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História

Um comércio de pianos

História de: Tufik Lutaif
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2005

Sinopse

Identificação e história da família, de origem libanesa. O cotidiano durante a infância e o empório montado pelo pai. O trabalho dividido com os pais e os irmãos, e as pequenas tarefas que realizava quando criança. A cidade de Itápolis durante a sua infância e os pontos de comércio que existiam na cidade. As lavouras de café e de laranja existentes em Itápolis. O cotidiano passado entre a escola e as brincadeiras de rua. Os estudos na Escola de Comércio. O trabalho como vendedor autônomo de diversos produtos. O momento em que assumiu o comércio da família e o funcionamento do estabelecimento. A ocasião em que conheceu a esposa. A festa de casamento e a convivência com as filhas. As atividades da loja. Sua atividade e sua vida.

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Identificação
Meu nome é Tufik Lutaif. Nasci no dia 22 de dezembro de 1931, em Itápolis, interior de São Paulo. Meu pai se chamava Lutfi José Lutaif e minha mãe Assma Yazig Lutaif e eles eram de Hasbaia, Líbano. Nós éramos em sete irmãos, mas um faleceu há alguns anos. Ainda moro no mesmo local, antigamente denominado Rua Quinze de Novembro, 33, que agora é a Rua Presidente Valentim Gentil, 1023. O comércio do meu pai ficava na frente e a residência no fundo. Até hoje é assim, mas a casa foi ampliada com o tempo. Até dezembro de 1998 a minha mãe, que faleceu, residia lá.

Pai dentista
Meu pai era dentista no Líbano. Antigamente não existia faculdade, então ele fez estágio com outros dentistas para aprender o ofício. Do Líbano, ele foi para os Estado Unidos para estagiar com mais três profissionais, e eles outorgaram o direito dele trabalhar. Então ele veio para exercer sua nova profissão. Ele veio para Itápolis, como outros libaneses, e trabalhou por um ano como dentista. E nesse tempo ele só fez duas ou três dentaduras, que era o suficiente para se manter, mas ficava muito tempo parado. Então ele resolveu que deveria abandonar a profissão e trabalhar no comércio. Depois todos nós seguimos a sua vocação, no mesmo prédio.

A escolha do Brasil
Meu pai veio sozinho para o Brasil. Depois ele conheceu a minha mãe e eles constituíram família. Ele escolheu o país porque muitas pessoas estavam vindo para cá. Inclusive em Itápolis a colônia libanesa era muito grande. Todos libaneses vinham para lutar, ganhar dinheiro. Como os moços descendentes de japoneses fazem hoje em dia, eles vão para o Japão juntar dinheiro. E dizem que ganha-se mais fácil lá, mas é que no Japão existe mais campo de serviço. As pessoas trabalham 18 horas por dia. Aqui no Brasil se ele quiser trabalhar, às vezes não consegue trabalho de 8 horas, imagine 18...

Cotidiano familiar
Na nossa casa, quando nascia um filho, ele ficava no quarto perto dos pais. Os irmãos maiores juntavam em outros quartos: as moças ficavam de um lado, os rapazes do outro. Como eu era o irmão caçula, entre os homens, fiquei perto dos meus pais. Nós sempre acordamos cedo. A vida de quem é educado no comércio é acordar cedo, não tem outro jeito... Quando eu comecei a trabalhar, por exemplo, ficava na loja no sábado até a noitinha e domingo de manhã tinha que abrir... O comércio não tinha hora para fechar, hoje é que você não tem mais essa liberdade porque existem determinados regulamentos.

