Busca avançada



Criar

História

Um casamento abençoado

História de: Belísia Barreto Mourey (Dona Bela)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/12/2010

Sinopse

Dona Bela abre sua vida para nós e conta a história do encontro de seus pais em Jaci-Paraná e sua saga para conseguir estudar, problema que a maioria das crianças infelizmente têm de enfrentar na região. Sem perspectivas para entrar numa escola, se casou aos 16, o que acabou sendo positivo para sua vida. Ignorando os pedidos do marido, nos conta como aos 20 começou a trabalhar no seringal com ele, uma amostra da história de companheirismo entre os dois. Dona Bela também nos conta a história de seus cinco filhos, em especial um que sofre de deficiências físicas. Nos fala também de como isso a inspirou a ser parteira, ajudando as mulheres de Jaci-Paraná. Neste depoimento, Belísia relembra a dolorosa morte de seu marido e por fim nos fala da mudança causada pela inundação de sua casa, além de seus sonhos para o futuro.

História completa

P – Onde você nasceu?

 

 

R – Eu nasci aqui em Jaci-Paraná, aí eu achei esse rapaz, que eu me casei, aí por aqui mesmo, daí fui lá pro seringal, e por lá nós ficamos. Ele sempre ia na minha casa, eu ia na dele, aí ficamos se gostando, né? Aí pegamos e casamos.

 

 

P – Mas vamos voltar muito antes. Me conta qual é o nome do seu pai, da sua mãe...

 

 

R – Lucimar Barreto de Oliveira e Cícero Firmino de Oliveira. Era o meu pai.

 

 

P – E o seu pai, o que a senhora lembra dele? Bom, aí me conta do seu pai.

 

 

R – Pois é, aí ele veio aqui pra Jaci-Paraná, do Rio Grande...

 

 

P – Rio Grande do Norte?

 

 

R – Rio Grande do Sul. Não, era do Norte, Rio Grande do Norte. Ele veio de lá, com a idade de 15 anos, 16 anos, aí chegou aqui em Jaci-Paraná. Então ele, que veio de lá, porque os pais dele eram ruins pra ele. Ele disse que batiam muito nele, porque ele gostava de farra, fugia pra ir para as farras, aí os pais não queriam, que era naquele tempo antigo... Os pais prendiam a gente, né?

 

 

P – Sei.

 

 

R – Aí não deixaram ir pros cantos, então ele gostava de um forrozinho, aí ele saia escondido dos pais pra ir pro forró. Quando foi um dia, ele chegou, o pai deu-lhe, deu-lhe. Aí o pai soltou, a mãe pegou. Que ele não era mais pra fazer aquilo. Ele falou: “Quer saber? Já tô quase com a idade de...”, como é que diz? “De maior, então eu vou procurar o meu destino”. Aí veio embora pra cá. Aí chegou aqui, encontrou a minha mãe...

 

 

P – E sua mãe? Ela era filha de quem?

 

 

R – Ela era filha dum senhor por nome... Como é? Era Raimundo Furtado...

 

 

P – Ele era... ele fazia o quê?

 

 

R – Ele era tabelião aqui. Então aí, ele começou a morar com ela, casaram. Casaram, foram para o seringal, ficaram por lá, ficaram, ficaram, e ela saiu gestante.

 

 

P – De quem era o seringal naquela época?

 

 

R – O seringal... O que a gente fazia?

 

 

P – É.

 

 

R – O seringal? Ele cortava seringa. Cortava seringa, ele pescava... Pescava, mas só pra gente, pro consumo de casa mesmo. Aí pescava e quando era assim de domingo, ele ia juntar caroço pra defumar. Naquele tempo era defumada, a borracha... Aí depois passaram pra fazer borracha de cocho. Fazia uma caixa grande e botava aquele leite tudinho ali dentro e fazia aquelas pranchas. Era leite coalhado.

 

 

P – Mas me explica melhor. Esse seringal que ela foi trabalhar, que a senhora nasceu dentro desse seringal?

 

 

R – Não senhora, eu nasci aqui em Jaci. Aí ela saiu gestante de mim, aí meu pai falou: “Olha, aqui é muito difícil pra tu ganhar essa criança...”. Naquele tempo era meio difícil. “Então, você vai pra cidade”. Aí ela veio pra cá. Chegou aqui, me teve, passou o resguardo, aí ela foi pro seringal de novo.

 

 

P – E ela trabalhava no seringal também?

 

 

R – Não, senhora. Ela trabalhava em roça, mas era difícil. Quando ele não tinha tempo, aí ela ia, plantar feijão, plantar arroz, plantar mandioca... É, mas era difícil, ele quase não deixava ela ir pra roça, não.

 

 

P – Quantos filhos... Quantos irmãos a senhora teve?

 

 

R – Quanto irmão? É, deixa eu ver... Cinco, ela teve cinco filhos... foi. Cinco... seis filhos. Foi seis filhos. Então, ela teve no seringal. A última criança que ela teve foi no seringal. Meu pai veio pra cá, numa viagem, e ela ficou lá. Ela falou: “Rapaz, tu não me deixa só, que eu vou ganhar essa criança esse mês”. Ele falou: “Não, mas eu vou lá embaixo, no Jaci, e volto logo”. E nada. Quando ele chegou, ela já tinha ganhado a neném, então não tinha se desocupado, aí estava sofrendo lá na cama, sem ter o resto. Aí ele foi chamar a parteira, ela veio, que ela entendia bem, que era nossa vizinha, vizinha assim de longe. Ele foi pegar ela, ela veio, teve o resto, né?

 

 

P – Aí deu certo o parto?

 

 

R – Deu certo. Tudo bem. Aí ela ficou doente...

 

 

P – Por causa disso?

 

 

R – Ficou doente... É, por causa deste parto. Ficou doente, ele trouxe ela pra cá, aí o pessoal falou: “Ah, isso é macumba, isso é macumba!”. Que eu nem acredito nessas coisas, não gosto nem de falar nisso não, negócio de macumba. Aí nada, que macumba que nada, ele levou pra Guajará, ela foi pro médico...

