Busca avançada



Criar

História

Uma biblioteca no sertão

História de: Geraldo Moreira Prado (Mestre Alagoinha)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/09/2009

Sinopse

Geraldo Prado formou-se no primário no povoado de São José do Paiaiá, na Bahia. Depois de sua formatura continuou trabalhando na roça. A grande mudança de sua vida aconteceu quando ele se mudou para São Paulo, onde trabalhou e estudou. Militou na política operária, e por tal atividade, foi preso algumas vezes. No final da década de 1960 viveu o movimento da Tropicália na Bahia. Quando voltou para São Paulo, formou-se em História, na USP.Embora sua vivência política e cultural tenha se dado em São Paulo, foi no sertão, em São José do Paiaiá, que Geraldo fez sua paixão pelos livros tornar-se palpável, com a criação de sua própria biblioteca. 

Tags

História completa

Quando eu concluí o primário já tinha 13 anos. Foi lá no povoado de São José do Paiaiá; eu andava três quilômetros a pé para chegar lá. No dia da formatura, declamei uma poesia do Olavo Bilac, “Oração à bandeira”. E outra que eu gostava era “Essa negra fulô”, do Jorge de Lima. Estava presente o delegado de ensino, que era analfabeto. Era analfabeto e delegado de ensino. Chamava-se Joaquim e tinha apelido de Joaquim de Quiabinho. Ganhei dele, de presente, um cacho de bananas. E ganhei um livro também, o primeiro livro que ganhei na vida, À sombra do arco-íris, do Malba Tahan. Uma série de fragmentos de histórias árabes. Eu achava que ele era um árabe, só depois descobri que era brasileiro, se chamava Júlio César e era professor do Colégio Pedro II, no Rio.

Mas depois disso, voltei pra roça. Na verdade, com 7, 8 anos, estava plantando, tangendo boi, apartando vaca, tirando leite. Levantava às cinco da manhã. À tarde botava vacas e cabras no chiqueiro. Carregava os cereais da roça pra casa, pegava os bois pra encangar no carro de boi – o feijão era carregado nele. Todos trabalhavam; éramos cinco: Manuel, João, José, Rita e eu. A Rita era poupada, não gostava de trabalhar na roça. Fez o curso primário na escola do povoado, depois foi professora primária. Ela tinha uma escolinha de alfabetização. Eu e vários colegas da região fomos alfabetizados pela minha irmã. Só depois é que fui para a escola do Paiaiá.

Meus irmãos mais velhos não gostavam de escola; meu pai também nunca gostou de escola, era analfabeto. Quem mais gostava de estudar era eu. Minha irmã era bastante rígida, usava palmatória, régua. A tabuada a gente estudava cantando, e somava mentalmente assim: “dois e um, três; dois e dois, quatro”. Mas cantando, com ritmo. Era mais ou menos o rap de hoje: “dois e um, três; dois e dois, quatro”; e vai... “dois e seis, oito; dois e sete, nove. Noves fora, nada!” E aí tinha como se fosse um coro, tinha uns vinte cantando. Vinha a lição, tinha a sabatina, quem errava levava bolo de quem acertava. Com a palmatória. Cheguei a dar doze bolos numa menina que foi fazer a sabatina comigo. Criança não tem tanta força, mas quando era a professora, no caso, a minha irmã, que pegava pra dar bolo... aquilo estalava! A palmatória é de madeira, um cabo e um furo no meio. Aquele furo puxa o ar da mão, e dói.

Eu me lembro que minha tia hospedava as professoras que vinham de fora. Veio uma professora recém-formada, de Juazeiro, lecionar lá na escolinha. Ela era novinha, 19, 20 anos, Maria Ivete Dias Ferreira, mãe da cantora Ivete Sangalo. Ela me deu um livro, o segundo livro que tive. Não foi minha professora, mas notou que eu gostava de ler e me deu um livro que foi minha paixão. Do Olavo Bilac, Através do Brasil. Eu lia, parecia que estava viajando. Tenho esse livro até hoje.

