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História

Um futuro perfumado

História de: Giovanna Kupfer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/05/2005

Sinopse

A família e as atividades desenvolvidas pelo pai. Costumes religiosos. A infância na Itália. Ida para os Estados Unidos e a viagem de navio. A adaptação à vida norte-americana. A loja da mãe. Vinda para o Brasil e as primeiras impressões. Os estudos e o curso de Artes Plásticas. Seu casamento e as filhas. O surgimento da Giovanna Baby. O conceito de roupa infantil e o desenvolvimento dos produtos. Relação com o público infantil. Abertura das lojas no mercado americano e a dificuldade de mantê-las. Relação com as filhas e seu grande sonho.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome de casada é Giovanna Kupfer, nasci em Roma, Itália, no dia 17 de setembro de 1946. Meu pai é Nathanael Mello Falber, e minha mãe é Helen Wainfeld Falber. Eles nasceram na Polônia.

TRABALHO DOS PAIS

Meu pai era bioquímico e professor catedrático, tanto na Polônia como na Universidade de Praga, na Tchecoeslováquia. Depois ele imigrou pra Itália e se envolveu em movimentos. Nós somos de origem israelita, sou judia. Ele se envolveu em movimentos com o governo italiano pra ajudar os judeus a saírem via Itália pra Palestina, que não era ainda o Estado de Israel. Minha mãe naquela época não trabalhava, ela começou a trabalhar com estilo, com moda feminina, só nos Estados Unidos.

IMIGRAÇÃO DOS PAIS PARA A ITÁLIA

Meu pai ia e vinha pela Europa inteira e numa dessas incursões, que foi aproximadamente em 1944, ele conheceu a minha mãe, salvando-a da guerra, e no caminho, indo pra Itália, casaram.

INFÂNCIA NA ITÁLIA

Me recordo da casa que a gente morava em uma casa que sempre tinha muito movimento. Havia um movimento político, dos amigos do meu pai. O primeiro ministro da Itália, da Democracia Cristã, foi uma das pessoas que ajudou tremendamente nesse trabalho que meu pai fazia. O trabalho era justamente tirar sobreviventes desses campos de concentração, após a guerra e durante. O próprio Vaticano ajudou muito nisso, então era um entra e sai constante de gente. Teve um evento que eu não me lembro em detalhes, mas que me foi contado. Minha mãe tinha uma governanta, ela e o marido, que viviam nos fundos da casa. Minha mãe deu uma garrafa de Chianti [vinho italiano produzido na região da Toscana] para eles.

Puseram a gente, eu e meu primo, pra não ouvir barulho, na casinha deles, durante um jantar que haveria na casa principal. Algumas horas depois encontraram nós dois caídos no chão. Eu tinha dois anos e meio, tive um coma alcoólico e nunca mais toquei uma bebida na minha vida. Diz que ele deve ter tomado menos, porque a cena era hilária. A garrafa estava vazia, os dois esparramados no chão, levaram a gente para um hospital imediatamente. Fiquei quatro dias desacordada. Quer dizer, presumiram que eu bebi muito mais do que ele. Também tenho lembranças da vizinhança, do jardim, do meu triciclo, isso me lembro perfeitamente.

E também tinha outra coisa. Naquela época era muito raro ter comidas especiais. Tudo era racionado. Meu pai, de vez em quando, queria uma festa e trazia tipos de queijo, ou algum tipo de carne. Era uma coisa que nem tinha, tudo isso, frutas. Então me lembro que de sexta-feira, na nossa religião, há o que se chama de Shabat. É quando se acendem as velas, se descansa. Minha mãe acendia as velas e punha o pão, vinha aquele cheiro da cozinha. Vinham cunhados, irmã do meu pai, irmã dela, era aquela festa. O pão também não era fácil de conseguir. Todo mundo ia se lavar, se preparar, e eu me lembro que eu me escondia embaixo da mesa, sem ninguém ver, e como era um pedaço de pão pra cada um, eu pegava dois sem ninguém saber. Achava que ninguém sabia. Aí eles me procuravam e me achavam embaixo da mesa.

