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Vicentinho foi para o sul

História de: Vicentinho (Vicente Paulo da Silva)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2005

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História completa

Identificação
Meu nome é Vicente Paulo da Silva. Nasci no dia oito de abril de 1956, no Rio Grande do Norte, num sítio chamado Maravilha, num município de uma cidade que, na época, era distrito de Santa Cruz, naquele tempo era um povoado, Campo Redondo. Hoje virou município. Mas, com alguns meses, eu fui para a cidade de Acari, no Rio Grande do Norte. Em Acari vivi até os 20 anos de idade. Então, eu considero, claro, que minhas raízes são Acari. Acari é uma cidade que fica no sertão do Rio Grande do Norte, no centro do Rio Grande do Norte. É um lugar seco, embora tenha um grande açude que abastece as cidades circunvizinhas. É o maior açude da região. Inclusive, agora, ele está com 5 anos de seca e não secou, continua abastecendo as cidades, é uma grande dádiva lá da nossa região. Mas é uma região seca, é um sertão brabo, mesmo.

Família Avós
Meus avós eram da região de Acari. Meu avô foi tropeiro, depois, negociante. Quer dizer, negociante pequeno, comprava farinha no brejo para vender pela região, rapadura. Mas ele adoeceu, tinha problema de falta de ar. Ele era uma espécie de sustentáculo, é a impressão que eu tenho. Até porque, a casa dele era uma casa de tijolo e a nossa casa era de taipa. Então eu acho que ele era uma espécie de sustentáculo. Eu me lembro, quando eu era muito pequeno, que foi ele que, com martelo, com serrote, construiu a nossa casa, que era do meu pai. Meus avós maternos eram descendentes de índios, meus avós paternos, de negros, de escravos. Eu ouvia muitas histórias deles. Por exemplo, história que a mãe de minha avó, quando foi casada, eles pegaram ela no mato. Pegaram ela no mato e casou. Essa história eles contavam, contavam muito. Minha avó morreu um dia desses, com 97 anos, era índia pura. E, no meu casamento, veio um tio meu que era índio, completamente. Isso, por parte da minha mãe. Do meu pai são negros. Portanto, é uma junção boa, verdadeiros brasileiros.

Família Pais
O nome do meu pai é Francisco Germano da Silva e o da minha mãe, Maria Gerônimo da Silva. Meu pai era completamente analfabeto, mas muito humano, muito companheiro. E minha mãe também era analfabeta, mas autodidata. Ela aprendeu a ler sozinha, conversando, consultando e tal. Meu pai era agricultor em Acari, trabalhador rural, sem-terra, mas não tinha essa denominação que tem hoje. E, às vezes, trabalhava de meeiro. Ele nasceu em Currais Novos, que é uma cidade próxima de Acari, uma cidade já um pouco maior. E, minha mãe, não sei exatamente de onde é minha mãe. Se ela é de Cruzeiro, que é uma cidade próxima, ou se é mesmo de Acari. Mas os pais da minha mãe eram de Acari, então, ali, as pessoas que não têm nada sempre mudam de um lugar para outro, vai e vai, e foi assim. Trabalhava lá, era morador de uma família no Sítio Maravilha e teve que mudar para Acari para procurar trabalhar. A cidade era muito pequena, tinha ao todo, uns 20.000 habitantes. Na cidade, uns 8 ou 10.000 e, o restante, no campo. Meu pai sempre foi trabalhador rural, mas a residência era fixada na cidade, na cidadezinha. Minha mãe criava galinha, criava porco, criava bode, meu pai tinha jumento. Ela trabalhava em casa, costurava, era autodidata. Muito dinâmica, minha mãe. Então, ela costurava, lavava roupa para fora também. E meu pai trabalhou sempre para os outros, nunca teve terra. Ele trabalhava na serra, numa serra que tem lá em volta, plantando algodão, milho e feijão e, em época de seca, trabalhava na emergência, alguma coisa assim. E plantava batata também. Mesmo porque lá, se chove, tem água, aí se planta normalmente. Quando o açude vai secando, o rios vão secando, vão plantando batata até secar o açude completamente. Então, dá tempo de produção, de safra, e etc.

Família Irmãos
Somos quatro, dois irmãos e duas irmãs. Tive dois irmãos que faleceram. Um, faleceu novinho, logo quando nasceu. E o outro com 13 anos. Ele teve uma doença que eu não sei, teve que amputar uma perna e morreu. Mas eu não o conheci. Ele, quando morreu, eu ainda não tinha nascido. Eu sou o filho caçula, não é? E estou com 44 anos, a minha irmã deve ter 54, 55 e meu irmão Cícero devia ter uns 60.

Infância Casa da Infância
Na nossa casa de Acari, morávamos eu, meu pai e meus irmãos. Meus avós moravam na mesma rua, numa outra casa. A casa em que eu morava era de taipa, uma casa pequenininha, uma casa de pau-a-pique, como os outros costumam falar. Era uma casa que tinha uma sala pequena, um quarto e uma cozinha, tinha um corredorzinho, e tinha um quintal. Era uma casa pequenininha. Nós dormíamos em rede. Eu, meu irmão e minhas irmãs, numa rede na sala. Tudo apertadinho. E o meu pai e minha mãe dormiam no quarto, numa cama. Nós éramos muito pobres, mas éramos uma família feliz. A gente brincava de jogar bola, carrinho de madeira. Brincava com uma lata de leite ninho furada com areia dentro, brincava muito quando chovia, tomava banho na chuva, nos riachos, nadava nos riachos. Era uma vida muito feliz, com minha mãe, com meu pai, uma família muito pobrezinha, mas muito feliz, muito feliz.

Infância Seca
A seca é muito sofrimento porque, em época de seca, por exemplo, a gente comia só feijão macaça, que é o feijão de corda que as pessoas falam em outras regiões, mas lá é o feijão macaça. A gente comia macaça, farinha, às vezes ovo, porque tinha galinha. Mas, também, em época de seca, a galinha ia se acabando. As coisas iam se acabando, se acabando, até desaparecerem. Era muito sofrimento, era muito difícil. Em função da seca, eu e meu irmão mais velho, a gente estudava, mas tivemos que parar para poder trabalhar. Meu irmão mais velho é pouco mais velho do que eu, 2 anos. Então, ele era menino como eu e, tanto ele como eu, quando começava a ter uma certa idade, trabalhávamos com nosso pai. Na seca de 70, por exemplo – foi a grande seca que nós vimos lá –, eu tive que parar de estudar para poder trabalhar junto com meu irmão e meu pai, para poder nos sustentar. Porque o que nós ganhávamos, os 3, ainda assim não dava para ter uma vida tranqüila. Era um salário muito pequeno, talvez equivalente a uns 10 ou 15 reais por mês. Era muito pouca coisa, tanto que eu me lembro que eles davam um saco com uma certa quantidade de fubá, feijão, aquele arroz que lá na minha terra chama "bugô", mas aqui é o arroz de quibe. Era aquele arroz que a gente ganhava. Tinha aquelas contribuições da Aliança para o Progresso, eu me lembro disso, óleo... então, ninguém vivia bem, ninguém se alimentava, tinha que comer regradamente porque senão... Foi aí que eu tive que comer camaleão, pela primeira vez na minha vida, camaleão torrado. Camaleão não se come, mas a gente comeu, camaleão verde, aquele bicho verde. Eu não sei como é que se chama camaleão aqui. Mas lá tem o tejo, que aqui chama teiú, se come normalmente até hoje. E tem o camaleão, que é o verde, aquele que muda de cor. O teiú foi se acabando, então, nós comíamos aquele outro lá. Quando conto essa história, eu rio para não chorar. Quanto à água para beber, lá tinha o açude, que era uma dádiva. Esse açude nunca secou, foi feito em 58. A gente nunca viveu a falta d’água do açude. Mas o açude é encravado no meio da serra, não tem irrigação, até porque a beira da água era pedra, tem muita pedra lá. Mas o rio também nunca secou. Então, ninguém passava sede. Passava fome porque não tinha projeto de irrigação, isso significava dinheiro para plantar para todo mundo. Tinha que se virar, então, a alternativa era essa. O meu pai também, nas entressafras, por alguns anos, trabalhava numa empresa algodoeira, a Nobrantas, Nóbrega & Dantas, que era uma empresa que descaroçava algodão, transformava os caroços de algodão em pasta para gado e produzia óleo. Pegava o algodão, separava, e mandava para a Sanbra que também tinha lá a Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro. Então, era um período de 1, 2 ou 3 meses que ele trabalhava ali, depois era sofrimento. Depois era sofrimento, não tinha jeito. Era esperar, rezar para chover e pedir a Deus que chovesse.

Adolescência
A minha juventude, especialmente os anos de 70 a 73, foram muito marcantes, de 14 até 17, 18 anos. A gente dançava forró, as festas eram boas. Lá sempre teve muito forró, e festas no clube também, era festa normal. Os cantores de sucesso da época, eu não esqueço até hoje. Aliás, a época que mais marcou minha vida foi a dessas músicas do The Fevers, Tim Maia, Paulo Diniz, Roberto Carlos. O Roberto Carlos tinha muita música bonita naquele tempo. "Detalhes" é dessa época e tinha um grupo lá chamado "Os Carbonos" que eu nunca ouvi falar por aqui, que era um período pós-Jovem Guarda, não era "O Leão Está Solto Na Rua", era o Roberto Carlos mais maduro, era o período pós-Jovem Guarda. Quando eu morava em Acari, na minha juventude, a gente não ouvia falar em ditadura militar, essas coisas. Meu pai por exemplo, ouvia falar em comunista, terrorista – porque lá tinha algumas famílias, tinha a do seu Egídio, que era um homem muito bom, diziam: "Cuidado que ele é comunista, vamos passar em frente à casa do comunista, cuidado" – ele devia ter alguma posição. Mas, incrivelmente, a minha mãe não sabia de nada disso. Eu me lembro que em casa ela sempre ouvia a rádio "Havana" de Cuba, que pegava lá em casa, em português. Que interessante isso, não é? Vou até me informar. Meu pai, por exemplo, eu me lembro que ele me contava uma história de um homem: "O homem está lá", "o homem está lá". Quem era o "homem"? Era uma pessoa que deu roupa para ele. Se eu pudesse, falava disso no programa de televisão. Quem sabe, descobria quem era esse homem? Mas era uma pessoa que estava na serra, escondida. Uma pessoa bem vestida, chapéu, roupa, tudo bem arrumado, mas escondido. E o homem dizia para meu pai: "Não fale para ninguém que eu estou aqui". Aí, dava dinheiro para meu pai comprar cigarro, comida, e meu pai comprava e nunca falou. Mas meu pai não sabia quem era esse homem, não sabia por que ele estava escondido ali e nunca perguntou. Hoje é que eu imagino que podia ser algum fugitivo da repressão. Hoje é que eu imagino isso, porque era uma pessoa boa, um homem bom, meu pai dizia "não sei por que ele está daquele jeito, escondido." Mas era uma pessoa muito boa. Essa história deve ter sido em 73, por aí. Interessante isso: Acari, Rio Grande do Norte, nas serras lá. Em 64, eu me lembro que falavam que ia ter uma guerra no Brasil. Então, todos nós ficávamos discutindo onde cada um ia se esconder, que era pelas serras, lá tem muitas cavernas, "então se tiver a guerra vamos para essas serras aqui." Dessas coisas eu me lembro, mas não tinha nenhuma participação política nesse sentido.

Casamento Preta
Eu me casei no dia em que viajei para São Paulo. Eu tinha uma namorada que foi a minha esposa. Tive outras namoradas mas, com a Preta, eu comecei a namorar com 16 anos. O nome dela é Josefa Santana da Silva, mas tanto nós quanto os familiares dela a chamamos de Preta. Então comecei a namorar com ela com 16 anos, com 20 nós casamos. Nós casamos no dia 7 de abril e viajamos no dia 8 de abril – que foi o dia de meu aniversário – viemos para São Paulo. A minha relação com a Preta sempre foi muito boa, de muita solidariedade. Ela era 10 anos mais velha do que eu. Eu tinha 16 anos e ela tinha 26. Eu era apaixonadíssimo por ela e queria namorar com ela. Ela não queria por causa da idade, os pais não queriam, aquela história toda. Mas nos apaixonamos um pelo outro e namoramos. A gente ficou mais amigo, até mais solidário, porque, como os pais dela não queriam que ela namorasse comigo, nós namoramos assim mesmo, eles a desprezaram. Eles trabalhavam na construção desse açude lá em Acari, eram os Denoc’s e eram do interior, perto de Campina Grande. Aí, foram embora para Campina Grande e, como ela não quis ir, deixaram ela lá, nem deram tchau para ela. Foi uma coisa muito dura, mas ficamos mais solidários ainda, mais amigos ainda. Aí, resolvemos namorar, casar e vir para São Paulo. Minha família apoiou, todos nos apoiaram, e fomos casados 15 anos, tivemos 4 belos filhos. Foi um casamento muito feliz até que chegou uma hora que não deu mais para a gente continuar juntos.

Casamento Separação
A história da minha separação foi muito interessante. Primeiro, eu decidi me separar e, depois da decisão da separação, eu saí de casa. Eu quis fazer terapia, quis que a minha esposa, a Preta, fizesse. Mas ela não quis fazer. Li alguns livros para sentir como é, saber como os filhos se comportam com a separação dos pais, aquela história toda. Me lembro bem de um deles: Filhos de Pais Separados. Fui na casa dos pais de Preta, também fui falar com os pais da Roseli, com quem eu me casaria depois. Eu me senti na obrigação moral de ir lá contar. De certa maneira, na medida do possível, eu ia deixando os meus filhos ao par dos acontecimentos, sempre. Foi muito dura a separação, mas eu não desapareci sem eles saberem. Quando eu saí de casa, eles já sabiam. Foi difícil. Me lembro que depois que eu saí me senti muito mal porque quem se separa mesmo, aquele que quer a separação, sofre muito porque paternaliza a dor do outro. De qualquer maneira, o que eu posso dizer é que hoje, e desde o primeiro dia da separação, desde a Luana nascida, pequena, eles se encontram. E, hoje, a relação é plenamente normal, graças a Deus, entre todos os meus sete filhos. Não há nenhum problema de irmãos, briguinha para cá, briguinha lá, não tem esse trauma. Os meninos sempre estudaram, sempre passaram. Os que estão chegando na idade do trabalho, graças a Deus, estão trabalhando e estão estudando, fazendo a Universidade. Então, eu acho que essa fase a gente está superando. Não é fácil, mas a gente está superando.

