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História

Uma vida caseira

Sinopse

Hana Sukerman relembra a época em que viveu em Soroki, onde nasceu, na região da Bessarábia que, nessa época, pertencia à Romênia. Seu pai era dono de uma taberna que servia vinhos da região e outras iguarias. Ela conta o caminho que fazia para chegar até a escola com seu trenó, a rotina familiar, o shabat, as comidas e as canções. Alguns de seus irmãos moravam no Brasil, onde mais tarde Hana passou a viver também e se casou com um médico.

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História completa

Meu nome é Hana. Meus irmãos chamavam-se Velvel, Burech, Rosa, Dvoire, Dudl, Manea, Siuca, Sioma. São todos nomes de parentes falecidos, porque assim determinava a tradição. Nasci em 1919, em Soroki, na região da Bessarábia que, nessa época, pertencia à Romênia. 

Soroki era um lugar de veraneio porque tinha um clima muito bom e tinha também muita fruta, principalmente uvas. A cidade tinha uma parte alta e outra baixa. E lá em cima ficavam os vinhedos. Tinha todo tipo de uvas, pequenas, grandes, amarelas, vermelhas, todas as que se pode imaginar. Eram vinte mil pessoas na cidade. Todos judeus. Tinha uma mikve e duas sinagogas. E se falava ídiche. Até os goim conversavam em ídiche. 

Meu pai era dono de uma taberna, e minha mãe trabalhava com ele. Ele tinha uma adega muito comprida, embaixo ficavam aqueles tambores de vinho branco e rosé. Todo ano, em setembro, ele arrecadava um vinhedo, colocava um pessoal para tirar uvas e para fazer vinho. E me colocava para tomar conta dos trabalhadores. Eles apanhavam as uvas, entravam num barril aberto e pisavam com os pés. Eu ficava o dia inteiro e, quando acabava, os trabalhadores iam para casa e eu também. Depois faziam um tipo de champanhe muito gostoso. Nós eramos nove filhos e cada vez meu pai mandava um de nós para representar a família. 

Depois passávamos o ano inteiro vendendo esse champanhe para os goim. Vendíamos também vodca e, para comer com a vodca, colbeis e ovos duros. Eram camponeses que vinham do interior para vender trigo na cidade. Paravam lá seus cavalos, colocavam no estábulo para descansar e entravam. Traziam pão preto com queijo e bebiam vodca, vinho, comiam ovo duro e salame e depois se mandavam para a cidade baixa para vender a mercadoria deles. Fazíamos outras coisas de comer também. Minha mãe mandava um schoichet matar dezoito gansos e depois cortava em pedaços, preparava e colocava nuns vasos grandes para o inverno. Isso chamava-se pastarama. Meu pai também trazia pepinos marinados, além de tomate, repolho e maçãzinhas pequenininhas. Botávamos tudo isto na adega. Em casa, fazíamos também povedle. Tinha um tacho de cobre, muito grande, então minha mãe comprava ameixas e tirávamos os caroços e ela acendia um fogo e a gente tinha que mexer a noite inteira. Cada filho um pouco. 

Cinco de meus irmãos já tinham vindo para o Brasil. Eles mandavam dinheiro para a gente estudar e uma ajuda para meu pai. Meu primário não foi em escola ídiche, porque lá em cima, onde eu morava, não tinha escola ídiche. Só havia na cidade baixa que ficava um pouco longe. Mas depois eu fiz o ginásio Tarbut lá embaixo. Eu ia para o ginásio com meu irmão, de trenó. Ele sentava na frente e eu atrás e tinha uma ladeira enorme para descer. Quando chegávamos, era o meu sapato para um lado, os livros todos para o alto. Os pais não sabiam, mas mesmo assim a gente ia, porque cortava caminho. Então, depois, nos arrumávamos direitinho e íamos para a escola. Todos os meus irmãos foram à escola. 