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E RACIONAMENTO DE COMIDA

A organização em que meu pai trabalhava, chamava Joint, distribuía remédios, comida para os refugiados. E uma das histórias que eu acho mais inacreditáveis é que justamente os Estados Unidos, quando fizeram o Tratado de Paz, iam mandar pra Itália, justamente pros campos, carne, remédios, pra população italiana. Essa reunião foi na casa dos meus pais, e era um dilema. A Itália tem essa coisa de muita corrupção e eles estavam preocupadíssimos com o sumiço da carne. Como iam distribuir pros locais, pras pessoas? Quem distribuiu sem sumir com um grama da carne foi a Máfia, logo após a guerra.Eles mantiveram a palavra e foram os únicos capazes de ter organização. Isso foi em 1945, 1946. Achei uma história incrível.

EDUCAÇÃO

Eu ia para um de jardim da infância, onde tinha. Lembro que eu sempre fui uma pessoa, isso eu tenho dentro de mim até hoje, de muita curiosidade. Então o tempo inteiro eu questionava e perguntava. Comecei a falar muito cedo e a andar muito cedo. Acabava indo em todos os locais com meu pai, que o que eu menos gostava era de ficar dentro de casa. Eu não era uma criança calma, eu tinha que estar sempre ativa. Sempre dormi muito pouco. Lia com lanterninha, esse tipo de coisa. IMIGRAÇÃO PARA OS ESTADOS UNIDOS Saí da Itália com seis anos, pra imigrar pros Estados Unidos. Meu pai recebeu um convite formal para trabalhar nas Nações Unidas e deram a cidadania americana pra gente. Meu pai, por tudo que tinha passado, achava que os Estados Unidos eram, entre aspas, a terra prometida. A Europa já tinha sofrido duas guerras. Nessa época, começou-se a imigrar muito. Do lado da minha mãe imigraram pro Brasil e nós fomos pros Estados Unidos.

VIAGEM DE NAVIO

O navio estava absolutamente lotado e era uma viagem longa. Não me lembro exatamente quantos dias. Saiu de Gênova e não tinha criança da minha idade. Evidentemente, eu me ocupava o dia inteiro. Queria ser ajudante de alguma coisa. Então entrava na cozinha, queria ajudar, e fui adotada pela tripulação. À noite, a gente jantava mais cedo, antes dos meus pais. Daí tinha que ir pra cabine e dormir. Minha mãe deixava uma luzinha acesa e eles iam. À noite tinha atividades pros adultos, que era assim um jantar, depois tinha dança e orquestra. Me lembro que durante o jantar tinha um quinteto, com senhores muito elegantes, e que tocavam música clássica. Eu saía da cabine escondida, e ficava atrás da cortina escutando por horas. Tinha um que tocava violoncelo, que virou meu cúmplice. Ele perguntava como é que eu estava nessa idade fora do quarto. Falei: "Olha, meus pais não sabem. Por favor, não fala, porque eu não consigo dormir, morro de medo de ficar no quarto. Mas meus pais vão ficar muito chateados se souberem que eu estou aqui." Toda noite eu fazia isso. Me fascinava ver os casais dançando.

CHEGADA À NOVA YORK

A gente ficou em Nova York. Até lembro de coisas muito curiosas que eu fiz na cidade. Com essa curiosidade minha, resolvi que eu, aos seis anos de idade, ia conhecer sozinha Nova York pra me localizar. Sumi o dia inteiro. Isso deixou meus pais enlouquecidos. Tinha bombeiro, polícia, todo mundo me procurando. Na Itália tinha essa coisa do racionamento, nos Estados Unidos era absolutamente ao contrário. E eu, no meu sumiço do bairro onde a gente morava, ia de casa em casa, e contava uma história de que não tinha comida na minha casa. As pessoas ficavam extremamente penalizadas. No fim do dia, cheguei com dois sacos de comida, de biscoito, e de queijos, tudo. Quando eu cheguei, meus pais falaram: "De onde é essa comida?" Falei: "Uai, eu pedi, não tem racionamento? Tô pedindo comida pra não faltar na nossa casa." Meu pai queria morrer.