 

 

P – E o que ela tinha?

 

 

R – Ela sentia dor, muita dor perto da barriga. Aí ele foi, levou ela pra Guajará, ela já veio boa. Ficou boa. Aí ela começou a trabalhar, trabalhar, aí pronto, bateu hemorragia, que dessa hemorragia ela não escapou.

 

 

P – E aí a senhora tinha que idade nessa época?

 

 

R – Eu tava nesse tempo com 14 anos, quando ela morreu.

 

 

P – O que a senhora antes dos 14 anos? A senhora morava onde? Dentro do seringal com ela?

 

 

R – É, sim senhora. Aí eu fiquei lá no seringal. Porque minha irmã mais velha, que ela tinha mais ou menos uns 20 anos já, ficou cuidando da gente. Aí ela era muito malvada, batia muito na gente.

 

 

P – Essa irmã?

 

 

R – É.

 

 

P – Como é que ela fazia?

 

 

R – Ela batia na gente. Ela pegava a vara e batia na gente, eu batia nela, mas era muito difícil eu bater nela. Mas ela batia em mim do que eu batia nela. Aí eu falei: “Quer saber? Um dia eu vou-me embora!”. Aí batalhei, batalhei, agüentei... Quando foi um dia, eu vim pra cá e encontrei esse rapaz.

 

 

P – Encontrou esse rapaz na rua?

 

 

R – Foi, aqui em Jaci.

 

 

P – Como é que era Jaci nessa época?

 

 

R – Ih! Jaci era bem pequenininho, era bem pequenininho. Era mata, né?

 

 

P – Era uma mata?

 

 

R – Era, sim senhora. Era uma mata, tinha pouca casa, pouca casinha tinha.

 

 

P – E era uma cidade, assim?

 

 

R – Não senhora, era uma vila, uma vilazinha.

 

 

P – Tinha quantas casas, mais ou menos?

 

 

R – Tinha mais ou menos umas 20 casas, por aí. Talvez tivesse mais, mas era pouca coisa. Umas vinte casas, mais ou menos. Só era mato, mesmo. Aí depois, foi crescendo, crescendo, né?

 

 

P – Aí a senhora conheceu esse rapaz e ele foi para o seringal atrás da senhora?

 

 

R – Foi. Aí começamos a se gostar. Ele foi lá pro seringal, o pai dele tinha uma fazenda lá. O pai dele era peruano.

 

 

P – Ah, então me conta a história dele. O pai dele era peruano?

 

 

R – Sim senhora, peruano. Então, aí ele foi pra fazenda, ele criava muito gado...

 

 

P – O pai dele criava gado lá?

 

 

R – É, sim senhora. O pai dele criava gado, criava porco, ovelha... A senhora abria o curral, fazia gosto, saía aquele monte de ovelha. Porco também, gado... Aí ficamos por lá. Ele ia na minha casa, eu ia na dele, passear... Aí começamos a gostar, aí casamos.

 

 

P – E o seu pai, gostou desse casamento?

 

 

R – Ah, ele não queria, porque disse que eu era muito nova, é...

 

 

P – Quantos anos você tinha?

 

 

R – Deixa eu ver... Eu tava com 16, 17 anos.

 

 

P – E ele não queria?

 

 

R – Não queria, não queria que casasse, porque ele disse que a gente tava muito novo pra casar e depois não dava certo o marido ia judiar da gente, mas graças a Deus, menina, foi uma bênção pra mim, foi meu casamento.

 

 

P – Agora antes de casar, a senhora veio pra cá e ficou na casa de quem?

 

 

R – Fiquei na casa de uma comadre da gente...

 

 

P – Pra quê?

 

 

R – Comadre do meu pai. Porque a gente vinha de lá, não tinha onde ficar, aí a gente ia pra lá. Ficava, passava às vezes 15 dias, às vezes 20 dias, aí ia pro Seringal de novo.

 

 

P – Mas não vinha pra estudar? Tinha escola em Jaci?

 

 

R – Tinha, depois... Ele falou: “Vou botar vocês lá pro Jaci pra estudar, vou falar com meu irmão lá...”, era o irmão de criação dele, “Aí vou botar vocês lá pra estudar”... Tá bom.

 

 

P – Ele queria que vocês estudassem, é?

 

 

R – Queria, sim senhora, ele queria e eu também tinha vontade de estudar. Aí viemos para a casa desse meu tio, vim pra casa desse meu tio. E a mulher dele era ruim, ruim, ruim, a mulher dele. Aí amanhecia o dia, uma baciona grande, ela enchia de louça: “Vai lavar, vai lavar louça”. O igarapé é como daqui lá pra aquele barranco lá. Aí eu saía chorando, com aquela bacia na cabeça, mas que jeito? Aí chegava lá e ficava pensando que lá nesse igarapé, onde eu lavava a louça era rasinho, mas assim pra trás, era assim um poço assim, era fundo. Então ali diz que morava uma cobra, essa cobra ia me pegar... Aí eu ficava lá, pensando, eu digo: “Isso que é... eu vinha pra cá pra estudar e essa mulher não me bota pra aula, me bota pra trabalhar”. Aí eu chorava, chorava...

 

 

P – Sozinha no igarapé?

 

 

R – Sozinha no igarapé. Só eu e Deus no igarapé. Aí chegava com a louça, e ela assim: “Pega a vassoura e vai varrer o terreno”. Um solzão quente, aí eu varria o terreno. Varria o terreno tudinho, depois ia tomar banho, aí almoçava, ficava por ali. Aí ela já procurava outro trabalho pra mim fazer.

 

 

P – E aí ela não mandou a senhora pra escola?

 

 

R – Não senhora. De jeito nenhum. E assim eu tava sofrendo desse jeito.

 

 

P – Mas me explica: a senhora ficou quanto tempo na casa dessa sua comadre?

 

 

R – Eu fiquei mais ou menos uns seis meses, por aí assim.

 

 

P – E aí, por que a senhora saiu?

