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História

Uma luta com palavras

Sinopse

Luan Luando de 27 anos é nascido no Taboão da Sera, próximo a região do Campo Limpo. Ele teve todas as brincadeiras populares na infância, da bolinha de gude ao carrinho de rolimã, passando por doenças e também por curas de benzedeiros. Ele foi formado pelo Doutores da Alegria na periferia mesmo e criou apresentações por lá. Está quase desde o começo do Sarau do Binho e passou pela formação de muitos saraus, ele tem o Sarau a Voz do Povo que acontece na Zona Sul de SP. Ele também fez parte também da Fundação do Luta Popular, um coletivo que auxiliou diversos movimentos sociais

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História completa

Meus pais eram puro amor assim né? Minha mãe era afro-descendente, baiana , arretada que só, veio trabalhar de doméstica como todo imigrante nordestino. O meu pai era daqui de São Paulo, do interior, descendente indígena também, trabalhava de alfaiate. E naquela época, as famílias viviam todo mundo meio junto, aí quando minha mãe engravidou, uma amiga dela, que tava sempre lá, inventou um monte de história pra eu me chamar Luana,  fiquei sendo Luan, e nasci no Taboão da Serra

Se hoje eu sou poeta é por causa deles, que eles eram muito lúdicos. A minha mãe contava muitas lendas, contos, causos do nordeste. Eu adormecia ouvindo história. O meu pai  jura de pé junto que viu o Lobisomem. Era um dia que ele estava voltando de uma festa, e ele viu um bicho levantar com a forma humana, diz que viu mesmo. Eles viam magia na vida. Meu pai sempre me falava: Luan se não for fazer algo com amor, não faça, faça tudo com amor.

Eu nasci em 1988, e na época não tinha televisão em casa, a gente era muito mais feliz. Eu brincava em rua de terra de bolinha de gude, bola, de pipa. No futuro, o meu livro foi inspirado nas próprias pipas, mas aí é outra história. O meu primeiro enquadro foi brincando de polícia e ladrão. Que a gente era caprichoso na época, montava umas arminhas que pareciam de verdade, e a polícia passou, achou que era confronto, e enquadrou,a sorte é que a gente não morreu.

De doença era difícil morrer, que não tinha doença. Os mais velhos iam sempre no quintal e ficavam falando, ó aquilo é guaco é bom pra isso. Mastruz com leite é bom para aquilo. Falavam os nomes das plantas. A periferia traz essa oralidade né? O nosso feijão vinha todo quintal, e quando tinha algum problema ia se tratar com o benzedeiro.Mas eu tive que ir pro médico quando fui atropelado em cima de um cavalo por um ônibus.Um dia me tiraram da maca quando eu tava dormindo, acordei bravo, aí falaram calma, é que chegou um cara baleado, tá pior que você. Eu demorei 2 meses pra entrar em uma sala, fiquei no corredor do hospital, pra você ver como era a saúde do estado.

Mas eu sinto que eu fui previlegiado, pois fui a última geração a crescer de forma saudável e em contato com a terra, eu vi a periferia nascer. Eu lembro o dia que o asfalto chegou, a gente já estava com os carrinhos de rolimã, que a gente mesmo montava com material reciclado, que pensávamos que era Fórmula 1. E lá no Jardim São Judas era um morro, 3 quilômetros de descida, a gente não corria, a gente voava.

Eu também fui da última geração que teve paralísia infantil, aí fiquei com o lado direito meio inabilitado. Mas eu não escolhi ser deficiente, escolhi ser eficiente. Nunca fizeram menos de mim, pois eu não fiz menos de mim. A minha mão esquerda, age pelas duas mãos. Eu amarro cadarço com uma mão só, ainda falta muita coisa, muito olhar pro deficiente, aprece que é o estado que tem deficiência visual, só que eu me viro né?

O meu primeiro trabalho foi aos 9 anos de idade vendendo esterco, tudo pra vizinhança mesmo. Eu entrei na escola, gostava de aprender. Teve um caso que eu invadi a biblioteca jogando todos os livros no chão, porque não queriam deixar que as pessoas  lessem os livros.