Comércio do pai
A loja do meu pai se chamava Casa Lutaif e continua funcionando até hoje. Ela já passou por diversas fases. Quando criança, era um “Secos e Molhados”, depois passou pra Empório e hoje é Supermercado. Era um armazém que vendia de tudo: fumo de corda, corda para a roça e tecido. O tecido que vendíamos era o xadrezão, o brim cáqui, essas coisas mais rústicas. Com o tempo é que foi mudando, até que chegamos em um estabelecimento mais aprimorado em determinados artigos, que não tem tanta mistura. Mas antigamente precisávamos ter de tudo porque não tinha muito comércio pra servir a população. Hoje em dia quase tudo é enlatado. Naquele tempo a mercadoria vinha embalada. Eram sacos de 50, 60 quilos. Pacote de cinco quilos mesmo é coisa mais recente. As prateleiras e os balcões são os mesmos de muitos anos, eles estão lá desde que eu nasci. A pintura do prédio por fora, eu lembro que chegou a ser vermelha durante um tempo. Agora eu gosto de uma cor mais discreta: amarelo creme...

Trabalho familiar
Teve uma época que eu não trabalhei na loja. Meu pai e mais dois irmãos ficavam na loja e eu trabalhava numa chácara, que também era da nossa família. Fazíamos tudo juntos, só começamos a separar os negócios depois que os irmãos foram se casando. Então cada um passou a ter a sua família, sua forma de encarar as coisas... Eu sempre acompanhei meu pai nas atividades, principalmente no fim da vida dele, quando ele já estava mais afastado do comércio. Eu o ajudava em uma chácara, trabalhávamos com avicultura. Enquanto isso meu irmão tomava conta da loja. Nós estávamos sempre entrosados, era uma sociedade que cada um tomava conta de um setor.

Os primeiros trabalhos
Eu comecei a trabalhar com avicultura aos 19 anos. Mas com 7, 8 anos eu já tinha alguns encargos, como ir no correio buscar correspondência, levava encomendas da loja. Mesmo estudando, tinha as minhas obrigações: ia para escola, almoçava, fazia meus deveres e depois ficava na loja. Mas comecei a trabalhar comprovadamente desde os dez anos, quando eu participei da firma “Lutaif e Companhia”.

Desenvolvimento de Itápolis
A cidade era muito pequena. Eu ia todo dia no correio às oito horas, para pegar o jornal, porque meu pai gostava. O trem chegava com a correspondência às sete horas. E era uma escuridão... Eu tinha medo de andar por lá de noite porque no fundo da minha casa passa um rio, então passava por lá assobiando, cantando e correndo. Quando eu era criança, lembro que todas as ruas eram de terra, não existia asfalto, quase não tinha guia e sarjeta, só no centro mesmo. O esgoto da cidade foi feito em 1940, pela “Camargo Correia”, que hoje é uma potência na cidade. O senhor Sebastião Camargo foi inquilino de meu pai na casa que morei quando me casei. Para fazer o esgoto não usaram máquinas, era tudo no enxadão. O operário que cavoucava e fazia, não existia escavadeira como hoje. Eu acredito que acompanhei o desenvolvimento da cidade. E ajudei muito esse processo, sempre fui um colaborador de lá porque nós vendemos material de construção. Minha clientela, graças a Deus, é mais humilde do que a graúda. Eu digo isso de boca cheia porque o cliente graúdo é mais esnobe. O cliente humilde precisa do comerciante e nós vemos ele crescer.

Comércio da cidade
No início a cidade não tinha muito comércio, depois é que foi crescendo. É que a população, então as lojas vão se especializando... Antigamente quem fornecia gasolina na cidade era o meu pai, tinha uma bomba daquelas tipo alavanca e hoje não existe mais isso, existem os postos de gasolina. Itápolis foi um grande centro atacadista quando funcionava o Armentano e o Monzilo e outra firmas do gênero alimentício. Eles vendiam pra região toda. Ali tinha a ferrovia, era um ponto de transporte mais fácil. Antes da estrada de ferro vinham buscar mercadoria em Matão com carroça, não existiam caminhões. Com a linha de trem ali ficou mais um centro distribuidor, pra ir pra Novo Horizonte, pra Itajubi...