 

 

R – Aí meu pai chegou, eu falei: “Meu pai, olha, tá se passando isso, isso e isso, eu não quero mais ficar aqui”. Aí ele foi e falou: “É, minha filha, mas que jeito, eu moro lá no seringal, não tem como você estudar, aguente, fique aí”. Eu falei: “Não, papai, não quero mais não, não quero mais ficar aqui, não”. Aí tá bom, me levou pro sítio de novo, pro seringal. Aí fiquei por lá. Depois, ele veio, tinha um senhor por nome Zé Salé, que era o prefeito aqui em Jaci. Aí ele foi falou: “Rapaz, a minha irmã fica sozinha, o marido dela trabalha, então, você não quer deixar sua filha pra lá, fazer companhia, ela estuda e serve de companhia pra minha mulher”. Aí tá bom, eu digo: “Minha madrinha?” Aí eu fui pra lá. Ah, danado, quando cheguei lá, a mulher me botava pra fazer faxina. Eu falei: “Madrinha, eu não vou pra aula hoje, madrinha?”. Aí ela falou: “Não, minha filha, vai amanhã”. E assim eu sofri um bocado.

 

 

P – Foi? Então a senhora também não foi pra escola lá?

 

 

R – É, não senhora. Aí era contado os dias que eu ia pra aula. Às vezes que ela amanhecia de boa, ela dizia: “Bela, hoje você vai pra aula”. Aí eu ia, né? Eu ia alegre, porque eu ia, botava meu livrinho debaixo do braço, que eu não tinha bolsa mesmo, botava meu livrinho debaixo do braço e ia pra aula. Aí chegava satisfeita, tudinho, já no outro dia não ia. Já no outro não ia também. Era assim. Eu me criei assim. Aí depois, eu digo: “Quer saber? Eu tô pra fugir, ir embora, meu Deus, eu não tô suportando esse sofrimento”. Aí bem, meu pai chegou, aí eu falei: “Pai, eu acho que eu não vou ficar aqui, não” “Não, você tem que ficar aqui, que é a sua madrinha”. Aí eu chamei ele e contei a situação; ele falou: “Ah, minha filha, você tá sem sorte mesmo. Então, vou lhe levar; quem tem que criar vocês é burro mesmo”, ele falava...

 

 

P – Ele falava?

 

 

R – É. (risos) “Tem que criar vocês no seringal, burro mesmo”. Meu pai sabia ler, mas bem pouquinho, agora a minha mãe sabia ler bem. Minha mãe era paraense.

 

 

P – Ah, ela já...

 

 

R – É. Aí ela ensinava a gente em casa, quando ela tinha tempo, mas eu não aprendi nada não. Aí depois que meu esposo faleceu, eu digo: “Quer saber?”, eu tinha aquilo na cabeça, “Quer saber? Eu vou estudar”. Aí fui, me matriculei, ali de fronte à igreja católica, que tem uma casa desse lado, que agora é moradia de pessoal lá, mas era o centro comunitário. A dona Alda trabalhava lá; ela dava a reunião dela lá no assistente comunitário. Tá aí ela pra contar. Então, depois que ela parou, foi uma professora lá. Aí essa professora lecionava, muito boazinha a professora, aí eu estudei ainda, mais ou menos, umas duas semanas. Aí ela falou: “Dona Bela, a senhora vai aprender”. Eu já escrevia bem, o meu nome, eu escrevia as letrinhas, prestava atenção, aí ia escrevendo... Aí, quando foi um dia, eu ia com minha bolsinha do lado, encontrei três marginal. Acho que é uma noia, né? “Ai, dona”. Eles correram atrás de mim e me pegaram, puxaram a minha bolsa, aí eu digo: “Pelo amor de Deus, me deixa, pelo amor de Deus me deixa, que eu vou pra casa”. “Que pra casa coisa nenhuma”. Aí um puxava de um lado, o outro puxava de outro, até que ia passando um senhor, um velhinho, eu gritei e o velhinho veio, aí eles correram. Correram e deixaram minha bolsa jogada assim. Eu peguei minha bolsa e a senhora acredita que eu fiquei com aquilo e não quis mais estudar?

 

 

P – Parou.

 

 

R – Chamava as vizinhas: “Vizinha, bora pra aula”. A vizinha desse lado, desse... “Vamos pra aula”, que elas também não sabem ler. “Vamos pra aula”, aí se elas fossem, aí eu tinha continuado. Mas nenhuma quis ir.

 

 

P – Mas agora vamos voltar lá pro seringal, quando a senhora foi e voltou, e a senhora ficou morando lá, como é que era? Desde que idade a senhora começou a trabalhar no seringal?

 

 

R – Eu tinha uma idade mais ou menos de uns 20 anos...

 

 

P – A primeira vez que a senhora foi trabalhar?

 

 

R – Foi, que eu fui trabalhar. Logo que eu me casei, aí eu fui, meu marido... Morava tudo junto: era meu cunhado, três cunhadas e meu sogro. Aí eu falei pra ele: “Olha, isso aqui não tá bem não, nos casamos, com pouco tempo de casado, então tem que ter nossa casinha”. Aí era tudo misturado, né? Barracão grande, aí era um quarto pra cada um, um quarto. Aí eu não tava achando bom ali. Aí eu falei: “Olha, nós casamos, não faz muito tempo, nós casamos, então vamos fazer uma casinha pra nós”. Aí eu falei mesmo: “Vamos”. Aí ele fez uma casinha, mas sempre no mesmo terreno. Aí pronto, fez aquela casinha, e morava lá. Aí eu vinha aqui no meu sogro, nas minhas cunhadas, elas vinham lá, aí ficou bom. Que eu gosto de morar assim, eu não gosto de morar misturado, não. Nunca gostei.

 

 

P – E aí seu marido fazia o quê?

