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História

Traços cheios de humor

História de: Ziraldo Alves Pinto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/03/2014

Sinopse

Ziraldo não se esquece de nenhuma casa de Caratinga, de nenhum dos rostos de seus vizinhos de infância. Lembra-se também das palmeiras-imperiais na pracinha da cidade, canções de roda, anúncios de rádio, as inúmeras brincadeiras com que se divertia. Não gosta de se recordar do surto de esquistossomose que atingiu quase noventa por cento das crianças da cidade e levou embora muitos amigos. A infância de Ziraldo, filho de Zizinha e Geraldo, estabeleceu-se na sua memória como em nenhum outro período da sua vida.

Antes de sair para o mundo, olhava para fora de Caratinga através de duas janelas: o rádio e o gibi. Ouvia o locutor dando as notícias da Segunda Guerra e depois ia ler o Suplemento Juvenil ou o Almanaque do Tico-Tico. Foi misturando política com desenho, tomando gosto pelas duas coisas, e logo descobriu a caricatura. Aprendeu a fazer humor com as personagens e os acontecimentos políticos. Acima de tudo, aprendeu a ter um texto conciso e crítico. Levou esse talento para os quadrinhos e bolou algumas histórias.

Quando foi morar no Rio de Janeiro, depois de ter prestado tiro de guerra em sua cidade natal, já trabalhava com gibi. Na década de 1960 criou A turma do Pererê. A revista passou a vender muito, superando outras importantes da época. Decidiu investir na área, desenhou muitos números adiantados... Mas o golpe de 1964 modificou sua carreira. A turma do Pererê acabou e Ziraldo foi trabalhar no jornal O Pasquim.

Somente em 1969 voltou-se outra vez para o universo infantil. Agora com um livro. Flicts foi sua primeira história infantil. O enredo, que narra a trajetória de uma cor em busca de sua identidade, se tornou um clássico. Logo o livro foi comentado e elogiado, inclusive por Carlos Drummond de Andrade.

Mas, apesar do sucesso, Ziraldo só voltou a escrever outro livro do gênero em 1981, já com o fim da ditadura. O menino maluquinho, que saiu às vesperas da Bienal daquele ano, é ainda hoje um dos maiores sucessos editoriais entre os livros infantis. Desde então, com livros como O bichinho da maçã, Os meninos morenos, entre muitos outros, dedica grande parte de seu tempo e arte à literatura para jovens.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Ziraldo Alves Pinto. Nasci em Caratinga, Minas Gerais zona da mata na época, Vale do Rio Doce; 24 de outubro de 1932, ou seja, eu nasci mais perto do século XIX do que do século XXI.


PAIS

Meu pai chamava Geraldo Alves Moreira Pinto, era guarda-livros, e a minha mãe chamava Zizinha Alves Pinto, e daí vira Zi, de Zizinha e a Raldo de Geraldo, meu pai era muito imaginoso, e aí inventou o meu nome. Mamãe era costureira, aliás uma costureira de mão cheia, famosa na cidade, muito habilidosa, ela e as irmãs todas eram muito habilidosas. Foram dois pais muito interessantes mesmo; minha mãe era muito companheira, muito divertida, muito brincalhona. Casou muito novinha, meio que brincava com a gente igual criança. Rolava na grama brincando, era uma festa.


IRMÃOS

Eu sou o mais velho de sete. Ziraldo, Ziralzi, Zélio, Maria Elisa, Maria Helena, Maria Elisabete e o Geraldinho parece que quebra o verso aí e é o temporão. Minha mãe botou o nome do pai, Geraldo Alves Moreira Pinto Filho, que também é artista, ele é designer. Ele era um designer de mão cheia, trabalhou anos na Warner, e desenha capa de disco. Ele consegue ser mini gráfico porque fazer essas capinhas de cd e transformar isso em arte para mim é completamente impossível, e ele faz o diabo com esse formato.


LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA

Eu nasci em Carantiga, onde tinha um corregozinho e  passava todo o esgoto da cidade e onde eu peguei esquistossomose, como todo mundo na minha infância inteira. Quando eu era menino teve um senso esquistossomose  no grupo escolar. O governo de Minas mandou milhares de latinhas para a escola para a gente botar o cocô dentro da latinha, e foi uma coisa altamente constrangedora, e a professora “Olha Vocês vão fazer...” que coisa mais complicada. E aí fizemos o nosso cocozinho lá dentro da latinha, e eu fiz a minha primeira piada, eu falei “Papai Essa é a minha primeira vez que nós vamos mandar o governo à merda.” Fez o maior sucesso, eu acho que foi aí que eu descobri que eu ia ser humorista. Era no segundo ano do primário, eu podia ter nove para dez anos. E aí deu 90% das crianças que tinha esquistossomose. Você imagina, quase 90%. Mas todo mundo tinha esquistossomose e foi um problema curar. 
Meu avô tinha 12 filhos, ele mandava na família toda. E aí o meu pai era muito dócil às vontades desse avô, desse sogro dele, e a minha terra não tinha muita possibilidade de emprego. Então o meu pai trabalhava num banco lá de Caratinga mesmo, Banco Comercial de Caratinga, eu acho que o banco quebrou e meu papai ficou desempregado, e o meu avô pediu um emprego para o meu pai num arraial chamado Lajão, e levou a família toda. Meu pai ia ser guarda-livro de um cara chamado Carlo Magno, um italiano, eu não sei como esse cara foi para lá, num armazém deste arraial que tinha tudo, desde arreio, sal, enxada, fumo, foice e tudo. E meu pai era guarda-livros desse cabra mãe. 
E nós fomos para Lajão, eu e o Ziraldinho, duas irmãs, meu pai, a minha mãe e meu avô fomos para lá. Lá nasceu o Zélio. E eu me lembro quando chegou à eletricidade e a instalaram na cidade, e o meu pai que era muito cívico fez um hino para as crianças cantarem, é assim “Chegou à luz, ai novidade no Lajão. Que ilumina a minha vida... lá-lá-lá... do coração...” isso ficou na minha memória para sempre. 
Eu nasci em 32, eu fui com três anos pro Lajão, e é a memória mais antiga da minha vida, que eu fui na cabeça do arreio do meu avô, e a mamãe e o papai todo mundo no cavalo, e as mulas com a mudança. Eu nunca vou ter certeza se eu lembro ou se a mamãe contava tanto, mas, de qualquer maneira, toda vez que eu ouvia o tamborilar da chuva lá no telhado, eu sentia aquela coisa que depois foi descrita como proustiana de senti uma felicidade, um bem estar, assim uma sensação de proteção. E eu acho que eu arrumei na minha cabeça, mas deve ser lembrança, eu debaixo da capa gaúcha do meu avô, como a minha mãe me contou. A capa gaúcha cobria sujeito e cobria a bunda do cavalo, cobria tudo, você ficava debaixo da capa gaúcha e era uma peça só. E aí eu ficava dentro da cabeça no arreio, com a capa gaúcha por cima, e a chuva tamborilava na capa gaúcha. E eu estava muito protegido, quentinho com o meu avô. E como eu era o primeiro neto, então imagine a paixão - eu depois eu compreendi isso quando eu tive a minha neta Nina, eu fiz até um livro chamado O Menino e o seu Amigo, que é a paixão do avô. Até ele morrer, eu tinha 45 anos, eu tinha esse avô. Eu era o único da minha geração que ainda tinha avô, e eu ainda era o xodó dele. 
E eu me lembro de momentos em que eu ia conversando com ele, e ele me contando as coisas. Na chuva e aquele pessoal todo no cavalo debaixo da chuva. Minha mãe sentava de lado, agora você imagina que coisa fantástica Como é que uma mulher poderia viajar naquele arreio sentada de lado no cavalo? Horas e horas sentado no cavalo de lado, porque não podia montar de perna aberta, que coisa impressionante. E o meu avô sem parar de falar conversando com o neto de três anos. E daí então eu acho que eu me lembro disso, mas eu acho que eu inventei isso. Mas a sensação de chuva até hoje me dar felicidade, que é o negócio da rosquinha do Proust. Madeleine, nós é que traduzimos para rosca, mas madeleine não é rosca. 
Voltei do Lajão com 40, foi em 1939 pra Caratinga, Eu lembro que tenho vagas lembranças do Lajão, que passou a se chamar de Conselheiro Pena. Eu me lembro da festa quando ele passou a ser cidade. Eu me lembro dos prefeitos chegando da autoridade, o trem chegando cheio de autoridades em Belo Horizonte. Eu acho que o Bendito Valadares só chegou até Governador Valadares, ele não chegou a ir até o Lajão, eu não me lembro. Mas eu me lembro dessa coisa assim da solenidade, aí eu já estava com seis anos, e foi de 38 que ele passou e a cidade e passou a chamar Conselheiro Pena. 
E eu me lembro de uma anta, que toda a tarde ela atravessava a rua da cidade. Eu me lembro da sombra da anta passando, “É cinco e 40, a anta já passou.” Eu me lembro do jacaré na beira do rio; eu me lembro de muita paca na praia, muita paca mesmo. Eu quero voltar ao Lajão porque no quintal da minha casa seguramente tinha um sambaqui, porque eu me lembro que me pai foi fazer uma horta no fundo do quintal e ele dizia assim “Não dá para poder cavar canteiro lá, isso aqui parece que é um cemitério, está cheio de vaso de barro enterrado aí, e eu não vou mexer com isso não, eu não vou mexer nesse negócio não.” Eu me lembro com uma maior nitidez isso, então eu quero saber se alguém tem notícia do sambaqui no Lajão? 
Todas das minhas memórias são meio confusas até aí. Eu tenho uma tese antes dos seis, sete anos a sua memória é uma máquina fotográfica sem filme. Você só bota filme na máquina a partir dos sete anos, e aí você registra tudo. 
Aí fui para Caratinga em 40 e sai de Caratinga em 48. Eu fiz 18 anos em Caratinga. Eu posso escrever quase um diário de Caratinga. Por exemplo, eu sou capaz de desenhar as casas da rua principal da minha cidade uma por uma, do lado e do outro, e dizer quem morava nelas. E não consigo saber o nome de nenhum vizinho da minha rua, que eu moro 30 e tantos anos no Rio de Janeiro. Eu me lembro de tudo. 
Então a cidade ficou muito marcada na minha vida, muito, muito, muito... Ainda volto lá muito emocionado, eu sempre me emociono profundamente quando eu volto lá, muito mesmo, é impressionante. O Rui Castro acha que é demagogia gostar assim da cidade da sua infância, mas eu gosto mesmo. Eu fico muito emocionado. E agora eu recebi umas fotos da cidade, ela virou uma cidade do século XXI do interior, então o Brasil mudou muito. Eu viajo esse Brasil desde quando o Luciano Carneiro morreu, aquele repórter do Cruzeiro, em queda de avião. Eu saí pelo Brasil. Eu era relações publicas da revista Cruzeiro, eu tinha acabado de casar, com 26, 27 anos. Eu viajei pelo o Brasil todo. E eu me lembro das cidades, das capitais do nordeste todas, eu chegava no bar mais chique de Salvador e de Fortaleza, e a toalha do bar era de plástico, os garçons sem uniformes. Baiano de tênis em Salvador, e os famosíssimos clubes de Fortaleza. E os sofás do hotel eram forrados de plástico, aquele plástico branco sobre o estampado; não tinha ar refrigerado, nem pensar, nada... Não existia, você morria de calor. Eu me lembro que quando o avião de Terezinha abriu a porta, a minha roupa colou toda no corpo. Como quando se entra na sauna. Então eu conheço o Brasil desde dessa época.
E Caratinga já tem até edifício, tem supermercado. Agora tem presídio. A cadeia de lá era uma pocilga fedorenta. Agora tem presídio, parece presídio americano. Tem aterro sanitário, com plástico preto, com trator. É impressionante, mas no Brasil todo. É impressionante Essa coisa de supermercados então...O supermercado de Natal, do Maranhão. O Maranhão é do estado miserável, mas em São Luiz tem um supermercado que é a coisa mais fantástica do mundo. Mudou muito a vida desse país.