E continuava trabalhando, ajudava minha tia Maria numa lojinha que ela tinha no Paiaiá. Esse foi meu primeiro emprego. Trabalhei em outra loja, como caixeiro. Depois, me levaram pra Salvador pra ver se me botavam no Convento dos Capuchinhos, mas não deu certo. Voltei pro Paiaiá. Com uns 15 anos, a tia Isaura decidiu abrir uma vendinha pra mim. Sou péssimo comerciante. O pessoal não pagava, quebrei. Havia o Instituto Universal Brasileiro. Resolvi fazer um curso de rádio por correspondência. Quando montei o rádio, sobraram peças. Tentei fazer o antigo ginásio, também por correspondência. Estudei um pouco, mas também não deu certo.

Aí aconteceu uma grande mudança. A Rita, minha irmã, se casou e foi para São Paulo. Decidi ir também. Meu cunhado era zelador de prédio na rua Santa Ifigênia, no centro, e fui trabalhar com ele de porteiro e faxineiro. Comecei a estudar. Isso era 1958, 1959, eu tinha 18, 19 anos. A viagem não foi fácil: doze dias num caminhão pau-de-arara. Era um caminhão Chevrolet, cabine e carroceria azuis. Vim com meu tio Quinha e o motorista, que era amigo nosso. Havia bancos de madeira, sem almofada. O caminhão parava, dormíamos em redes ou na esteira. Não tinha banho todos os dias. Tomei um banho em Vitória da Conquista, depois outro em Governador Valadares, uns quatro dias sem banho. E muita chuva, muita lama. Só tinha asfalto do Rio pra São Paulo. Na Bahia e em Minas era tudo barro.

Fiquei até 21 anos como faxineiro. Não tinha carteira assinada e detestava fazer faxina. À noite, era porteiro. E à tarde fui fazer cursos: curso de auxiliar de escritório, por exemplo. O professor andava de cadeira de rodas, e dava curso de tudo: arte e culinária, auxiliar de escritório, inglês, francês, alemão, latim.

Arrumei emprego em uma companhia de seguros, minha primeira carteira assinada. Comecei a comprar livros. Passei a frequentar livrarias e sebos. O primeiro livro que comprei foi uma gramática de latim, do Napoleão Mendes de Almeida, nem imagino por quê. Comecei a fazer o curso de Madureza Ginasial.

E teve namoro. Namorei a Nairzinha mais por interesse, porque eu gostava muito de cinema. A avó dela trabalhava no Cinema Rio Branco e gostava muito de mim. Aí ela deu uma permanente pra gente entrar nos cinemas da rede. E ia com a Nairzinha aos cinemas, assistia a muitos filmes. E namorava também.

Meu sonho era ser médico. Eu estava com 20 anos, não tinha nem o ginásio.

O tempo passava, eu estudava, consegui fazer o colegial. E falei: “Vou fazer vestibular pra Medicina”. Trabalhava na fábrica, em Osasco, levantava às quatro pra pegar o ônibus no viaduto Maria Paula. E ia até quatro da tarde. Depois ia estudar. Era 1964. Inscrevi-me no vestibular de Medicina da USP, não passei.

Militava na política operária. Ia todos os sábados à biblioteca Mário de Andrade discutir e ler política. Depois fui do Partido Socialista. Fiz até um curso de chinês. Não passei na medicina, mas prestei vestibular em Línguas Orientais na USP: português e chinês. Eram trinta vagas e só tinha eu de candidato, entrei no primeiro e no último lugar. Só que a aula de chinês era em inglês, na rua Maria Antônia. Não sabia inglês. Ou seja, não aprendi inglês, muito menos chinês.

Participava de tudo, política estudantil, operária, sindical, lutando contra a direita. Em 67 fui mandado embora da fábrica por questões políticas. Aí tentei e passei no vestibular pra História, na USP.

