na Quilombaque quando ela está num processo de organização de uma equipe que já tinha há um bom tempo. O nosso primeiro financiamento veio por um projeto que era junto com a igreja, o Projeto Coruja, que na época a gente recebeu um dinheiro, acho que era uns três mil e a gente achou isso o máximo!

 

A gente precisava de um lugar também pra se encontrar. É um momento em que a gente dá uma pausa na marchetaria e começa a dar conta de outros projetos e começa a enxergar que aqui seria um lugar que comportaria o crescimento das pessoas. A intenção era passar as oficinas de libras e de interpretação de texto, que também eram feitas na garagem, pra cá também. Então a gente começa a construir pra comportar outras atividades.

 

Vou falar uma palavra que resume tudo: complexo. Você trabalhar o coletivo é difícil, a gente estava recebendo muita gente, já tinha um núcleo que era pré-estabelecido, que eram as pessoas que estavam na frente, mas foi difícil no começo. Era bem bacana, mas passamos por muitas dificuldades, até pelo próprio espaço, esse lance do espaço ser alugado, a gente ter que correr atrás pra poder sustentar. Acho que toda essa parte foi um pouco difícil. A gente começou também a aprovar projetos, acho que o financiamento começou a partir disso. Demorou um bom tempo até a gente estabilizar tudo. Aprendemos o empreendedorismo na prática! Aprendi muito nesse processo de buscar entender a questão da legalização da Quilombaque quanto associação.

 

A Quilombaque tem várias ações dentro do bairro. A gente trabalha tanto o processo de formação, de produção cultural que está todo esse entendimento da luta, da resistência, de todas as estratégias de sobrevivência através da arte, da cultura, a gente faz esse processo com jovens agentes coletivos que foram formados aqui no bairro. A gente tem ações na rua que são eventos que a gente fala que são até os eventos articuladores, que a gente passa tudo isso daqui de dentro pra fora, a gente sempre procura passar isso dentro das atividades, dentro desses eventos. Todo evento que a gente faz tem muito esse lance do enfrentamento, de levantar a bandeira, de lutar contra tudo isso, de toda essa violência que é imposta pro jovem na periferia, toda essa negação, todo esse preconceito, essa marginalização dos jovens. E a partir desse curso com os jovens que já tinham um pouco dessa experiência com a arte e a cultura, a gente fez esse mapeamento no bairro e descobriu-se que tinham lugares que eram lugares estratégicos, que eram lugares que estavam até um pouco mais distante da Quilombaque, do centro e que eram espaços que estavam desocupados, espaços públicos, e fizemos as ocupações, formamos mais dois empreendimentos culturais, abrimos mais dois leques de ações aqui no bairro.

 

São dois pontos bem bacanas que daí trazem também a questão da juventude, todo esse processo de formação. A Casa do Hip Hop tem diversas atividades, a gente produz muita coisa ali também, porque o espaço físico lá é pequeno, mas a gente fala que ganha lá por um quintal que é a praça na frente, então são muitos eventos acontecem lá. O hip hop é um movimento de resistência, de militância. E a Casa do Hip Hop tem esse papel ali, não é só simplesmente oferecer as oficinas, mas é conscientizar e politizar a molecada que está fazendo parte. A importância da gente ter isso, né? Tem que ter esses enfrentamentos a tudo isso que é posto pra gente, tudo o que nos tiram.

 

Prezo que essa mobilização dentro da periferia, da gente tornar um lugar que saia desse lugar de ser marginalizado, de não ter acesso, de estar sempre à margem. Eu acho que a minha inspiração é tornar, é ter essa desconstrução de quem nós somos, de fazer isso aqui ser um lugar possível pra todos. Eu sempre brinco que eu quero dominar o mundo! Mas eu creio que o que eu projeto pro futuro com a Quilombaque é de cumprir todos esses projetos que a gente propõe com território, da gente concretizar todos esses sonhos que a gente tem, da questão de todo esse movimento em Perus, a questão da fábrica, do território, da gente concretizar todos os planos, essas metas que a gente projeta de tornar a periferia sempre mais viva, sempre mais produtiva, sempre mais capaz, sempre com muito mais possibilidades! A Quilombaque pra mim é a vida que eu construí, sabe? É a concretização de tudo o que eu acreditei um dia, que eu podia fazer a diferença de todas as minhas indignações. Eu até brinco que, depois de tantos anos, a Quilombaque vira um tipo sanguíneo, sabe? O sangue da resistência e da luta porque me formou e me amadureceu muito a vida.

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