A CIDADE

Caratinga era uma praça muito bonita, porque ela tinha palmeiras imperiais, estão lá às palmeiras ainda. Era famosa por essa praça, e tinha um jardim que o jardineiro era um escultor, então como tudo era de ficus, ele esculpia passarinhos, flores com as plantas, muitas flores no jardim. Mas era sem calçamento, um lamaçal incrível. Eu morava numa rua sem calçamento, e o nosso negócio era voltar para casa e pegar faca e tirar o barro do sapato, depois botar o sapato assim naquela frente do fogão para poder secar. E o rio onde a gente nadava, brincava; eu tinha uma brincadeira ótima lá vem o marinheiro, era um cagalhão descendo o rio, você abaixava a cabeça e ficava olhando ele passar. E aí um dia o chapelão saiu com merda na testa. Tudo mundo achou graça. “Está com merda na testa ’’ e todo eu achava uma graça. Ele morreu de esquistossomose. A minha infância foi enterrar amigos de infância, eu tinha um enterrou por semana. Eu perdi uns dez amigos de infância de esquistossomose, entre esses amigos e conhecidos. Mas era barriguinha inchada. Era uma pobreza. Quando eu vejo Amarcord de Fellini, aquela história dele é um pouco o começo do fascismo, um pouco antes da Guerra. 
Então, quer dizer, a gente já tinha fascismo lá em Caratinga também, já tinha integralista. Já tinha pessoal de camisa verde. É impressionante, a gente não registra as transformações. A minha geração atravessou transformações seculares nesses 50 anos. Porque o homem do machado de pedra lascada pra o machado de pedra polida, demorou dez mil anos para polir a pedra. E eu sai do DC3, no avião que eu fui com a exposição do Carneiro pelo Brasil, você gira a hélice do avião para ele pegar. 
Meu pai era muito exigente com os filhos, penteava o cabelo, arrumava a camisa da gente, limpava o sapato para a gente sair bonitinho, colocava meia para a gente ir para a missa. Papai ficava arrumando a gente para ir para a casa do patrão dele, do Carlo Magno assistir rádio. O Carlo Magno botava um rádio na janela, botava aquele fio lá em cima da antena, botava o fio terra, botava aquelas cadeiras em frente à casa dele -aí já tinha eletricidade - botava aquelas lâmpadas acesas do lado de fora da casa, e ficava todo mundo ouvindo rádio Mairinque Veiga, e eu sei exatamente que ano é esse e o mês, porque o que tocava as músicas de carnaval. E a música é “Será você a tal Susana? A castra Susana do posto seis...coitada como está mudada...” E aí era o carnaval de 38. E eu me lembro o meu irmão chorando, e o cara falou “Eu conheço essa Susana ela não chora feito uns e outros, aí não...” E eu achei impressionante que o cara conhecia a Susana, eu acreditei que ele conhecia. 
Eu tenho um livro de um estudioso brasileiro de samba, chama Edgar, e ele tem todas as principais músicas de carnaval desde que começa o carnaval, a gravar músicas de carnaval, e a história. E tinha um concurso de música, que ganhava, música que perdia, até 1950 e tantos, que eu uso para poder saber e que anos certas coisas da minha vida aconteceram. A música que estava tocando naquela época é “Eu sou o pirata da perna de pau...”  e eu vou lá, vejo o ano, que é um jeito de eu gravar. Por isso é que eu posso escrever a minha biografia com data, por causa dessa música.


RÁDIO E GIBI: JANELAS PARA O MUNDO

Eu tinha duas janelas para o mundo, uma visual e a outra auditiva. Que era o rádio e o gibi. Quer dizer, o quadrinho é uma grande janela para o mundo, foi o quadrinho que abriu a minha cabeça para o mundo. Mas eu era muito atento, acompanhei a Segunda Guerra toda, eu ouvia. Eu tinha um tio chamado Luis Carvalho que era inteiramente paranóico. Assim que começaram a bombardear os navios brasileiros na costa brasileira, que dava notícia, ficava meu pai, meu avô, eu e o tio Luis ouvindo o noticiário. Eu me lembro direitinho do grande locutor da rádio Tupi, “Stalingrado não caiu” agora eu esqueci o nome desse locutor, eu sempre soube o nome dele, ele fazia um comentário político e depois dava a notícia, empolgado. Eu me lembro dele também dizendo “Terminou a guerra” Eu me lembro quando ele anunciou que Paris tinha caído. E meu pai é um mulato bonito. E ele olhou para o meu avô assim e começou a chorar, ele falou “É o fim da civilização” O meu tio Luis Carvalho ficava assim “A Guerra está chegando aqui, Geraldo Nós estamos perdidos...” e o meu avô “Oh Luis Olha o menino Pô” E meu tio “Ele tem que saber, ele tem que entender a realidade.”. Eu fazia versos, “Do meu peito a própria morte...aquela pátria”, defendendo, doido para ir para a Guerra. E eu ainda tinha um hino assim: “Amo tanto essa terra, amo tanto meu vasto país, e que se um dia eu partir para a guerra, eu irei bem contente e feliz.” Então eu queira participar da guerra de qualquer maneira. Eu me lembro dos praçinhas, mas isso eu já era rapazinho.