 

 

R – Seringa, cortava seringa. Aí, aí ele começou a botar roça, fazer derruba pra colocar roça, aí eu ia plantar. Ia pra roça com ele, ele falava: “Mulher, fica em casa, lugar de mulher é em casa” “Não, mas eu vou, velho, eu vou com você”. Lá eu ia, mas ele não achava muito bom não que eu fosse pra roça, porque dizia ele que eu podia cair e machucar, e o sol quente também... E ele não queria não. Mas eu era teimosa e ia. Tinha dia que ele ia pra estrada, eu ia também com ele. Nesse tempo eu só tinha essa menina pequenininha, ele botava no tum-tum, nós ia embora. Eu levava espingarda, e ele com a menina no tum-tum, chegava na madeira, ele arriava a menina, arriava a espingarda, eu andava com uma faquinha assim. Mas ele não gostava que eu cortasse. Ele: “Ah, tu estraga as madeiras, tu vai matar minhas madeiras” “Não, mas eu vou só treinar”. Aí eu cortava, embutia; quando não, ele ia cortando e eu ia embutindo.

 

 

P – Como é que faz exatamente, explica...

 

 

R – Corta a madeira assim, embute aqui a tigela. Aí vem escorrendo o leite, cai dentro daquela tigela. Às vezes a gente chagava no pé da madeira, estava cheinha, cheinha, a tigela derramando...

 

 

P – Aí o que tem que fazer?

 

 

R – Bota dentro do balde. Coloca dentro do balde, um balde grande, com a boca deste tamanhinho, coloca dentro daquele balde, quando aquele balde tá cheio, eles colocam num saco, defumado. Então coloca aquele leite ali daquele balde dentro do saco, amarra e aí deixa lá. Aí continua colhendo.

 

 

P – E depois o que é que faz com aquele saco?

 

R – É... leva pra casa. Bota numa estopinha, uma sacolinha, que é sacola desses panos de saco de açúcar de primeira que vinha, antigo, que vinha esse saco de açúcar, aí a gente abria e fazia uma sacolinha, botava o saco dentro e ia embora pra casa.

 

 

P – E quantos sacos vocês faziam por dia?

 

 

R – Às vezes fazia um, dois, às vezes fazia um e o balde cheio e o saco cheio também. Às vezes fazia dois sacos cheios e o balde cheio.

 

 

P – E aí levava na...

 

 

R – Levava nas costas...

 

 

P – Quanto tempo de andar pra casa?

 

 

R – Pra casa, sim senhora, é.

 

 

P – Quanto tempo?

 

 

R – Era mais ou menos meia hora. Às vezes dez minutos, às vezes tinha estrada que era bem pertinho. Aí chegava, ele botava na bacia, a bacia grande assim, colocava dentro da bacia, aí ia fazer fogo numa fornalha que tem assim, faz uma fornalha no chão, faz uma boquinha bem pequenininha. Ali eles metem um tarugo, um pau no cavador, e defuma. Defuma aquela coisa ali, aquele leite...

 

 

P – Defuma como? Explica pra mim...

 

 

R – Ele chega, acende aquela fornalha, com cavaco, acende e bota o cavaco embaixo, quando tá bem aceso, coloca o côco ali dentro. Coloca o côco ali dentro, aí quando já ta bem quente, ele vai e bota o cavador, que é uma forquilha. Bota o cavador rodando assim, aquele tarugo de pau. Aí defuma, depois tira aquela prancha, aquela prancha ali daquele pau, enrola, no outro dia já mete no cavador, já vai defumar. Aí faz a borrachona.

 

 

P – E pra quem vocês vendiam essa borracha?

 

 

R – Vendia pro seu Jamim, que mora aqui no Jaci. Ele mora aqui, o seu Jamim.

 

 

P – O que ele faz, ele comprava a borracha?

 

 

R – É, comprava a borracha e ele levava pra Porto Velho, pra vender lá.

 

 

P – E o resto do que vocês precisavam pra viver, vocês compravam aonde?

 

 

R – Aqui mesmo, no Jaci. Dele.

 

 

P – Dele também?

 

 

R – Desse seu Jamim.

 

 

P – O que ele vendia?

 

 

R – Ele vendia mercadoria. Era de tudo em gosto. Era açúcar, era feijão, era arroz e tudo, tudo mesmo. Tinha tipo um mercado. A gente vinha, chegava, a gente entregava a borracha, ele pesava, e aquele total que dava, a gente já pegava em mercadoria, já ia de novo pro seringal.

 

 

P – Ele pagava alguma vez em dinheiro ou era sempre mercadoria?

 

 

R – Era em mercadoria, dinheiro. Às vezes meu esposo precisava ir pra Porto Velho, aí ele pagava em dinheiro. Quando não, daqui mesmo a gente voltava e ele pegava tudo em mercadoria.

 

 

P – E aí a senhora ficava lá no seringal...

 

 

R – É, eu ficava. Muitas vezes eu fiquei só lá, só eu e meu menino. Ele vinha pra cá vender o produto, comprar mercadoria. Mas morar no seringal é assim, quase não precisava de muita coisa. Precisava de açúcar, mais era sal, café também não, que tinha um cafezal que era enorme.

 

 

P – Ah é?

 

 

R – Era, sim senhora. A gente tomava café só dali. Açúcar também a gente comprava, porque eu não me dou com... Café feito com o caldo de cana. Tinha um canavial, a gente tinha mandioca muito boa, moía às vezes meia lata dessas latas de banha... Moía meia lata de caldo de cana. Ali a gente botava pra ferver aquele caldo de cana, aí ficava pro outro dia. A gente fazia o café, muito gostoso é o café feito com o caldo de cana. Mas só que eu não me dava, dava uma dor de barriga! Aí meu marido falava: “Não, não adianta tu tomar esse café feito com garapa, não”. Chamava garapa. “Não adianta, então eu vou na rua comprar açúcar”. Aí ele vinha, comprava às vezes fardo de açúcar, ficava lá. Às vezes os vizinhos não tinham, ia em casa, a gente vendia, às vezes dava, né? Era assim, que a gente morava no sítio... O vizinho chega, a gente dá as coisas, por exemplo, carne, farinha, a gente dava à vontade.