Queima de café
A produção da região agora é mais industrializada. Mas antes produzia café, até na quebra de 1930, com a queima das sacas. Lembro também quando o governo instituiu o DNC, Departamento Nacional do Café. Foi como está acontecendo hoje com a laranja: houve excesso de produção e, ao invés do governo deixar ir a bancarrota o preço do café, ele comprou, armazenou e ia queimando. Não cheguei a ver a queima de café, eu era criança e também porque vivíamos num lugar bem isolado. Mas eu sempre ouvi falar e, quando cresci, eu passava por alguns lugares e as pessoas me falavam: “Aqui foi queimado”. E tinha uma mancha na terra, que simbolizava a queima, porque em solo queimado não cresce mais nada. Depois lotearam esse terreno, que hoje fica na cidade.

Escola
Eu comecei na escola, num curso infantil, que se chamava “Escola da Dona Mazé”. Dona Mazé porque era de uma senhora idosa, a Maria José. Nós usávamos uma lousinha e um apagador. Hoje as crianças usam papel, caderno. Nós escrevíamos, a professora corrigia e depois apagávamos e tal. Levava o lanchinho também... Isso foi no meu pré-primário. Como eu sempre morei perto do centro, as escolas que estudei ficavam bem perto da minha casa. Eu terminei a quarta-série dentro da idade certa e não queria prosseguir, mas meu pai fazia questão que eu completasse algum curso. Então fiz três anos de contabilidade em Taquaritinga, na Escola de Comércio, do Doutor Aimone Salermi. Depois que eu terminei, instituíram o colegial em Itápolis. Para manter a vida de estudante, no meio do povo, eu fiz o segundo e o terceiro ano, porque eu já tinha as matérias do primeiro feitas na Escola do Comércio. Quando concluí o colegial, eu parei, nunca gostei de estudar.

Amigos da escola
Tinha bastante amigos na infância. Alguns se foram, outros ainda estão por aí. De vez em quando recebo notícias de alguém. Há alguns anos reunimos os amigos do primário, nós fizemos cinqüenta anos da formatura da quarta série. A idéia surgiu quando um colega que não víamos há muito tempo se aposentou e retornou a Itápolis para trabalhar com um outro que tem uma indústria. Um dia eles me encontraram e disseram: “Tufik, nós gostaríamos de reunir todo mundo. Mas a gente não sabe localizar esse povo”. E eu falei: “Nós damos um jeito”. Infelizmente dois não compareceram porque tinham falecido. Essa reunião foi uma volta ao passado muito bonita e nela conhecemos as famílias de cada um.

Traquinagens
Nós fazíamos muitas brincadeiras. De vez em quando eu lembro algumas palhaçadas que a gente fazia com os professores. Tínhamos um professor de inglês muito idoso, que era tão bom que o povo abusava. Um dia puseram um feixe de capim na mesa dele. Quando ele entrou na sala, viu o feixe de capim e pôs dentro da gaveta e deu a aula. Tocou o sinal e ele falou: “Agora, quem deixou o lanche aqui, faz favor de vir pegar e leva pra comer”.

Trabalhos temporários
Já trabalhei autônomo para outros lugares também e me afastei temporariamente da loja, porque meus irmãos estavam ajudando meu pai. Fui vendedor de ração, cuidava da granja... Eu e minha esposa tivemos uma firma que vendia rações. Tirava os pedidos e tínhamos um caminhão para fazer as entregas. Tinham muitas granjas na região. Depois estive em diversos setores de vendas, engarrafei pinga, tive indústria de vassoura... Mas foi tudo temporário. Eu não produzia a pinga, só engarrafava e distribuía o produto de um engenho muito grande que tem na região. Tinha a minha marca registrada, Caninha Macuco. Nessa época eu descobri que tinha um problema nos rins, cheguei a não conter a minha urina mais. Fiz uns exames e o médico me disse: “Tufik, você não pode fazer força”. Mas para eu ampliar a minha linha de pinga, tinha que ir eu mesmo, não podia colocar outra pessoa para fazer isso. No fim eu acabei desistindo, foi quando meu irmão resolveu sair da loja e eu assumi o lugar dele. Deu certo.