Essa participação política me levou a três prisões pequenas e uma dolorosa. Resolvi ficar na semiclandestinidade. Era 1966, 67. A primeira prisão foi em uma passeata. E em 1968, morava no Crusp – Conjunto Residencial da USP –, e vem o Congresso da UNE em Ibiúna. Mas não fui preso em Ibiúna... As lideranças do movimento estudantil (UNE e UEE) me levaram como um baiano acostumado a pegar no pesado, e ajudei a fazer a terraplenagem do local do encontro. Só isso. Assim foi a minha participação no Congresso da UNE.

Em 68 fui preso novamente, levado para a Casa de Detenção Tiradentes. Saí logo depois do Ano Novo e resolvi ir pra Bahia. A barra em Salvador era mais leve, Tropicália e tal. Fiquei lá 69 e 70, em 71 voltei. Em março de 72 fui preso pela Oban, a Operação Bandeirantes. Estava assistindo às aulas, a Oban bateu no prédio da História, na Cidade Universitária da USP, onde eu estudava, e mandou mostrar quem eu era, entraram aqueles caras com metralhadora até os dentes. Tentei escapar, me pegaram, me algemaram. Ficou um de cada lado, com metralhadora, dizendo que iam me jogar no rio Pinheiros. Rodaram umas duas horas, e me vendaram. Depois me botaram numa cela, fiquei uns três dias. No sábado à tarde me liberaram; eu chego ao portão estavam o Coronel Ustra e o Romeu Tuma. O Romeu deu dinheiro pra passagem, joguei pra trás: “Não pego dinheiro de torturador”. Mandou me recolher de novo, mas no dia seguinte me liberaram.

Terminei o curso de História. Morava na Vila Madalena. Nos domingos de tarde a gente ia estudar no cemitério, que era ao lado. E no final ainda dava para tomar umas cachacinhas. Apareceram umas aulas em Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, litoral sul de São Paulo. Fiquei lá uns três anos. Fui a um congresso em São Paulo, conheci o médico Sérgio Arouca, que me chamou para trabalhar no Rio de Janeiro. Claro que fui. E fiquei. Fiz mestrado em Desenvolvimento Agrícola, na Fundação Getúlio Vargas do Rio, depois morei em Brasília, trabalhando no CNPq, e em seguida fui morar em Recife. Conheci uma dinamarquesa, a Tine, em Olinda; ficamos casados nove anos. Nos casamos no Paiaiá, a família dela veio ao casamento.

Voltei com a Tine pro Rio, participei da criação do Museu de Astronomia e Ciências Afins – Mast, de lá fui para o Instituto Brasileiro de Informação em C&T – IBICT, que tinha um convênio com a UFRJ, e virei professor da pós-graduação em Ciência da Informação. Fiz meu doutorado, também em Ciências Sociais. Depois eu e a Tine nos separamos, mas somos amigos.

Já falei de muita coisa, mas agora quero mesmo é falar de livros, da minha paixão pelos livros, e pela biblioteca Maria das Neves Prado. A primeira vez que vi uma biblioteca foi em Salvador; depois vim conhecer aquele “monstro” que é a biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. Em Salvador era a biblioteca do Colégio Central da Bahia. Fui com o meu tio, que foi matricular o filho dele. Enquanto ele conversava na secretaria parei em frente à biblioteca. Foi um choque ver tantos livros juntos em um lugar só... Desde o meu primeiro emprego em São Paulo compro livros. Muitos. Era um problema sério quando tinha que mudar de cidade. Havia uns 20 mil livros em casa: embaixo da cama, em cima da mesa.

Em 2001, meu irmão tinha morrido no Paiaiá e fui visitar a família. Lá encontrei um sobrinho, José Arivaldo, com 16 anos. Ele tinha interesse em mexer com livros, havia me pedido alguns. Perguntei a ele: “E se a gente criasse uma biblioteca aqui?” “Ah, eu acho bom. Eu toparia.”

