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História

Uma dama de ferro

História de: Anna M Leal
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2019

Sinopse

Ela é conhecida como Anna Leal. Não confessa a idade a ninguém - e não é fácil dar um palpite nessa área. Anna é ativa, tem fala firme, olhos azuis que não despregam do interlocutor e muito bom humor. Teve uma vida difícil, por conta de filhos que perdeu. Esta é uma face da história. Na outra há a lembrança de uma avó que pendurava a cachorrinha para secar no varal, um caso de amor de toda uma vida, iniciado quando ela tinha 8 anos de idade, bailes, viagens. Anna perdeu cinco crianças mas teve uma que lhe dá enorme orgulho. E dois netos que ama profundamente. Há 30 anos perdeu seu marido e desde então vive sozinha, como quer. Trabalha como consultora de imóveis, porque gosta de pessoas e de poder fazer seus horários. É tão forte que na família seu apelido é Dama de Ferro, como a primeira ministra britânica Margareth Tatcher. “Sempre chorei na cama, que é lugar quente e ninguém vê”, diz.

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História completa

Sou Anna Maria Casollaro da Silva Leal, paulistana, nascida no dia 19 de março. Vivi toda a minha infância, e até depois de casar, no bairro da Aclimação, na Rua Batista do Carmo 61. A casa era um sobrado que tinha quatro degraus de granito para um alpendre com portas de vidro, que era uma salinha de inverno. Na parte da frente tinha o hall, duas salas do lado esquerdo, com lareira e, do lado direito, uma escada de mármore de Carrara cor de rosa, que ia para a parte de cima. Em sequência tinha uma copa, cozinha. E na parte de cima, três dormitórios e os banheiros. Era uma casa boa. Vivi, nesta casa, os primeiros anos de casada, porque como eu casei nova e não podia sair de perto do papai e da mamãe, o meu pai construiu, depois da cozinha, uma sala, uma cozinha, um banheiro, uma sala de visita e um dormitório. Tudo preparado para que quando eu saísse aquilo se transformasse em um salão de festa para reuniões de família.


Meus pais eram descendentes de italianos e viveram juntos 54 anos. Eu sou a filha do meio. Tenho uma irmã mais nova e um irmão mais velho. Minha avó Conceição, mãe do meu pai, com quem eu convivi mais, era uma mulher maravilhosa. Imagine que ela tinha uma cachorrinha chamada Branquinha. Dava banho na cachorrinha, embrulhava numa toalha e pendurava no varal!


Fui aluna do Colégio São José desde os sete anos de idade. Entrei no primeiro ano e saí de lá professora, com 17 anos. Sempre quis ser professora porque sempre gostei de mandar. Eu era uma menina estudiosa. Sempre fui. Só que casei cedo. Conheci meu marido, Wilson, quando tinha 8 anos de idade, porque ele era vizinho, amigo do meu irmão. Comecei a namorar com 15 anos, mas era ciumenta e o namoro acabou depois de três meses. Acontece que eu sempre gostei dele, aquilo tinha desandado, e eu precisava dar um jeito. Então marquei encontro com um rapaz perto da casa dele - e avisei meu irmão. Ele viu e com certeza não gostou, porque não passou nem uma semana, a minha sogra telefonou para a minha mãe para me convidar para ir ao casamento de uma sobrinha. Nesse casamento nós voltamos a namorar.  Ele terminou o namoro com uma menina que eu conhecia, disse pra eu terminar meu caso, e pronto. Depois de um ano e meio nós casamos. Eu não tinha 20 anos. Ele tinha 21 anos.


O casamento foi tudo o que a gente queria de bom. Fizemos uma festa. E viajamos para o Rio de Janeiro. Voltei grávida. E foi uma festa. Eu era a primeira filha a casar. Do lado do meu marido, ele era o primeiro filho. As famílias eram ligadas porque eram vizinhas. Todo mundo se gostava. Então foi lindo, até o dia que nasceu esta criança. Já na maternidade teve algum problema. Se notava, mas não se sabia. Quando ele tinha dois anos e meio, mais ou menos, eu fiquei grávida novamente e tinha o primeiro filho doente. Mas estava na casa da minha mãe e todo mundo colaborava. Uma manhã, eu estava grávida de sete meses, fui até o açougue a uma quadra de casa, tropecei e caí de barriga no chão. Final da história: este bebê nasceu morto, dia 6 de setembro e o mais velho morreu dia 8 de dezembro do mesmo ano. Eu fiquei de setembro a dezembro sem meus dois primeiros filhos. Eu tinha 23 anos e não queria mais ficar grávida. Aí, meu marido disse: “Se você não quiser engravidar mais, eu vou comprar um revólver, matar você e me matar”. Tragédia de família italiana. Mas ele só queria me pressionar. E afinal, eu fiquei grávida outra vez.


Mudamos de casa, para que esta criança nascesse num lugar diferente. E nasceu o Paulinho, um menino lindo, com três quilos e seiscentos. Na Pró Matre as enfermeiras botaram ele bem no bercinho da frente, perto do vidro. A minha sogra, bonitinha, ficava o dia inteiro lá em pé: “Esse é o meu neto!”. Ela falava para todo mundo, porque ele continuou sendo o primeiro neto. E é até hoje a alegria da nossa vida. Paulinho foi mimado por mim, pela minha irmã, pela minha mãe, pela minha sogra, pelo meu pai, pelo meu sogro, por toda a família. E hoje é mimado pela mulher dele.