Casamento Roseli
Eu conheci a Roseli, minha atual mulher, em uma noite de Natal. No Natal eu sempre tenho uma frustração interna por alguma razão, e descobri que é porque, quando eu era pequeno, eu não tinha presente. Os vizinhos ganhavam, outro ganhava. Então, depois, quando eu fiquei rapazinho, eu sofria muito com os meus sobrinhos que não ganhavam nada. Talvez isso foi ficando e, em uma noite de Natal, eu resolvi pegar o carro, sair, andar pelas ruas de São Paulo. E passei em uma ponte, numa daquelas pontes de São Paulo. E lá estava um pessoal reunido fazendo um presépio com umas caixas de papelão, moradores de rua, não é? Caixa de papelão, Menino Jesus, e um menininho um deles, São José puxando um carro de coisa e tal. E estavam lá, aquelas pessoas fazendo aquele momento religioso muito bonito. Era à tarde e, no meio deles, tinha uma pessoa ajudando a organizar. Era a Roseli. Então, a gente se conheceu naquele momento. A Roseli já trabalhava com meninos de rua. Trabalhava com o Padre Batista, que já faleceu esses tempos. Mas era um padre que, na Sé, cuidava dessas questões de meninos de rua. Depois, ela trabalhou em um lugar, um espaço para crianças de rua, para menino de rua. Depois, ela virou dirigente sindical. Ela trabalhava na Febem e virou diretora do Sindicato da Febem. Nós ficamos amigos e conversando. Então, havia muita afinidade entre nós, uma série de coisas na vida. E eu a convidei para ela trabalhar comigo. Ela foi ser minha secretária. Como minha secretária, também era muito competente, muito dedicada. E, nesse meio tempo, a Roseli acompanhou um problema meu e fomos percebendo que estávamos apaixonados. A história é a seguinte: durante o meu processo de separação, eu tive dois problemas, a separação da mãe dos meus filhos e, antes da separação da mãe dos meus filhos, eu tive um relacionamento com a Elisete, que é a mãe da Luana. Na verdade, quando a Elisete engravidou da Luana a gente já estava praticamente separado. Então, foi um drama para administrar, né? Mas a gente conseguiu administrar da melhor maneira possível. E a Roseli foi convivendo com tudo isso. A minha separação real com a Preta foi em 1989, mas eu só saí de casa em 1991. E, se eu não me engano, em 1992, depois da separação, por ali, a Roseli viveu muito esse drama. A Roseli e a Irmã Gorete, que também me apoiou muito naquele processo. Então, no caso com a Roseli a gente percebeu que era muito solidário um com o outro. A gente percebeu que estava era se apaixonando um pelo outro. De maneira que começamos a nos encontrar, mas com muita angústia durante os encontros porque sempre era escondido. Eu tinha recém me separado e isso era um problema. E tinha outro problema porque ela era funcionária do Sindicato, mas eu falei para algumas pessoas, alguns amigos. Um dos maiores amigos, um dos maiores companheiros que eu tenho, o Frei Beto, sabia. Quando foi em um 1º de maio o Frei Beto falou: "Vicentinho, eu acho que você tem que assumir." Aquele foi o passo que eu tive para assumir. Já no dia seguinte, eu chamei Roseli e falei: "Olha, vamos assumir, mas só que a gente tem que tomar algumas decisões. A primeira delas é você ser demitida, porque não tem cabimento uma secretária minha namorar comigo. E vamos desenvolver o processo para oficializar o namoro e pensar em casar." A idéia foi essa. Bom, eu sei que dois anos depois que a gente começou a namorar nós casamos. Casamos no dia 26 de junho de 1993, lá no Instituto Cajamar. Fizemos um encontro, foi um churrasco, o Frei Beto e o Padre Beozzo fizeram a cerimônia religiosa, já que não podia casar dentro da igreja, no templo, porque tinha que ter a legalização. E, logo após, casamos no civil. E foi isso. Temos dois filhos e agora a gente cria a Luana também, que é minha filha, que mora comigo desde o ano passado. E felizmente, todos os sete, a gente se dá muito bem enquanto família.

Casamento Filhos
Do meu primeiro casamento, tenho 4 filhos: o mais velho é o Hudson, que tem 22 anos. O Guinho tem 18, o Robinho tem 16 e o Roberto tem 13. Da relação que tive com a Elisete, tive a Luana, que tem 10 anos. E tenho o Lucas, com 5 anos e o Pedro, com 4, do meu casamento com a Roseli. O meu filho mais velho, Hudson, é metalúrgico, entrou na escolinha da Mercedes, fez o cursinho do SENAI, é formado em Mecânica. Lá dentro ele trabalha em teste de motores, é um testador de motores, mas já foi eleito cipeiro na fábrica. Inclusive, na campanha, a própria gerência da empresa estava contra ele. Ele foi muito bem votado, tirou segundo lugar. Ele é militante, está filiado ao partido, é da juventude cutista e da juventude do PT. E é o secretário geral do núcleo do PT dentro da Mercedes. Então, está caminhando. E está no quarto ano de Direito. Está até ajudando a participar do processo de criação de um centro acadêmico lá, para Direito. O Guinho também entrou no SENAI e, no SENAI, conseguimos que ele fosse acolhido pela Toyota. Então, ele trabalha na Toyota há pouco tempo porque terminou o curso alguns meses atrás. Ainda é um garoto aprendiz. Já é sócio do Sindicato, quando pôde ficou sócio imediatamente, já na época de aprendiz. E estuda o primeiro ano de Engenharia. Estava conosco no 1º de maio, participando, e gosta muito de Hip-Hop. O Robinho tem 16 anos. Esse é apaixonado por basquete. Ele, inclusive, é federado, já jogou em times oficiais. Jogou no Meninos Futebol Clube, que é o time de basquete lá do Rudge Ramos. Jogou no Basquete São Caetano e agora joga no time de Diadema, na faixa etária dele. O Roberto está no mesmo caminho. Tem 13 anos, também estuda, e está jogando basquete agora no Meninos Futebol Clube, no Rudge Ramos. Ele também é federado, participa de campeonato. A Luaninha tem 10 anos, estuda, dança, gosta muito de dançar, está estudando também. E o Lucas e o Pedro são muito pequenos ainda. O Lucas tem cinco anos, também estuda. O Pedro tem quatro anos e estuda. Todo mundo corintiano. O Robinho era meio sãopaulino, mas começou a ficar calado, aí, eu já estou intitulando ele também de corintiano.

Formação Escolar Primeiros estudos
Eu comecei a estudar com 7 anos de idade. Não fiz jardim da infância, embora lá, logo depois, tivesse jardim de infância. Eu estudei normalmente, com 7 anos de idade e era um menino danado também, acho que brincava muito na escola. Hoje eu até, às vezes, avalio que era um menino esperto, não era bem um menino ruim. Mas eu sofria muito quando a diretora chamava minha mãe para reclamar. A diretora era muito ignorante, muito bruta, então, ela maltratava muito a minha mãe por causa das coisas que eu fazia, talvez brincar com alguém. Por exemplo, lá na minha terra, as pessoas – inclusive, até hoje mas naquele tempo mais ainda – todo mundo andava com uma peixeira. É normal andar com uma peixeira de 6 polegadas ou de 10 polegadas. E eu, menino, tinha uma peixerinha pequenininha de cabinho amarelo. Então, no 7 de setembro, por exemplo, nós fomos marchar, ficava a tarde inteira em pé, ninguém agüentava. E deram para nós uma bandeirinha do Brasil, e aquela bandeira, de tanto mexer, foi descolando, descolando, estava quase caindo um pedaço. Uma professora viu aquela bandeira descolada e viu que eu estava com uma faca na cintura. Então, ela disse à diretora que eu rasguei a bandeira do Brasil com a faca. Foi uma grande mentira, uma grandiosa mentira, e disso eu me lembro. Nesse dia, com certeza, a diretora chamou a minha mãe. Porque era assim: ela chamava minha mãe e eu ficava na frente da escola, no pé da parede, ouvindo elas darem bronca na minha mãe. E elas brigavam com minha mãe. Quando minha mãe saía de lá, ela não brigava muito comigo. Ela era muito boa. A minha mãe era muito pobrezinha, a gente era muito pobre, mas era muito feliz. Lá em Acari, eu estudei até o 5º ano primário, peguei o diplominha. Depois que vim para São Paulo, para São Bernardo, eu voltei a estudar em 78 e 79, no Sindicato. Eu repeti o 5º ano, e fiz até a 8ª série. Aí, concluí o 2º grau. Na escola do Sindicato, estudei 2 anos, a 5ª e a 6ª séries. A Diretoria do Sindicato fechou a escola, fez um convênio com o Colégio Santa Inês e eu terminei os 2 últimos anos no Colégio Santa Inês. Já terminei em 80, não terminei inclusive, muito bem, por causa das greves. Mas terminei com o apoio de alguns professores porque a minha cabeça estava totalmente ligada aos movimentos. No final de 80, me matriculei para estudar, em 81, o 1º colegial, no Colégio Esquema, em Diadema. Aí, fui chamado para ser diretor do Sindicato. Por isso, parei de estudar e só voltei depois de 96, no Telecurso, muitos anos depois. E voltei a estudar porque sempre senti necessidade, sempre gostei de estudar. Voltei e sempre tive na minha cabeça: "no dia que eu sair do movimento sindical, eu vou voltar a estudar." Então, digamos: se eu não fosse candidato agora e não estivesse estudando, eu estava me preparando para estudar, com certeza. Mas como apareceu o Telecurso foi a chance e agora, graças a Deus, eu estou no segundo ano de direito. Mas quero confessar que não está fácil, viu?

Formação Escolar Telecurso
Eu queria estudar e comecei a ver o telecurso. Fiquei interessado, mas com medo, preocupado. Qual seria a reação de quem eu represento pelo fato de estar estudando numa escola da Globo e da Fundação Roberto Marinho e da FIESP? Eu falei: "caramba, o que eu faço?" Aí, eu fui na USP conversar com alguns professores, conversei com amigos e falaram: "Não, o esquema é sério, é um esquema sincero, não tem interferência." Depois chegaram a dizer para mim que o próprio Dom Eugênio Salles andou ligando para a Fundação Roberto Marinho para reclamar, porque no curso de geografia e história falam muito dos pecados da igreja católica, e falaram que não iam mexer porque era história. Então, eu falei: "Vou estudar." O método do telecurso é o Paulo Freire. Quem assistir uma aula, vai compreender na hora. Embora não digam, é o método do Paulo Freire. Então, comecei a estudar. Fazer prova, passar, ser reprovado. Não fui aprovado em física. Depois, fiz de novo e, aí, fui tentar o vestibular.