APRENDENDO INGLÊS

Peguei logo o inglês nos Estados Unidos. Minha mãe não pegou tão rápido. Eles falavam outras línguas, mas não o inglês. Eu ia traduzindo coisas pra minha mãe. Ela tinha uma mania de comer cenoura. E naquele dia não tinha. Então eu fiz a mesma coisa. Bati de porta em porta pra achar carrots, ou seja, cenoura, que ela queria carota. Ela falou: "Como é que você conseguiu?" Eu falei: "Fui pedir." E ela queria morrer.

AMIGA EM NOVA YORK

Eu ficava entre Nova York e o estado do Texas. Às vezes ficava os três meses de férias no Texas e depois voltava pra Nova York. Da escola eu me lembro de alguns colegas que foram marcantes, principalmente de outras etnias, que não americano, que não europeu. Tinha uma amiga minha japonesa que não era bem vista nos Estados Unidos, e que eu sentia essa dificuldade. Por causa da guerra, que isso foi logo em seguida, e fiquei muito amiga, comecei a frequentar a casa dela. Minha mãe fazia comida judaica e convidava ela, e eu aprendi a saber o que era cultura japonesa. Era uma coisa que naquela época não estava na moda como hoje. Eu ficava muito com essa menina e isso é uma coisa que me marca muito, porque ela me ensinou muito uma coisa. Me ensinou muito uma coisa de estética, uma coisa de humildade, que ela tinha uma enorme dificuldade de se relacionar. Ninguém queria se relacionar com ela e criança é cruel quando quer ser. Ela me ensinava muito essa coisa de paciência, a coisa do origami, que ela tinha uma habilidade. Era totalmente ao contrário de mim, que eu era capeta, e ela era completamente o contrário, educadíssima. A gente até pouco tempo atrás mantinha contato. Hoje eu não sei onde ela está.

EDUCAÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS

Todo o modo de vida americano é completamente diferente do modo de vida europeu e brasileiro. A escola era o dia inteiro. Não tem, como aqui, meio período de escola. Eu gostava muito, praticava vários esportes. Depois de Nova York, que nós fomos pro Texas e Novo México, entrei na fase musical da minha vida. Aprendi a tocar violino com um professor que era europeu, no Novo México. E esportes. No Novo México tinha crianças mexicanas, tinha criança japonesa, tinha criança americana. Quer dizer, era uma mistura incrível. E me lembro dos hábitos. Uma coisa que o americano tem de bom é que você tem que se virar sozinho. Tem que ir pra escola sozinho, tem que fazer sua lição sozinho porque os pais trabalham.

LOJA DE CONFECÇÕES DA MÃE

Minha mãe sempre foi uma pessoa, a nível estético, incrível. Ela conheceu uma americana que tinha morado na Europa e que queria montar um negócio. E minha mãe era superativa, superagitada. Ela percebeu que a gente estava na escola, meu pai trabalhando e queria fazer algo. Ela não teve curso superior por causa dos eventos da vida, mas tinha um talento nato. Muito de comerciante e um lado também estético. Ela e essa americana montaram uma loja. A mão de obra era muito fácil, porque tinha esse lado da imigração, os mexicanos que queriam ir pros Estados Unidos. Eles tinham um talento até nato pra essa coisa de costura. Me lembro da loja, era mais um ateliê, e até uma coisa adiantada pra época. Era moda feminina, para mulheres 25, 30, 35 anos. Os produtos eram expostos de uma maneira muito elegante, a própria loja era muito clean, naquela época nem sei se existia essa palavra. Tinha pouca coisa, porque americano gosta de juntar muita coisa, você tem que fuçar. De uns anos pra cá que começou essa coisa de setorizar. Mesmo assim é uma abundância, como tudo nos Estados Unidos.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Minha mãe já havia estado no Brasil para visitar uma irmã e dois irmãos. E ela tinha uma saúde muito frágil, a razão pelo qual nós viemos pro Brasil. O estado de saúde da minha mãe piorou muito. Meu pai também já tinha tido problemas de saúde e o grande medo dela era eu e meu irmão ficarmos, entre aspas, sem uma família. Ela se sentia muito segura que a gente estivesse aqui, com os irmãos. Nós chegamos dia quatro de janeiro de 1961 e minha mãe faleceu dia 31 de julho de 1961.