Alguns acabaram o ginásio, outros não. E eu só fui a um baile na minha vida, que foi quando me formei. Tinha também cinema na cidade baixa, mas nunca fui. Só dia de sábado que eu ia com uma amiga tomar sorvete e escutar música numa praça. Ficávamos algumas horas e depois voltávamos para casa. Nunca saíamos à noite. O costume era a família se juntar para jantar. 

Para o shabat mamãe fazia chalá, guefilte fish, iur, beiguele. Papai ia para a sinagoga e mamãe arrumava uma mesa muito bonita, benzia as velas e colocava uma cadeira com um travesseiro, na cabeceira da mesa, para papai poder se encostar. Só o pai ia à sinagoga na sexta-feira. Ele vestia uma roupa bonita, ia e nós esperávamos. Não vendíamos coisa alguma de vinho, ficava tudo fechado. E meu pai chegava, jantávamos, ele cantava. Era interesante sexta-feira à noite. No sábado, sentávamos na varanda e comíamos sionisnic que mamãe fazia no forno. Eu ligava o gramofone e tocava canções religiosas. Meu pai adorava, cantava sempre atrás. 

A casa era de uma limpeza absoluta; nós que trabalhávamos; não tinha empregada, mas cada qual fazia a sua parte, e quando chegava no sábado era limpo, limpo, limpo! Minha mãe era muito religiosa e exigente. O que ela fazia, fazia bem. Exigia, por exemplo, que eu limpasse duzentas vidraças. Mocinha, eu tinha doze, treze anos. Outro filho tinha que limpar o chão, outro varrer. Só a cozinha que ela não deixava ninguém mexer. Porque nós lavávamos a mão com sabão, então era treif. Ela só lavava com cinzas. O sabão devia ser só para tomar banho. Tomava-se banho duas vezes por semana. Uma na sexta-feira. Não tinha água encanada e vinha um homem que trazia água para encher o tanque. Agora, antes do casamento, ela botava a filha duas vezes para ver como ela cozinhava, para aprender. 

Uma vez por ano, em Rosh Hashaná, mamãe comprava roupa nova, sapato novo para todo mundo. E era só para ir à sinagoga. Nessa ocasião ia toda a família. Levávamos uma vida caseira. De manhã eu ia à escola, depois fazia o dever e depois ajudava minha mãe na limpeza. Começava o jantar, meus pais iam dormir e a gente ia dormir. Mais nada. 

Os judeus ricos da cidade não eram muitos. Tinham moinhos de trigo. Grandes moinhos. Nesse tempo eu conheci um, chamava-se Baron. Ele passava todo dia numa carroça com quatro cavalos, uma carruagem. Ia para o moinho. Então, o barão da carruagem, ele gostou de mim. Passava na minha casa, às vezes almoçava conosco, trazia um cesto de frutas e me levava para o moinho. Ele me pediu em casamento, mas minha irmã, que era um pouquinho mais velha, tinha que casar primeiro. Eu era a mais bonitinha e todos que iam lá conhecê-la se apaixonavam por mim. Então me esconderam na casa de minha outra irmã, para que não pudessem me ver. Quando minha irmã ficou noiva, voltei. Mas aconteceu a mesma coisa. O noivo dela quando me viu disse que não queria o dote dela e me queria mesmo sem dote. Por isso me mandaram para o Brasil. Minha irmã, que morava no Brasil, veio com o marido e os dois filhos para me buscar. E eu, antes de vir, pensei que o Brasil fosse o paraíso. Porque eu poderia viver na riqueza e também casar com um homem culto, médico. Lá eu não ia conseguir médico nunca. Porque eu não tinha dote. Meus irmãos, que estavam no Brasil, tinham enviado o dote para a mais velha. 

Meu pai gostava muito de mim. Ele me botava no colo e me dizia: "Você tem que casar com um médico. Eu mando você para o Brasil para você casar com um médico." Então eu vim para o Brasil e casei com um médico.

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