O DESENHO

Desde três anos, isso eu me lembro com nitidez. Pela a posição que eu estava eu devia ser muito novinho, porque eu estava deitado no chão desenhando, eu devia estar com cinco anos. Deve ter sido em 1936, 37, estava desenhando no chão. Cinco anos você é bem infantil, é muito difícil ter memória de cinco anos, mas eu devia ter isso. Eu me lembro de uma porção de pés envolta de mim. Isso aí eu não criei, não. E uma voz dizendo “Ele está dizendo que isso é um tatu.” E eu dizendo “Eu estou dizendo é o cacete Isso é um tatu” Minha mãe tinha me ensinado a desenhar um tatu. Minha mãe me ensinava a desenhar. Ela me ensinou as letras todas transformando as letras em coisas vivas. Por isso é que eu virei cartunista. “O A sobe, desce e corta. O B é uma letra que sobe e é barrigudinha. O C é um comilão. O E perdeu o umbiguinho dele. O E tinha um cordão umbilical...”, mas essa eu acho que fui eu que inventei, mas o L vivia ajoelhado, o D também era barrigudo, o S era uma cobrinha, é claro... 
Por isso que eu acho que esse negócio do construtivismo é uma babaquice, porque a nossa língua é silábica, e esse você ensina silaba a sua criança a tendência dela é organizar. E eu ensinei os meus filhos a ler assim: eu jogava uma porção de silaba em um monte de quadradinho - tenho até hoje lá em casa as silabas – “Ah Vai buscar sapato para mim.” Ele colocava lá “Sa-pa-to” “Vai buscar pato só...” Eles iam procurar, e ficavam procurando, “Vai buscar casa”. Agora eu fico com essa coisa de aquisição de conhecimento essa coisas aí, o que acontece? Atrasa os processos. Se nós falássemos como os ingleses, quer dizer, que o som da letra é convencional não é uma lógica... mas nossa grafia é lógica, a inglesa não é. Então você tem que ensinar a imagem para a criança. Então eu aprendi a ler muito depressa. Em casa. Eu já fui para o grupo sabendo ler. Minha mãe dizia “Que letra é essa aqui?” eu digo “B”  “E essa aqui?” “A”, “E essa junta aqui?” Eu falei “não sei” “Ah Não sabe. Abre a boca e fale B. Tem o A na frente? Então você não fala B, você fala A.Abre a boca e para falar B e fale A.” E eu falei “BA” “É isso Ler é isso?” Ela disse “É.” “Então eu sei ler” Aí eu saí lendo. 
E claro quando veio o Q,U, E,  quando veio o N,A,O, veio o til, isso depois eu fui arrumando, e fui rearrumando na escola, mas acontece que no meu tempo de criança a escola tinha uma lógica cientifica, que os reformadores dos currículos brasileiros não entenderam. Quando o século XIX terminou, que você tinha quatro anos primários, e quatro anos ginasiais eles diziam esses quatros são formativos, e esses quatros são informativos, está subentendido. O primeiro é pra aprender os fundamentos, escrever, ler e contar. A escola não se preocupava com outra coisa. Você brincava, tinha dramatização, você cantava os hinos da escola, você aprendia as datas nacionais, você cantava a tabuada - não precisava de máquina de somar e nem dividir; até dez você sabia por que estava lá, todo mundo cantando. Tem até a piada do menino que foi para escola e a mãe perguntou “O que você aprendeu hoje?” “Aprendi tabuada de cinco” “Ah É? Como é que é?” “Parara...lá-lá...” “Moleque Você não está não.” “Ô mãe Eu já aprendi a música, você quer também que eu saiba a letra?” 
Quando você chegava no exame de admissão, você era capaz de escrever uma carta para sua mãe, você era capaz de escrever o que você quisesse. Você lia uma história e entendia, você fazia versinho, você lia poesia. Eu já tinha lido todo Reinações de Narizinho, eu já tinha lido Cazuza, e vivia com a cabeça enterrada no gibi, papai comprava gibi para mim toda semana, todo mês. Eu lia gibi semanal, Suplemento Juvenil, tudo...Almanaque do Tico-Tico, Mirim, Lobinho, Tico-Tico... E chegava os álbuns de Tarzan, almanaque do gibi todo o final de ano. Eu ficava desesperado quando o jornaleiro atrasava, eu quase enlouqueci o jornaleiro, porque eu já sabia que dia 15 tinha que chegar os gibizinhos. 
Quando eu fui para o ginásio aí o rito de passagem, quer dizer calça comprida, dólmã, um professor para matemática, outro para história, outro para história geral, história nacional, outro para ciências, para português, espanhol, francês, inglês, latim... Quer dizer, então você se sentia o famoso rito de passagem necessário para o seu crescimento Qualquer civilização do mundo tem esse ritmo de passagem, os Quarup é isso, você deixa de ser menino para ser homem, os judeus fazem o Bar Mitzváh, toma a chave da casa, é a responsabilidade, você agora é o homenzinho da casa. Por isso que eles são danados. E aí o papa João XXIII quando chegou, passou a crisma para 13 anos, para ficar em cima do Bar Mitzváh, mas não pegou. A igreja não dá importância à crisma, mas a crisma era para ser o Bar Mitzváh dos cristãos. O nosso era o exame de admissão. Aí botaram oito anos seguidos. O menino não tem ritmo de passar, passam sem aprender a ler. Enquanto você não sabe ler e escrever, você não pode avançar. 
Então não tem negócio de promoção automática, isso é besteira, o menino não está fazendo carreira militar, não vai ser soldado, sargento, cabo. Atenção professores Faz o seguinte: assim que o seu menino estiver alfabetizado - a alfabetizadora é uma professora muito especializada -, assim que o menino tiver descoberto a mecânica da leitura e da escrita, você passa esses 30 crianças para outra professora; ela fica com essas crianças até que todas saibam ler, escrever e conta, porque ela vai gastar em média quatro anos. Não foi arbitrário que fizeram isso, é que calcularam por aí. Mas acontece que você vai ter criança com dois anos já sabe ler, escrever e contar, e outras vão demorar seis anos, mas não é nem melhor e nem pior, é o tempo daqueles que é diferente. Você fica com ela. Não troca de professora todo ano na formação, porque a criança precisa não só de orientação como de afeto. Você com uma criança vai se afeiçoando a ela, você vai conhecer a mãe dela, o pai dela, a casa dela, as crises dela, então você não abandona essa criança enquanto ela está sendo formada. Então, termina o final de ano, o menino está apaixonado por ela, e vai encontrar uma outra que nem sabe quem é. É igual trocar de governo, com outro método, com outro jeito, não conhece a família da criança, não conhece os problemas dela, não sabe quando ela tá fingindo, não sabe quando ela está fingindo. E assim que a criança dominar o código. Você passa ela para o ginásio, um professor para cada matéria. Ela vai ficar feliz, e aí ela já está preparada para receber a informação.“Essa menina é bom para ciências exatas...” já vai na fichinha “Essa aqui gosta mais disso...” e se os 30 não poderem fazer o exame de admissão, pelo o menos 20. E, aliás, não tem nem que fazer o exame, a professora diz “Esse aqui já pode.” Ela só vai entregar para o ginásio quem ela sabe que pode ir para o ginásio, não precisa atormentar a criança. A criança não tem que provar nada. Eu fico aflito com esse negócio. 
Agora inventaram passar para nove anos. Pra quê? E esse negócio de fazer oito anos seguidos é para poder evitar evasão escolar. Você não tem que se preocupar com evasão escolar, você tem que se preocupar com o que a criança sabe o que está falando, sabe o que está escrevendo, o que é evasão escolar? O grande problema das escolas brasileiras é repetência, é o problema do erro do método. Criança não tem que passar de ano; quem passa de ano é a humanidade toda, quem passa de ano é milico que tem começar como soldado, fazer curso passa para cabo, faz curso e passa para sargento... O menino tem que ser avaliado, avaliado, avaliado... e acompanhado com afeto. As professoras afeiçoadas aos alunos passam eles pra outro, é como se perdessem os filhos. E o menino vai trocar de mãe? Todo o ano ele troca de mãe? Não, é muito burro isso, eu acho. 
E nessas viagens que eu tenho feito pelo Brasil dá para compreender isso. E outra coisa, o Brasil precisa para de mentir, dizer que nós temos 30% de analfabetos funcionais. Os Estados Unidos tem 60, a França tem 40 e nós temos 90%. E 90% dos brasileiros é analfabeto funcional, não entende o que está lendo, é incapaz de se manifestar pela escrita, e não gosta de ler. É analfabeto funcional, sabe escrever o nome, sabe ler uma manchete de um jornal, não atravessa uma noticia. Em São Paulo tem 21 milhões de habitantes, não vende 500 mil jornais por dia. Então quem não ler jornal é analfabeto funcional, não tem interesse nem para poder saber a noticia. Com tanta televisão, vai ver quantos jornais o Japão vende por dia. Até hoje eles continuam com edições de manhã, de tarde e de noite, saem três vezes por dia ainda.


CARICATURA

Bom, mas eu vivi em função de desenhar, quer dizer, a minha vida era em função de desenhar. Agora uma coisa curiosa é que eu sempre fiz desenho narrativo. Todos os meus desenhos eu contava uma história, então eu era um narrador gráfico. Eu já comecei a desenhar história em quadrinho. Eu me lembro que uma vez tinha em Caratinga um pintor italiano chamado Mário Andena - eu não sei o que aquele cara pintando daquele jeito foi fazer lá em Caratinga, não consigo imaginar. E eram bonitas as pinturas dele, ele devia ter sido um aluno de pintura lá na Itália e foi para lá fazer não sei o quê. Um dia eu passei lá no armazém e meu pai estava lá no outro armazém lá em Caratinga como guarda-livro. E aí a Dona Glorinha, que era diretora de um grupo escolar que em sacava, falou com ele que tinha um aluno que desenhava muito e tal, e ele tinha visto os desenhos meus. Ele falou para papai “Manda ele lá, que eu vou ensinar pintura para ele, eu vi os desenhos dele, ele é fora dos padrões e tal” E aí papai falou comigo “Mário Andrana quer te ensinar pintura.” Eu falei “Como é que eu vou explicar para papai que eu não quero ser pintor? Ele não vai entender.” “Você foi lá?” eu falei “Não fui.” “Porque você não foi?” “Não é isso o que eu quero não papai...” “E o que você quer?” “Não é isso. Eu quero desenhar história em quadrinho, entendeu?”. 
E aí um dia, foi 45 eu já tinha 12 anos, eu vi no Diário de Notícias uma caricatura do Dutra da eleição. Eu olhei e falei “É o Dutra Mas não é o Dutra. Papai, que coisa impressionante, olha, esse daqui é o Dutra” ele falou “Pois é meu filho, isso é caricatura.” E aí papai conhecia Raul Pederneiras, papai conhecia J. Carlos e tal, e me explicou o que era caricatura, e aí me apareceu com um O Malho, aquele jornal de caricatura, e eu só tinha Tico-Tico. E eu comecei adoidado a desenhar caricatura de Artur Bernardes, Getúlio Vagas, Dutra, aprender a fazer o meu Dutra mesmo. E aí eu comecei também a imaginar como é que se podia fazer uma piada; contar uma história dá para fazer, mas fazer num quadrinho só uma narração era muito difícil. E aí eu comecei a compara as caricaturas do jornal. Isso eu devia ter uns 12, 13 anos, mas eu desenhava adoidado super herói. Eu fiz muitos. E desenhava histórias em quadrinhos. Tinha a turma do Tubi, que era um pessoal que ganhou uma lancha, e de noite eles foram dormir e deixaram a lancha ligada, e aí quando acordaram já estavam na África. Atravessaram o atlântico com um litro de gasolina. Eu fazia muitas histórias em quadrinho. Sobraram poucas, eu tenho uma só. Só sobrou uma que eu tenho até hoje.