VIAGEM DE NAVIO

Nós saímos do porto de Nova York, paramos em algumas ilhas no caminho. Foram 20 e tantos dias pra chegar. Aportamos primeiro no Rio de Janeiro. Fiquei absolutamente deslumbrada. Minha mãe tinha me descrito por fotografia, depois meu pai trouxe toda uma leitura que tinha sobre a história do Brasil. Daí o navio ia ficar atracado três dias no Rio. Era impressionante a beleza da cidade e com uma cultura completamente diferente. A primeira visão na chegada foi do pessoal da família para nos buscar, ficar com a gente. Os homens todos estavam de chapéu Panamá, ternos de linho e as mulheres chiquérrimas. E uma coisa que me marcou muito foi a cor do Brasil, a luz, o verde, as areias, a cor das pessoas. Eu não tive nenhuma dificuldade de me comunicar porque eu tinha italiano e falava perfeitamente espanhol. Tinha palavras que, óbvio, eu não entendia, mas não era difícil de assimilar. Do Rio fomos pra Santos. E lá foi uma coisa que eu não entendia. Eu perguntava pro meu pai: "Pai, como que o Rio de Janeiro que é tão bonito, e aqui é onde nós vamos morar?" Aquilo eram as docas, já era lugar de prostituição, já era uma barra pesada! Enquanto o Rio de Janeiro era uma visão deslumbrante.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE SÃO PAULO

Chegamos em Santos, entramos no carro para a cidade de São Paulo. Pegando a serra, achei deslumbrante de novo. A paisagem da estrada antiga, não tinha a Imigrantes, nada disso, e aí chegamos em São Paulo. Também foi algo que me chocou. Eu só via tudo cinza. Naquela época que eu cheguei tinha até uma música que chamava "São Paulo da Garoa", porque só garoava. Era dia após dia de garoa bem fininha, o tempo inteiro, e sempre cinza. TRABALHO DO PAI EM SÃO PAULO Meus tios fizeram uma sociedade, tinham uma confecção. Meu pai, como era mais técnico, por causa da formação dele, fez uma fábrica de panos feitos com um tipo de máquina alemã. A máquina faz nylon e jérsei em grande produção. Ele montou essa fábrica e que até hoje, só mudou de local, mas existe no Bom Retiro.

EDUCAÇÃO NO BRASIL

Fui imediatamente para a Escola Americana, que era o Graded School. Hoje é onde está a União Cultural Brasil-Estados Unidos, na Coronel Oscar Porto. Depois mudou para o Morumbi. Era como se eu estivesse indo pra outro país, outro estado. Ali, 30 anos atrás não tinha nada. Não tinha shopping, não tinha nada. O ônibus passava na minha casa 20 pras seis da manhã, pra poder chegar no colégio um pouco antes das oito. Meus pais, na verdade, até queriam que eu fosse para uma escola brasileira. Mas não era válida nenhuma documentação americana naquela época, então eu perderia um ano de colégio, voltaria pra trás pra fazer toda uma readaptação. E também foi uma fase difícil, porque quando começaram as aulas eu já tinha perdido minha mãe. Então, continuei na escola americana, que por sinal era, tinha uma excelente qualidade.

EDUCAÇÃO – ENSINO SUPERIOR

Fiz Artes Plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado, não a de hoje. Era uma fundação que dona Annie Álvares Penteado e o marido deixaram para as artes. Mudou completamente. Me formei lá e dava aula pra criança. Tenho grande paixão com criança e tenho grande prazer de estar com elas. Depois parei, casei, tive uas filhas, parei de dar aula. Mas sabia que eu queria fazer algo ligado à criança, mas não dar aula. Foi aí que comecei o projeto Giovanna Baby, pra fazer roupa e um conceito pra criança.

