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História

Uma vida regada a poesia

História de: Marcelino Juvêncio Freire
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Marcelino Juvêncio Freire fala sobre sua infância em Pernambuco e na Bahia, as mudanças com a família, sobre suas brincadeiras e a escola. Comenta quando começou a se apaixonar pelo teatro e pela poesia. Fala sobre sua mudança para São Paulo, as primeiras impressões quando chegou na cidade e sobre como foi afetado psicologicamente por ela. Comenta sobre suas relações amorosas e fraternas.

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História completa

Meu nome é Marcelino Juvêncio Freire. Nasci em 20 de março de 1967, em Sertânia, sertão de Pernambuco. Meu pais são Antônio Juvêncio Freire e Maria do Carmo Freire. Meu pai tinha uma família grande lá em Sertânia, minha mãe também nasceu em Sertânia, os dois se conheceram. Minha mãe teve 14 gestações, perdeu cinco, ficaram nove. Desses nove eu sou o caçula, dessa família de nove filhos. Meu pai tinha uma pequena terra, mas era uma terra muito seca, até hoje é, criava gado, plantava. Mas vinha a seca, aquele sofrimento todo e minha mãe queria sair de lá, porque exatamente disse: “Isso não tem futuro”. Começava a ter uma coisinha, perdia. A minha mãe queria sair de lá e meu pai queria ficar. Até que ela o convenceu, vendeu essa terra e eles se mudaram pra Paulo Afonso, na Bahia. Com três anos de idade eu fui para lá. Fiquei lá até os oito anos. Só um detalhe: meu pai ficou em Paulo Afonso, ele precisava resolver umas coisinhas pendentes e ficou em Paulo Afonso um tempo, a gente foi para o Recife. Depois as coisas não estavam boas, meu pai devendo, não deu certo. Minha mãe: “Aqui também não tem futuro, não, tem que ir para uma cidade que tem universidade, que meus filhos possam estudar”, e ela resolveu vir para o Recife.

Em Paulo Afonso, eu me lembro muito pouco da chegada, mas eu lembro da casa. Eu lembro da casa, tinha um quintal. Eu lembro de pela primeira vez ter visto um urubu (risos) no quintal da minha casa, quando aparecia eu achava bonito. E eu lembro também de um quarto, o que eu mais lembro é do quarto da bagaceira, que é outro nome que eu pretendo usar em alguma coisa. Quarto da bagaceira é o quarto da bagunça, é o quarto que você coloca as coisas que você não vai usar, é uma dispensa assim. Chama quarto da bagaceira, esse nome vem muito das usinas, onde você guarda o bagaço da cana. A casa de Recife era grande, tinha pé de jambo, duas goiabeiras na garagem, era muito grande. E ali ficamos.

A minha mãe foi procurar escola. Curiosamente minha mãe se confundiu, ela matriculou a gente colocou a gente numa série a menos. Minha mãe conversou com a professora, resolveram, e a professora falou: “Não, eles merecem”, conseguiram uma maneira da gente no meio do ano pular pra outra série, pra não perder um ano. Essa escola foi o primeiro lugar em que eu ouvi falar de teatro. Era uma escola muito pequenininha, era uma escola de quatro salas. Era quase particular, não lembro se era do governo ou se era uma escola particular, não lembro. E eu lembro de ter ouvido teatro lá em algum momento, não sei o que teatro ou se apresentaram naquela escola, alguma coisa, e eu fiquei muito encantado com isso. Quando eu fui pra outra escola, que era uma escola maior na mesma rua, essa era a escola do governo, a escola Alfredo Freyre onde eu fui estudar depois, a outra era Almirante Barroso. Quando eu fui estudar na Alfredo Freyre, a Alfredo Freyre já era maior, e tinha um curso de teatro, aulas de teatro. Eu digo: “Nossa, isso é legal”, eu já tinha ouvido falar na outra escola, fui fazer aula de teatro, isso eu tinha nove anos. Eu mesmo, por minha conta, bati na porta da secretaria e procurei saber como fazia para entrar nessa escola de teatro. Disseram: “Olha, as aulas são segundas, quartas e sextas de manhã, mas você tem que ver se você tem aula de educação física”, eu tinha aula de educação física um dia, e eu detestava aula de educação física. Fizeram um acordo os professores lá, então quando estava fazendo teatro não fazia educação física, mas tinha que fazer em outras horas lá, educação física, outros momentos. Adorei, foi a minha vida ali, o teatro, dos nove aos 19. E o que é mais curioso, essa escola Alfredo Freyre tem esse nome porque Alfredo Freyre era o pai do Gilberto Freyre, era sociólogo, autor de Casa Grande e Senzala. E o Alfredo Freyre já era falecido, mas o Gilberto Freyre era vivo. Então Gilberto Freyre ia uma vez por ano na escola, que ele ficava muito orgulhoso da escola ter o nome do pai dele. E a gente se apresentava para o Gilberto Freyre. Eu lembro daquele senhor chegando de carro, de motorista, atravessava aquela escola toda, a escola toda parava. Ia pro pavilhão, que era esse salão onde tinha um palco, sentado e a gente se apresentava. Eu lembro de fazer poemas pra ele, de cumprimentá-lo. Mas o que mais me encantava era por que é que aquele homem era tão importante. Eu fui pesquisar e saber que ele era sociólogo, que escreveu uns livros e que escrevia no Diário de Pernambuco, fiquei fascinado.