LEITURAS

Meu negócio era mais desenhar do que ler. Meu pai era assinante do jornal chamado Lar Católico e ele tinha muito anúncio de livrinhos, papai pedia pelo reembolso, então tinha o João Bolinha no Rio... e eram histórias religiosas, de bons exemplos, essas coisas assim. E me lembro de um livro chamado O mágico, de um autor chamado Clemente Luz, e aí o Monteiro Lobato, Viriato Correia, Ofélia Fontes... Lembro do Patinho Feio também da Melhoramentos, e o Thesouro da Juventude era uma coleção de livros que se vendia à prestação, e tinha tudo o que a juventude precisava aprender. Por exemplo, provas das redondezas da Terra, o que é vulcão. É um Google para crianças, e tinha todos os contos infantis mais famosos, os contos de Grimmn, os contos de Andersen, Pinóquio, Lewis Carrol... Tudo em resumo. Ou eu lia ou a minha mãe lia para mim. 
Eu me lembro da mamãe lendo para mim uma história, eu já tinha uns dez anos, uns meninos perdidos num balão, e aí eu comecei a chorar. Minha mãe disse “Que isso?” eu disse “Os meninos longe de casa e...” ““Eu não vou ler mais para você não.” Eu me lembro quando eu vim para o Rio de Janeiro com 15 anos eu comecei a ficar muito preocupado porque eu estava perdendo os gibis. Às vezes passava três, quatro meses e faltava comprar o gibi. Eu tinha que ir à banca comprar, porque eu comecei a me preocupar. E aí eu conheci um cartunista, Fortuna, que era um ano mais velho do que eu, mas o Fortuna já era um intelectual... Eu já estava lendo Jorge Amado quando eu cheguei ao Rio, mas o Fortuna só falava essas coisas, e eu fiquei meio envergonhado em falar com ele que eu lia gibi. E aí eu comecei a ler também, comecei a ler mais intensamente. Mas a gente lia muito, muito, muito... 
É por isso que eu falo que estudar é muito importante, mas ler é muito mais importante do que estudar, porque eu estudei muito pouco. Formei em Direito, mas estudei muito pouco. Eu me lembro que no vestibular a parte de textos que você tem que fazer depois do exame oral, os examinadores diziam assim “Você vai ser um advogado enganador da humanidade, porque você não sabe nada Agora, o que você enrola...” “Você vai advogar?” Eu digo “Não pretendo, não. Meu pai quer que eu me forme em Direito...”  “Você vai advogar? esse é o pai do Amílcar de Castro, esse escultor, “Você me promete que não vai advogar? E se você me promete eu vou passar você, e se você não me promete eu não vou passar, não, eu vou dá um pau em você.” Eu me formei em direito só escrevendo. “Eu não estudei isso, não estou muito certo, mas pela lógica é o seguinte pá-pá-pá...” Eu freqüentava muito pouco a aula. “Ziraldo, rapaz, vem cá, vamos conversar: dá um estudadinh,a cara...” Eu lia desde menino, então eu tinha uma lógica, um raciocínio, formava as frases direito, entendia o que eu estava lendo. Lia uma vez só e fazia provas. Quer dizer, tem que ensinar para as crianças que se ele ler e escreve como quem respira tem muito mais tempo para brincar. Porque você lê e entende logo, e não fica “Mamãe, lê para mim que eu não entendi.” Não tem esse negócio de ler para mim que eu não entendi.


BRINCADEIRAS

Eu brincava pouco. Sempre joguei muito mal futebol. Eu era goleiro porque não conseguia jogar na linha e aí eu ia pro gol, mesmo sendo o dono da bola. Eu era muito ruim de bola de gude, nunca aprendi a jogar pião, nunca aprendi a soltar pipa, papagaio. Eu brincava de brinquedos que eu inventava. Por exemplo, brincar de pique: em vez de um se esconder e outro ir procurar os que estavam escondidos, um se esconde e vocês vão achar. Brincar de caça. Então eu brincava de quartel, de soldados, de comandos, de guerra, de fazer guerra de mamona; eu fiz muitas guerras de mamonas, que você botava os cachos de mamona e saía arrancando as mamonas e jogando. Esse negócio de mamonas é terrível porque pegou no olho... - a crueldade infantil é muito grande: a gente jogou uma mamona no olho do menino e ele perdeu o olho, e além de perder o olho ficou com apelido de Zé Mamona. Que maldade. 
Eu brincava de guerra de mamonas, brincava de estradinha. Como tinha muito terreno baldio, muita beirada de morro, de pasto, a gente tinha uns matinhos chamados vassourinha, que parecia árvore, parecia bonzai, então eu ficava procurando matinho que parecia bonzai e a gente fazia um barranco, fazia estrada, fazia terra, fazia ponte, tudo com pedaço de bateria de automóvel cortada, porque tava fazendo a Rio-Bahia. Brincava de pegar besouro, botar besouro na mão, para que o besouro ficasse fazendo cosquinhas na sua mão, era muito gostoso isso. E depois amarrar a caixinha no besouro para ele puxar, e botando peso dentro para ver se ele conseguia puxar. O besouro tem uma força incrível. E até conto a história no Meninos morenos, que nós arranjamos um besouro com chifrinhos assim, e fomos botando birosca, bola de gude, era biroscas dentro da caixinha de fósforo, ele puxou a caixa de sapato esse besouro. Então eu dei o meu goleiro para ele, goleiro era uma caixa de fósforo beija-flor, que era mais alta do que a outra, cheia de chumbo do jogo de botão e aí o diabo do besouro puxou a caixinha.
Brincava de circo. Ah Nós tínhamos um circo, eu era o palhaço do circo, fazia coisa no trapézio. Eu estou vendo que eu brinquei pouco nos brinquedos convencionais. Eu nunca peguei passarinho, fui sempre ruim de atiradeira. A primeira vez que eu peguei um peixe na vida, eu levei tanto susto que eu nunca mais pesquei na minha vida, que ele começou a saltar na minha frente assim, e eu segurando a vara ali. Prender passarinho no alçapão também; colocava milho, botar e puxar. E nós tínhamos um circo, e nós pegamos um gambá, demos uma pedrada no gambá e ele ficou meio cego, e aí a gente botou o gambá no circo todo ferido, coitado, e o negócio era o gambá subi no palco. Que ele fazia um picadeiro e o circo era cercado de folha de piteira, tinha plantado aquelas piteiras... Você sabe o que é piteira? Você não é da roça? Piteira é aquela coisa que faz sabão de xampu, aquela planta grande que dá aquelas folhas fortes, que sobe um tendão. Dá muito na beira de pastos. A gente cortava aquelas folhas de piteira e fazia a cerca o circo, fazia um trapézio em geral no galho da mangueira. 
Ah Subi em árvores também eu era um monstro, eu subi numa mangueira numa velocidade espantosa, até pouco tempo...A última vez que eu fui tentar subir eu quase caí, mas eu era bom. Impressionante, porque subir em árvores é uma lógica. Você experimenta o calho e bota o pé, porque você tem que está todo ligado para poder subir bem em árvores. É muito interessante. Até os 50 anos eu subi em árvores bem para danar, depois parei de querer provar que eu era o bom. Olha quanta coisa eu brinquei na minha vida Nunca consegui soltar pipa; birosca, bola de gude não teve jeito. Eu brincava de precipício também um jogo muito perigoso, você conhece precipício? Chama finco em alguns lugares. Também furou o olho de um dos nossos lá. Brincava de brincadeira de salão também, passa anel, gata-parida, você conhece? Você senta uma porção de meninos aqui assim, e começa a espremer, a espremer até que você seja expelido do banco e até que fiquem os dois mais fortes. 
Brincar de quadrilha... A maioria das canções de roda são francesas. Uma muito interessante também:“Senhora dona Condensa, com língua de pato ou dá ou desça” “Dom Rei mandou buscar uma das filhas para casar...” e o outro responde “Eu não dou das minhas filhas nem pro olho, e nem pro prata, nem por sangue da lagarta...” da largata pra rimar com prata “Tão alegre que eu vinha, tão tristonho eu vou voltar, tão alegre que eu vinha, tão tristonho eu vou voltar...” e a outra fala “Volte, volte cavalheiro, vem escolher dessas montanhas...” eu digo “Essa é uma mulher de montanhas?” Só depois de velho é que vem escolher nessas montanhas, “A quem lá lhe agradar, que essa já não quero, quero essa do meu gosto, porque essa come pão da cesta e bebe vinho da garrafa, come queijo, requeijão venha cá meu coração...” e escolhe uma. Até ficar a ultima lá, que a gente dá uma vaia nela. 
Minha mãe comandava essas brincadeiras, mamãe é que ensinava isso. Essa letra a gente cantava sem saber o que estava cantando, igual a gente canta muita coisa sem saber o que está cantando, por exemplo, “Hoje é domingo, pede cachimbo...” está a pedir cachimbo. “Fui ao Itororó, beber água e não achei, achei bela morena que no Itororó deixei...” 
Uma outra recordação também encantadora, são os jingles da rádio nacional, e as canções da missa da igreja. Eu sei todas, da coroação. Inclusive nós tínhamos um padre que voltou de Roma, e ele inventou um hino que a gente cantava na igreja, que é o hino do fascismo. “Brasileiro, os brasileiros, o país que nosso é defendamos fortemente, nossa igreja, nossa fé...” esse hino é o hino do Mussolini A gente cantava na igreja. “Silêncio, silêncio, silêncio, se a porta se abre, oremos, oremos...” isso é na hora do ofertório. Eu fui coroinha. Coroinha de reza, de missa não. Isso na missa do mês de maio, com a roupa vermelha, era a glória.
E os jingles de rádio também:“Eu vou formar um batalhão, um batalhão de crianças bonitas, sempre marchando, sempre cantando, p-a-l-m-o-l-i-v-e... Palmolive...o sabonete das estrelas.” A gente era feliz e sabia
Ah Tinha outra coisa também que é tascar balão, e brincar com tanajura. Enfiar um palito na bunda da tanajura e sair correndo com a tanajura que ela continuava batendo as asas, e eu sair com ela, e estourar a bunda da tanajura na gordura igual pipoca, e dá para o seu Levino comer com cachaça. Seu Levino era um magrinho que trabalhava na venda lá em frente de casa, era um cachaceiro danado, e comia a bunda de tanajura. Eu me lembro que eu coloquei uma tanajura na boca, mas eu não estou muito certo se eu coloquei a tanajura na boca, porque fica igual à pipoca, quando estoura a bundinha da tanajura. Deve ter gosto de formiga. Um gosto de fórmica. Mas ele comia. 
Eu via a velha passar no braseiro também e não queimar o pé. Mas o pé dela era dessa grossura assim. Todo mundo espalhou a brasa, falou “Vamos passar, quem é que passa?” E aí chegou uma velha, tirou o chinelo e thu-thu-thu... E depois botou o chinelo e fui embora, todo mundo dizendo “É o capeta É o capeta” Nunca tínhamos visto à velha, ela passou no meio do braseiro e tal. 
Uma coisa emocionante também era a missa do galo “Com a roupa de patrulha de galo, um bicho que para mim nunca falou, falando direitinho como eu falo, e cantando também cocorocó...” eu acho que é uma música de Assis Valente, era uma música que a gente cantava. Mas eu ia para missa do galo e dormia, voltava carregado pelo meu pai. 
Mas todo o natal em minha terra chovia. Todos os natais da minha vida, e os meus aniversários da minha infância foram com chuva. Em Caratinga começava em outubro e chovia até março, sem parar, igual Macond do Garcia Marquez. Chovia sem parar outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, só parava nas águas de março, 13 de março. Tinha enchente de São José e aí parava de chover. E quando a chuva seguia, eu me lembro da minha empregada dizer “Ah Meu Deus Meu feijão vai nascer todo na lama, vou perder tudo.” Porque a chuva se estendia. Você plantava numa data certinha porque 13 de março parava de chover mesmo. Tinha muita enchente na minha infância, muita enchente. Umas das coisas mais divertidas era ver as cobras descendo no rio, zimmm Passando voado assim. Descendo com a enchente, porque ô cidade para ter cobra Rapaz, passei minha vida no meio de cobra. Eu tenho uma casa na Ilha Grande que é Mato Puro, há muitos anos,e  eu só matei uma cobra lá. Olha, o que a gente matou de cobra quando era menino, era uma loucura. 
Ah, brincava muito de bandido e mocinho também, chamava brincar de faroeste. Eu me lembro que eu era craque e “Maosar (Mãos ao ar)” Eu falei “Está muito longe Está muito longe e não vale” E aí tinha outro que brincava de “paradinha aí.” Se você fizesse um contrato com o sujeito de paradinha aí, ou capadinha meia. Se você estivesse comendo um sanduíche ou uma bala, você falava “Capadinha meia” e você tinha que dá a metade pro outro, ou o contrário. E paradinha aí você falava “Paradinha aí” e o cara só saía quando você o mandava parar. Então você podia colocar o cara de paradinha e ele ficava ali parado “Sai daí menino” “Ele sumiu, ele mandou eu ficar em paradinha aí e eu não posso sair, tenho que esperar ele voltar.” Eles obedeciam mesmo paradinha, eram umas brincadeiras muito engraçadas. 