CASAMENTO

Conheci meu marido, foi até engraçada a história, numa sinagoga, num dia de Yom Kippur, o Dia do Perdão. Saí de uma das rezas, estava em jejum, porque você jejua 24 horas. E eu havia sido apresentada pro irmão dele. Estava num intervalo de uma das rezas, saímos e estava um calor infernal, era em setembro. Ele virou pra mim e falou assim: "Você gostaria de ir ao cinema?" Falei: "Yom Kippur?" "Vamos ao cinema." Eu falei: "Bom, vou perguntar ao meu pai." Aí falei: "Pai, posso ir ao cinema?" "Minha filha, você está ficando louca?" Eu insisti: "Deixa, nunca fiz isso em Yom Kippur." Lá fomos assistir o filme São Paulo S/A, do Person, 30 anos atrás. Saímos do cinema, tinha horário, era coisa bem rígida. A partir daí, entre noivado e casamento, foram nove meses. Casei com 18 anos. Meu marido nessa época era arquiteto de formação, pela FAU-USP. Eles tinham um escritório, ele dava aulas de história da arte. Era deslumbrante a maneira que ele dava aula. Fazia também cenografia, foi a época do teatro de Arena. Também fizeram várias cenografias no Teatro Municipal. Exatamente um ano depois que eu casei tive minha primeira filha, a Helen. E 11 meses depois veio a segunda filha, Karen. Aí decidi parar para cuidar das minhas filhas. Era uma coisa importante, porque eu havia perdido minha mãe muito cedo e queria estar próxima delas. E eu tinha uma coisa na minha cabeça. Eu achava que eu também ia morrer aos 33 anos. Conversei com outras pessoas que também perderam a mãe muito cedo e elas tinham a mesma impressão.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – GIOVANNA BABY

Foi com as minhas filhas que começou isso. Eu procurava roupa pra elas e São Paulo tinha basicamente duas lojas. Uma na cidade, que era muito tradicional, na Xavier de Toledo, e uma na Rua Augusta. Eram as duas únicas mais direcionadas pra criança. E tinha um pessoal em casa que fazia enxovais, mas eu não gostava de nada. Não achava que tinha nada que tinha a ver com elas e comecei a achar gente que fazia as coisas pra mim. Nesse ínterim também aprendi a cortar e costurar. Eu saía com elas e as pessoas me paravam na rua: "Mas que roupa maravilhosa. De onde é essa roupa?" Falei que era eu que fazia. "Ah, tá bom." "Não, mas é verdade." "Então faz um pra mim." "Mas eu não posso fazer um pra você." E era com tricô, com coisas planas, fazia brinquedinhos. Mas ainda não estava na minha cabeça, mas acho que ainda não estava amadurecido o que eu queria fazer.

A PRIMEIRA LOJA

Quando fiquei grávida, seis anos depois, da Mariana, ao longo da gravidez que eu percebia. Primeiro, eu não tinha personalidade para ficar em casa. Segundo, na minha cabeça, eu queria fazer roupa de criança, mas não meramente roupa. Queria fazer todo um conceito. A Mariana nasceu em junho, e em dezembro inaugurei a primeira loja. Quer dizer, fiz primeiro uma oficina em cima. Era pequena, no prédio da Alameda Franca, que é perto da Rua Augusta. Tinha uma mesa, uma contramestre, sem nenhuma experiência empresarial. Enquanto isso, aluguei a loja de baixo, fui reformando. Achei um arquiteto francês, porque eu não queria algo comum. Queria uma coisa lúdica, uma coisa onde as crianças pudessem mexer, seria na verdade um cenário. Dei o sinal e o arquiteto, fugiu. Fui descobrir que ele era procurado pelo Interpol, não sei o que ele tinha feito. Em resumo, atrasou um pouco. Enquanto isso, fazia as roupas em cima e nunca que eu consegui inaugurar a loja, porque as pessoas iam subindo, eu ia vendendo as roupas e nunca conseguia juntar roupas pra abrir a loja. E foi assim que começou a Giovanna. A Mariana era muito pequenininha, bebê, e ela ia aonde eu fosse. Ela dormia lá, porque as outras já estavam na escola. Me lembro que um dia a gente esqueceu ela no meio dos panos. Foi traumático, nós fomos puxar os panos e aí puxa um bebê junto. No dia 4 de dezembro de 1974, nasceu a loja e o conceito Giovanna Baby. Lembro até os comentários: "Isso não vai durar seis meses." As coisas mais indelicadas. É uma história de luta e transpiração que foi formar e fazer Giovanna Baby ou Giovanna Fábrica, o que quer que seja. Foi uma luta que não me arrependo em nenhum momento. Se tivesse que começar tudo de novo, começaria.