Formação Escolar Vestibular
O meu problema no vestibular é que, quando comecei a estudar, eu já era uma pessoa conhecida no Brasil. E, claro, o curso teria o interesse de divulgar alguém conhecido, até porque eu faço parte de uma grade curricular lá, consta que eu faço parte. Eu, o Medeiros, de uma aula que a gente dá sobre Getúlio Vargas e isso independente de estar estudando. Me chamaram uma vez. E aí souberam e começaram a divulgar que eu estava estudando. Até aí, tudo bem. Agora, duro, foi na época do vestibular porque eu fiquei muito com medo de não passar. Falei: "Puxa vida." Eu cheguei até a dizer o seguinte: "Eu prefiro não estudar a ser reprovado no vestibular. Eu tenho que passar." Então, eu estudava de noite, de madrugada, no avião... Enchia até o saco. Estudava na CUT, em todo lugar, na hora do almoço. Fazia o que podia fazer. Escolhi 5 universidades: a PUC, a São Marcos, a Uniban, a Universidade São Francisco, que fica ali no Pari, e uma de São Caetano, eu esqueci o nome. Bom, como as datas eram diferenciadas, eu fiz esses primeiros vestibulares. Aí, passei na São Marcos. Na semana seguinte, eu fiz a Uniban. Passei na Uniban. Depois fiz na PUC. Nessas três eu passei. Passei na Uniban, na São Marcos, passei na sociologia, que era a segunda opção na PUC. Mas não passei em direito em São Bernardo que era a minha intenção. Faltou pouco para passar, mas não passei. Aí, graças a Deus, passei, que era o meu grande alívio. Depois, resolvi fazer na Uniban. Quase que eu fazia na São Marcos, mas era mais cara. Falei: "Bom, eu não faço a cirurgia..." Depois, pensei; bom, o problema meu é o seguinte: eu queria ser advogado, quero ser advogado ainda. Tenho pretensão. Eu quero ser advogado. Então, eu vou escolher um lugar, como o curso vai demorar 5 anos, eu vou sair da CUT. Eu não posso terminar o meu mandato na CUT, ficar indo para lá e para cá para São Paulo. Escolhi a Uniban, que é perto da minha casa. Dá para ir a pé. Se, por ventura, eu voltar para a fábrica e não tiver nem carro, dá para ir a pé estudar. Então, eu estou lá. Eu acho o curso muito bom. A Uniban é uma escola nova, tem 5 anos. A PUC tem 50. A São Marcos, quantos anos não tem? Mas a Uniban é uma escola nova. É uma escola privada, visa lucro. Aliás, tem uma vantagem sobre outras porque ela, quando me procurou, falou: "Olha Vicentinho, aqui é o seguinte, nós somos uma empresa. Nós visamos lucro. E está no documento que a gente visa lucro. As outras escolas são muito malandras, dizem que são filantrópicas." Até, a Folha tem denunciado um monte delas. E eles disseram: "tem faculdades que dizem que são filantrópicas, mas é tudo malandragem. Tudo engano. Então, a gente prefere dizer o que a gente é. E vamos investir tanto aqui porque queremos concorrer com a faculdade de direito de São Bernardo". Aí, estou lá. Lá dentro tem problemas, evidentemente. A mensalidade, eu tive um ano de bolsa e esse ano eu não quis porque já tive no ano passado. Eu aceitei a bolsa, no ano passado, na condição de publicar para a imprensa. Esse ano, eu estou me virando. Dois filhos meus estudam lá também. O nome da Uniban não é muito bem visto por aí afora, até por ser nova. E como ela é uma escola nova em São Bernardo, quase todo mundo passou no vestibular. Se você tem 1000 vagas e concorrem 1000 pessoas, 1000 passam não é? Porque o vestibular é quando mais concorre não é? Não esqueçamos, tem país que não tem vestibular, não é? Eu sei que estou gostando, estou adorando. Só estou preocupado porque não tenho tempo de estudar fora do horário escolar. Meu tempo é na hora da aula. Quando acontece a prisão de um sem-terra, e já aconteceu, eu tive de viajar. Se acontece um ato, uma manifestação – como a discussão do salário mínimo este ano –, eu tenho que faltar, perder aula. Mas devo assistir, das 25 aulas, com certeza, 20. Foi bom porque a CUT autorizou. Porque, para entrar na faculdade, eu pedi autorização à CUT. E foi estimulante porque todas as tendências apoiaram a minha entrada na escola. Deram parabéns. Então, eu achei que foi ótimo. Claro, eu estou num processo de saída da direção da CUT, não é? Já havia um entendimento com a parte da articulação que me apoiou, de que eu, de fato, ia saindo aos poucos. Então, havia uma conversa, não foi nenhuma surpresa. O medo era se passava ou não. Lá dentro da universidade, a convivência é muito boa. Alguns professores têm métodos mais conservadores, outros não. Alguns são mais autoritários, outros não. Mas a gente tem uma relação de respeito com todos eles. Nunca tive problema com nenhum deles. Às vezes, eu já soube até, por outros professores, que quando eles vão dar aula lá, eles perguntam onde eu estudo e dizem que fizeram estudos, como é dar aula para mim, não sei o quê. Bobagem, na verdade é bobagem. Mas o diretor de sociologia falou: "Olha, você virou um fato social aqui dentro, então, os professores ficam assim preocupados com o tipo de aula, com medo de você falar uma coisa que os desautorize." E de fato, há algumas coisas, não que eu os desautorize, mas por exemplo, no ano passado, no dia da mulher. "Parabéns, dia da mulher, flores, mulher não sei o que." Aí eu perguntei: "Professor e meus colegas, vocês sabem por que existe o dia da mulher?" Ninguém sabia. Aí, eu contei a história. O professor: "Ah, que bom, que maravilha e tal." Este ano, o professor de direito do trabalho começou a falar, falar, falar e foi metade da aula falando de convenções da OIT. E falou de algumas convenções. Eu disse: "Professor, não é assim, me desculpe mas não é assim. O da 158, por exemplo. Eu falei: "Eu até fiz greve de fome lá em Brasília." Talvez, tivesse umas polêmicas assim, mas sempre no melhor do sentido. A relação é muito boa, muito boa, então, eu estou falando isso aqui, mas sempre com todo respeito a todos eles. E os colegas são como irmãos, ou então, como filhos porque tem uma molecada danada lá, viu? A única coisa que me impressiona é quando alguém chama com a notícia.. Mais o ano passado, esse ano está meio sem vergonha, mas no ano passado, um disse assim: "Olha, a professora está doente, não tem aula hoje." O pessoal: "Oba." Eu falava: "Mas não é possível, não tem aula? Agora que eu estava gostando."

Formação Escolar Direito
A minha primeira paixão pelo direito foi quando eu assistia, desde Acari, filmes que mostravam os advogados defendendo teses. Advogados criminais, evidentemente, em sessões, em júri popular. E, agora, quis estudar direito para ter uma qualificação. No fundo, no fundo, se eu tiver condição, tempo, eu pretendo ser juiz. Sendo advogado, eu queria lidar com a questão do menino de rua, da mulher violentada, do negro discriminado, mas na luta pelos direitos civis, pelos direitos humanos, direito à vida. Mas a questão do trabalhismo também. Mas a minha vida inteira foi trabalhismo, então, não sei se conseguiria ficar ali naquelas coisinhas de audiência para lá e para cá. Eu queria lidar com outra coisa: com essa questão da discriminação, do preconceito, do racismo, da violência. Isso me entusiasma muito. Como defender, como atuar nessas ações. Para conciliar família, com faculdade, com trabalho, é difícil. Na vida sindical a gente era tão ardoroso, que eu já fiquei 7 anos sem pegar férias. Imagine como isso era duro para a criançada que cresceu. Eu me lembro do Hudson, que nasceu antes de eu ser dirigente sindical, e do Hugo, que nasceu depois que fui dirigente sindical, a diferença de como é que esses meninos sofreram e sofrem. Aí tem um pequeno parênteses: talvez, eles tenham sofrido com a separação, mas sofreriam muito mais se eu fosse uma pessoa que ficasse em casa permanentemente. O que a gente faz é dar qualidade aos nossos encontros. Então, graças a Deus, eu nunca esqueci um aniversário deles, nenhuma data importante. Sempre, em alguma coisa que é importante para eles, eu quero ir. Algumas, eu estou falhando. Por exemplo; jogos que os meus filhos estão jogando, eu não consigo acompanhar. Mas, sempre que a gente pode, a gente se encontra. Pelo menos em tese, a cada 15 dias ficamos todos juntos. Agora, a criançada cresce, vira rapaz, não quer mais ficar indo em casa, entendeu? Um vai namorar, outros vão passear. Hoje, minha rotina é assim: quando não tem encontro de fábrica, eu acordo todos os dias às 6:15. Quando tem encontro de fábrica, eu acordo mais cedo e vou para a fábrica. Normalmente, vou para a fábrica uma ou duas vezes por semana. Mas, dependendo do período, é todo dia. Aí, vamos na Volks, Mercedes, quando acontece greve. Acordo, me levanto, tomo banho, tomo café e vou para a escola. Eu saio de casa às 7:00 em ponto, porque a aula começa às 7:30. Aí, eu estudo até às 11:20. Depois das 11:20, eu vou para minhas outras atividades, reuniões, etc. Quando tenho alguma atividade por perto, eu vou almoçar em casa. Como eu gosto de dar uma corridinha e, invariavelmente, corro três dias por semana, nesses dias eu vou para casa. A academia é perto da minha casa. Então, eu corro em casa, almoço e venho para cá, para a CUT. Nos últimos anos, eu tenho tomado o cuidado de pegar férias, nem que seja de 15 dias ou, no mínimo, uma semana. Mas, eu pego umas férias, assim, exclusivas. Junto todo mundo e a gente fica em algum lugar, nas instalações da CUT. Este ano eu fui para Minas Gerais, na casa do Gonçalinho. Sempre se vai para algum lugar, não é? Estou pretendendo, esse ano, ir para a Bahia, se Deus quiser, com toda a família. Às vezes, vou ao cinema, adoro cinema. Talvez, esse ano, eu tenha ido a uns três filmes. Às vezes, assisto em casa. Gosto de ir a shows, como o do Zé Geraldo. Esse ano assisti a um show do Zeca Baleiro, que tem uma música que fala meu nome. Quando ele começou a cantar o meu nome eu subi lá no palco, dei um abraço nele.

Formação Escolar Inglês
Eu quis fazer o curso de inglês porque a primeira coisa que me incomoda é, quando eu vou viajar para outro país, sentir aquela barreira muito grande, uma paredona. Você é um analfabeto quando está lá fora. O outro tem que falar para você, tem que ler para você e eu sempre tive vontade de falar inglês. Então, eu ia estudar, fazer o curso de inglês. Não me lembro qual era o ano. Não sei se foi em 1994. Só sei que resolvi estudar ainda na presidência do Sindicato. Então, discuti com a Diretoria e comecei a estudar, fazendo inglês. Estudei até um certo ponto de maneira que, hoje, eu não passo fome quando vou lá fora, mas não sei conversar. Às vezes, eu faço uma pergunta, o cara me dá a resposta, e aí é que é duro: o cara fala muito, podia dizer só sim ou não. Mas tive que parar com o inglês depois que entrei na CUT. Aí, nunca mais estudei inglês.

Trabalho no Rio Grande do Norte Piquete
Eu comecei a trabalhar, ganhando salário, com 14 anos na seca de 70, durante 10 meses construindo estrada, abrindo piquete – a primeira vez que ouvi falar em piquete foi lá – para abrir açude. Trabalhava por corte de metros, tinha que cavar um metro e meio de terra, quadrado, que é muita coisa, não é brincadeira. Tem que trabalhar o dia inteiro para poder cavar esse um metro e meio de terra e carregava com a pá. E ficava andando pela mata, pelos matos, ficava semanas no mato fazendo isso, cozinhando lá no caminho, no chão. Esse trabalho, em geral, não era junto com meu pai. Meu pai ficava num setor e eu ficava com meu irmão num outro setor. O salário que eu ganhava, dava todinho para minha mãe e meu pai. Aí ela, às vezes, dava um dinheirinho para eu comprar alguma coisa. Antes dos 14 anos, eu trabalhava com meu pai na roça, ajudava meu pai a trabalhar no roçado. Ele até me dava um roçado, falava "esse aqui é para você, esse aqui é seu", então eu cuidava do roçado. Eu sempre achava que "puxa, vai ser muito bom para mim, porque eu pego isso aqui, levo uma cuia de feijão, vou plantar e vai dar quantas cuias? Então eu vou ganhar muita coisa aqui". Mas aí, a maldita seca, né? Mas sempre tinha meu roçadinho também. No fundo era dele, mas era um roçadinho em que plantava as coisas também, ele até dava "olha, isso aqui é seu para quando você crescer, ter terra para trabalhar, para produzir" aquela história toda. Mas eu nunca gostava porque a gente via que não dava certo. Não dava certo, porque sempre a seca atrapalhava. Quantas vezes na minha vida, a gente plantava, dava a primeira chuva, plantava, as plantinhas nasciam. Aí, com um pouquinho, começavam a morrer, porque a água não sustentava. Então, desde pequeno trabalhava, estudava. Claro que, como eu estudava na cidade, às vezes ia de tarde, ou ia de manhã, era em volta da cidade. Mas fui um menino de rua muito danado também. Gostava muito de andar pela rua, correr, como qualquer menino, brincar. Caçava passarinho, prendia muita rolinha. Meu dia a dia era assim: ia para a escola, ia para o roçado. E, quando não ia para o roçado, ficava em casa, brincando pela rua. Mas isso, até 14 anos. Depois disso, só trabalhei, só trabalhei. Eu trabalhei na emergência, aí, não pude mais voltar a estudar.

Trabalho no Rio Grande do Norte Venda de pão
Durante um ano, um ano e meio, também trabalhei vendendo pão na cidade. Não era pão caseiro, feito pela minha mãe. Era pão da padaria, vendia na freguesia, com embalagem, tal. Tanto que, às vezes, tinha namoradinha da cidade vizinha. Em geral, o pessoal sempre ia namorar no sábado, na outra cidade. Um dia, eu estava com um balaio de pão nas costas, cheguei, com um chocalho balançando, chamando atenção, lá vinha a namorada. Quando eu vi a namorada, peguei o chocalho, encolhi, segurei, dei a volta. Bobagem né? Eu não queria que ela me visse vendendo pão.

Trabalho no Rio Grande do Norte Construção Civil
Também trabalhei muito na construção civil, limpando rua. Porque tinha o serviço emergencial federal, mas também tinha as outras secas que o Governo Federal não percebia e não dava emergência para todo mundo. Aí, as prefeituras adotavam o serviço. Então, você trabalhava limpando rua, ou pintando prédios públicos, já fiz muito isso. Depois trabalhei na construção civil, construindo casa, ajudando de servente de pedreiro, depois entrei numa mineração. Isso tudo em Acari, tudo perto. Passava uma semana no sítio, voltava.

Trabalho no Rio Grande do Norte Mineração
Trabalhei dois anos numa mineração. Já era 1974. Em 76, vim para São Paulo. Minha entrada na mineração foi através de meu patrão da construção civil. Isso foi quando estávamos construindo uma casa que deve estar lá até hoje, belíssima, toda feita de pedra. O dono dessa casa era dono também de uma terra. E, nessa terra, nos anos 50 deu muito minério. Apareceu lá em Acari um povo de São Paulo, o Dr. Mário, que era dono de uma mineração e que queria instalar uma mineração lá, chamada Maracajá – porque era um sítio chamado Maracajá. Então, falavam: "Está vindo aí uma mineradora, vai gerar emprego". Eu falei para o Dr. Carlos: "Olha, se puder, arranja emprego para mim". Aí, quando a empresa se instalou, ele arrumou emprego para mim. Entrei lá com 18 anos, com carteira assinada, tudo registrado. Foi meu primeiro emprego com carteira assinada. Eu era apontador, descia nas minas para saber quem tinha ido trabalhar quem não tinha ido, para fazer chamada "Fulano?", "presente", "Ciclano?", "presente". Era uma mina subterrânea. Tinha 30 metros, 50 metros, dependia da mina, tinha que descer num carrinho. Essa mineradora explorava cassiterita, xelita também, dela se faz tungstênio. Eu apontava na hora, depois mandava para o departamento pessoal. E cuidava no sítio, no mato, lá nas bocas de mina de grupo gerador, que eram motores que geravam energia. Eu cuidava da manutenção, limpava, trocava óleo, fazia essas coisas assim, já tinha aprendido. Eu ganhava salário mínimo, um pouquinho mais: se o salário mínimo fosse R$130,00 talvez eu recebesse R$140,00, uma coisa assim, não era muito diferente, não. Foi aí que eu tive relação com duas empresas daqui da região. Porque os grupos geradores eram motores novos Mercedes Benz e eu lia os folhetos da Mercedes explicando como é que era. E, também, todo equipamento que vinha para furar pedra e os compressores eram da Atlas Copco. Então, quando eu vim para São Paulo, tempos depois, vi que a Atlas Copco era aqui, que a fábrica de ponte de tungstênio era aqui e que a Mercedes era aqui também.