Já comecei a ficar fascinado por Manuel Bandeira, com nove anos de idade pra dez eu descobri. No teatro descobri textos da Maria Clara Machado, de outros autores, que foram me encantando. Comecei escrevendo como Bandeira, escrevendo uns versos, fui lendo outros poemas dele, me deparei com o movimento modernista. Fui ler Mário de Andrade, caí na melancolia do Mário de Andrade. E tem uma coisa curiosa também: minha mãe, meu pai, meus irmãos um pouquinho mais velhos, eles começaram a fomentar também essa minha vontade de leitura, a minha e a do meu irmão. Embora meu irmão não gostasse de ler tanto, mas eles fomentavam o estudo. Tanto é que eles nos isolaram de tal maneira pra que pelo menos até uns 18, 19 anos a gente não precisasse trabalhar, esses mais novos.  O Cordel foi uma influência muito dos irmãos mais velhos. Os irmãos mais velhos que viveram em Sertânia, eles conviveram muito com cordel, de feira. O que acontece? Eu saio com três anos de idade pra Paulo Afonso, quando eu poderia ter um convívio maior de cordel em Paulo Afonso vem, digamos, a televisão, tem a TV. Então eu sou da geração TV, uma geração que não acoplou muito a poesia popular. Eu lia os livros ali, muito pouquinho em Paulo Afonso, mais no Recife. O que acontece? O Recife já é mais urbano, então pra você ouvir a poesia de cordel você teria que ir um pouquinho, centralizasse um pouquinho. Onde que eu via o cordel? O meu irmão mais velho, apaixonado por isso, Juvêncio, sobretudo Juvêncio, ele comprava pra matar as saudades (risos), ele comprava uns discos de cantorias. Ele ia pra esses festivais de cordelistas, eram aquelas disputas de cordelistas e ele comprava aqueles discos e ouvia de manhã, de manhã seis horas da manhã, e eu me irritava profundamente (risos) porque eu queria dormir e pra mim era aquilo que eu não entendia muito bem o que estava sendo falado. Então aquilo ali me perturbava um pouco, curiosamente. Depois quando eu fui me deparar com o quanto era belo aquele tipo de verso, e ele foi me explicando o improviso e eu fui me apaixonando por aquilo sem saber que aquilo iria me influenciar muito no que eu escrevo. Porque o que eu escrevo é cordelizado, tem aqueles ruídos e aquelas falas. Falas herdadas de uma fala sertaneja do meu pai, dos meus tios, da minha mãe, mas sobretudo desses discos de cordel. Ele começou a me dar uns cordéis, esse meu irmão: A Chegada de Lampião no Inferno, os clássicos. Eu lia e gostava muito.

Esse grupo de teatro foi fundamental. Ilza Cavalcante, essas pessoas que se juntaram ali pra fazer teatro.  Eu passeei muito pelos festivais de teatro no Recife. É engraçado, lá no grupo de teatro, muito jovem, eu me deparo com outras formações amorosas, porque era pai, era mãe, aquelas coisas. E eu me deparo evidentemente com amigos maravilhosos, gays. Evaldo, tinha o Evaldo Costa que era uma figura extraordinária. E uma figura que também tem a minha idade, uma figura que já desenhava e já fazia figurino. E eu achava muito bonito aquilo. Eu não fui apaixonado por Evaldo, nunca tivemos nada, mas me abriu uma possibilidade de desejo que eu não dizia: “Nossa, isso aí pode? Que ótimo!” (risos). E minha primeira grande paixão na verdade, acho que eu devia ter uns 16. Foi por um rapaz que eu conheci no trabalho. Com 16 não, 17. Que eu comecei a trabalhar aos 17 anos num banco. Eu e o meu irmão fizemos um teste num banco pra ser office-boy e passamos nesse teste, fomos trabalhar como office-boy num banco importante, o Banorte, Banco Nacional do Norte, um banco particular. Comecei a trabalhar como office-boy e como eles descobriram que meu teste foi muito bom de português e redação eles me mandaram pro Departamento de Normas, que era o lugar onde eram escritas as circulares do banco, onde eram escritos os normativos e tinha uma área toda que fazia revisão desses textos. Eles me mandaram pra ser office-boy lá porque era uma maneira de eu crescer no banco, já que eu gostava de escrever. Trabalhei como office-boy, depois como escriturário e depois como revisor de textos.