Aí tudo começou. Uma prima tinha uma garagem e me alugou por 50 reais. Chamei o pessoal da comunidade, expliquei o objetivo. Consegui o caminhão de um amigo de infância, o Zé do Bode. Ele passou no Rio, levou 12 mil livros na primeira leva. E meu sobrinho agitava, fazendo festa e bingo para arrecadar dinheiro. Mas tem um fato engraçado: na noite anterior à chegada dos livros, o Jornal Nacional deu a notícia de que os livros da biblioteca do Itamaraty, no Rio, tinham sido roubados. Uma senhora lá começou a dizer que os livros do Geraldo eram os livros roubados, que tinha que chamar a polícia. Muitas pessoas mais velhas acharam que eram roubados mesmo. Como um filho de lá ia juntar tantos livros?! A ideia é que quem sai de lá compra carro, apartamento, fazenda. Mas livros?!

Hoje há 100 mil livros no povoado. Ganhei de alunos, de professores amigos, de bibliotecárias, da PUC/RJ, UFRJ (faculdades de Economia, Educação, Medicina, Letras e o Colégio de Aplicação), Colégio D. Pedro II, Biblioteca Nacional, USP, UFBA, Ufal, e dos professores Antonio Candido de Mello e Souza, Walnice Nogueira Galvão, João José Reis, Francisco Foot Hardman, Paulo Décio de Arruda Mello, Aldo Barreto, a família do bibliófilo José Mindlin e muitos outros mais.

Na segunda leva foram 16 mil livros. A Itapemirim os levou. Na primeira leva eram somente clássicos: história, literatura, romances, sociologia. Depois, paradidáticos, didáticos e livros infantis. Comprei muita coisa de gibi porque a molecada adora. Acho que há uns 5 mil gibis.

E aí transformamos a biblioteca numa Oscip, tudo direitinho. O público aumentava, as escolas não tinham os livros atualizados. Alguns alunos, que tinham acabado de fazer o ensino médio, começaram a estudar ali, se preparando para o vestibular em Salvador e Aracaju. Hoje estão formados.

Mas via que o livro sozinho não tinha importância. Então começamos a trabalhar com leitura, depois com mediadores de leitura e capacitação de professores do ensino fundamental e médio das escolas rurais. E capacitamos 86 professores. E foi vindo mais apoio, resolvi comprar uma casa. Vi uma casa que estava à venda e tinha pertencido a um parente. Comprei-a por 2 mil reais, em 2004. Mas não cabia. Comprei a casa vizinha, mas continuou não cabendo. E resolvi fazer três andares atrás. Criei o Paiaiá Empire State! É o prédio mais alto do lugar – e ainda continua faltando espaço.

Continuo comprando e ganhando livros no Rio de Janeiro e estocando no meu apartamento e numa sala alugada em Botafogo. Deve ter mais de 15 mil volumes para serem transportados para a biblioteca, mas está faltando dinheiro. Dinheiro para pagar o transporte, dinheiro para fazer a adequação do espaço, dinheiro para pagar pessoal para fazer a limpeza, para fazer a catalogação no computador.

Já que estamos falando de grandezas, ela é, segundo a professora Walnice Galvão disse, no seu artigo “O tesouro no sertão”, a maior biblioteca comunitária do mundo instalada numa comunidade rural. E queremos que isso ajude a mudar algumas coisas: quem sai do Paiaiá vai ser trabalhador na construção civil, porteiro de prédio, motorista de ônibus, ou então, como lamentavelmente já aconteceu no passado e continua acontecendo nos dias atuais, entra na marginalidade social. Vamos criar um trabalho um pouco diferente, mais suave pra eles? Se saírem, trabalhar com certa dignidade, não ser desse jeito tão sofrido como é para o pessoal que vive aqui.

Aqui na Bahia, no povoado do Paiaiá, São José do Paiaiá, antiga Olhos d’Água do Paiaiá, quanta coisa se passou. Meu primeiro livro. Meu primeiro trabalho. Vaca, enxada, cacho de banana, arco-íris, escola, tabuada, mais livros, mais enxada. Até que um dia subi no pau-de-arara, fui tentar ganhar a vida em terras estranhas, e nelas vivo até os dias atuais.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+