E AS COBRAS...

Eu me lembro. E aí “Onofre Fica quieto Não mexe Tem uma cobra passando atrás de você, não mexe” Logo depois “Pronto agora pode vim Vamos brincar.” e aí eu continuava brincando. Não me lembro de ninguém ter sido mordido por cobra, não me lembro.E tinha muita cobra mesmo. Tinha uma coisa que eu não sei se é verdade ou se é mentira, que é piado de cobra, aqueles piado. De noite eu ouvia uns piados. Outra coisa é caçar Piriá, que é preá. 


LEMBRANÇAS FORTES

E veja que é essa minha história, também uma infância cheia de esquistossomose. Ainda vou escrever essas memórias mais detalhadamente, verificadas. No Os Meninos Morenos tem muitas histórias que eu resgatei assim, odeio a palavra resgatar...Mas juntar e escrever mesmo tudo assim é muito interessante. Porque se eu for conta a minha vida, eu vou gastar 70% da página isso, e mais 30% para conta os outros 70 anos, porque a minha memória não tem essa intensidade. Os tipos que eu conheci, as músicas que a gente cantava e tal, por isso que Caratinga é tão forte. 
Outro dia eu recebi umas fotos de Caratinga, eu fiquei tão emocionado rapaz, mas tão emocionado. Eu achava que toda a cidade tinha o seu Pão de Açúcar, tinha seu Corcovado. Eu achava, porque eu tinha morado em Caratinga e eu não tinha memória muito poderosa de Conselheiro Pena. Mas do outro lado do rio Doce tinha um pouco de Serra. Agora, em frente ao Rio Doce em Governador Valadares tinha Ibituruna que é uma pedra muito bonita, de onde a turma salta de asa delta. Inclusive o recorde brasileiro de distancia é um cara que saltou de Ibituruna e foi parar lá em Caratinga. E lá em Caratinga também os caras saltam de parapentes, se você chegar lá vai está cheio de parapentes. Agora acabou asa delta, é todo mundo de parapentes, porque nós também temos o nosso pão de açúcar chamado Pedra do Silva ou Itaúna, bem na praça, junto daqui das palmeiras, atrás da catedral, que é muito bonita a catedral de Caratinga, muito bonita com essa praça de palmeiras. E atrás tem a Itaúna. Lá em cima tem a antena da TV, aquele negócio todo, e a rampa de parapentes. E no meio da pedra tem um quadrado com uma janela quadradinha, quadradinha branca, que é a coisa que mais me intrigou a vida toda. É no meio da pedra. 
Eu cheguei a fazer uma história em quadrinho, que eu perdi, que saiu aquela revista Era uma Vez. Que aquilo era uma janela para uma imensa caverna, e que lá dentro tinha uma dessas coisas de 007, um cara fabricando um foguete para dominar o mundo; e na noite aquela coisa se abre e o foguete saí. Eu tenho isso desenhando, mas eu não consegui guardar essa história. E aí eu contei isso para o menino da minha terra, e contando para ele que eu gostava de subir na pedra para ver a cidade lá embaixo. Era bonitinho, lá longe pequenininho e tal. E o moleque foi lá, subi e fez uma porção de fotos para mim, e fez uma foto da janela, e disse “Todo mundo sobe lá agora. Está cheio de alpinista, é cheio de rapel. Você não sobe, você desce até ela de rapel e senta lá e fica olhando a cidade e tal.” E o cara fez uma porção de fotos para mim da janela. Tem lá um cacto, tem umas orquídeas, tem muitas orquídeas na pedra, muitas. E ele mandou para mim e eu fiquei tão emocionado, porque a cidade me careia muito. Tem uma estátua do Menino Maluquinho de 12 metros de altura, é um Cristo Redentor. A Rio Bahia dividiu a cidade em duas cidades. Uma cidade nova, que nasceu a direita de quem vem do Rio. Tem uma cidade tão grande quanto a de cá, que era a única que existia. E nessa avenida não foi possível fazer o contorno, e já tem rua por baixo, rua cima e tudo mais, e a avenida continua. Fizeram uma bela praça ali, e botaram a estátua ali. Então todo mundo que passa, para ir ou para voltar para Caratinga, tem que ver a estátua. Então pára ônibus para tirar retrato, e o prefeito fez umas lojinhas assim que vende souvenir da cidade, souvenir do Menino Maluquinho, aquele negócio todo. Na cidade deram uma rua com o nome do meu pai, uma biblioteca com o meu nome. A cidade me carinha muito, mas eu também eu sou um puxa saco da cidade também. Mas é impressionante, todo mundo tem uma casa de campo e eu tenho uma cidade. Por exemplo, quando eu fui nomeado presidente da FUNARTE, na minha posse veio três ônibus de Caratinga na minha posse, com uma banda de músicos. E 450 quilômetros. É impressionante. E quando o meu pai fez 70 anos, eu falei “Olha Eu quero fazer uma festa para o meu pai dos 70 anos aí, “Dá para você organizar?”E aí eu baixei com a minha família lá, os amigos, e foi um dia inteiro de festa na cidade. Alvorada, com banda de música, futebol de salão, jogo de vôlei, cabritada, que lá não tem churrasco, lá tem cabritada na fazenda. Depois de tarde uma grande partida de futebol, meu pai deu kick-off, de noite um show do Agnaldo Timóteo e depois um baile. 70 anos. A cidade inteira parada. Eu me lembro que formam uns amigos do  meu irmão, uns menininhos comunistas, e aí disseram “Seu irmão não tem direito de fazer isso. Isso não se faz com um povo ingênuo dessa maneira.” Eu falei “Manda esse cara para puta que o pariu Ah vai tomar banho, não tem direito.” É porque ele não consegue um carinho nesse nível. Eu vivo lá, sempre que posso eu vou lá.


RIO DE JANEIRO

Saí de lá com 15 anos. Fui para o Rio, e fui para MABE (Moderna Associação de Ensino) uma bela associação brasileira de ensino. Eu fiz dois anos científicos lá e ia ser pára-quedista. Pára-quedista era coisa de você ser cheio de batibuti e tal, voando. E aí o meu o pai chegou lá e “Você vai segui o exercito, meu filho?” “Vou pai. Vou para o batalhão de pára-quedistas.” E ele falou para minha mãe assim “Mas vai nas custas” Eu já arrumei com o sargento, é só fazer fundo de guerra lá em Caratinga.” E aí eu tinha que passar as férias lá em Caratinga, e eu tinha saído com 1.20, e cheguei lá com 1.75 em Caratinga, com um topete desse tamanho. Ah E o topete caía assim, e camisa colorida que ninguém usava em Caratinga, e calça mescla assim, meia escocesa, e sapato mocassim. Eu cheguei e fechei lá, cheguei falando carioca, com sotaque. E aí eu fiz tanto sucesso com as meninas, eu falei “Ah Eu vou voltar para Caratinga, está muito difícil arrumar uma namorada aqui no Rio.” E aí eu fui para lá, fiz o terceiro cientifico, fundo de guerra, e fundei o centro de cidade de Caratinga.
Então foi o não mais feliz de Caratinga, porque foi um ano de festa, uma coisa espantosa. Tinha piquenique, tinha baile, tinha festa, tinha um diabo. Uma das meninas bonitinhas de lá era Marizinha, outro dia eu a chamei de Marizinha “Marizinha, você está tão bem.” ela falou “Marizinha, Ziraldo?” “Ah Desculpa dona Marisa. Que antipatia, dona Marisa, parece que bebe, eu te conheço desde que você nasceu, vou te chamar de Dona Marisa. Olha Eu não chamaria você na frente de ninguém, eu chamei quando você estava só o seu marido” Eu falei “Alenca, Marizinha está enchendo o saco aqui.” Ela é mulher do Zé Alencar. Eu sou calouro do José Alencar e eu conheço a Marizinha desde que ela nasceu. E chamei ela de Marizinha.