Migração Decisão
Quando eu via que o pessoal vinha para São Paulo – a gente não falava para São Paulo, falava "vai para o Sul", Fulano foi para o sul" –, aquelas pessoas iam, inclusive meu irmão foi, e voltavam. Soltavam fogos quando chegavam, vinham com relógio no braço, com a camisa diferente, chapéu. Então eu falava: "Eu vou também, um dia eu vou para o Sul". Eu já era já grandinho, 17, 18 anos. Nessa época eu já lia alguma coisa, me informava. Porque nesse ínterim, quando fiquei um pouco maior, também ajudei na igreja, ajudava a fazer leituras na igreja. O padre era meio cego, coitado, padre Euclides que faleceu há 2 anos. Então, ele era meio cego, já velhinho, eu fazia a leitura para ele. E nessa história de ficar dentro da igreja, eu ganhei muitos amigos. Tinha um programa lá chamado "Paróquia em Marcha", então, todo dia, às 6 horas, eu lia a Ave Maria. Era um serviço de alto-falante na cidade. Era o que tinha, né? Lá, eu aprendi a ler compassadamente, dando pontuação correta, suspendendo quando tinha vírgula. Essas coisas assim, eu realmente, aprendi lá, porque a escola era muito boa, o nível do primeiro grau daquele tempo era muito bom. Bom, então eu lia muita coisa e aí eu falava: "Puxa, um dia vou embora, vou vencer na vida". Mas o vencer, para mim, era ter um bom emprego, porque é verdade que tinha gente que chegava e ficava com aqueles fogos, aqueles relógios, aquela roupa. Mas passados três ou quatro meses, vendia tudo, o relógio, vendia um monte de coisa, acabava. Mas outros vinham bem de vida realmente, de carro, bem empregados, voltavam e vinham todo ano. Então, eu também achava que eles eram um pouco orgulhosos, falava : "no dia que eu viajar, não vou ficar assim, ser orgulhoso como esse povo que vem e volta. Conheci quando era menino, agora, não liga mais e tal". Então, eu me informava de certa maneira. Eu sabia que existia, por exemplo, uma discussão sobre o crescimento da Amazônia, que lá ia ter muito emprego, que na Amazônia era muito bom. E também, pelo fato de ser minerador, os garimpeiros falavam muito em ir para Serra Pelada, ir para o Pará, ir para a Amazônia atrás de minério. Mas eu não queira ir para esses lugares atrás de minério. Eu queria ir para a industria. Então era: São Paulo e Rio de Janeiro ou Amazonas. Nos últimos dias foi que eu decidi vir para São Paulo, porque eu já tinha parente aqui. Eu nem procurei meus parentes, mas vim para São Paulo. Olha só como é que é: não procurei incomodá-los, mas vim para São Paulo. Eu vim para São Paulo junto com o meu irmão, Francisco. A gente chama ele de Careca. Ele foi sempre muito amigo. A gente brigava, mas era nas horas certas, sempre tivemos muita solidariedade. Eu me lembro que na seca de 70 ele trabalhava também. Eu não conseguia terminar a produção, ele saía do serviço dele, terminava, e vinha me ajudar para eu ir embora mais cedo. O nome que se dava a essa produção era "tarefa". Esse meu irmão estudou até o 4º ou 5º ano, parou e não estudou mais. Mas ele já era mais viajado. Por exemplo, quando menino, ele passou alguns meses na casa de um tio nosso num sítio longe, talvez uns 60 km de distância. Depois ele resolveu ir para o Sul, foi para Minas Gerais trabalhar em fazendas lá. Foi a Santa Helena de Goiás e outros lugares. Foi de pau-de-arara. Aí, ele voltou com relógio, com roupa e tudo. E trabalhou por lá, pelo nordeste. Quando ele resolveu ir embora outra vez, eu falei: "Então eu vou junto, nós vamos juntos, vamos para São Paulo". Viemos no mesmo dia para São Paulo. Eu entrei na metalúrgica Tamet e ele entrou numa empresa chamada Lindenberg do Brasil, onde trabalhou uns 15 anos. Depois, entrou na Volks, deve ter trabalhado mais uns 15 anos. E agora, ele é aposentado. Minha vinda para São Paulo foi muito dura porque, como nossa família tinha uma relação afetiva muito grande, de muito carinho com todo mundo, foi muito choro nesse dia, muita tristeza. Foi um negócio muito difícil para todos nós. Teve uma festinha de despedida, mas era uma festinha assim: minha mãe fez ponche, não era bebida nem churrasco. E nós viemos embora. Mas a minha mãe só agüentou aquela história porque colocou na cabeça que ia nos visitar em São Paulo no ano seguinte. Pois não é que a mulher preparou, ficou costurando e gastando um realzinho, dois – naquele tempo acho que era cruzeiro – ganhando e ganhando para poder vir? E é claro que quando eu vim para cá também, quando ganhei o meu primeiro salário, a primeira coisa que fiz foi mandar dinheiro para ela.

Migração Vencer na Vida
Eu vim para São Paulo no dia em que me casei com a Preta. Nós casamos no dia 7 de abril e viajamos no dia 8 de abril, que foi o dia de meu aniversário. E, quando viemos, a gente pensava em viver aqui e ganhar dinheiro para comprar uma casa e voltar para Acari. Era esse o plano. Nós viemos para cá, ganhamos dinheiro e gradativamente fomos construindo uma casa lá. Uma casa pequenininha, tinha uma sala, dois dormitórios, uma cozinha, um muro, e uma ediculazinha. Uma casa de alvenaria, bem feitinha, bonitinha. Só que, quando eu terminei de construir essa casa, fui convidado para ser diretor do Sindicato. Aí, pronto, mudaram meus planos. Tanto tive que parar de estudar como mudaram os planos de voltar, não tinha mais condições de voltar naquele período. A minha idéia era a seguinte: "Bom, ganhando um salário mínimo, minha mulher trabalhando – porque ela também era manicure e costurava muito bem – e tendo uma casinha dava para viver muito bem". Era essa a nossa certeza. E aí, não fui mais. O que foi que eu fiz? Aquela casa que eu fiz, eu dei para meus pais, para sair da casinha em que eles moravam, que era de taipa. Meus pais moraram nessa casa que eu e a Preta construímos, muitos anos, até morrer. Moraram de 81 a 86 naquela casa, na casinha nova. Depois que eles morreram a casa ficou com minha tia, que a alugou, o dinheiro era para ela mesmo. Agora, esse ano, eu vendi por R$5.000,00 para o meu irmão que se aposentou, quer voltar. Ele comprou a casinha, mas não voltou ainda não.

Migração Viagem
Quando saímos de Acari, nós pegamos um ônibus até Natal, eram 200 e poucos quilômetros e, de lá, a gente pegou um ônibus para São Paulo. Me lembro que no caminho – era empresa Aparecida, acho que não existe mais hoje – eu acordei uma certa hora. Quando acordei, aquele monte de prédios chamei meu irmão desesperado: "Acorda, estamos chegando em São Paulo, estamos chegando". Tinha muitos prédios e eu falei: "Mas tão rápido", era Recife. A viagem inteira, tive muito medo do ônibus virar porque viajava de manhã, de tarde e de noite. O ônibus tinha um cheiro horrível. O banheiro muito usado, ninguém agüentava aquele mau cheiro. Parava numa cidade, limpava mas, demorava uma hora, aparecia aquele cheiro horrível. E eu estava um pouco para trás, esse foi o grande sofrimento. Quando chegamos em São José dos Campos o frio começou a nos atingir, eu comecei a me agoniar, não sabia o que fazer, meu irmão fumava. Eu fumei quando tinha, talvez, uns 14 anos até os 18 anos, quando parei de fumar. Mas, na angústia da viagem, ali em São José, Aparecida, eu voltei a fumar. Aliás, o cigarro, talvez tenha sido esse uns dos primeiros conflitos de classe que eu tive na minha vida. Porque eu trabalhava na mineração e comprava o Arizona, que era um cigarro que tinha na época, pequenininho. Era para fumar um maço por dia – nós falávamos uma carteira – e o chefe pedia cigarro para mim. Eu dava porque ele ia para a cidade todo dia, se acabar cigarro, ele me dava também. E uma hora lá, ele acabou com meu cigarro. Quando foi na sexta-feira, pedi um cigarro a ele, ele me humilhou: "Não tem cigarro não", com cigarro no bolso, assim, brabo. Aí, eu fiquei puto, falei: "Nunca mais vou fumar na minha vida". E parei de fumar. Claro que já queria parar por outras razões, já começava a ter consciência que fumar não ia fazer bem. Mas no caminho, com essa angústia, eu voltei a fumar. Tem um amigo meu, que virou compadre meu, Milton Bispo, quando engravidou a filha dele, a última filha, eu fiz uma aposta com a mulher dele, a minha comadre. Virei e falei: "vamos fazer uma aposta, eu vou parar de fumar, você também vai parar, e depois que nascer a Márcia não vai mais fumar ninguém, vamos apostar?" "Vamos." Nunca mais fumei, ela voltou a fumar. Então me lembro, nessa viagem foi quando voltei a fumar. Depois parei, um ano, seis meses depois. Mas quando foi chegando nessa altura, foi um frio muito grande. Nós viemos chegando, sentindo aquele frio de São Paulo e a angústia, e o medo. Um medo da polícia muito grande, porque naquele tempo, diziam que quem tinha carteira em branco era vagabundo. O terrorismo era grande com quem estava com a carteira em branco. Então, na rodoviária, aquele medo. E já se falava em ladrão naquele tempo, que tinha malandro na rodoviária.

Migração Chegada em São Paulo
Eu cheguei em São Paulo com meu irmão, a minha mulher e um amigo que veio com a gente, Genival. Eu vinha com o endereço do dono da empresa da construção civil que era sócia da mineração que eu trabalhava lá no nordeste, porque ele falou que ia garantir emprego para mim aqui. Só que eu não fiz a conta direito, cheguei aqui no dia 10 de abril, num sábado. Aí, quando eu peguei para telefonar, eu perguntei como é que telefonava, o cara explicou: "com essa ficha", eu perguntei: "mas demora quanto?", "demora o dia inteiro" até gozou de mim. Eu ligava e tocava e ninguém atendia, ele falou: "mas hoje é sábado, não tem ninguém lá certamente". Aí eu, que achava que ia ficar no alojamento dessa empresa, sou obrigado a chamar o colega meu que veio comigo, para ir para a casa onde ele ia, que era no Ipiranga. Nós pegamos um táxi com medo de ser roubados. O medo era de ser roubado, mas roubado de quê, ninguém tinha era quase nada ali, meu Deus do céu. Mas o medo era de enganarem a gente, porque falavam: "cuidado com táxi, eles dão muita volta para enrolar." Pegamos um táxi e falei: "puta, vão nos enrolar aqui, vão enrolar, vão enrolar, dentro do táxi". Aí, quando eu via a placa lá na frente que estava escrito "Ipiranga" eu dizia: "olha, ali é o Ipiranga, viu?" e o carro indo. Eu sei que depois eu confirmei que ele não enrolou coisa nenhuma, me levou direto até a rua Coronel Frias. Quando chegamos, ficamos na casa desse amigo, que era um conterrâneo, Ivanildo Higino. E ele nos acolheu, claro, pobre, nos acolheu. Eu já tive o primeiro trauma, porque nós chegamos e era um lugar que dava enchente, a Rua Coronel Frias, onde é a Coca-Cola hoje, onde tem a Disbrasa que, naquele tempo, era na esquina da rua, entre a Dom Pedro e a entrada da Coronel Frias. A Disbrasa tem uma barraca assim de lona e falaram "aqui, quando chove, vem todo mundo para cá e fica protegido aqui". Quando eu entrei na casa que vi geladeira em cima da mesa, fogão, tudo em cima da mesa, foi horrível aquilo ali. Fiquei foi com medo. Olha o que aconteceu: a gente casado, lua-de-mel. Eu e minha mulher, a gente não sabia como fazer para transar por exemplo. E aí, chegamos na casa, muito apertadinho, a família grande, o Ivanildo com um monte de irmãos e irmãs, menino, rapazinho, mocinha. E nós fomos dormir num quarto que estava reservado para o Genival. Ele dormiu em cima, no beliche, o meu irmão dormiu em cima com ele no beliche; não conseguia dormir no chão porque ficou com medo da água chegar. Eu dormia em baixo com minha mulher, mas com a mão no chão, com medo da chuva, com medo da água. Foi um trauma viu? Foi um trauma horrível, e não procurei meus primos lá no ABC. Não procurei, o orgulho, sabe: "não precisa não, eles também não escrevem para nós, então, não vou procurar não, vou me virar, se Deus quiser eu vou vencer".