 

 

P – Mas aí a senhora teve quantos filhos?

 

 

R – Cinco.

 

 

P – Cinco?

 

 

R – Cinco, sim senhora. Cinco filhos. Tive a primeira, que foi mulher, aí morreu, com sete dias de nascida...

 

 

P – O que aconteceu com ela? Por que ela morreu?

 

 

R – Ela morreu... Eu nem sei dizer porque foi. Porque deu uma febre, uma febre nela... Aí ela começou a se tremer tudo, se tremer tudo, aí ela morreu.

 

 

P – A senhora tava no seringal?

 

 

R – É, eu tava no seringal. Nós querendo descer, pra trazer ela pra cá, aí isso foi, começou como hoje. Aí com uma manhã, já ia descer, pra trazer ela aqui pro lugar de recurso. Aí quando foi a noite, ela morreu. Depois eu tive essa, mulher também. Depois tive esse que tá doente, homem, depois esse que tá em Porto Velho, homem, depois esse daí.

 

 

P – E esse que tá aqui com a senhora é o último?

 

 

R – É, é o caçula. Esse é o último.

 

 

P – Ele já nasceu especial também?

 

 

R – Já, sim senhora, já nasceu assim. Dentro do ventre...

 

 

P – Como a senhora descobriu?

 

 

R – Dentro do ventre ele já veio assim. Ixi, eu vivia doente, cheia de dor, aí tive ele no seringal também. Aí cheia de dor, sentia aquela dor, tinha dias que parecia que eu já ia ganhar. Aí meu marido foi em Porto Velho, trouxe uma parteira, muito boa a parteira. Aí ela falou: “Olha, dona Bela, acho melhor a senhora ir pra rua, ir na cidade, melhor a senhora ter essa criança” “Não, mas que nada, eu vou ter aqui mesmo”. Aí tive lá mesmo no seringal, aí o bichinho já nasceu doente. Nasceu bem dizer morto, né? Só batia o coraçãozinho. Eu até pensava que ele não ia escapar, não ia viver, mas graças a Deus tá aí. Mas meu Deus, esse aí, meu Deus, não tem dia que não diga: “Hoje eu tô com uma dor”. É dor de cabeça, é dor nas pernas, seja lá o que for, inventa, mas às vezes já é também denguisse dele.

 

 

P – Desde pequenininho ele é assim?

 

 

R – É, desde pequenininho. Ixi, me deu muito trabalho e ainda me dá. Ele deu muito trabalho.

 

 

P – Por quê?

 

 

R – Porque eu só vivia com ele no médico... Quando ele nasceu, ele começou a botar o negócio do nariz assim, né? Diz a parteira que foi parto que ele engoliu muito, eu não entendo isso aí. Aí ela disse que era... Foi parto que ele engoliu muito. Então ele botava às vezes... Tava dormindo, aí parece que ele arrotava, não sei como é que era, botava aquele negócio pelo nariz. E a senhora acredita que eu, depois que tive ele, eu não saía pra canto nenhum. Botava ele na rede, pertinho de mim, na cozinha... Era um pé na cozinha e outro na rede. Mais na rede dele mesmo do que na cozinha. Era assim. Depois eu levei ele no médico, aí o médico falou que tinha que ter muito cuidado com ele, porque senão tava arriscado ele qualquer hora dar aquele negócio que sai do nariz dele, ele morrer sufocado. Graças a Deus, criei ele e ele ta aí. Tá com 40 anos...

 

 

P – Mas foi diferente, muito diferente criar ele do que dos outros?

 

 

R – É, foi, sim senhora! Foi! Esse aí deu trabalho demais, fazia com ele no médico, no benzador, quando ele sentia qualquer coisinha, eu já tava com ele no benzador. Aí meu marido que falava: “Mulher, larga de ser doida, tu vai ficar doida, mulher, com esse menino!” “Não, mas eu sou mãe, eu que sei, tem que ter cuidado com ele”. Aí tive muito cuidado, porque acho que se eu não tivesse cuidado dele bem, ele não taria vivo aí. Deu muito trabalho ele, muito. E até agora ainda me dá. De vez em quando tem dor de cabeça, dor no estômago, ele sofre de gastrite. Tem um período que atacou a gastrite nele, aí ele ficou ruim, ruim, eu levei ele na Bolívia. Aí o médico fez todos os exames, falou que ele tava com gastrite. Passou remédio, medicação direitinho, eu dei, pronto, ficou bom. Quando foi uns tempos desses, lá começou de novo. Diz que doeu o estômago, porque ele gosta de comer muita farinha, muito refrigerante, que ele gosta, e o médico proibiu ele de tomar refrigerante, comer farinha, comia muita fritura, mas ele gosta de comer essas coisas.

 

 

P – Mas como é ter um filho sozinha lá no seringal? Como é que é? A senhora sente dor e aí faz o quê?

 

 

R – Eu sinto a dor, aí a parteira tá ali perto.

 

 

P – Ah, chama a parteira?

 

 

R – Chama, sim senhora, a parteira, porque o meu marido não se descuidava não. Um mês, no mês que eu tava pra ganhar, ele já vinha aqui na rua, já levava a parteira. Eu nunca ganhei sozinha, não.

 

 

P – Ah, bom.

 

 

R – Graças a Deus, não. Só com a parteira ali perto e ele também. Meu marido.

 

 

P – E aí seu marido era trabalhador?

 

 

R – Era, sim senhora. Muito trabalhador, trabalhador demais mesmo, dona.

 

 

P – O que ele fazia, como era a vida de vocês? Era seringa?

 

 

R – Ele cortava seringa, trabalhava em roça, fazia farinha... Quando morava no sítio, ixi, era fartura de tudo.

 

 

P – E o peixe?