VIDA PROFISSIONAL

Bom, eu fui para o Rio com as minhas histórias em quadrinhos debaixo do braço, para ser desenhista de história em quadrinho. Cheguei lá e descobri que não havia essa profissão, que tinha só um cara chamado Zé Geraldo que fazia o Charlie Chan, é o meu amigo até hoje e está vivo, outro chamado Joselito, que eu não sei o nome do filho dele que fazia o Loureline Romendado numa revistinha chamada Vida Infantil e Vida Juvenil, que era da editora da Vida Doméstica. Eu cheguei a fazer umas histórias em quadrinhos para essa revista, e aí desenhei o Teleco e Teco para uma revista chamada Sesinho, que é uma revista do SESI, feita pelo o Vicente Guimarães que é um escritor infantil mineiro criador do João Bolinha, que foi editor da Era uma Vez, uma revista infantil minera de circulação nacional. Você tinha duas revistas brasileiras de circulação nacional naquela época que não eram do Rio de Janeiro, nem São Paulo. Você tinha a revista do Globo de Porto Alegre, que circulava no Brasil inteiro, e você tinha a Era uma Vez...e a Alterosa, em Minas, que circulava o Brasil inteiro. Eu não me lembro de uma revista nacional paulista, não me lembro, Tinha o Governador, o jornal de humor chamado Governador, mas em são Paulo não tinha muita presença na minha região, muita pouca presença. A gente só sabia de São Paulo quando tinha o torneio Rio-São Paulo, e que os paulistas ganhavam sempre dos cariocas, e a gente ficava danado da vida. 
Então, eu fui desenhar o Teleco e Tim no Sesinho e fazia umas historinhas para a Vida Infantil. E depois comecei a desenhar caricatura no O Malho, ainda existia, que era concorrente da A Careta, era as revistas política brasileiras de grande circulação nacional, e grande êxito, onde estava J. CArlos, Aquarone, Raul Pederneira...uma porção de gente que desenhava caricatura e charges políticas, o Nássara...e publiquei também na Revista Cigarra, que era a revista mensal da Editora o Cruzeiro. 
E aí eu voltei para Caratinga, eu fiz o tiro de guerra. Em vez de voltar para o Rio eu fui para Belo Horizonte e comecei a publicar as minhas coisas na Folha de Minas, coloquei as minhas charges na Folha de Minas, e a fazer história em quadrinho no Viga Pépese, que era nós mesmo, cinco amigos de infância, era o Allan Viggiano, Galileu, Pedrinho, o Pimentel e eu, nós cinco éramos colegas de tiro de guerra, e amigos desde infância, quando eu voltei para Belo Horizonte eu inventei uma história em que nós éramos heróis. Era um time de basquete que circulava pelo mundo e tal, e acaba indo para o pólo sul, descobre a civilização do pólo sul, aquele negócio todo. E éramos nós mesmos, a caricatura minha, eu como herói e a turma toda. Tem essa série publicada na Era uma Vez, e a Globo está pretendendo colorir essa história e publicar de novo, e eu queria ver se eu achava essa do foguete saindo dentro da pedreira de Itaúna lá de Caratinga, dessa janelinha. 
E aí eu queria fazer história em quadrinho e desisti de fazer história em quadrinhos, e fui para Belo Horizonte e comecei a fazer cartum na Folha de Minas. Eu já tinha feito alguns cartuns na Cigarra, e aí eu já tinha conhecido Millôr Fernandes, eu já tinha conhecido Fortuna, e fiquei em Belo horizonte até formar em direito. Casei, e aí mudei para o Rio, e fui trabalhar na revista O Cruzeiro, e publicava as minhas coisas na Cigarra e no Cruzeiro, e como caricaturista. Ah Eu trabalhei em agência em Belo Horizonte, na Extrema Propaganda, e aí desenvolvi muito o meu desenho.
 Quando eu cheguei no Rio de Janeiro com os meus desenhos feitos em Belo Horizonte, o pessoal do Cruzeiro ficou impressionadíssimo com o nível de formação que eu tinha e a qualidade do acabamento. Que eu trabalhava em agência, ninguém saía da agência para ir para a imprensa, porque a imprensa pagava dez vezes menos do que a agência de publicidade, e o que estava havendo era um êxito do pessoal mais criativo da agência, todos saíram da imprensa e foram para a agência de publicidade porque pagava dez vezes mais do que o jornal pagava. O jornal pagava um vale. Então, eu larguei a agência para ir trabalhar no O Cruzeiro, para ganhar dez vezes menos do que eu ganhava, porque eu queria publicar as minhas coisas na imprensa. Até que em 60 o Brasil estava ameaçado de virar uma república sindicalista, entendeu? Então era a época das reformas de base, que era a descoberta do Brasil, CPC, da UNE, poesia concreta, a linguagem brasileira de música, de teatro, de tudo. E aí o diretor da revista O Cruzeiro disse “Eu vou estudar chinês ou russo porque este século que vai acabar socialista.” Ele era catastrófico...Manoel Lopes de Oliveira, é o diretor comercial da revista O Cruzeiro, muito parecido com o tio Luiz Gonzaga. 


PERERÊ

Então começamos a comandar no Rio uma atividade reivindicatória da nacionalização das histórias em quadrinhos. Então uma série de leis que é reduzindo a importação das histórias em quadrinhos, substituindo por histórias em quadrinhos brasileiras. Então, ele para se adiantar isso, ele publicava Luluzinha e Bolinha, vendiam 150 mil exemplares por dia. As revistas paulistas e Tio Patinhas não vendiam tanto quanto Luluzinha e Bolinha. E aí ele encomenda ao Carlos Estevão uma revista, encomenda ao Péricle outra revista, e encomenda a mim uma revista do Saci Pererê, que eu fazia uns cartuns do Pererê  no Cruzeiro. Ele encomendou isso numa sexta-feira, na segunda eu já cheguei com tudo prontinho para ele, para ele aprovar. Ele aprovou, eu comecei a fazer Pererê. O Carlos Estevão começou a fazer o Doutor Macarra, e o Péricles não conseguiu entregar do entregar o primeiro número. Suicidou-se logo depois também, só ficou eu e o Carlos Estevão fazendo. O Carlos Estevão fez sete meses, e eu fiz quatro anos o Pererê. 
Em janeiro de 64 o Manuel Lopes já estava conspirando, compreendeu que o Jango iria dançar, e eu sai do O Cruzeiro porque eu recebia pouquinho pela revista. Eu recebia uma coisa simbólica porque os filmes chegavam tão baratos dos Estados Unidos que o filme da Luluzinha e do Bolinha custavam mais barato do que os filme virgem pra poder fazer o Pererê. Então o Pererê custava uma fortuna, mas ele bancava aquilo não por amor ao Brasil, mas porque ele achava que tinha que ter a revista brasileira assim que a história virasse. Quando ele percebeu em janeiro que não ia acontecer nada, que a conspiração estava mandando, eu fui pedir aumento. Eu sair do Cruzeiro, briguei lá dentro da revista Cruzeiro. No dia que eu fui nomeado editor do Cruzeiro, eu briguei e saí; essa é uma outra história. E aí eu fui pedir “Esse salário que você me dá aqui nesse Cruzeiro, você vai me pagar para fazer a revista?” Ele disse “Eu não tenho menor interesse. Pode parar com a revista” 
Eu fazia quatro meses adiantados, o que aconteceu? Em abril de 64 o Pererê acabou, ficou uma coisa meio emblemática, inclusive. O Pererê vendia 150 mil exemplares por mês. Eu podia acertar com ele um pagamento que dava para eu viver, mas por causa do Golpe que estava em andamento... Por isso que quando eu entrei na lista dos indenizados, dos anistiados - que não foi eu que solicitei ou foi o sindicato dos analistas, e a imprensa só faltou me matar - eu falei “não. O Governo me deve o fim do Pererê, o que é isso? Me deve o fim do cartum JS. O Governo me deve as dezoito apreensões ao incêndio ao banco do Pasquim, as quatro prisões que eu tive. O que há? Há muitos indenizados aí que pediram o seu dinheiro de volta porque deixaram de ganhar dinheiro; eu não deixei de ganhar porque eu trabalho feito um desgraçado. Eles me deram uma porrada aqui, e eu ia fazer livros lá, me deram uma porrada lá e eu ia fazer lá, mas eu não vou devolver o dinheiro para o tesouro nacional.”  Mas A Luluzinha e Bolinha não custava nada, custava o filme, custavam dez mil reais a página. O Pererê custava cento e tantos a primeira página. Quem fazia era só eu, um tal de Elcy Miranda, que tá vivo até hoje, meu amigo, o João Barbosa que fazia o elenco. Nós três. Eu desenhava a lápis, o Paulo Abreu passava nanquim no desenho, o Elcy coloria, e o João Barbosa fazia a letrinha. E aí depois eu fui fazer o Pererê na Abril. 