Trabalho em São Paulo Primeiro Emprego
Logo que chegamos em São Paulo, eu, minha mulher, meu irmão e nosso amigo, Genival, começamos a procurar emprego. Mas é aquela história de você se deixar levar, lembrei de quando comprei meu primeiro relógio: você é obrigado a engolir o relógio que não é da marca que queria, porque estava se humilhando para comprar à prestação. Se humilhando entre aspas, porque o cara deve ter ganhado mais do que se imaginava. Aí, o Ivanildo me levou para passear. Eu me lembro que o Metrô estava sendo construído, um buracão na frente da Praça da Sé, aquelas máquinas descendo, construindo para lá e para cá. Eu falei: "pô, vou trabalhar aqui" porque era a Camargo Corrêa, que era famosa na construção, fazia estradas. Então eu disse: "vou trabalhar aqui". Ele falou: "não Vicente, você não vai trabalhar aqui não. Vamos fazer o seguinte, você já trabalhou de inspetor, eu tenho um lugar para você trabalhar, de guarda de banco. Lá é bom, você ganha um salário muito melhor, fica tranqüilo, você já tem estudo". Aí, eu tive que aceitar o que o Ivanildo, cheio de boa vontade, pediu. Eu não queria, mas não tive coragem de dizer que não queria. E lá vamos nós fazer teste. Primeiro, aconteceu uma história com minha carteira de identidade do Rio Grande do Norte. Está aqui até hoje, brigo para que ela se mantenha até hoje. E se mantém e é reconhecida. Mas eles queriam, lá no lugar, cortar minha carteira para fazer outra. "Então, eu trago amanhã". Aí, eu disse que perdi, para não cortar a carteira. Fizeram uma outra carteira de identidade, tiraram um monte de documentação nova que não precisava, uma outra carteira de trabalho que não precisava. Eu acho que podia ter maracutaia ali, não sei se tinha, hoje imagino que podia ter. Quando foi para fazer teste, muita gente do interior, foi aí que eu resolvi ir para o interior aqui de São Paulo. Eram policiais que faziam treinamento, ensinado a atirar, a marchar, dando aulas sobre o que nós éramos, o que não éramos. Eu me lembro até hoje que diziam: "está vendo? Vamos olhar esse quadro aqui", tinha um quadro com pessoas lá em cima, um quadro com pessoas médias, um com outras pessoas de corpo inteiro e outro quadro só com a cabeça das pessoas enterradas no chão. O cara falou: "aqueles ali são os políticos e os empresários, aqueles ali são a classe média, esses aqui que estão em pezinho são os policiais, e esses são vocês", que éramos nós os enterrados. Essa empresa de segurança chamava-se Estrela Azul. Eles deram a aula, foi aí que eu ouvi falar muito da Volkswagen que, eles diziam, era o maior exemplo de segurança, que tinha um esquema de segurança melhor do que o da própria polícia. E davam exemplo de como é que podia atirar, de soltar bandido, como é que matava, etc. e tal. Mas me incomodava, porque não era bem aquilo que eu queria, não queria. Aí, um dia, um cara gordão foi nos acolher e, por alguma razão, gritou com um rapaz lá. Ele gozava com as pessoas – tudo gente do interior – ele gozava, gritava, chamava "seu boboca, seu não sei o que". Ele fez uma pergunta para mim e eu respondi gritando. "Você não serve" e me mandou embora. Aí, pediu minha identidade. Rasgou a identidade nova, tirou minha carteira, rasgou e disse: "você vai se virar para tirar outros documentos". Já pensou se eu tivesse dado os documentos meus para ele? Deixei em casa. Para mim foi um alívio, cheguei em casa e "não deu certo e tal". Eu queria um emprego que tivesse casa para morar. Então, ouvi dizer que o clube de aeromodelismo que tem dentro do Ibirapuera, que tem uma casinha, que tem uma piscina, estava precisando de gente. Falei: "opa, vou lá". Mas todo dia eu chegava lá e eles diziam: "vem amanhã". Aí, enquanto eu esperava o emprego, apareceu uma vaga para trabalhar, pertinho, num posto de gasolina na rua Caconde, que chama Posto Caconde. Então, eu ficava no posto lavando carro. Adorava quando chovia porque em dia que chove ninguém lava carro. Eu ficava lavando carro e ia lá no Ibirapuera saber se tinha vaga, lavando carro e ia lá saber se tinha vaga. Essa pendenga toda demorou uns 15 dias. Quando chegou o dia da entrevista, era um coronel reformado, um sargento reformado, o cara chega: "está vendo isso aqui, olha essa latrina aqui, tem que ficar sempre branquinha, não quero ver ficar, nunca, amarelo". Eu queria o emprego porque tinha a casinha no fundo para eu morar, o meu interesse era esse, morar com minha mulher. "Isso aqui tem que ficar limpinho e, aqui, não é para conversar com ninguém que vem brincar." Lá dentro tem uma pista de kart de brinquedo, mas de corrida mesmo. E tinha o negócio dos barcos e tinha também os caras com aquele avião pendurado no cordão e rodando. E o cara dizia: "não é para conversar com ninguém aqui, você tem que trabalhar, não é para conversar, a hora é essa, a hora é aquela". O trabalho que eu fazia era limpar, zelar, limpar, cortar grama, limpar banheiro, fazer tudo, ser faxineiro lá. Eu pensava: "está bom demais, estou aceitando, eu acho bom ter lugar para morar, vai ficar ótimo." Ele chegou perto de mim, no final, e disse: "você é novinho, veio do nordeste, o que é que você pretende na vida?" E eu, achando que ia ganhar ponto com ele, disse: "olha, meu sonho é vencer na vida, eu quero trabalhar, quero estudar." Ele falou: "então, você está demitido." Foi um choque para mim, ninguém imagina Ele falou: "eu não quero alguém assim, eu quero alguém para ficar aqui. Você vai ficar aqui 6 meses e vai embora. Então, não quero, está demitido". Eu até pensei que ele estava brincando comigo quando falou assim, aí eu comecei a dar uma risadinha e ele falou: "não, você está demitido, pode ir embora". Rapaz, eu fiquei tão triste, tão machucado com aquilo ali Tem uma vidraça lá, por trás, eu saí revoltado, peguei uma pedra, meti a pedra na vidraça, quebrou tudo. Mas eu nunca corri tanto na minha vida, achando que todo mundo estava atrás de mim. Não dava para me pegar, porque tinha uma cerca grande, para me pegar tinha que dar a volta, mas eu corria, eu corria... dei uma volta pelo ginásio para despistar e não fui mais no posto. Porque era para ir no posto pegar um roupinha que eu tinha lá. Peguei um ônibus que ia para um outro lugar – porque era para eu voltar para o Ipiranga – o ônibus era chamado "fábrica não sei o que". Fiquei com muito medo, mas não aconteceu mais nada. Nesse tempo, enquanto eu estava trabalhando no posto, também foi um momento muito duro, porque, como o Ivanildo era muito pobrezinho, a comida dele era muito simples. E era muita gente, então, no almoço no posto, eu comia para chegar lá dizendo que já tinha jantado, para não incomodar o nosso amigo. Aí, um dia ele pega eu, meu irmão e o Genival comendo um frango cozido na frente de casa, com uma fome braba.

Trabalho em São Paulo São Bernardo
Minha ida para São Bernardo foi assim: nós estávamos procurando emprego em São Paulo, eu e a Preta. Ela estava trabalhando de empregada doméstica ali em volta da casa em que estávamos hospedados. Um dia, até, eu achei que tinha roubado uma banca, porque eu pedi o jornal para procurar emprego e me deram um pacote enorme de jornal, o Estadão, uma coisa grande. Eu falei: "me deram coisa errada aqui". Aí, o cara falou: "não, jornal no domingo é assim", um pacotão horrível, de emprego. Naquele tempo tinha muito emprego. Aí, mandei uma carta para a minha mãe: "mãe, está tudo muito bem aqui. Eu logo, logo, vou começar a mandar dinheiro para a senhora. Já faz 8 dias que eu estou aqui e não vi o sol nenhuma vez", porque era muita chuvinha naquele tempo E era raro, para nós, ficar 8 dias sem ver o sol, então, tinha que dar a notícia. Com isso, a minha mãe, sempre esperta, descobre onde mora os meus primos em São Bernardo e manda uma carta para eles dizendo que eu estou lá. Quando chega um belo domingo, meus primos chegam lá: "você não avisou que veio para cá, rapaz? Não, você não vai ficar aqui, não. Vai lá morar com a gente, e tal, e vai." Eu falava: "não, não precisa não, rapaz", mas estava doidinho para ir. E aí, nós preparamos para ir, perdi as esperanças de tudo aqui e fui lá para São Bernardo. Tudo explicadinho, fomos morar na Vila Rosa, na casa de meus primos, em São Bernardo. Aí, a Preta ganhou um saco cheio de panela, prato, colher; as pessoas com quem ela trabalhou no Ipiranga foi que nos ajudaram. E eu ganhei roupa, de frio principalmente, e nós fomos para São Bernardo. Eu me lembro até hoje disso, quando nós descemos na rodoviária com aquele saco na cabeça eu dizia: "ai Preta, já pensou se vissem a gente lá em Acari com esse sacão de panela na cabeça?" Meus primos eram vizinhos de uma família adventista do sétimo dia, que nos deu uma cesta de alimentos. Então, já estava bem demais, já tinha comida, já tinha roupa, já tinha tudo, só faltava arranjar emprego. E arranjei emprego pertinho de casa, 11 dias depois. Porque eu fiquei escolhendo lugar para trabalhar. Parece mentira, naquele tempo, nunca vi: "olha, eu não gostei dessa fábrica, vamos procurar em outro lugar" e ia, e vinha. De ajudante entrava no mesmo dia, mas falaram: "não, fica tranqüilo que você vai ter emprego, não se preocupe não."

Trabalho em São Bernardo Tamet
Em São Bernardo, arranjei emprego 11 dias depois que cheguei. E, por incrível que pareça, de apontador. Só que era apontador de peças e não apontador de gente, era marcar a quantidade de peças produzidas. Foi na Tamet. Trabalhei dois anos lá. Enquanto eu estava na Tamet mesmo, procurei um lugar para morar. Morei em Diadema. Me lembro que o primeiro salário, ah, foi muito bom Era um salário bom naquele tempo. Mas coisa era promessa: "o primeiro dinheiro que eu ganhar, vou mandar para minha mãe". Enquanto minha mãe foi viva, enquanto eu trabalhava, estava no Sindicato – era até automático –, era descontado um salário mínimo sempre para ela. Era a Sílvia que fazia a remessa da graninha para a minha mãe. Eu entrei na Tamet em 1976, um mês depois que cheguei aqui, porque eu fiquei um tempo morando lá em São Paulo nesse ínterim. Mas eu acho que, já em 77, talvez em maio por aí, depois que eu trabalhei em torno de 6 meses mais ou menos, eu ouvi dizer que estavam fazendo teste para fazer um curso no SENAI. Então, fui me submeter a esse teste. Fiz o teste, passei e comecei a estudar no SENAI. No SENAI concluí o curso de Controle de Medidas. A área do curso foi escolha minha. Era um curso à noite. Eu era apontador e, ao terminar o curso no SENAI, fui promovido na Tamet para inspetor de qualidade. Era uma empresa pequena, em que a gente aprende de tudo. Então, lá, eu trabalhava com torno mecânico, controle de qualidade, traçagem. Aprendi a traçar lá na Tamet, aprendi a trabalhar com estamparia, com vários tipos de coisas, que foi o que me deu um bom cabedal para fazer um teste na Mercedes, depois. Enquanto isso, a Preta trabalhava na empresa vizinha, INBRAC que, naquele tempo, se chamava Comander. Era uma empresa de equipamentos elétricos, ela trabalhava de ajudante, puxando fios, puxando cabos. E, como a empresa dela ficava a 1 quilômetro de distância da empresa que eu trabalhava, depois do trabalho eu ficava esperando ela vir e a gente ia, os dois, para casa. Nós ainda não tínhamos filhos. Em 1977, nasceu o Hudson. Aí, ela parou de trabalhar na fábrica. Com o dinheiro que nós ganhávamos, nós pudemos alugar uma casa. Veja só a ironia do destino desse negócio de aluguel de casa. Eu pus na cabeça, num dia que eu estava na casa de meu primo: "eu, hoje, só volto com a casa alugada", então aluguei uma casa. Era um cômodo só, em Diadema, na casa de um cidadão que depois virou meu compadre, o Milton Bispo. Nessa casa, o meu compadre – ele é padrinho do Hudson – fez um andar de cima. Aí, eu fui para a parte de baixo, onde morei até comprar a minha casa, em 1983. Além disso, desde 76, eu vinha construindo uma minha casinha lá em Acari, que terminei de construir em 81, mais ou menos. Ou seja, o salário dava para pagar o aluguel e construir minha casa lá em Acari. Dava tranqüilamente. Quer dizer, nunca pude comprar carro, nunca pude comprar nada, não podia nem comprar casa, mas dava para pagar o aluguel, comer bem e ainda mandar um pouquinho para a casa. Isso sim, era um grande alívio: ter o que comer. Mas chegou um momento, na Tamet que comecei a ficar chateado e acabei saindo. Foi por causa de um rompante. Se bem que não sei se a palavra certa é rompante. Mas a história foi que, um dia, eu falei para o Cícero – ele é vivo até hoje, mora em Currais Novos – que era o chefe do Departamento Pessoal: "olha, um dia eu ainda vou aprender leis, só para saber se pagam todos os nossos direitos". Esse camarada nunca mais falou comigo. E ele era um cara que, quando eu vinha do mato e ia para o escritório, ficava conversando comigo, muito alegre, muito dado. Pois ele me isolou completamente. Então, esse foi um motivo que eu fiquei chateado na firma, não quis mais ficar lá. Mas também, o que tinha acontecido? Na Tamet, eu era primeiro apontador e, depois, inspetor. Como apontador e inspetor você anda nas máquinas. Tinha um líder nosso, chamado Paulinho que, aliás, eu nunca mais vi. Ele e o João, eram as lideranças sindicais nossas lá. Liderança sindical que nem participava do Sindicato. Mas ouvi falar que tinha greve na Mercedes, na Volks, etc. Mas lá, a gente não fazia greve, a gente dava "paradas". Por exemplo, um dia a gente deu uma parada pelo café. Aí, o chefe descia e, no meio das máquinas, reunia o pessoal e resolvia o problema ali mesmo. Ou se tinha um outro problema, por exemplo, horário para descansar. A gente parava, vinha o chefe: "por que parou, por que parou?". "Nós queremos isso." E ele dava. Era muito diferente, muito engraçado. Mas o que acontecia é que o Paulinho era o líder, só que ele dizia: "Vicente, avisa ao pessoal que a parada é tal hora." Então, eu não era líder coisa nenhuma, ele era o líder, mas mandava eu avisar o pessoal. Eu passava assim: "olha, vai ser 10 horas, o Paulinho falou que é 10 horas." Dava 10 horas, parava todo mundo, entendeu? Com isso, o Betelle, que era o engenheiro-chefe geral, muito brincalhão, muito dado, começou a me perseguir. Num sábado, em hora extra, eu fui lá para controlar umas peças do Metrô, que estavam sendo feitas. E essas peças, algumas vezes, não têm recuperação, elas são rejeitadas e a gente falava que a peça morreu. E, nesse dia, morreu um monte de peças, umas 30 peças. E o que foi que ele fez na segunda-feira? Me deu uma advertência. Eu fiquei indignado, porque nunca tinha perdido um dia de trabalho, tinha certeza de que não fui culpado daquele negócio lá, foi um problema da máquina. E era um problema impossível de se medir ali, porque eu tinha que olhar se estava fazendo umas estrias que precisava fazer. Mas, a medida do rotor de um eixo lá, não precisava ver porque era normal, nunca tinha dado problema. Me deu advertência, eu fiquei indignado, sabe o que foi que eu fiz, com dois anos de empresa? Eu saí da fábrica de manhã, não fui trabalhar, resolvi sair. Para me vingar da fábrica, procurei um famoso médico chamado Dr. Ribas, em Diadema. Ele era o mais famoso entre os operários, porque dava atestado, você comprava o atestado. Ele é vivo até hoje, inclusive. Aí eu falei: "Dr., estou de saco cheio". Quer dizer, foi uma corrupção na minha vida, né? Eu dei o dinheiro, que era pouco, não era muita coisa não, qualquer operário podia dar. E ele me deu uma semana. Aí, eu tinha uma bicicletinha, que era o meu veículo de comunicação e, com essa bicicletinha durante essa semana que não tinha trabalho, fui procurar emprego.