 

 

R – Tinha peixe, tinha carne, tinha farinha, farinha nós não comprava. Ele fazia farinha aí mesmo da roça, fazia aquele tambor de 200 litros, cheião. Tinha um pessoal assim, nossos vizinhos, a gente vendia, quando faltava farinha lá, eles vinham, compravam e era assim. É... cana, fazia aquele melado, mel, aí a gente vendia pro pessoal, dava... Tinha pessoa que morava no sítio, os vizinhos ali são tudo, bem dizer, parente da gente, né?

 

 

P – É.

 

 

R – Quando chega na casa da gente, é um prazer da gente dar um agrado pra aquela pessoa, né? Era assim, que nós vivia.

 

 

P – E aí a senhora também aprendeu a fazer parto?

 

 

R – Aprendi, sim senhora, aprendi.

 

 

P – Como é que foi?

 

 

R – Tinha uma senhora, que ela morava nesse... Era um reflorestamento. Era um pessoal lá. Tinha muita gente, então, as mulheres quando sentiam dor, já corriam pra casa. Um dia chegaram duas pra ganhar neném. Uma ganhou dia doze de maio, outra ganhou dia cinco de maio. Todas as duas eu assisti com elas.

 

 

P – Mas como é que foi que a senhora fez?

 

 

R – Elas chegavam, embrulhadas com aquele cobertor... Aquele cobertor de lã. Chegava tudo embrulhada. Aí chegava: “Ô, dona Bela, eu vim aqui com a senhora, pra senhora dar uma olhada na minha barriga”. Aí eu levava pro quarto, olhava se tava bem a criança... Se não tava bem, já mandava ela procurar recurso. Um dia chegou uma lá, que o neném dela tinha morrido. Tava mais ou menos com um dia que tinha morrido a criança.

 

 

P – A senhora sabia?

 

 

R – É. Sei. Aí ela chegou, aí falou: “Ô, dona Bela, a senhora me acuda que eu tô com uma dor, uma dor no pé da minha barriga, aquela dor que não passa”. Aí eu levei ela lá pro quarto. Isso me deu uma febre e vômito e frio. Tá bom, eu levei pra lá, aí a gente escuta...

 

 

P – Escuta?

 

 

R – Escutei tudinho assim, encostar o ouvido na barriga dela. A criança não mexia, eu fui e chamei o marido dela. Eu falei: “Olha, o senhor pode procurar recurso, leve ela pra cidade, que a criança dela tá morta” “É mesmo, dona Bela?”, eu falei: “É, tá morta a criança dela”. Ele trouxe ela, de avoadeira, chegou aqui, levou pra Porto Velho, chegou lá, o médico operou ela. Tava morta a criança.

 

 

P – A senhora...

 

 

R – Eu assisti... Vixi, não sei nem quantas mulheres eu assisti assim, na fazenda, no sítio.

 

 

P – Mas como foi que a senhora aprendeu?

 

 

R – Eu aprendi com uma comadre minha...  A mulher tava pra ganhar neném, aí ela me chamou: “Ô comadre, vem aqui me ajudar”. Ela foi, pegou o neném, ela falou: “Se por acaso, um dia, eu precisar da senhora para pegar alguma criança, é desse jeito”. Aí com ela que eu aprendi.

 

 

R – Aí a senhora depois foi sozinha?

 

 

P – Foi, sozinha. Às vezes, só tinha eu e a pessoa que tava pra ganhar, e ficava só eu e aquela pessoa. Eu nunca tive nervoso, nunca. Tem mulher que tem nervoso. Não, eu não tenho nervoso. Numa hora dessa não é pra gente ter nervoso.

 

 

P – E a senhora aprendeu certinho como faz?

 

 

R – Aprendi. A criança nascia, eu media assim, três dedos, o umbigo... Aí cortava, amarrava bem amarradinho, daí cortava. Com três dias caía aquele umbigo. Tenho a mão boa pra essas coisas. (risos)

 

 

P – Tem a mão boa pra fazer o parto?

 

 

R – Tem, tem. Tem parteira que ela faz parto, aí custa cair o umbigo da criança. Eu não, com três dias já tá saradinho.

 

 

P – Mas a senhora já pegou alguma complicação do neném não querer sair e tal?

 

 

R – Não, não senhora, graças a Deus não. Tudo é normal, normal. É, agora teve uma mulher lá que ela vivia doente, aí diz que muita dor. Falei: “Não, minha filha. Pode procurar recurso, vai pra cidade. Lugar de mulher ganhar neném é lá na maternidade”, falei pra ela. Aí ela veio pra maternidade, rapaz, ela passou mal mesmo. Mas teve a criança.

 

 

P – E dona Bela, vem cá, a senhora cresceu, ficou lá no seringal com os filhos e depois veio morar pra cá, pra Jaci?

 

 

R – Foi, sim senhora. Depois eu vim morar.

 

 

P – Por quê?

 

 

R – Sim, aí nós ficamos por lá. Aí me casei, fui lá pro seringal, fiquei pra lá e tive meus filhos lá. Aí, depois o meu marido começou a adoecer...

 

 

P – O que ele tinha?

 

 