CRESCIMENTO DA MARCA

Na época, foi uma coisa completamente nova. As vitrines eram feitas como histórias. Tinha todo aquele passado que eu tinha do meu marido, que era teatro, então eram cenários. Já tinha os brinquedos, já tinha boneca. Um ano e pouco depois que comecei a desenvolver, eu sabia que gostaria de ter a lavanda Giovanna Baby. Saiu a lavanda perto do Natal. Alguns anos depois, viemos parar na Barra Funda. Eu sabia que queria Barra Funda ou Bom Retiro. Me lembro que fiquei procurando e não era uma coisa fácil. Quando achei o prédio, parecia não só a terceira guerra mundial, mas a quarta. Estava em absoluta ruína, mas eu gostava muito do espaço. Naquela época, foi uma coisa que chocou todo mundo. Chamava muito a atenção, porque foi inteiro pintado de cor-de-rosa. Era um prédio de três andares, na Avenida Rudge, onde parava ônibus, inteiro em tons de rosa, e chamando Giovanna Fábrica. Depois começou a se ampliar as lojas, quer dizer, dessa loja da Alameda Franca. Aí começou a história de shopping center em São Paulo. Teve o Eldorado, Morumbi, Shopping Center Morumbi, Iguatemi, e começou também a história de franquias. Houve um período em que a gente foi pro exterior, foi muito gratificante. Parece que tudo o que vem de fora é bom e invertemos um pouco o processo. Fomos pros Estados Unidos.

PRODUTOS E PERSONAGENS

Cada personagem um tem um nome e pra nós toma vida. Às vezes fica dois, três, anos até sair, porque é manual. Chamam de “industrianato”. Nós temos um mascote, que eu tenho imenso carinho, e que chama Gugu. Foi um pouco uma homenagem ao meu sogro que, apesar de a gente estar num país bastante machista, sempre me deu o maior apoio. Essa foi a minha forma de homenageá-lo, com o que ele mexia, que eram os fios. O Gugu foi feito inteiro de fio, e é o nosso mascote. Todos os outros personagens, que são inúmeros, são feitos manualmente. Cada um tem um nome, conta uma história, isso passa para as estampas. No início, tinha uma organização muito pequena. À medida que a coisa foi crescendo, expandindo pra outras lojas, montamos uma equipe de criação. Na fábrica não tem: "Eu fiz, ela fez", é "nós fizemos." Quer dizer, esse é o espírito que a gente gosta de manter. A gente desenvolve desde o tecido. Sempre tive uma preocupação muito grande com o conforto da criança, com a movimentação e com a própria identificação da criança em relação à roupa. E criança mesmo sem saber ler ou escrever identifica um objeto que é da Giovanna Baby. Isso pra nós sempre foi muito importante. É todo um respeito. É um respeito que você tem primeiro com o seu cliente, primeiro com a criança, e com você mesmo. Mesma coisa que você dizer: temos aqui uma linda casa. A sala é maravilhosa. Você saiu da sala, o resto está em ruína. Sinto a mesma coisa em relação ao produto. Acho que tem que ter uma preocupação, uma pesquisa constante. Não é só uma coisa pra ser jogado fora, descartado. É uma coisa pra você guardar e ter prazer de receber.

GIOVANNA BABY NO NORDESTE

O nordeste tem uma identificação muito forte com a Giovanna. E tem uma outra coisa. Nas coleções da Giovanna, nós sabemos perfeitamente que aqui não tem inverno. Muito menos no Nordeste. Sempre fizemos coleções respeitando não só o clima, mas também essa coisa de cor, que é muito rica na gente. O Brasil nisso é impecável. Seja pela vegetação, seja pela cor do céu. É uma coisa natural e a gente usa muita cor. Enfim, e os nordestinos têm uma identificação não só com essa coisa da cor, mas com o produto em si, principalmente com a lavanda. Todos os pediatras do Nordeste recomendam a lavanda Giovanna Baby. Então, eu até gostaria de passar um período lá pra desenvolver matérias-primas.