Trabalho em São Bernardo Mercedes-Benz
Minha entrada na Mercedes foi uma sorte. Eu estava de atestado médico por uma semana e procurando emprego com minha bicicletinha. Procurava num lugar, no outro, subia, descia: "vou chegar lá e dizer que não quero". Para minha sorte, numa quarta-feira, cheguei na Mercedes meio-dia e tinha lá: "precisa-se inspetor de qualidade". Não tinha fila nenhuma. O cara me atendeu e falou: "olha você está dentro dos requisitos, então, venha às duas horas da tarde fazer o teste." Mas eu peguei aquela bicicleta com uma velocidade tão grande para casa, quase que eu morri no meio do trânsito, para dar notícia que tinha arranjado emprego na Mercedes. Cheguei em casa me arrumei, peguei o ônibus, fiz o teste, passei. Aí, começaram a chamar para ir no médico, fazer exame de saúde. Quando eu fiz o teste e passei, eu cheguei lá na Tamet e falei: "agora eu não quero mais isso aí". O Albertino me chamou: "não faz isso rapaz, vamos rasgar a advertência." "Não, não quero mais ficar." Na Mercedes eu ia entrar com um salário melhor que na Tamet, onde já estava há dois anos. Entrei na Mercedes assim, trabalhei de inspetor de qualidade. Sou empregado daquela empresa lá até hoje. Quando entrei na Mercedes – até declarei isso em determinados momentos em campanhas, quando fui adquirindo consciência, quando já era um liderança sindical – eu me senti, primeiro, muito bem. Tinha ônibus, tinha comida. Lá na Tamet não tinha comida, você tinha que levar marmita. Sabe quando você vai no ônibus para casa? Às vezes eu ia de ônibus e sempre vão as mesmas pessoas, os mesmos homens, sempre naquele horários, as mesmas mulheres. E tinha umas mocinhas que eu ficava paquerando e olhava – casado hein? danado – para as mocinhas, elas olhavam para mim, mas nunca falava nada. Sabe, aquela paquera sem saber que está paquerando, sem nada? E eu com aquela marmita nas costas. Uma hora, uma delas falou: "cuidado rapaz, você está me furando com o garfo aí" Pronto, foi a maior vergonha do mundo, nunca mais quis encontrar aquelas pessoas. Chega na Mercedes tinha restaurante, tinha clube.

Relógios
Eu tenho trauma de relógios. Vou até contar essa história, porque é interessante. Eu gosto muito de relógio, adoro, e até fico constrangido com a quantidade de relógios que eu tenho em casa. Tenho uns 30 relógios porque às vezes me dão, às vezes eu compro. Quando viajo e tenho dinheiro eu sempre compro, claro, sempre relógios baratos, mas também não são esses relógios que se vende na rua de R$10,00. Seiko, Orient ou outras marcas. Eu tenho até um relógio caro que ganhei de presente, um Ômega, mas esse, infelizmente, roubaram. Bom, então, eu queria relógio. Eu trabalhava na seca de 70 e comprei o primeiro relógio da vida. Foi um relógio Lanco – é por isso que eu procuro um relógio Lanco. Se alguém descobrir quem tem um relógio desse, me procure que eu vou comprar, seja lá por que preço for, se eu puder comprar – era um relógio simples, à corda, comprei por um preço baratinho. Mas o relógio era maluco, ele adiantava demais, adiantava assim uma hora por dia, então, foi uma frustração porque o relógio era maluco. Depois meu irmão comprou um relógio Grão Duque, que era um relógio melhorzinho, bonitinho também. Se eu achar, também vou comprar. Aí, fui trocando de relógio para lá e para cá. Quando meu irmão viajou para o Sul, ele volta com um relógio Seiko, que era a moda da época. Eu fiquei doido por aquele relógio, e achava que ele tinha que me dar o relógio de presente. Nunca tive coragem de falar para ele me dar o relógio de presente. Mas, coitado, ele veio, foi acabando o dinheirinho, foi acabando o dinheirinho e, de repente, ele vendeu o relógio para outro. Fiquei super frustrado com aquilo. E lá tinha um seu Demétrio que era um homem que vinha vender relógio na cidade, vinha com as bolsas com relógios para vender e todo mundo comprava relógio dele, relógio Oriente, relógio Seiko. Mas, como a gente vai comprar as coisas meio humilhado, vai comprar à prestação, não podia comprar o relógio. Eu me lembro que esse relógio, quando fui comprar, paguei em quatro meses. Porque o dinheiro era muito pouco, tinha que comer e comprar o relógio. Quando eu fui comprar o relógio eu falei para o seu Demétrio: "Seu Demétrio, eu quero aquele relógio japonês, automático, quero para pagar em quatro vezes". Me lembro até como se fosse hoje, ele falou: "Está bom, eu vou trazer". Só que ele me trouxe, de fato era um relógio japonês automático, mas nem era Seiko, nem era Orient. Fiquei frustrado, mas não tive coragem de reclamar. Era um relógio Ricoh, que era tão provável que fosse de marca inferior que quebrou logo. Fiquei frustrado com aquilo, eu nunca mais pude comprar um relógio. Então, vim com esse negócio na cabeça. Aí, em São Paulo, eu comecei a gostar de relógio, quando podia comprar eu comprava. Como dirigente sindical, fui convidado a participar do Congresso dos Trabalhadores da Toyota, eu era presidente do sindicato. Fui eu e o Osvaldinho do Dieese. Eu falei: "Aqui eu vou comprar o relógio Orient ou Seiko e vou comprar aqui, direto do Japão, acabou meu problema". Comprei o danado do relógio Seiko e vim embora. Aí, quando eu fui mexer, que eu olhei no fundo do relógio, "feito em Taiwan". Aquilo me deu uma decepção tão grande Então foi isso, de vez em quando eu compro relógio. Não vou mais para o Japão, certamente, vai ser difícil. Às vezes, quando eu vou para a Suíça – eu já fui umas duas ou três vezes na OIT – eu compro relógio. Mas compro reloginho baratinho, assim de R$20,00, de R$30,00, embora sejam relógios bons, não é esse que vende de qualquer maneira. E eu gosto de relógio que você dá corda ou automático, não mais relógio a pilha. É bobagem contar mas faz parte de minha vida.

Início da Vida Sindical
Eu fiquei sócio do Sindicato em 1977. Eu ainda trabalhava na Tamet. Tem muita gente por aí que diz que me sindicalizou, não é verdade. Eu fiquei sócio na Tamet, em 1977 e entrei na Mercedes em 1978. Eu fiquei sócio para ter algum lugar para me relacionar com as pessoas. Eu achava que o Sindicato era como se fosse um clube. Eu imaginava que tinha clube mesmo, para poder se encontrar, ir para alguma festinha. Fui no prédio e me sindicalizei. Não foi ninguém que fez campanha para me sindicalizar. Tanto que, quando eu me sindicalizei, meses depois houve a eleição do Lula e fiquei frustrado porque não votei. Fiquei frustrado porque meu nome não estava na lista para votar. Mas frustrado só porque eu queria ter o direito de votar. Eu sabia lá quem era Lula? Não tinha a menor idéia. Mas fiquei frustrado por causa disso, porque, quando a gente vem, assim, a gente quer participar, quer ser igual. Então, fiquei sócio dessa maneira. Mas, terminando o curso do SENAI eu entrei no Sindicato, para ajudar na escola. Tinha um professor chamado Mick. Em 79, nós ficamos muito putos com a Diretoria quando ela pediu um prazo de 45 dias e, depois desse prazo, pediu um voto de confiança, nós voltamos para a fábrica. Então, na escola, o tema era esse: reclamação da Diretoria, o Lula não quis mais fazer a greve, não sei o quê. E o Mick pegou a palavra e disse: "olha, toma cuidado porque o que vocês estão falando aqui, será que não são os patrões que estão querendo? Essa divisão, será que não interessa aos patrões?" Não esqueço nunca disso. Aí, eu comecei a repensar: "opa, espera aí, acho que não é isso, deve ter outras razões". Como eu, muita gente também foi adquirindo um grau, ali, de consciência.

Greves Greve de 78
Eu não participei da greve de 78, participei das paradas na Tamet. Porque eu entrei na Mercedes em junho ou julho, a greve já tinha acontecido. Mas foi interessante porque eu entrei no clima pós-greve. E entrar no clima pós-greve era uma polêmica tão grande, porque é o seguinte: por exemplo, eu conheci as pessoas que, por terem furado a greve, não podiam ir em nenhum setor, porque os caras jogavam mangueira de ar nele: "furador, seu furão de greve, e tal." Inclusive colegas meus que furaram greve, e tinha outros que diziam: "aquele cara é um radical." Tinha os dois lados lá. E o pessoal dizia: "olha amigo, você tem que ficar com a gente aqui, cuidado com esses malucos aí do Sindicato, é tudo um bando de doido. Você vai ser mandado embora logo se você participar desse pessoal." E os outros diziam "olha, cuidado que isso é um bando de traidor, é tudo um bando de pelego." Graças à Deus, optei por um lado. Quando o pessoal fazia assembléia lá na porta da fábrica, eu parava para ver. Eu tinha alguns orgulhos. Mesmo quando o Sindicato ia fazer assembléia, que o Lula ia, que o povo entrava – porque acontecia momentos desses – eu ficava ali. Com medo, mas ficava até o fim para assistir a assembléia – era um respeito que você tinha –, depois entrava.

Greves Greve de 80
A greve de 80 é um orgulho que eu tenho, porque ela durou 41 dias, eu fiz os 41 dias de greve. Eu não gosto nem de falar por aí, porque tem muita gente boa que não é culpado, que teve que trabalhar 30 dias após a greve. No meu setor, de 108 pessoas, apenas 5 fizeram 41 dias de greve, eu fui um deles. O Valentino, inclusive, que era do meu setor, também foi um que fez 41 dias de greve. Eu fiz 41 dias porque, primeiro, quando o pessoal decidiu furar a greve, quando o Almir Pazzianoto deu a declaração que podia dar justa causa, não sei o quê, e todo mundo sem dinheiro, querendo um jeito de se virar, eu me senti muito mal. Eu falei para o pessoal do bar: "gente, não vamos fazer isso, a Diretoria está presa dentro do Sindicato." Porque o Almir Pazzianoto deu uma declaração na Rede Globo dizendo que, passou de 30 dias, ia dar justa causa. Então, todo mundo ficou com medo. E ele era advogado nosso, ora, se fosse um advogado patronal que dissesse isso, a gente nem ia ligar. Mas era advogado nosso, ao declarar isso, pronto, acabou com o movimento. Foi um motivo para furar a greve como se furou, porque, não sei ao certo mas, com certeza uns 80% ou 90% do pessoal furou naqueles 30 dias. Alguns fatos foram marcantes naquela greve. Não vou nem falar pela ordem de importância mas, por exemplo, no dia que nós chegamos no Paço Municipal e a polícia dispersou a gente e fomos fazer a palavra democracia. Aquilo foi muito marcante, se não me engano foi numa segunda-feira. Foi um dia desses, muito bravo, não esqueço nunca daquele dia. Fiquei sentado ali, no lugar do C. Democracia, aquele foi um dia marcante Outro dia marcante: eu e o Milton Bispo fazíamos piquetes juntos. Toda vez que tinha confusão na Jurubatuba, a gente subia, se escondia da polícia num matinho que ficava ali, subindo a ladeira na Matarazzo, que era fechada. A polícia passava, ia, voltava, ia, a gente ficava escondido ali, sempre fazia isso. Outros começaram a descobrir o lugar e vinham também. Então, tinha uma turminha boa que ficava ali. Um belo dia, lá vem a polícia na cavalaria lá de cima, e havia polícia em baixo. E a gente nem podia voltar e nem podia subir. Aí, pulamos o muro que, de um lado era baixo mas, do outro tinha uns 2 metros de altura. Machuquei meu pé, foi uma queda horrível, um cara se machucou mais do que eu. Esse muro dava numa casa, tinha um cachorro bravo lá dentro. E a mulher: "meus filhos, vocês estão acabando com o país." Aí, deu suco de laranja para nós, nós fomos embora. Até tentei visitá-la um tempo desses, mas acho que ela morreu. Outra vez, a gente tinha descido do Sindicato e tinha um bar ali na Marechal e, quando a gente estava dentro do bar, a polícia chegou jogando bomba. Nós corremos, quando eu corri com os colegas, que entrei na rua à direita, entrei numa casa. Estava lá dentro, no que eu vi, era a Delegacia de Polícia Civil que tinha ali. Mas também não fizeram nada conosco.