Rotina na distribuidora
Eu distribuía na nossa região: Marília, Assis, Bauru... Quando eu para uma cidade mais longe, dormia por lá. Mas normalmente ia com a caminhonete fazer vendas, alguma entrega e voltava no mesmo dia. Dentro da minha chácara tinha uma olaria também, então eu tinha um ajudante, que trabalhava como motorista, porque nós usávamos um caminhão grande e um pequeno. Mas algumas vezes eu não podia levar o ajudante e precisava fazer tudo. Se eu fazia muita força, era certeza que de tinha xixi na cama. Então parei de trabalhar com esse ramo e tomei alguns remédios para o meu problema. Aí ele foi diminuindo... Meu irmão mudou de atividade e eu fiquei na loja a pedido da minha mãe e também para não parar.

Venda de gás
Eu tenho clientela da cidade toda porque nós vendemos gás e outras coisas, não temos clientela específica. Também trabalhei com venda de gás no atacado há uns anos, estava prevenindo parar a minha atividade. Cheguei até a dispor dessa linha de gás, vendia em diversas cidades, tinha caminhão que entregava tudo. Eu formei no estado, e no país, um serviço que nunca tinham feito. Tive o apoio de uma empresa de gás que confiou em mim. Implantei pontos de venda em armazéns e mercados, coisa que não existia há 25, 30 anos. Depois passei a vender gás nas ruas, ia com meu caminhão. Larguei a linha de gás há mais ou menos quatro anos. Vendi para outra pessoa. Tinha intenção de diminuir as atividades da loja, mas depois fiquei com medo de parar...

Regras para namorar
Conheci minha esposa, Nazir, por uma simples coincidência, indo a um jogo de futebol. Ela morava perto do Oeste Futebol Clube. Eu nunca gostei de futebol, mas quando somos jovens, nós vamos para esses lugares. Ela tinha uma amiga que morava perto do muro do clube e elas estavam vendo o jogo em cima dele. Dali eu a conheci, comecei a paquerar, e depois tornou-se minha noiva e minha esposa. Naquele tempo o namoro era diferente. Tínhamos que ficar dentro de casa. Precisei pedir o consentimento do pai dela, então um dia eu fui lá e conversei com ele, ele era meio bravo... Mas ele permitiu o namoro. Existiam alguns regulamentos para namorar na época. Tínhamos horário pra namorar, até nove horas no máximo, hoje em dia às nove e meia o casal ainda nem se encontrou. Não podíamos sair, só ficávamos em casa. E se saíamos, precisávamos levar a irmã menor. Tinha um cinema em Itápolis, mas dificilmente íamos porque tínhamos que levar a irmã mais nova, a Odete, junto. Acho que ela não gostava muito de nos acompanhar, então tinha sempre que pagar um docinho para ela...

Casamento
Casamos no civil e no religioso no mesmo dia. Antes tinha feito a despedida de solteiro com todos os amigos e convidados para o casamento. A festa foi de arromba. Filho de sírio quando casa são oito dias de festa. O pai dela era corretor de imóveis, então era muito conhecido na cidade. Ele precisava convidar muita gente. Foi um casamento grande, com uns 400, 500 convidados, que naquela época era um colosso. Na época a família dela tinha mudado para uma casa que fazia fundo com o quintal do Posto de Puericultura. O pai dela conseguiu o quintal do posto, ligado ao quintal dela e fizemos as barracas lá. No sábado, eu dei uma festa de despedida de solteiro numa chácara que eu tinha. Depois, a festa de casamento, meus pais deram um almoço e meus sogros deram os doces. Foi festa uma semana, como diz. Na lua de mel, fomos para Santos.