R – Era febre, era dor no baço, o baço dele ficava inflamado, a gente topava, sentia duro o baço dele. Tomava remédio caseiro, melhorava. Aí eu falei: “Olha, meu velho, você vai no médico, quando a gente se sente doente assim, tem que procurar um médico”. Aí ele não gostava do médico, não gostava. “Que nada, o meu médico é eu mesmo”, ele falava. Tomava copaíba, tomava os paus que tem no mato, que chama sucuba, ele tirava casca e colocava no sol, fazia o chá e tomava. Bem. Daí, ele foi começando a ficar ruim, ficar ruim, aí nós viemos aqui pro Jaci. Viemos pra cá, fomos pra casa desse meu filho que tá doente. Ficamos aí, ele falou: “Ah, eu vou levar o meu pai no médico”. Ele: “Não, não, não vou no médico!” “Não, que nada, o senhor vai no médico é hoje”. Levou ele pra Porto Velho. Chegou lá, foi fazer exame, deu pedra na vesícula. Ficou tomando remédio, que o médico passou remédio pra ele, ficou tomando remédio, quando terminou aquela medicação, ele falou: “Você vem aqui quando terminar, você vem aqui”. Ele foi. Aí disse: “Olha, vou marcar uma cirurgia pra você. Você vai operar dessa pedra na vesícula”. Tá bom, aí marcou, aí não deu certo. Quando foi naquele dia que o médico marcou, houve lá um atrapalho, que não tinha leito. Aí foi pra casa de novo, marcou outra data. Nessa arrumação, pra encurtar a conversa, foi cinco vezes que o médico marcou. Mas seis vezes que deu certo, que aí ele se internou, operou num dia. Aí diz ele que atacou... Diz lá o meu filho que tava com ele e minha nora, atacou aquela dor, aquela dor, aquela dor, que ele gritava dentro do hospital. Aí a doutora, a enfermeira foi lá, ele estava aos gritos. “Mas será possível, o que será que o seu João tem?”. Aí disse: “Ah, é a anestesia que passou”. Por isso quando passa a anestesia, dói muito. Ela foi buscar um analgésico pra ele. Pegou, deu pra ele, e ele sempre gritando, gritando, meu menino agoniado. “Enfermeira, vai chamar o médico, enfermeira. Vai chamar o médico”. Ela falou: “Não, é assim mesmo quando tá passando a anestesia, dói muito”. Aí ele com aquela dor, aquela dor, aí até que meu menino, ele é meio afobado, o que mora em Porto Velho. Aí foi lá, procurou o médico dele, o médico foi. Quando chegou lá, diz que olhou pra ele e já correu, já veio correndo, veio buscar os aparelhos, botou nele, colocaram ele na UTI. Passou parece que ainda cinco dias na UTI.

 

 

P – E aí depois...

 

 

R – E aí de lá morreu.

 

 

P – E de lá a senhora ficou com os filhos já grandes?

 

 

R – Já, tudo grande, tudo já criado já. A minha filha era casada, esse que tá aqui também é casado, o outro também é casado, só esse que não é. [Mudando de assunto] Aquela menina tá lá sozinha? Pois é. Aqui já morreu uma menina afogada, dona, eu não sei como essas mulher deixa a criança assim. Ai, meu Deus, eu sou nervosa! Mas deve ter gente grande lá. Pois é. E aí eu sei que ele sofreu, meu marido, antes de morrer. Aí disse que ele gritava, gritava, tava com muita dor, ele tava na UTI.

 

 

P – Mas e aí, depois que ele faleceu, a senhora ficou sozinha e veio morar aqui pra Jaci?

 

 

R – Vim, sim senhora. Aí, né, colocaram ele na UTI, ficava o meu menino, a minha nora e meu neto, né? Eu tenho um neto que é filho da Rosa, o mais velho. Aí ficava lá com ele. Disse que ele me chamava, chamava, aquilo ali quando eu entrava ali dentro, parece que era uma facada que me dava no meu coração. Eu ver ele naquele sofrimento, né? Depois, parece que aplicaram injeção nele, ficava bem calminho ele. Aí meu menino tava aqui no Jaci, esse que tá doente. Aí eu falei: “Meu velho, olha, eu vou ligar pro Pedro, pra ele te ver”. Ele fazia com o dedo assim, dizendo que ele ia chegar, mas não ia sair com vida. Ele falava, eu botava o ouvido bem pertinho dele, ele falava bem baixinho. Ave Maria... Aquilo ali pra mim parece que era um golpe que eu levava. Sofreu muito meu marido antes de morrer. Aí depois que ele morreu, eu tava em casa, toda vez que minha nora ia pra lá, eu falei: “Minha filha, quando você chegar lá, você ligue pra mim, que eu tô aqui no pé do telefone pra atender o telefone, saber como é que tá meu velho”. “Tá bom, dona Bela”. Chegava lá, ela ligava logo, “Ele tá bem”. Tá bem mais nada, eles não falava pra mim não. Quando foi um dia, nós tava tudo lá na sala assim, conversando, o telefone tocou. A minha nora foi pra lá, atendeu, eu vi ela balançar a cabeça, eu falei: “Ai meu Deus, aconteceu alguma coisa”. Aí ela veio de lá pra cá, “Dona Bela, eu vou no hospital”. Eu digo: “O que aconteceu?”. É Sila o nome dela. “O que aconteceu, Sila?” “Nada, não. O Roberto tá me chamando, que o seu João... Pra ficar lá, pra ele tomar um banho”. Mentira, que ele já tinha falecido. Aí eu falei assim: “Mas Sila, me conta, o que está se passando, rapaz?! Tu balançou a cabeça aí”. Ela falou: “Nada não, dona Bela. Eu vou lá só ficar lá que o Roberto vem tomar banho” “Tá bom”. Aí, a menina... assim, aí o telefone tocou de novo, a menina foi atender. Eu tenho uma meninazinha deste tamanho, agora tá uma moçona. Aí ela falou: “Mamãe, vem aqui mamãe! O papai tá ligando que o vovô morreu!”. Ai, dona! Saí assim parece que me deram uma pancada, me sentei assim, aí me deu um negócio, um tremor, um tremor, aí já ligaram pros meus parentes, meu sobrinho veio, já me levou no posto pra tomar uma injeção... Eu sei que, diz o pessoal que eu desmaiei. Desmaiei, me levaram pro posto, tomei injeção, mas foi um sofrimento.

 

 

P – Faz quanto tempo isso?

 

 

R – É... dez anos. Tá com dez anos que ele faleceu.

 

 

P – Dona Bela, de lá pra cá, nesses dez anos, a senhora passa a maior parte do tempo onde?

 

 

R – Aqui. Passo aqui, passo em Porto Velho... Eu tenho [netos]... São gêmeos. É o Cosme e o Damião. Então, esse Damião, ele desde pequenininho foi acostumado comigo, só dormia comigo, só dormia comigo, então, quando eu ia, às vezes tô na cozinha fazendo as coisas, ele já puxava a minha roupa, puxava a minha roupa: “Vovó, eu tô com sono, vovó, tô com sono!” “Meu filho, vai deitar, meu filho, ó a cama bem aí, meu filho, vai deitar” “Não, mas eu só vou com a senhora, eu só vou com a senhora”. Aí eu ia, fazia ele dormir, deixava ele lá e ia fazer as minhas coisas. É o filho dela. Ele era bem pequenininho; eles são gêmeos. Tem um que é bem macetão, é o Cosme. Bem alto, macetão ele. Agora o Damião é bem pequenininho.