1º de Maio de 80
O 1º de maio foi a coisa mais marcante da greve de 80. Inesquecível Quando eu cheguei lá, já estava acontecendo a missa, então, tinha muita gente na praça e lá dentro. E uma fila de policiais. Eu fiquei perto de um policial, do lado direito, perto da fila, parado, porque não tinha como entrar nem nada. E o povo chegando e gritando. Eu me lembro muito de um soldado que chorou, na nossa frente, duro, assim paradão, uma lágrima descendo. Aí, veio um cara e tirou ele de lá, a lágrima descendo, e a gente gritava "irmão, soldado, você também é explorado", alguma coisa assim. Então foi muito marcante. Daí a pouco, eu só vejo as polícias que estavam ali recolhendo a corda, as pessoas saindo, comandante mandando sair, subindo num caminhão e começou a gritar. Era uma festa os helicópteros: pá, pá, pá, pá, Aí, nós descemos em passeata. Nem sei se deram término na missa, só sei que nós descemos na Marechal, aqueles helicópteros em cima mas sem polícia, só lá em cima olhando, mas bem em cima mesmo, altura muito baixa,. Eu sentia o vento, inclusive. Fomos até o Paço Municipal, quando chegamos lá, nós não agüentamos, corremos para a Vila Euclides, porque o Paço também estava cercado. Aí, chega lá, também já não estavam mais. Eu me lembro muito, nesse dia também me emocionei muito, até deitei no chão, na grama, rolava. Eu me lembro que tinha uma arquibancada do lado direito da Vila Euclides que uma parte era quebrada e outra parte inteira. Eu gostava de assistir assembléia lá, então, não tinha assembléia naquele dia, não tinha nada. Mas eu olhei a grama, fui até o lugar que era o palanque e não tinha palanque coisa nenhuma. Rolei, fiquei ali, e chorava, foi um negócio muito interessante. Depois a gente subiu, fiquei lá sentado, sozinho, eu e mais três "é aqui, vamos ficar aqui", ficamos um tempão, depois fomos embora. Esse dia é inesquecível Inesquecível porque não sei quantos dias fazia que a Diretoria estava presa, mas a gente estava sentindo muita falta da Diretoria. As pessoas que lideravam as assembléias eram o Rubão, depois o Rubão foi preso. Depois, era o Nelson Campanholo. Mas nunca o Rubão nem o Nelson Campanholo tinham o dom da palavra que tinha o Lula, que tinha o Alemão e que tinha o Osmarzinho, que eram as lideranças que falavam e a gente ouvia. Dos outros eu me lembro muito pouco. Lembro que o Batista falava, mas não era sempre. Então, a gente sentia falta, saudade. Aquele negócio de chegar lá em cima, portanto, foi um momento muito bonito, muito marcante.

Negociação da Previdência
No meu primeiro mandato na CUT teve o processo de negociação da previdência. Esse processo se transformou em uma grande polêmica. Mas acho que aquele foi um dos debates mais importantes que nós tivemos. A CUT virou uma referência nacional, foi depositada nela uma confiança popular para a solução para a previdência. Acontece que havia setores, dentro da própria CUT, contrários à negociação. São setores que não topam nem a negociação. Quando ficou insustentável defender que não negocie, eles procuraram as divergências pontuais nas questões da previdência. A gente sempre agiu com muita transparência, com muita ética e baseado naquilo que nós tínhamos discutido. A gente tinha uma cartilha, que foi a conclusão de um seminário nosso de proposta para a previdência. Naquela cartilha tinha a questão da contribuição, que era a grande polêmica a que eles se apegaram depois. E aí, começou a criar toda a polêmica de nível nacional. Eu senti ali que, de fato, algumas divergências são muito ruins porque as pessoas querem destruir a vida de alguém, destruir a história de alguém por causa de uma negociação. Nosso objetivo era garantir direitos, combater privilégios e modernizar a previdência. Eram esses os objetivos. E a proposta era a participação quadripartite. Porque deveria haver a contribuição como existe hoje, mas a maneira de provar era o mesmo sistema do passado, bastava o operário ter carteira de trabalho, não tinha outro esquema qualquer. Mesmo que não tivesse, bastava ter testemunhas. Quer dizer, a gente estava agindo direitinho, muito certinho, muito corretamente, não é? A repercussão maior foi no debate, mas é bom lembrar que, durante o debate, alguns jornais até fizeram pesquisa para saber qual era a opinião das pessoas. Eu me lembro que o Estadão fez uma pesquisa na nossa categoria e 86% estavam aprovando o que a gente estava fazendo. E no Congresso da CUT e na Direção Nacional da CUT também, 70% aprovando o que nós estávamos fazendo. E, depois, o Congresso da CUT aprovou tudo o que a gente estava fazendo. Então, houve aquela briga toda. O que foi mais grave ali não foi essa briga interna, embora a gente tenha se sentido machucado pela postura desrespeitosa, muitas mentiras espalhadas pelo Brasil. isso são coisas do movimento sindical e dependem do discurso. Você tem que assegurar o seu discurso, senão perde para a sua própria base. Entre eles tem muita gente séria, tem muita gente boa, mas tem muita gente mau caráter. Se bem que isso tem em todo lugar. Essa briga interna a gente topava, como sempre topou. Aliás, a construção da CUT, o debate sobre todos os temas, as coisas novas, sempre são em cima de muita divergência, desde a criação das comissões de fábrica, renovação da frota. Outras questões são colocadas no dia-a-dia. Mas o que foi grave ali foi a gente ter sentado à mesa de negociação, ter chegado a um entendimento sobre todos os pontos – que, aí sim, seria uma grande vitória – e, quando chegou na votação no Congresso, o Governo apresentou uma proposta completamente diferente. Ali é que foi o grave e, a partir de então, a gente perdeu completamente a confiança no Governo. Eu cometi um erro ali. Para mim, eu posso ter cometido outros erros de maneira involuntária, mas o erro principal, vamos dizer assim, o erro que eu reconheço que cometi foi que eu depositei todas as fichas em uma solução negociada. Eu acreditei que a gente podia fazer um grande acordo que ia combater os privilégios, garantir o direitos e ter uma previdência renovada. Mas o governo pulou fora. Esse foi o grande problema. E quando falo eu, estou me referindo a mim e aos meus companheiros, porque a gente estava junto, em uma comunidade. Não era somente eu, mas eu era a liderança principal. Então, eu tinha a maior responsabilidade, que sempre assumi.

O Sindicato e a CUT
É muito diferente ser presidente de um sindicato, como o dos metalúrgicos do ABC e ser presidente da CUT. Porque, no Sindicato, a nossa diretoria é muito coesa. Tem divergências, a nossa categoria também tem divergências, mas a proporção é muito pequena. Quando eu era presidente do Sindicato, foi na Câmara Setorial, foi na greve que conseguimos melhores qualidades de trabalho, foi nas convenções coletivas que a gente negociou anualmente. A gente tem coisa palpável para sentar e buscar fazer acordo, e fechar. Muito ali, junto com todo mundo. A CUT tem alguns problemas. Primeiro, eu acho que a gente avançou muito. A CUT cresceu muito o número de sindicalizados, de filiados, de sindicatos filiados, hoje são quase 20 milhões, eram 14, se eu não me engano. A CUT tinha dívidas, devia previdência social, devia um monte de coisas que eram inaceitáveis. Não deve mais. Não estou culpando os meus companheiros que passaram não, quem sabe, se eu estivesse lá, faria a mesma coisa. Mas, esse é um fato positivo. A CUT pagava aluguel, saí com uma sede própria. No meu mandato, conseguimos ter todos os Estados com CUTs estaduais, a última foi Roraima. Muita coisa boa a gente fez, muito salto de qualidade, muito debate e tal. Mas tem duas coisas na CUT que eu saio frustrado. Eu gostaria de ter ajudado e gostaria de ter conseguido. Uma delas, é qualificar mais o debate interno da Central. O que é qualificar? Na CUT, a gente faz congressos estaduais. As questões que são aprovadas consensualmente desaparecem no Congresso Nacional da CUT. Já é consenso, então você só lê, às vezes nem lê. você vai exatamente onde está a divergência. Então, você vai para um congresso preparado para a briga. O que é muito ruim. Para mim, metodologicamente, é muito ruim. Eu sempre quis fazer uma coisa que era assim: todos os estados se levantam, falam da sua realidade, tem muita festa, muita euforia, confraternização. Isso nunca foi possível. No lugar da gente trazer as propostas com dados e na base real – para mim poderia ser muito mais comum – você traz a divergência ideológica e essa divergência ideológica faz com que, se você perdeu a votação lá na sua cidade, você continue defendendo a tese até o Congresso assinar, mesmo que você tenha perdido. E aí, o debate é de quem é mais revolucionário, quem não é, no lugar de discutir o problema, como gerar o emprego, como construir alternativa, como enfrentar o problema comum, como um estado ser solidário ao outro estado, como uma categoria buscar solidariedade junto a outra categoria. Enfim, se entrelaçar mesmo. Então, isso é uma frustração que eu tenho e confesso que sei que é muito difícil. Minha outra frustração é construir a verdadeira autonomia sindical. A gente tentou, não é? A questão da imposto sindical, da criação de sindicatos de acordo com a vontade dos trabalhadores. E fortalecer a unidade, porque isso não é para enfraquecer, pelo contrário, é para ter sindicatos unificados. Então, esse salto a gente começou, mas não deu como gostaríamos. Infelizmente. Mas está aberta a porta, tem sindicatos criados, tem sindicatos que não descontam o imposto confederativo mas, ainda, nas leis, não se modificou, embora a gente tenha até discutido propostas. Mas, chegando em Brasília, a gente percebeu que muitos que faziam discurso só faziam discurso. Às vezes, até alguns sindicatos filiados à CUT. Que na hora de dizer assim: "Olha, não vai ter mais imposto sindical. Você tem que sindicalizar para poder sustentar" a pessoa não fala contra, embora tenha uma tendência que fale radicalmente contra, que é a Corrente Sindical Classista. Essa é transparente, ela fala isso mesmo. Mas os outros não falam, ficam lá, de maneira que quando a gente apresentou o projeto em Brasília quase que nós apanhamos no Senado, porque outras centrais quiseram dizer que aquilo era para acabar com o movimento sindical e estavam lá brigando as velhas federações e assim por diante. E o governo, malandramente, que também dizia que concordava com a deliberação do movimento sindical, para fazer politicagem com as centrais de classes conservadoras, finda protelando essas deliberações. Mas eu acho que isso é uma coisa que logo, logo vai acontecer. Temos boas expectativas.

Avaliação
Eu acho que uma das coisas mais marcantes do nosso mandato na CUT foi um trabalho que a gente começou no sentido de combater o trabalho escravo. Esse foi um trabalho interessante, mas eu percebia que uma parte da Direção não estava muito animada. Essas coisas são difíceis, é muito complicado, então, ficava puxando para um lado, não valorizava. A gente queria, por exemplo, criar o disque escravidão. Para instalar isso deu um trabalho danado porque internamente uns não puxavam, perdemos alguns profissionais importantíssimos que tiveram, por razões internas, que sair. Foi ruim também. No meu primeiro mandato tive muita dificuldade de implementar um monte de coisas que considerava interessantes para uma Central como a nossa. Mas acho que os Primeiros de Maio foram importantes nesse período. Não tivemos um 1º de Maio fragilizado. Acho que a greve geral foi uma coisa que nós fizemos, mas não foi a melhor. Já tivemos momentos antes muito melhores, mas também foi um momento marcante onde a gente conseguiu reunir as centrais sindicais. Acho que tivemos participação, nesse caso, na minha avaliação, mais decisiva nas campanhas presidenciais. Foi muito mais decisivo, a gente participou muito mais efetivamente enquanto dirigentes sindicais, apoiando, fazendo campanhas. Acho até que a gente uniu outras centrais sindicais em torno da candidatura do Lula. A Marcha dos 100 mil foi uma coisa muito marcante, o apoio à luta do MST também foi muito marcante. E as atividades internacionais. A gente teve mobilização internacional aqui, em Belo Horizonte, por exemplo, que foram muito positivas. Assim, 3 mil pessoas nas ruas por questões da globalização. Mas é difícil falar de sete anos em 30 segundos.