Família atual
Tenho duas filhas, que são um tesouro. A mais velha se chama Marisa e, depois de oito anos nasceu a Márcia, que foi como presente pra outra. A Marisa queria uma irmãzinha... Tem também o Marcelo, que não é bem um filho, é um neto, um menino que nós mantemos em casa, as meninas têm ele como irmão. E agora, há uns nove anos, eu ganhei mais um filho, que é meu genro, marido da Márcia. Ele nos adora e nós o consideramos como um filho. Os meus filhos nunca se envolveram na loja, nunca gostaram. Minha patroa que sempre me ajudou e esteve junto comigo, tanto na loja quanto na chácara. Há alguns anos, ela se afastou da loja e ela foi realizar o sonho dela, que era construir uma chácara. Mas depois de um tempo mudou de plano, nós não podíamos mandar mais dinheiro para isso. Então ela voltou a me ajudar na loja. Quando eu adoeci a Marisa, que hoje é fisioterapeuta e tem uma clínica em Itápolis, me ajuda nas horas de folga. Eles não me largaram. Não posso me locomover sozinho, não dirijo mais. E eles me carregam no colo, eu canso de dizer que eles estão me deixando muito mal acostumado.

Desfile
Eu bolei um desfile quando a cidade fez cem anos. Na época eu vendia rações do Moinho da Lapa, tinha granja. As meninas vestiram uma roupa de penas, imitando pintinhos, eu fiz uma gaiola em cima da caminhonete e nós desfilamos. Foi uma coisa bem significativa. O comerciante sempre tem que fazer parte dos movimentos da cidade, mostrar para o povo alguma coisa, o que vende...

Promoções
Nós vivíamos fazendo promoção. Antigamente eu tinha disposição para isso, minha esposa me ajudava, ela tem muita criatividade. As meninas também ajudavam, por exemplo, quando a loja completou 80 anos, eu soltei uma folhinha com a Márcia. Ela também desfilou no aniversário, que foi a coisa mais linda, parece que deve ter nesse álbum também. Nunca fiz propaganda em rádio, eu acho que isso é uma aberração, serve para tapear o cliente: “Vendo por tanto”. Temos que ser sinceros com os clientes. Essa história de liquidar é tudo mentira. O comerciante não pode enganar o cliente. Minha loja funciona assim. A melhor propaganda é tratar bem o cliente no balcão, se ele quiser que você entregue, fazer ela. Nós entregamos num determinado raio, não muito longe, mas é de graça. Acho que propaganda é boa de fato, eu estaria mentindo se dissesse que nunca fiz. Há uns meses consegui um financiamento próprio da loja, para vender material de construção pela Caixa Econômica. São planos bem acessíveis. Então eu fiz um mês de propaganda e aquilo foi um estouro. A cidade inteira ficou sabendo.

Forma de pagamento
Temos que nos adaptar a cada cliente. Alguns gostam de pagar em cheque, outros no banco, como duplicata, é lógico que você precisa de um cadastro... Então são formas de crediário para o freguês pagar. Hoje apareceu uma cliente com um cheque de terceiro, ela tem ficha na loja, mas como atrasou o último pagamento em cento e poucos dias, levou o cheque como garantia para comprar uns metros de piso. Algumas vezes nós financiamos pela Caixa Econômica. Quando eu comecei a trabalhar não se pagava com dinheiro. O lavrador vinha, trazia 10, 20 sacas de milho, deixava na loja e falava: “Hoje eu vou levar um saco de açúcar, amanhã um saco de farinha, depois tantos metros de tecido...” Antigamente nós também usávamos a caderneta. O cliente trazia uma cadernetinha e nós anotávamos aquela compra nela e num livro nosso. No fim do mês, conforme combinado, ele ia acertar. Hoje não se pode mais fazer isso, senão não recebemos. Para a pessoa ter crediário aprovado, precisa preencher alguns critérios: não pode ter nomes manchados. A Associação Comercial tem uma lista de S.P.C., Serviço de Proteção ao Crédito, que nós consultamos, mas a maioria dos comerciantes vão consultar o nosso cadastro, porque ele já existe há 18 anos. Às vezes a gente dá uma informação, eu tenho gente cadastrada há muito tempo, e que hoje é mal pagador porque não está mais recebendo, mas infelizmente temos que continuar fornecendo. Acho que não podemos tachar alguém de mal pagador nessas condições.