 

 

P – Ah é?

 

 

R – É. Engraçadinho ele, bem branquinho.

 

 

P – E dona Bela, conta pra mim: agora a casa que a senhora mora vai inundar?

 

 

R – É, sim senhora.

 

 

P – Como é que a senhora soube disso?

 

 

R – Eles foram lá, né?

 

 

P – Faz quanto tempo?

 

 

R – Mais ou menos com uns oito meses.

 

 

P – E falaram o que pra senhora?

 

 

R – Eles falaram pra indenizar. Foram lá, anotaram tudinho, os pés de árvore, o tamanho da casa, aí eles falaram: “A senhora vai querer outra casa ou vai querer em dinheiro?”. Eu falei: “Não, eu quero outra casa, sendo do tamanho dessa, com três quartos, a sala e cozinha” “Então tá bom, minha tia, a senhora vai ganhar uma casa boa”. Aí, então eles vão me dar a casa.

 

 

P – E deram ainda algum dinheiro?

 

 

R – Já, sim senhora. Me deram 9 mil. Já tá no banco. Agora depois que eu passar pra casa, eles vão me dar o restante. Eu fui lá, tem uma casa de mostra lá, eu fui lá e gostei da casa. Só que é pequenininha, só de mostra mesmo. Pequenininha. Agora a que eles vão me dar mesmo é de três quartos, sala e cozinha.

 

 

P – E é longe de onde a senhora mora?

 

 

R – É um pouco longe. É lá em cima da BR que eles estão construindo as casas. Do lado do cemitério.

 

 

P – Sei. E aí, a senhora acha que vai ser bom?

 

 

R – Ah, eu não tô... Nesse ponto aí, eu não tô muito gostando não, porque eu sair do meu lugarzinho tão gostoso, ventilado, ixi, há 30 anos que eu moro ali, então eu sair dali... Eu acho que eu vou estranhar muito. Porque eu nunca morei em casa de alvenaria, eu gosto sempre de morar em casa de madeira. É, porque casa de madeira eu me sinto melhor, ventilada. Casa assim de alvenaria, quando a gente tranca tudo é muito quente. Eu não sei se eu vou me dar nessa casa, mas fazer o quê, né?

 

 

P – Você acha que vai ser boa pra Jaci, essa usina?

 

 

R – Eu tô achando que vai ser.

 

 

P – Vai? O que mudou desde que começaram as obras aqui em Jaci?

 

 

R – Mudou muita coisa, dona, muita coisa mudou.

 

 

P – O que mudou?

 

 

R – Mudou assim... Jaci cresceu mais, né, ta mais movimentada...

 

 

P – Isso é bom ou é ruim?

 

 

R – É bom. Bom. Sim que agora depois que esse pessoal que tão chegando de fora, eu acho que vai ficar mais ruim devido aos marginal, né? Que eu tenho muito medo disso, marginal atacar a casa da gente, né?

 

 

P – Porque isso não tinha?

 

 

R – Não tinha, não. Eu moro ali ó esses anos todinhos, nunca ninguém foi mexer comigo, nunca. Eu fico só eu, esse menino e Deus, nunca ninguém foi mexer não. E ali os vizinhos dali, aquela moradia ali pra onde eu moro, nunca mexeram assim nas casas da gente não.

 

 

P – E agora tem...

 

 

R – E agora, pra lá, pra onde vão colocar a gente, não sei também se é o costume que a gente não tem costume,  mas eu acho que pra ali é mais perigoso.

 

 

P – Entendi.

 

 

R – Agora pra onde eu moro não, morada boa, morada sossegada...

 

 

P – Mas a senhora ainda tem um sonho? O que a senhora gostaria que acontecesse agora?

 

 

R – Que não fosse vingar mais essas casas lá, que eu morasse lá mesmo na minha casinha. (risos) Pois é. Eu gosto demais ali da minha casa, Deus me livre, gosto demais daquele lugar ali. Uma que meu marido faleceu,  construiu aquela casinha, faleceu, deixou aquela casinha pra eu ficar debaixo. Outra que ali é morada boa na beira do rio, ventilado, e pra lá acho que vai ser muito quente. Não sei, não, eu sei que meu menino falou: “Não, mamãe, eu vou comprar um ar e botar, a senhora fica à vontade”, eu falei: “Não, eu sofro de sinusite, tem dia que eu tô que não aguento, agora mesmo lá no seringal me atacou, que eu fiquei de dez horas até uma hora da madrugada sem poder dormir. Com aquela falta de ar, o nariz entope e é uma espirradeira, uma espirradeira... Eu não sei, eu já fui no médico, o médico passou uns remédios, melhorei uns diazinhos, daí começou de novo. Tem um senhor pertinho lá do meu médico, ele mora lá perto, ele sofre isso aí também. Ele já foi operado, operaram o nariz dele, diz ele que operou, mas só operar mesmo, mas ele não ficou bom. Ataca ele, tem dia que ataca, que ele fica ruim.

 

 

P – E a senhora tá com medo que na casa nova vai ter mais...

 

 

R – É, lá eu tô com medo de eu ficar mais ruim, porque tudo fechado, né?

 

 

P – E é um bairro só pra todo mundo?

 

 

R – É, sim senhora, é. É um bairro só.

 

 

P – Dona Bela, super obrigada pela história...

 

 

R – Sim senhora. Tá bom.

 

 

P – A senhora quer dizer mais alguma coisa?

 

 

R – Por enquanto não, dona? Como é seu nome?

 

 

P – Karen.

 

 

R – Ah, dona Karen. Por enquanto não, dona Karen.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+