FLICTS
Mas em 69 eu fiz o Flicts, e aí o Flicts foi traduzido para vários países do mundo. Enfim, nós todos, Fortuna, eu e o Jaguar e tudo mais éramos muito ligados aos grandes cartunistas do mundo. E alguns cartunistas importantes tinham feito o seu livro infantil, ilustrado, aquela coisa toda. E o Fortuna tinha um cabeça chamado Dababu, mas o Fortuna era muito enrolado que passou a vida toda até morrer e não fez o Dababu, porque ele era perfeccionista. O Jaguar também acabou fazendo um com a Ruth, chamado Dois Imbecis, cada um no seu Barril, que é um titulo acho que da Ruth Rocha, que ele ilustrou, mas ele também não se animou a fazer um livro infantil dele não. E aí eu fui levar O Jeremias, o Bom para uma editora chamada Expressão e Cultura, uma editora que estava fazendo uma revolução no meio editorial do Rio. Eu queira até publicar O Jeremias, o Bom. Eu levei pro cara e ele falou “Eu vou publicar, pode paginar que eu vou publicar O Jeremias, o Bom, mas eu quero um livro infantil tipo álbum, capa dura, eu vou começar a fazer livros europeus no Brasil para crianças. Você tem livro infantil?” eu falei “Claro. Evidente.” “Então, traz aí” eu falei “Então está bom. Daqui o que? Uns 15 dias? Um mês você me dá?” ele falou “Você não tem?” eu falei “Eu tenho, mas tenho que passar a limpo.” “Não. Traz o mais rápido que você puder. Eu quero publicar esse mês ainda.” 
Eu fui para casa e falei “Como é que eu vou fazer um livro infantil em 15 dias? Desenhar coelhinho, desenhar céuzinho, desenhar paisagens, desenhar fada...” Eu tinha que bolar uma história tipo do Dababum do Fortuna. Era um menino que dizia dababum, e o final era um achado que eu não me lembro mais qual achado que era. E aí eu falei “Eu tenho que fazer um livro infantil para crianças, mas um livro infantil sem ilustração? Não dá. Tem que ter ilustração ou cor, mas tendo cor não precisa ter ilustração, eu posso fazer um livro só com cor. Pronto E se eu inventasse uma história, o personagem ia ser uma cor, e aí eu faço uma página amarela, vermelha, uma azul... E aí eu vou fazendo até contar. Mas agora como é que eu vou inventar uma história de uma cor?” 
E aí eu estava passando num aterro assim, e vi um cartaz da manchete que era a lua em primeiro plano, uma foto do Apolo 11 que era tirado da lua com a terra azul no céu e aquela curva da lua bege. Eu falei “A lua não é azul, a lua não é amarelo, a lua é bege... ah Então eu vou inventar um nome para essa lua. Vou contar uma história da cor da lua.” Quando eu cheguei em casa o livro já estava pronto. Eu sentei, bati o texto na máquina, guardei o texto, e aí eu fui na papelaria e comprei aquele  contact, aquele papel de forrar prateleira vermelho, amarela, azul, e tudo mais. E vim para casa e comecei arrumar. “Era uma vez uma cor muito rara e muito triste, chamava Flicts”, e aí peguei a manchete olhei e fiz aquela tinta. Eu peguei um papel desse tamanho assim, e pintei com a tinta toda e fui recortando para colar, e fiz aquela coisa colada, e segunda-feira eu levei para o cara. E aí quando ele acabou de ler, ele estava aos prantos. Aos prantos. Se levantou e me deu um abraço assim, “Não posso acreditar Espera aí.” E foi falar com o editor. Esse editor chamava Fernando Ferro, um português inteligentíssimo, um homem de uma cultura fora do incomum, casado com uma francesa linda e tudo. E foi levar para o Ferdinando, que era o editor geral “E fica aqui que eu já volto.” E ai o Ferdinando falou “Quem é o cara? Quem é o cara?” ele me viu “Cara Eu quero o melhor papel. Esse é o livro do século.” Eu falei “Puta que o pariu, acho que eu dei uma acertada.” 
E aí não tinha computador. Não tinha. Para fazer aquilo lá no fotolito, foi uma áfrica. E aí nós ficamos uns 15 dias virando madrugadas para poder fazer aquele arco-íris. Como é que a você ia fazer aquele arco-íris cara? Um cara veio com um filme pegava betume, passava assim para selecionar cor...e até você conseguir fazer aquelas coisas com aquelas cores. O negócio da primavera aquilo foi fácil, mas o arco-íris deu um trabalho filha da mãe. E aí ele como queria gastar muito dinheiro mandou rodar as quatro cores, e mais o Flicts rodou uma cor. Mandamos fazer a tinta para fazer o Flicts. E aí o livro foi saudado, o Drumonnd fez uma crônica emocionadíssima, e não teve nenhum cronista da imprensa brasileira que não fizessem uma crônica sobre o Flicts, foi uma coisa impressionante. 
O Flicts ele também chegou numa hora: porque também como eu não tinha tido liberdade de expressão, ele pareceu também um livro político, porque não tinha bandeira do Brasil, porque era proibido usar a bandeira do Brasil. As sete cores falam coisas bem ditatoriais e fascistas, não quebra a ordem natural das coisas. Não tem lugar para você, você que quer mudar o mundo. Então o livro fez um sucesso danado. Eu fui embora com ele para Frankfurt e também aconteceu exatamente a mesma coisa. E aí o levamos para Inglaterra, para Itália, para Dinamarca. E eu voltei para virar autor para criança, mas aí veio o AI5 e não deu. Só deu para fazer Pasquim, eu ia fazer Pasquim. Deixei o Flicts  para baixo e fui fazer o Pasquim. Fiquei dez anos fazendo Pasquim. O Pasquim não dava para viver, eu vivia de artes gráficas, então eu fazia capa de revista, capa de caderno, pôster de cinema... Aí passei os dez anos fazendo pôster de cinema, todos os cinemas sexy. Eu fiz todos os catarses desse menino que está fazendo agora, esse que apareceu aí... Como era boa a nossa empregada, Se a Minha Cama Agüenta, esses filmes eróticos, não foi pornochanchada não, que é posterior. Eu não fiz nada, fiz tudo para o cinema sexy, que também é confundindo com pornochanchada. E fiz o cartaz, o enredo, os diálogos da ultima chanchada, e a única colorida, chamava Rio, Verão e Amor do Watson Macedo, um grande diretor. E aí isso tudo quando estava fazendo o Pasquim, mas não mexi com livro infantil. 


LITERATURA PARA JOVENS

Quando começou a falar em anistia, esse negócio todo, eu estava fazendo cadernos para Melhoramentos. E aí a gente fazia muitas palestras nessa época, porque principalmente as organizações femininas estavam querendo entender o que estava acontecendo, e a turma do Pasquim ia fazendo palestra em colégio. Depois, quando o sindicato pediu para gente ir buscar o relatório do agente feito pelo o DOPS, em várias dessas palestras eles tinham descrito o que eu falava. Eu me lembro deles todos, olhava “Tá lá o babaca” e ainda falava “É claro que tem gente da ditadura aqui, e tudo mais, mas vocês não vão reconhecer, só eu. E eu não vou apontar ele porque ele pode ficar constrangido.” Mas, enfim, as mulheres ficavam todas procurando o agente. A gente fazia muita sacanagem. Uma vez no Pasquim a gente estava numa casa de um amigo nosso num sábado, a gente mandava o negócio para ser censurado em Brasília. Então o Sergio Augusto fez assim “Estávamos nós na piscina do Alberto Reis, com as mulheres mais lindas da época, tomando o nosso uisquinho no domingo, quando perguntamos ‘Qual pode ser o sujeito mais infeliz do mundo?’ e aí descobrimos que é um sujeito sentado no escritório em Brasília, censurando o pensamento de nós que estamos aqui tão felizes, pensando só coisas boas.” E mandamos para ver se o cara cortava, e ele não cortou. O cara liberou essa. 


LITERATURA PARA JOVENS

Bom, eu já tinha feito antes um livro chamado O Planeta Lilás, mas não aconteceu nada com o livro. Ele era um livro caprichadíssimo, eu tinha caprichado muito no livro, porque eu fiquei na mesma linha do Flicts, todo gráfico. Mas como eu já nessa época eu já tinha os donos da literatura infantil, então o meu livro não foi levado em consideração. E era um álbum lindo, muito bonito, um álbum chiquíssimo, mas não aconteceu nada com o livro, e aí eu falei “Eu não vou mexer mais com literatura infantil não.” 
E aí eu fui fazer uma palestra na Ilha do Governador - uma grande quantidade de livros meus nasceu de uma conversar com o professor. Eu fiz uma palestra, essa foi conduzida para negócio de conflitos de geração, que estava muito na época os milicos tinham usado muito o negócio de conflito de geração, porque os jovens filhos dos militares começaram a romper com os pais. Porque a turma deles não era de direita. Então a gente “Não tem conflito de geração. Nossos filhos são muitos integrados, a gente se compreende muito.” E aí começaram a conversar sobre criação de filhos, e eu falei sobre essa tese: se você trabalha para o seu filho ser uma criança feliz e realizada como criança, certamente ele será um cara legal. Então não inferne a vida do seu filho, não prepare ele para o futuro, o futuro está na cara, o futuro vai acontecer. Deixa ele ser feliz hoje, amanhã, depois de amanhã, porque todo dia vai ser hoje. Se ele é feliz hoje, ele vai ser feliz no futuro. Enfim, não angustia o menino. E aí a moça “Por que você não faz um livro sobre essa tese?” eu falei “Porque isso é especulação, eu não posso afirmar.”  Mas eu fui para casa com essa idéia, fiz o livro, ilustrei, fiz uma boneca, e quando o editor da Melhoramentos veio buscar as capas de cadernos, eu falei “Cara, eu estou com um livro infantil aí, o que você acha? Será que a Melhoramentos publica?” e aí eu dei o livro para ele. Isso foi em junho, a Bienal é em agosto. E aí ele ligou para mim dizendo “A Melhoramentos quer publicar esse livro para Bienal, mas falta só 20 dias, senta aí e desenha tudo. Senta e desenha que nós vamos fazer.” “Opa Pronto.” E aí eu sentei fiz o Menino Maluquinho em 15 dias. Eu fiquei estudando texto, trabalhando o texto, mandei o livro para lá. 
Saiu em agosto, e em dezembro já tinha vendido 100 mil exemplares. Só uma distribuidora comprou 25 mil exemplares. Esgotaram cinco mil, era capa colada, tinha página de rosto e no meio da Bienal os caras me disseram “Ziraldo, podemos fazer as próximas edições sem colar as páginas de rosto? Porque não dá tempo, se não a gente não pegamos a Bienal ainda. Assim que passar a Bienal a gente volta a fazer igual.” Nunca voltaram a fazer. As máquinas não pararam. Enquanto a Bienal durou os caras rodaram O Menino Maluquinho. 
E aí logo depois eu fiz outro chamado A Bela Borboleta, esse mesmo foi encomenda do Siciliano. Ele comprou mais 20 mil exemplares. Esse eu demorei quatro anos para vender, e aí que eu comecei a rodar pelo Brasil, porque ele tinha livraria no Brasil inteiro. Eu chegava e a parede da livraria em vez de tijolo era da Bela borboleta, pregada as figurinhas. E aí começou o negócio de adoção, e foi aí que ela começou a vender. E aí eu fiquei fazendo um livro por ano, dois, três por ano, e já tenho cento e tantos livros, na Melhoramentos. E agora eu estou fazendo quadrinhos na Globo também.


LIVROS MARCANTES

O Menino Maluquinho, o Flicts. Inclusive outro dia eu estava vendo uma coisa engraçada, eles fizeram uma lista dos 100 melhores livros infantis dos últimos tempos aqui nos estados do Brasil, então nos dez primeiros estão O Menino Maluquinho e o Flicts. E do décimo até o cem não entra mais nenhum livro meu. E aí eu tenho livro mais importante. Tem O Bichinho da Maça, que ganhou o prêmio Jabuti de livro de arte, tem O Menino e o seu Amigo, os meus meninos todos são bem elaborados no mesmo nível. O Menino Mais Bonito do Mundo, que é um menino que sai da história em quadrinho para ir para a literatura. O Menino do Rio Doce. Este ganhou todos os prêmios. Não está na lista dos cem, engraçado. Mas de qualquer maneira dos dez livros infantis mais importantes do século, eu tenho dois. E aí tem As Reinações de Narizinho.