Especialização
De uns 20 anos para cá nós resolvemos nos especializar em alguns produtos, não temos mais produtos de alimentação. As firmas de alimentação agora são empórios, coisas mais organizadas, mais bonitinhas. Então fomos nos aprofundando, sempre gostei de vender mais material de construção. Antigamente vendíamos tecidos, no tempo do tafetá, no tempo da sedinha. Eu cortei muito pano na tesoura. A nossa loja vendia pouco. Ali, a clientela era gente da roça. Quando vendíamos tecido, tinha brim, para calça de serviço, e o brim melhor pra roupa de passeio, tricoline para camisa de passeio, algodão alvejado. Antigamente não se achava roupa de cama feita, então compravam peças de algodão. Além dos tecidos, tinha também botão, linha, zíper, essas miudezas.

Material de construção
O material antigamente, no tempo do armazém, era tinta a óleo, o esmalte de hoje, embalado em galão. Era óleo de linhaça, mais alvaiade e o pó que dava coloração. Hoje o pó que dá coloração vem empacotado bonitinho, naquele tempo vinha em saco de 25 quilos. O cimento vinha em barrica de 50 quilos, era importado. Hoje temos tudo no país. Nós vendemos tudo: cal, cimento, ferro, areia, pedra... Só não temos tijolo, telha, madeira e vidros. Nós trabalhamos com tinta, com material hidráulico, elétrico-doméstico...

Fornecedores
Os fornecedores iam até a loja. Quando eu era criança, os representantes das firmas que viajavam chegavam a pousar em casa. Todos eram amigos, gente conhecida. Então eles combinavam: “Tal dia nós vamos pra Itápolis”. Minha mãe sempre gostou de receber visitas. Os vendedores vinham com amostras grandes, num malão, e ficavam um dia, dois. Tinha um vendedor de Rio Preto, que deixou de vender para nós, ele aposentou, passou a firma pra um rapazinho. Mas quando o rapaz vem pra Itápolis, ele faz questão de vir bater um papo. Por causa das amizades, você dá preferência para alguns fornecedores. Acho que amizade ajuda muito no comércio.

Mudanças no comércio
De uma época pra outra o comércio muda muito, a evolução é grande. Uma hora, eles prestigiam as grandes lojas, depois as pequenas. O que eu acho errado é que hoje protegem as micro empresas. Um comércio como o meu, que não é micro empresa, está sendo prejudicado com isso. As micro empresas estão nadando de braçada. Agora, o comércio grande tem fechado. As firmas monumentais de São Paulo, como Mappin, não estão agüentando a parada. Porque recolhem tributo dela, enquanto os mascates estão protegidos.

Funcionários
Atualmente estou colocando na loja mais o pessoal da família. Devo ter uns dez funcionários, mais os familiares. A minha filha também ajuda. Ela nunca se interessou, mas agora nos ajuda por questões econômica, não estamos em época de gastar. Mas teve uma época que eu administrava e o resto era funcionário. A minha relação com os funcionários é ótima, eu tenho um que aposentou e ainda está dentro da firma, há 30 anos. Tenho outra funcionária que estava lá 14 anos e saiu de lá para montar uma firma pra ela, mas como não deu certo, eu a convidei e ela voltou. Não só na loja, como em casa, temos uma doméstica, que é a mãe do menino, o Marcelo, que está há 24 anos. Então nós temos bom relacionamento porque achamos que o funcionário não é um empregado, é um auxiliar, que está nos ajudando a progredir.

Clientela atual
Hoje o comércio diminuiu. Cheguei a vender cinco, seis vezes mais do que vendo hoje. Mas acontece também que a cidade expandiu, e com essa abertura de micro empresa, muita gente abriu uma. O cliente também não está com o potencial de compra de antes, porque o salário continua o mesmo. O custo de vida aumentou, as pessoas precisam segurar. Então o povo não está muito gastando em construção.

Lazer
Não tenho muitas horas de descanso. Mas normalmente passo elas na chácara, deitado, vendo televisão, recebendo um amigo. O meu descanso normalmente é sábado e domingo depois do almoço.

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