Depois perdi uma menina, Ana Paula, com quase 3 anos, dizem que por causa de sarampo. Mas havia algum problema de cromossomas, porque depois ainda tive mais dois abortos. No fim das contas, tive 6 gestações para conseguir ter um filho. Mas eu não tenho mágoas da vida. Eu tenho tristeza às vezes do que poderia ter sido e não foi. Isso é normal, porque sou um ser humano. Mas eu não sou uma pessoa que chora nos cantos, não sou! Sempre chorei na cama, que é lugar quente e ninguém vê. Eu fui apelidada de Margareth Thatcher pela família. Porque eu passei tudo isso. Dama de Ferro. Por causa da minha atitude na vida.


Depois que aconteceram as mortes das crianças, eu voltei a lecionar, eu tinha que fazer alguma coisa, senão ia enlouquecer. O Paulinho estudava na mesma escola em que eu era professora o, Centro Educacional Júlio Pereira Lopes. Eu era brava, sempre fui muito enérgica, mas era mãe da criançada toda. Eles gostavam muito. Paulinho sempre foi bom aluno, mas o pessoal começou a falar que ele tirava notas altas porque era meu filho. E o que ele fez? A minha comadre, madrinha dele, tinha os filhos no Dante Alighieri. Ele combinou com ela, sem eu saber, foi ao Dante, fez um teste, foi aprovado, e só aí me comunicou que ia para o Dante. Só saiu no último colegial porque quis fazer um cursinho, e entrou direto na faculdade, com 17 anos. Aliás, todos! A minha nora entrou com 17, ele entrou com 17, a minha neta com 17, o meu neto com 17. Família danadinha!


Eu fui fazer faculdade depois de casada. O Paulinho tinha três anos quando eu fazia Belas Artes, e era a presidente da comissão de formatura na Faculdade. E tinha o pessoal que chorava, que não podia mais pagar a faculdade, naquela época da ditadura. Um dia, irritada com essa situação eu disse: “Eu tenho vontade de colocar uma bomba dentro dessa faculdade!”. Essas foram minhas palavras. “Porque eles não se preocupam com os mais pobres”. Isso foi parar no ouvido do diretor. E eu fui chamada na diretoria, porque o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) prendia todo mundo naquela época. Eu passei um susto! No dia que eles marcaram para eu ir falar com o diretor, levei o meu filho como escudo. Disse que falei aquilo por falar. Que jamais seria uma mulher de qualquer ato deste tipo, que eu era mãe. “Aqui está o meu filho!” E assim a coisa acabou. Eu consegui convencer o diretor que aquilo foi uma expressão de momento. E foi mesmo! Imagina se eu ia botar uma bomba na faculdade? Mas foi uma frase falada na hora errada, eu reconheço. Nesse tempo eu dirigia um fusca, e pisava fundo para dar conta de tudo que tinha de fazer.


Eu gosto de contar a história das minhas crianças porque as pessoas veem que não é porque eu perdi os filhos que acabei com a minha vida. Eu fui uma boa mãe, fiz tudo o que tinha que fazer enquanto eles estavam comigo. Eu não me culpo. O Wilson não era assim. Depois que ele morreu, eu encontrei versos que ele fez para a filha dele. Ele parecia um lorde inglês. Era magro, alto, cabelo escuro. Era advogado, sempre de paletó e gravata. E tinha o hábito de tomar chá preto antes de dormir. Ficava na cozinha do apartamento e escrevia. Às vezes até na beirada do jornal. Ele sentia saudade.


Mas ele era um homem que, por outro lado, adorava a noite. A gente dançava uma ou duas vezes por semana. Ele era um exímio bailarino. Eu também dançava muito bem. Porque ele era um bom bailarino e eu só dancei com ele a vida inteira. Ele adorava sair, viajar, mas tinha essa tristeza no fundo do coração. Eu acho que isso levou ele a ter um aneurisma na veia aorta. E assim ele morreu em pouquíssimos dias.

 

Paulinho se formou e foi morar em Portugal. Casou-se e continuaram lá. Um dia o apartamento pegou fogo. Viajei para ajudá-los com a mudança. Fiquei um mês lá. Uma noite eu acordei com uma saudade do meu marido, louca, alucinante, levantei de madrugada, escrevi uma carta de amor de oito folhas. Eu já estava casada 28 anos. Ele recebeu essa carta, ligou para o meu filho e falou: “Eu recebi a carta da sua mãe e ela me fez chorar. Vou escrever uma resposta e entregar no aeroporto”. E assim fez. Ele me deu a carta linda. Fomos para casa. Três dias depois, ele acordou durante a noite com uma dor violenta no peito. Teve um aneurisma a cinco centímetros do coração. Liguei para o Paulinho. Ele pegou o primeiro avião.


Meu marido era tão cheio de amores para dar que, antes de entrar na cirurgia, falou assim: “Dia 12 é Dia dos Namorados, você não fica triste, porque no dia 4 nós vamos comemorar o nosso aniversário de casamento”. Mas dia 4 ele já não estava mais aqui. Já tinha ido. Morreu dia 20, um mês antes de completar 51 anos. Desde então, há 30 anos, eu vivo só. Não dependo de ninguém. Tive um medo terrível quando soube que ia ser avó. Fui parar no fundo de um poço. Mas meus netos são lindos e saudáveis. São a razão da minha vida.


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