Eu trabalhei no banco uns três ou quatro anos. Quando eu deixei o banco, na outra semana o Raimundo Carreiro, um escritor muito conhecido em Pernambuco, ia começar uma turma de oficina literária no Recife. Eu vi no jornal, eu disse: “Eu vou fazer a oficina dele porque é uma maneira de eu conhecer os escritores e de ver”, já estava escrevendo meus primeiros contos. Eu trabalhava no banco durante o dia até a tarde e fazia escola técnica à noite. Fazia o segundo ano à noite. Fui fazer a oficina do Carreiro. Quando terminei a oficina do Carreiro ainda passei um tempo Recife, foi quando eu vim pra São Paulo.  Do curso técnico eu fui fazer Letras na Unicap, Universidade Católica de Pernambuco. Durante esse curso de Letras eu desisti do curso, eu não fiz até o final, acho que fiz só dois anos e pouco do curso.

Eu vim para São Paulo, o Ivan estava me esperando, um outro amigo meu que morava aqui, o Jorge, e eu fui morar com o Ivan, no Jardim Aricanduva, na Rua Luiz Gonzaga. Eu lembro que eu vi: “Eita, fui para na Rua Luiz Gonzaga”. E o Ivan dividiu comigo o que ele não tinha. Quando eu cheguei, em 1991, era uma máquina de escrever. Como eles sabiam, olhe que coisa doida isso, como o cara que fez a entrevista comigo sabia que eu gostava de escrever, ele chegou na minha sala e disse: “Providenciei pra ti uma máquina de datilografia. Aqui ninguém usa, já que você é escritor”. Olha isso. Era o querido Bira Borges, já falecido. Que me entrevistou, que me contratou para a Almap. Eu comecei trabalhando lá, nessa agência de propaganda. Trabalhei lá 13 anos. Eu participei de saraus, fiz saraus e jornais de poesia quando eu morava no Recife. Participei de um grupo chamado Poetas Humanos, até mostrei, trouxe uma foto dele lá, na escada. Participei muito do movimento de poesia.

Eu sofri na verdade porque São Paulo me mostrou uma realidade muito urgente. Se eu vinha com um desejo de lutarmos juntos, eu e o Renato, eu já senti antes de vir que essa luta não seria junto. Porque não é que eu sou mobilizado pra vir e 15 dias eu não sei, e eu resolvo. Então já tirei da possibilidade, não que vivêssemos uma história junto, mas que eu não poderia depender dessa força. Então já tirei. E tirar isso foi muito difícil, tirar essa possibilidade de construção juntos, ou de apoio mútuo foi muito difícil. Então eu tive que tirar isso pra mim, até sofre-se, não há dúvida, mas eu precisava viver, enfrentar.

Eu pegava um ônibus até Vila Carrão, na Vila Carrão pegava o metrô. Encontrava o Renato à noite. A gente continuava se encontrando. Ele trabalhava num banco, o Banorte, ele fez a transferência pro Banorte. Ah, mas eu lembro desse diálogo que foi o seguinte. E o Renato ia perguntando. Eu já sabia que não poderia contar, ele ficava perguntando: “Não, eu tenho visto”, mas não dizia: “Tenho visto, Fulano ficou de me dar uma resposta”, nada disso. “Eu tenho visto”. Ele dizia assim: “Eita, vixi maria, se demorar muito você vai, é capaz até de ter de voltar pra lá”. Eu dizia: “Voltar? Nunca! Nunca”. Meu caminho só vai pra frente, eu não tenho essa. Vou voltar, só se voltar outro, mas voltar não. E esse sacrifício da porra eu não ligava pra minha mãe porque tinha aquela coisa de ligar todo domingo, escrever. Eu não ligava pra dizer nada ruim, era tudo: “Não, está indo, está caminhando”, nada. Ficamos amigos e tudo. Conheci a esposa dele.

O nosso caminho era ir para o cinema Belas Artes, parar na Livraria Belas Artes, que depois eu vim a publicar um livro por conta própria, que a gente vê nos próximos capítulos, e que eu me tornei best-seller da Belas Artes. Um livro meu EraODito, que eu mesmo fiz, ele virou best-seller da Belas Artes. O Jose Luiz Goldfarb, ele conta isso. Ele disse que duas pessoas que enfrentaram a fila de vendedor de livro, eu e o Paulo Coelho, porque tem uma fila dos vendedores de livro que iam de manhã na Belas Artes e em outras livrarias, se for hoje ainda tem. Eles fazem uma fila, tem agendado ali os horários pra apresentar o catálogo da editora. E eu ia por conta própria minha, um livro que eu publiquei por conta própria, eu ia na fila e ficava esperando o vendedor da Saraiva,  eu ia lá. Eu ia lá e o Zé Luiz barbudão: “Qual é o seu livro?", eu digo: “Esse livro eu mesmo fiz”. Ele olhou e disse: “Eu gostei desse livro. Nossa, isso aqui é bom, vai vender. Me dê dez”. Eu dei dez. Ele me ligou dois dias depois: “Traga mais dez!”, e depois: “Traga mais 20!”, depois: “Traga mais 30!”. Foi vendendo o danado do livro. E que também vendeu muito na Livraria Cultura, na Ática Shopping Cultural, foi um livro que vendeu, o pessoal gostava de dar de presente. Depois eu vim ganhar o Jabuti dado pelas mãos dele. Ganhei pelo livro Contos Negreiros.  

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