INFLUÊNCIA DOS FILHOS E NETOS

Fiz A Menina Nina. Fiz A Nina quando a Vilma morreu.Eu achei que eu tinha que fazer uma homenagem para Vilma. Não podia fazer um Taj Mahal para ela. Eu pensei “Como é que eu vou fazer?” E como ela era muito apaixonado pela Nina, que eu achei que fosse virar uma intelectual, que era muito brilhante assim, e acabou virando jogadora de futebol de salão. Ela adora jogar futebol, ela adora esporte, ela era muito engraçadinha. Ela é um amor de pessoa, ela tem aquela inteligência feminina. Não é a neta mais inteligente do mundo como toda a avó acha, mas tem uma inteligência da Danuza Leão, de Fernanda Montenegro, sagaz. Mas ela gosta de handebol, e agora descobriu futebol de salão, ela está encantadíssima... As meninas de São Paulo estão encantadas com o futebol, em todo colégio de São Paulo tem time de futebol feminino, porque lá nos Estados Unidos futebol de pé é esporte feminino. Só tem menina americana jogando.Nos Estados Unidos não tem americanos jogando, tem italiano, cubano, chileno, colombiano, chinês, japonês. No Japão está tudo o que é japonês jogando futebol; na China está tudo o que é chinês jogando futebol, nos Estados Unidos não, eles não conseguem gostar de um esporte que não seja complicado. Formula Indy eles nunca sabem quem está ganhando, é um negócio inacreditável. Eles nunca sabem quem está ganhando. O narrador não sabe. Basquete, você faz pontos de três maneiras, futebol americano...você faz aquele ponto que você chuta por cima, se você vem com a jarda até aqui é tanto... Beisebol, como é difícil marcar beisebol. Eles não conseguem fazer, eles não admitem, eles não conseguem entender um jogo que acaba em zero a zero.


ABZ DO ZIRALDO

Isso eu desenvolvia a lição da dona Zizinha, da mamãe. Mas fiz questão de não botar boquinha, nem bota olhinho. Usar a forma que a letra te sugere. O K é um cara marchando, o M é um V de muleta, né? O B é um cara barrigudo, o A é um astronauta que desce, aquela coisa. E fiz uma série que agora ficou só no livro. Eu fiz 26 livros. E agora ficou em um volume só que o desenhista da Melhoramentos achou de fazer. E ficou bonito. Tem as 26 histórias. E acabou sendo o maior livro infantil feito no Brasil, porque ele tem 600 ilustrações.E eu fiz sem ver, quando eu vi já estava pronto.


CONTATO COM OS LEITORES

Tem várias descobertas que eu fiz ao longo da vida. Primeiro eu descobri que eu não escrevo para crianças, eu escrevo para o núcleo familiar. Nenhum livro meu que uma criança leu, a mãe ou o pai não leram. Muito difícil. Quem me fala do livro deve dizer “Ah Você escreveu a biografia o meu filho.” A mãe fala assim “Ah Eu chorei muito quando eu li Nina.” E nunca uma menina me pediu para fazer um livro da Menina Maluquinha, só quem pede é mãe e professora. A menina ela lê O Menino Maluquinho “Isso é comigo, eu também sou maluquinha.” Mas ela aceita essa coisa da instituição que o personagem é, ela aceita o personagem como instituição, tanto que eu não consigo fazer a menina maluquinha. Eu fiz agora A Menina das Estrelas, que é uma experiência de definir o eterno feminino na menina. Quer dizer, existe o eterno feminino, há uma estrutura feminina de existir, de reagir, de chorar, de sofrer que isso que é muito feminino. Então, aplicando essa coisa que a vida te ensinou numa menina, você acerta a mão. 
A Globo está desenvolvendo A Julieta no quadrinho com as meninas da Globo e os roteiristas, as histórias em quadrinho são feitas por uma equipe, eu só supervisiono. As histórias da Julieta estão fazendo um sucesso espantoso. Aí eu descobri quem compra livro é menina, quem lê é menina é impressionante. Eu descobri que eu escrevo pro núcleo familiar. E é muito emocionante ver a família chegar com as crianças na fila, e eu posso avaliar isso pelas filas da Bienal, as minhas filas são famosas. Eu fico seis horas autografando ali, e eu gosto. Olha Velho urina de três em três horas no máximo, de noite então é um sofrimento. Eu fico seis horas autografando e nem me lembro de me levantar. Agora virou foto – autografo. Demora mais tempo ainda. “Fotografa enquanto eu autografo, fica bonitinho”, “Não, você tem que olhar para câmera”. E eu tenho a maior paciência, eu gosto. Quando a fila esta acabando eu fico triste. “Está acabando a fila” 
Em alguns colégios, em algumas feiras eu tenho que atravessar com um segurança, é muito engraçado, eu falo “Tira a mão, me deixa passar.” E os caras todos do meu lado, os caras me segurando aqui “Eu não sou popstar.” Agora, eu fui a Goiânia, não dá para atravessar a multidão. Na Bienal de São Paulo não dá, eu tenho que ir naquele carrinho, mas eu vibro, eu gosto. Então eu digo, eu dependo muito de professora e de tia, quem compra livro para a criança é tia. Você ver uma moça com cinco,ou seis livro na mão, você pode saber “Esse aqui é para o meu sobrinho, esse aqui é para a minha sobrinha.” Elas adoram dar presentes para sobrinhas e para os sobrinhos. 

Agora eu estou fazendo uma série chamada O Menino da Lua, que eu comecei com O Menino da Lua. Eu fazia um menino por ano, porque para eu fazer O Menino da Lua eu tive que criar um grupo deles: são os meninos dos planetas. Então tem o menino de mercúrio, o menino de marte, o menino de Vênus, Terra, Marte, Saturno até chegar o menino de Plutão, que ninguém sabe como é que é porque só via o olhinho dele. E aí passando do século 30 mil, de forma que os meninos andam pelos os planetas como quem diz “Mamãe, eu vou passar o fim de semana com o meu amigo em Mercúrio.” “Ah Meu filho, cuidado com os asteróides aí e tal.” E lá vai ele lá. Então eu descobrir que é um jeito de eu vencer a morte. Como eu vou fazer um programa, eu posso morrer daqui a dez anos. Antes não dá para morrer porque se não vai ficar faltando livros. Foi um golpe que eu dei na morte, é esse aí. 
Eu já fiz O Menino da Lua, eu ia fazer um segundo menino que eu não sabia ainda, quando aconteceu o negócio da A Menina das Estrelas, lá em Vitoria. Que as meninas estavam trabalhando livros, e me perguntaram “Por que só tem menino nos seus planetas? Não tem menina?” eu falei “Não tem porque eu não...” elas falaram “Não precisa explicar não, nós sabemos.” A menininha falou “É que os meninos são dos planetas, mas as meninas são das estrelas.” E aí eu falei “Ih, cacete Isso dá samba, opa Isso dá livros”, e aí eu cortei o segundo menino, e fiz A Menina das Estrelas. Eu devia ter feito no mesmo formato da série, mas eu fiz num outro formato, porque o livro ficou com um texto muito longo, porque eu comecei a me divertir. 
Eu descobri que o Lewis Carroll naquela coisa onírica dele que eu não gosto, na verdade aquela paixão dele pela a menina, ele mais ou menos mergulha na alma feminina. É um cara que intuiu alguns truques da alma feminina. A menina chora até poder nadar na lágrima dela. Quer dizer, é um negócio muito feminino então. E aí na construção da A Menina e as Estrelas, eu fui usando alguns estereótipos do Lewis Caroll e ficou muito engraçado. 
E aí eu retomei os meninos esse ano, eu fiz o menino de Urano, e aí eu ia colocar O Menino de Urano, mas como ele acabou namorando a fada, e depois eu descobri que fada não tinha namorado. Eu fiz o menino porque eu tenho um sobrinho chamado Téo, que era muito amigo da Nina, que pediu “Tem a Nina, quando é que vai ser o meu livro?” eu falei “É esse livro é seu.” Porque Téo é Deus. E os nascidos sobre o signo de Urano acham que são Deuses, não tem muita paciência com o resto da humanidade. Isso é de acordo com o horóscopo, que eu fui fazer pesquisa. E descobrir essa coisa essa coisa fantástica, o Urano é um planeta gasoso, ele não tem rocha. Então você tem que flutuar, na verdade. Então ficou bem adequado para ser namorado da fada, então eu o fiz O Namorado da Fada. E agora o próximo que eu vou fazer é o menino da Terra, porque há muitos anos eu quero fazer o último menino, que é um livro que eu já tenho com ele, todo estruturado na cabeça, mas eu não quero fazer porque se eu fizer o último menino eu vou ter que morrer. Então eu estou usando os argumentos do último menino para o menino da Terra.


PARTICIPAÇÃO NO PROJETO

Eu acho que esse tipo de trabalho para um entendimento futuro do nosso tempo e do nosso país é muito importante, porque se você quer entender o Brasil hoje, você vai ter que começar lendo o Laurentino Gomes, 1.808. Ele fez uma pesquisa bastante profunda sobre a inauguração desse país como nação. O país tem 200 anos certinho, antes era uma empresa portuguesa mal administrada. Você não podia nem vir com o navio aqui, o país não podia comercializar com o mundo. Não era país. Que país é esse que não pode comercializar com o mundo? Não podia fabricar nada, não tinha uma escola feita pelo o governo. Os Estados Unidos já estavam fabricando navios, e já era o maior fabricante de navios do mundo quando Dom Pedro chegou aqui. Então juntar essa documentação para poder compreender, que eu acho que é uma pena a gente não viver até o final do século. Vai ser muito divertido, porque imagina que esse país tropical, corrupto, consegue ser uma das 12 maiores economias do planeta. Não é brincadeira, é só para irritar argentino.

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