Aliás eu amo ler, sou grato ao teatro até hoje por causa disso. Eu comecei a ler por causa do teatro. Era uma vez que eu estava indo jogar bola no parque Pinheiros, eu ia do São Judas a pé até o parque, aí vi um curso de teatro na frente, o teatro me ajudou muito a me soltar. Mas o teatro é uma das únicas artes que dialoga pouco com a periferia. Por que tem o grupo de rap na Vila Fundão e não tem teatro? Agora estamos desmistificando isso com o teatro popular

O teatro me levou também ao Doutores da Alegria. Foi um curso que a gente fez lá na quebrada mesmo, era formação da melhor qualidade, com professores que tinham estudado na França. Um dia na aula de filosofia, entrou um menino correndo e 20 caras querendo pegar ele, o professor ficou em choque, e a gente falou é isso, você tá dando aula na quebrada mano. E o palhaço foi muito importante para mim, pois o palhaço faz você descobrir quem você é, e brincar com isso. Nem todo mundo agüentou se conhecer, começou uma turma de 19 e acabou só 4 o curso. Mas a gente fez um circuito passando por muitas escolas em várias periferias, foi demais.

Mas voltando lá pra trás, nessa época do teatro, eu também comecei a ler, o primeiro livro que eu li foi “Os Miseráveis” do Victor Hugo aos 13 anos. E um professor falou para mim, poxa você podia ir pro Sarau do Binho, eu fui e lá tinha o Binho né?O Binho pra mim é poeta. Poeta não é quem escreve poesia, é quem vive num sentido poético, ele estava sempre inventando coisas pra mudar a própria vida e levava a gente junto. A gente fez o Donde miras? Que foram 4 caminhadas poéticas pelo Brasil, pagava as pessoas pra lerem, distribuía livros em bicicleta, na bicicloteca, várias coisas pela poesia. Pois diferente do ator, o poeta não se esconde num papel, o poeta é aquilo

Mas antes do Sarau do Binho eu já tinha ido em um Sarau que a gente fazia com pedreiros, domésticas, pessoas comuns. Foi através de um movimento, o Luta Popular. O Hip Hop pegou em mim cedo também, porque no Brasil tem muito racismo, aqui é um estado genocida, lá trás, a gente não tinha dinheiro nem pra comprar um chinelo, hoje tá melhor, mas seguimos e nessa ditadura feita pela cor, onde o próprio preto paga a bala que o estado mata ele.

E a gente criou o Sarau A Voz do Povo, que é um movimento de luta disfarçado de sarau. Então a gente chegava na comunidade fazendo poesia e ajudava na luta também, por isso é um sarau itinerante, mas acontece em um bar, o bar do Mutil.

Acho que herdei esse espírito brigão da minha mãe. No sarau a gente lutava, e fomos ajudando em várias lutas também junto com a Helena, o Fernão, a Dani, um monte de gente. A gente levava o que o movimento social estava precisando, tava precisando de roupa, levava. Precisava de comida, levava. Nisso ajudamos o movimento sem teto, a favela do moinho, impedimos um batalhão de entrar lá! Colocamos um sofá e falamos aqui vocês não entram. Fui pra resistência contra as UPPS no Rio de Janeiro, tava em Pinheirinho também. Nessas lutas populares recentes, eu estava em todas, todas mesmo. Estive até com os Guarani Kaiowa no Mato Grosso.

Acho só que falta nesses movimentos é uma ponte com a espiritualidade. O segredo é ouvir o coração. O meu coração diz pra ficar mais na arte. Ajudei a lutar pra formar o edital Proac Saraus, pois eles não dão as coisas pra gente como parece. A gente tem que ir e lutar. Agora queremos a Lei de Fomento às Periferias, pois não tenho que ficar batalhando pra trabalhar. 95% das coisas que fazemos é sem a ajuda do estado, merecemos reconhecimento, eu quero dignidade.

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