RELAÇÃO DAS CRIANÇAS COM A MARCA

Tem criança que se dirige aos personagens e começa a conversar, se identifica, pergunta o nome, começa a contar uma história, já começa num gestual, a fazer até um teatro com a criança, com a personagem. Criança assim, essa coisa, quer dizer, interativo com a gente já é há 20 anos, ou seja, agora tá na moda, né, essa coisa "interatividade." Eu recebo correspondência de criança. Tanto é que a se só puser Giovanna Baby no envelope, de onde estiver, chega. Não precisa nem por CEP, nem endereço. Então a gente recebe comentários do Brasil inteiro. Duranre um período a gente até abriu a fábrica para visitação, porque a criança não tem a mínima ideia do processo. Almoçavam comigo, faziam perguntas. As sugestões são importantíssimas, os desenhos das crianças que a gente usa em camiseta. E sugeriam, criticavam: "Falta isso pra ser realmente masculino." Ou a menina dizendo que gostaria de mais saiote. O próprio cheiro, que eles pedem pra colocar num brinquedo. A gente pergunta antes se gostaria que fosse perfumada, 95% é perfumado. Sai da loja com a lavanda Giovanna Baby. Tem uma menina que sai com o pai, que era separado, e o pai, desligado, e foi entrando no shopping, levando pra uma loja. A menina nem ia: "Aqui eu não entro." "Mas minha filha, tem coisas ótimas." "Aqui eu não entro." "Mas onde você quer ir, minha filha?" "Quero ir na Giovanna." "Mas qual é a diferença?" "Eu só quero presente se for da Giovanna, mesmo que você não compre, quero ir na Giovanna." Tem uma ligação muito forte. Tem pedidos de camadas menos favorecidas, que pedem roupa e conhecem profundamente a marca. Já tive caso de funcionárias do shopping que o sonho da mãe era ter uma lavanda, e a criança veio perguntar se esse valor dava, que ela queria dar pra mãe e ela mesma usar a lavanda. Então, tem histórias muito gratificantes. Eles acham que meu nome é Giovanna Baby. Eles acham que eu sou a Baby. Aí eu explico pra eles que não, pra separar, porque eu viro uma entidade que se funde com a coisa da loja, como uma personagem.

ENTRADA NO MERCADO AMERICANO

A Bergdorf é uma loja na 5ª Avenida de Nova York. São sete andares e não é um department store, é o que eles chamam nos Estados Unidos de speciality stores. É muito seleto o que tem lá dentro. Tem todas as grandes marcas mundiais, tipo Chanel, Saint Laurent, as revelações do mundo inteiro. E eles não tinham criança lá dentro, porque nunca tinham achado nada que tivesse a ver com a imagem da loja. Um pessoal esteve aqui no Brasil, pediu um contato comigo, e eu não estava pronta, isso foi em 1984. Em 1985 voltamos a conversar, pedi que me dessem um ano pra poder entrar com muita seriedade no mercado americano. Em abril de 1986 inauguramos um espaço de 300 metros com o conceito Giovanna Baby Brasil, com as cores, arquitetura, logotipo, sacola. Nos deram seis vitrines com placa, tudo. A inauguração em si foi emocionante, teve uma aceitação maravilhosa por parte do público americano. A partir daí, estendemos. Tivemos lojas em 21 cidades americanas, fora Nova York.

SAÍDA DO MERCADO INTERNACIONAL

Nós moramos num país em que é muito difícil fazer um planejamento. Meu ramo exige uma preparação de um ano, pelo menos, pra eu poder lançar todo um conceito, uma coleção. Requer um capital de giro gigantesco. Você tem que estar muitos meses adiantado, investindo no seu estoque. Com todos esses planos, inflação, um dia é assim, outro dia congela, no terceiro dia tem ágio. Era muito difícil fazer um planejamento que te permitisse sobreviver sem entrar num banco. O Brasil nunca teve nada a longo prazo pra investimento. Tudo aqui era curtíssimo. Então, quando comecei a ver Plano Sarney, que vieram os americanos pra cá, pra pedir uma coleção, e não se sabia nem quanto valia o dólar, nem quanto valia a moeda, e nem que moeda era, e nem como era. Começou a sumir matéria-prima e eu tinha compromissos tanto morais como profissionais com eles, começou a me dar desespero. Subsidiei, ao longo de todo esse tempo, que estava nos Estados Unidos minha roupa, só que isso tem um limite. Eu não sou estatal e nem tenho um enorme capital de giro disponível. Comecei a perceber que também tinha muita coisa a ser feito no Brasil, porque desordenaram absolutamente tudo. Paramos de fazer franquia, tivemos que reestruturar. Também amadureci, entendi que não poderia ser meramente uma empresa familiar. Todo esse pensamento foi um pouco antes de entrar o Collor. Comecei a ficar um pouco preocupada em qual seria a próximo moeda, a gente não sabia ainda. Fui até Nova York, convoquei uma reunião, expus todos os fatos muito cristalinamente, pedi desculpas. Eu não sentia que tinha possibilidade de dar continuidade ao trabalho sério. Eles foram maravilhosos comigo, me ofereceram dinheiro adiantado, não queriam parar. Mas eu expliquei que seria muito difícil continuar. Isso foi uma sorte, porque foi um pouco antes do Collor tomar posse. Tomaram todo o dinheiro, ficou todo mundo sem nada, com uma mão na frente outra atrás.

GOVERNO COLLOR

Aconteceu um episódio que pra mim foi muito gratificante. Com toda essa dificuldade, tanto financeira como de matérias, eu fiz uma coleção que pra mim foi memorável, como lição de vida, que foi a Coleção Recessão. Foi um dos piores Natais da história brasileira de comércio, estava um desespero. Eu juntei absolutamente tudo que eu tinha na minha fábrica, porque ninguém tinha dinheiro no bolso. Meus fornecedores baratearam custo. Falei que não ia ter uma sacola, não ia ser caro. Foi a única loja que tinha fila na porta, e foi tudo reciclado. Ou seja, não comprei nada. Resgatei os brinquedos, usando o que eu tinha em casa. Isso foi uma lição de vida, em todos os sentidos. A solidariedade dos funcionários, porque assim consegui pagar 13º, consegui pagar meus compromissos. As cartas que eu recebia do público, agradecendo, que graças a essa coleção todos os filhos puderam ganhar presentes e roupa. Era uma festa. Foi como se tivesse tido uma guerra e voltou um pouco essa imagem da infância, quando eu ia pedir a comida. Me emocionei muito, até foi capa do Estado, matéria de muitos jornais.

FAMÍLIA

Nunca, em nenhum momento, pedi isso [que as filhas seguissem a mesma profissão]. Foi a vontade delas. Tanto é que eu não permiti a entrada delas na fábrica durante um longo período. A minha filha mais velha com 17 anos resolveu fazer uma aventura da vida dela. Foi sozinha, primeiro pra Suíça, da Suíça foi pra França, sem saber o que ela ia fazer depois de formada. Acabou entrando em um estúdio de moda em Paris. Fez o curso sozinha, pelo própria talento e força de vontade, que é dificílimo na França um estrangeiro ter boa colocação. Ela se apresentou, sem nenhum currículo de família, num grande estilista francês que é o Thierry Mugler. Começou a trabalhar no departamento de imprensa Mugler internacional, ou seja, montando os desfiles. Ela escreve divinamente e fazia todas as pastas de imprensa, recebia todas as personalidades. Até hoje tem um vínculo muito forte com ele. Voltou e veio trabalhar aqui. A minha filha do meio a mesma coisa, estudou fora, voltou, ela tem paixão por computador. Ela é viciada, toda essa coisa de computação gráfica, então ela pendeu pra esse lado. E a Mariana, que é a mais comunicativa, também estudou fora e agora quer entrar na fábrica. SONHOS Meu sonho é ver todas as centenas de milhões de brasileiras vestidas com roupas dignas. Adoraria fazer uma linha popular, tenho uma grande admiração e respeito pela classe D, E, F. Gostaria de ver toda criança brasileira com um teto, com uma escola, com saúde e vestido. Sem nenhuma demagogia, é muito importante isso pra mim. Talvez eu não veja isso, mas acho que está melhorando.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA

Infelizmente, o Brasil resgata muito pouco da sua história. Mas acho isso importantíssimo, acho importante resgatar isso, e trazer pras pessoas terem conhecimento. Essas histórias são muito ricas, tem uma geração aí que tem que saber, deve ter coisa tão impressionante, esse trabalho é louvável! Não pode parar. A gente poderia sentar dias e dias e contar histórias e saber histórias. Acho que é uma memória importante, vai ser útil à nova geração, essa geração que tá lutando pelo novo Brasil que a gente espera.

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