Avaliação Igualdade Racial
A CUT também teve um papel muito importante na discussão das questões setoriais, especialmente a questão do negro. Já havia uma comissão de combate ao racismo, que foi fortalecida, criamos com as centrais sindicais, um instituto chamado Instituto Interamericano pela Igualdade Racial no Trabalho. Dessa vez, inclusive, comprometendo e envolvendo-se com centrais sindicais como a Americana, algumas da América Latina, mas, especialmente aqui do Brasil, três centrais sindicais. Fizemos denúncias, em alguns lugares com sucesso. Em outros lugares os processos continuam e estamos para construir, inclusive, o que eu chamo de código de ética com os empresários – aqueles que topam – que é não permitir nenhum tipo de discriminação no local de trabalho. Não é só para contratar, mas também para a promoção, para qualidade de salário. Fizemos uma pesquisa o ano passado que repercutiu muito em nível nacional e internacional a realidade do negro. Eu aprendi muito e me comprometi muito com essa luta por causa do movimento negro mesmo. O nosso Sindicato sempre foi aberto às questões do movimento social e, lá, havia o Movimento de União e Consciência Negra. Adomair e outros companheiros vinham conversar comigo, e a gente começou a fazer o 20 de novembro lá durante vários anos. Eu comecei a participar do Movimento, assistir reuniões, participar, desenvolver e comecei a aprender. Como qualquer movimento tem uma parte sempre muito sectarizada. Você sempre desconta o sectarismo desses setores porque são setores excluídos. Então, eles reagem onde podem reagir. Aí, fui me conscientizando, fui adquirindo isso e colocando também a instituição porque eu tinha influência, que era o Sindicato nosso, mas também a CUT, a serviço, na medida do possível, dessas causas. E era interessante porque muita gente dizia: "Mas, isso não vai dar certo porque vai dividir o movimento." Pelo contrário, unificou tanto, que unificou até outras centrais sindicais. É uma coisa muito boa o que está ficando aí. Para simbolizar o movimento negro, eu raspei a cabeça. Isso foi na época que completou 300 anos de Zumbi de Palmares. Eu tinha lido, naquele período, um documento do que faziam com os negros, meus ancestrais, na vinda da África para cá. Primeiro, as milhares de mortes que aconteciam no caminho: quando era para diminuir peso do navio, quando faltava comida, quando algum adoecia, eles jogavam no mar. Jogavam e matavam muitos afogados ali na hora. E, quando chegavam aqui no Brasil, no próprio porto, os que estavam vivos, eles colocavam em um lugar e raspavam a cabeça de todos para tirar o piolho, tirar todas as doenças que poderiam vir, porque eram dias e dias no mar. Então, eu falei: "Bom, que tipo de contribuição eu posso dar para esse tipo de coisa? O que eu posso fazer para marcar esse tipo de coisa?" Aí, com os companheiros eu falei: "Olha, eu tenho uma idéia que é ser um pouco símbolo desse negócio. Quer dizer, chamar a atenção para esse assunto." E a gente também tem sempre como meta, protestar contra o 13 de maio e valorizar o 20 de novembro, porque o 13 de maio foi criado pela elite, o 20 de novembro é a data da morte de Zumbi. Então, no dia 13 de maio de 1995, eu raspei a cabeça junto com um grupo de companheiros. E ficamos raspando a cabeça todo dia 13, até o dia 20 de novembro. Nesse período, a gente também realizou uma marcha que foi fantástica. Foi uma caminhada a pé da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora dos Homens Pretos, no Paissandu, até a Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Primeiro, porque Nossa Senhora Aparecida é uma santa negra. Segundo, ela tinha sido vilipendiada meses antes por aquele bispo da Igreja Universal. Então, era um gesto de solidariedade, mas, sobretudo, a idéia era: a gente ia, parava nas cidades, levava shows, música, capoeira, e explicava o que era Zumbi, dando dados sobre a questão negra. Foi uma das coisas mais emocionantes que eu tive na minha vida. De fato foi difícil, foi muito interessante, coisas interessantes aconteceram no caminho. Por exemplo, no terceiro dia de caminhada, todo mundo estava machucado, todos nós. Pé, íngua, bolhas, a turma andava mancando, aí, eu comecei a ficar com medo de não dar certo. Falei: "Esse negócio não vai dar certo." Mas começamos com 53 pessoas e terminamos com mais de 40 mil pessoas. Mas para as 53 foram, até um bom tempo, os piores momentos. Tem um trecho de Guarulhos para lá que pelo amor de Deus Era sol quente e caminhões buzinando, xingando. Isso, no primeiro dia. No segundo, buzinando menos, no terceiro já aplaudindo. E os policiais, muitos apoiando. Me lembro que nós chegamos em um lugar, um cara colocou um caminhão na frente do lugar onde a gente ia se concentrar, o guarda não achou o motorista, entrou, ligou o carro, tirou da frente. Ligou lá diretamente, tirou o carro da frente. Foi um momento muito marcante, muito emocionante até chegar lá. E terminou com um show do Milton Nascimento, com aquela festa maravilhosa que todo mundo acompanhou e foi documentada. Me lembro do Zé Luís, presidente do Sindicato, nessa noite do terceiro dia, foi tomar banho, ficaram passando lã, algodão, e andando torto, pareciam umas múmias andando, todo mundo machucado. O Zé Luís chegou perto de mim, falou: "Vicentinho, puta merda, eu quero saber quem foi que teve essa idéia." Eu falei: "Zé Luís, rapaz, fui eu." "Então, a luta continua companheiro. Vamos até o fim" O Zé Luís era presidente do Sindicato na época, um companheiro negro também.

Ingresso no PT
Eu fiquei sabendo do surgimento do PT dentro do Sindicato. Eu participava das greves. Eu era sócio desde 1977. E, dentro do Sindicato, havia o debate: "vão fazer um novo partido, o PT. Vão criar o PT." Eu me filiei ao PT em 1981, em São Bernardo, uma fichinha pequenininha, provisória. Já procurei essa ficha e não acho, queria colocar em um quadro. Aí, como eu morava em Diadema, o PT se organizou lá, eu me filiei em Diadema. Então, eu sou filiado desde o começo. Se eu não me engano, em Diadema, eu era o filiado número 700. 730. Por aí. Nessa época, no PT, eu não tinha muita militância. A minha militância era mais, sempre, no movimento sindical. Claro que em Diadema, quando eu morava lá, eu participei de corpo e alma da campanha do Gilson. Eu participei das polêmicas e dos debates internos da campanha do Zé Augusto e dos outros. Eu fui convidado a ser candidato a prefeito, apoiado pelo Gilson e pelo Zé Augusto, uma vez. Portanto, eu podia ter sido prefeito na época. Os dois lados me apoiavam. E fui convidado para ser prefeito uma outra vez quando houve uma outra polêmica. Mas eu nunca aceitei porque tinha compromissos com o movimento sindical. Eu também vivi uma parte coordenando a Regional de Diadema. Mas eu, embora seja um petista que espera cumprir o que o PT determina, sempre sou militante sindical, sempre. Eu estou entrando na vida partidária mais intensamente estes últimos tempos porque eu sou candidato. Se bem que eu já fui da Direção Estadual do PT. Quando o Devanir era presidente e quando o Djalma foi presidente eu fui da direção estadual. Mas acho que era assim: era um nome que estava lá, eu ia nas reuniões. Eu não tinha militância. Embora, em todas as campanhas, todas elas, por isso eu estou aliviado agora, em todas as campanhas a gente se mata muito. Anda o país inteiro para apoiar candidato. O país inteiro. E eu vou em uma agenda do PT nacional. Sempre. Campanha do Lula, outra campanha, sempre, o país inteiro, o estado inteiro, caravanas andando, 15 dias fora, para lá e para cá. Como saí candidato este ano, vou ficar só em casa, o que acho ótimo. No PT, a campanha para presidente, em 1989, foi a coisa mais emocionante que nós vivemos no aspecto da política, não é? Tínhamos conquistado o direito de eleição direta, o Lula é nossa grande referência, principal liderança. Os comícios eram muito emocionantes. Todos eles. Muita gente E aquele "olê, olê, olê, olá, Lula, Lula", realmente, a gente não esquece nunca. E quando, em uma certa fase, cantou o Gilberto Gil, o Djavan e, se eu não me engano, o Chico Buarque, aqueles artistas todos, aí, não dá nem para contar. Foi a coisa mais emocionante. Foi muito emocionante realmente. E a gente teve a certeza que o Lula ia ser presidente da República

Suplência de Senador
Eu fui candidato a suplente do senador Eduardo Suplicy. Eu já tinha sido convidado por ele a ser seu suplente na penúltima eleição, mas quando ele me convidou eu era de menor, eu não tinha 35 anos ainda. Tinha que ter mais de 35 anos. Então, nesse segundo mandato, eu me encontrei com ele e falei: "Suplicy, agora eu já sou de maior. Se você quiser, eu aceito." Porque eu queria. Eu já era presidente da CUT. O Suplicy é uma grande referência, então, ele falou: "Vicente, de fato é isso mesmo, já estava pensando em convidar você e está convidado. Vamos buscar agora o segundo suplente." Eu não cheguei a fazer campanha. Eu só fiz campanha para articular o meu nome porque o PC do B queria a vaga. Aí, quando eles souberam que era eu, concordaram que seria o meu nome. Então, não teve problema nenhum. Mas eu fiz campanha no geral, mais como presidente da CUT do que como candidato a suplente. Mas durante a campanha teve um fato pitoresco que foi o Oscar, que estava subindo nas pesquisas. O Suplicy estava ali, não muito bem, a gente não estava tranqüilo, com medo do crescimento do Oscar. E me aparece uma propaganda na televisão, daquelas propagandas eleitorais, em que o locutor dizia mais ou menos assim: "Senhor eleitor, suplente de senador é algo muito importante." E aí... "Você sabe quem é o suplente de Suplicy?" Aí, colocaram a foto minha na porta da Volks e colocaram aquela música do Tubarão. "Vicentinho, aquele das greves." Aquilo foi um impacto, não é? É claro que, quando saiu aquilo ali, já procurei falar com os meus meninos, falei: "Olha, filho, se disserem "Vicentinho, aquele que roubou, ou aquele que traiu, ou aquele que mentiu, ia ser muito grave, mas porque fizemos greve, porque a gente lutou" Então, eles tentaram, com isso, tirar voto do setor mais conservador para o Suplicy. Mas o Suplicy assumiu, o PT teve uma atitude inteligente, porque descobriu quem era o suplente deles e um dia colocou: "Suplente de senador é muito importante. Você sabe quem é o suplente do Oscar? Yunes, aquele que deu de presente 600 mil para o Pitta." Aí acabou com tudo, né? E, ainda assim, eu dei uma declaração colocando o Oscar em cheque mate, para os jornais. Porque, um ano antes, eu tinha sido convidado pela TV Globo a participar da brincadeira de amigo secreto, e eu fui. E eu tirei o Oscar. Então, com o maior carinho, na fábrica, falei com os colegas da escolinha do SENAI, eles fizeram um jogo de xadrez que eu fiquei com vontade de ficar para mim, com material especial, com aço e bronze, belíssimo. Eu dei para o Oscar de presente como um gesto dos trabalhadores, até com a condição também de ele ir lá visitar os operários, falar sobre esporte. O cara nem deu resposta, mas tudo bem, né? E aí, também, antes das eleições, eu tinha me encontrado com a mulher do Duda Mendonça, no avião, a caminho da Bahia. Ela falou: "Vicentinho, o Duda Mendonça te adora. Então, eu vou fazer um convite para você ir ao nosso sítio ficar um domingo com a gente." E aquela história toda. Então, eu nunca imaginava que do Duda Mendonça e do Oscar saísse uma coisa desse jeito, né? Porque essa atitude do Oscar foi um ataque frontal a minha pessoa. Ali, o preconceito ficou aflorado, porque o Vicentinho e o Suplicy eram os principais candidatos. Mas aí, coincidência ou não, na pesquisa dos sábados seguintes, o Suplicy começa a subir de novo e o Oscar começou a cair, né? Agora, não sei até que ponto, mas pode ser que isso tenha ajudado. Então foi uma coisa interessante. Mas qual foi a resposta que eu dei ao Suplicy... Para o Oscar... Aí, eu contei essa história: "O Oscar deu um presente para ele, o Duda Mendonça, a mulher dele não sei o que... Eu tenho um problema com o Oscar que eu estou percebendo." Oscar é meu conterrâneo do Rio Grande do Norte e esse Oscar não tem nem coragem de dizer que é do Rio Grande do Norte. Eu falei: "Eu vou dizer isso." Porque se ele disser: "Ah não, eu adoro o meu estado, adoro o nordeste." Ele vai perder voto do conservador mas se ele ficar calado, vai perder voto do nordestino. O desgraçado ficou calado. Entendeu? Não falou nada. Tem gente que até hoje não sabe que ele é do Rio Grande do Norte. Meu conterrâneo. Oscar Schimidt, do Rio Grande do Norte, é difícil.

Candidatura a Prefeito
Eu sempre fui chamado para ser candidato, em todos os momentos da eleições. Já fui chamado para ser candidato a vereador, deputado federal, estadual. Sempre alguém: "Por que você não vai?" Fui sondado para ser vice do Lula naquela época do Brizola, que deu aquela crise. O Lula e o Mercadante falaram comigo. Chegaram a dizer: "você podia pensar em ser governador." Essas coisas, eles sempre falam. Uns falam, outros não. Então, na minha cabeça, sempre tive essa possibilidade de sair candidato um dia, como pensei em sair deputado estadual em 1986 e federal, na última eleição. Eu vi que em São Bernardo, cidade em que estava morando, tinha uma possibilidade, até porque, lá, o PT estava esfacelado. Uma crise muito grande. As duas outras eleições foram rachas profundos com conseqüências drásticas porque o atual prefeito provocou esse primeiro racha. Ele é uma pessoa que saiu do partido e saiu candidato do Djalma depois de uma convenção muito pesada. E, na candidatura do companheiro Wagner Lino, foi aprovado o nome do Wagner mas muito sem gosto, sem ânimo. E a gente percebia que ia resultar a mesma situação. Como tinha essa possibilidade, então, eu topei. Até porque, para deputado federal, eu pensava em sair candidato para também sair para prefeito. Isso é pensar, agora, a decisão é coletiva, não é? Aí, comuniquei ao Partido que eu estava saindo da CUT e que me colocaria à disposição. E foi uma boa notícia. O partido se reanimou, se unificou. Eu fui aprovado por unanimidade. Fizemos várias reuniões. Fui receber, nas fábricas, autorização para sair candidato. Fiz reuniões em bairros, de maneira que a gente concluiu o primeiro processo que foi o dos vereadores agora, e a indicação do vice, que na verdade, é a vice. Havia três candidatos e agora nós estamos na fase de organização. Nós vamos fazer algumas conferências e estamos colocando o bloco na rua. Agora eu estou mais liberado da CUT para me dedicar à campanha. Estou saindo da presidência da CUT para ficar completamente na campanha. Em termos de campanha, nós já fizemos um almoço com Olívio Dutra, por exemplo. Nós o convidamos para falar um pouco da história dele: sindicalista, prefeito, governador, foi cassado. Tinha 1.500 pessoas no almoço. Depois, a gente fez outro almoço com sete outros pré-candidatos da região. Porque a novidade da região do ABC, e também do Brasil, é que nós vamos ter um programa particularizado em cada lugar que inclui uma parte só para um projeto metropolitano. Inclui todas as cidades da grande São Paulo, especialmente o ABC, e com uma interface com a Marta, aqui em São Paulo. Em função disso, nós fizemos um almoço. Esse almoço tinha 2.500 pessoas. Foi um fato marcante. Outras questões marcantes, já em termos de campanha, foram as assembléia nas fábricas. Quer dizer, você chegar na Volks, parar a fábrica, fazer uma assembléia, pedir autorização e votarem gritando com euforia. Na Mercedes e na Ford, empresas médias e pequenas, foi uma coisa que eles não esperavam, não imaginavam. Então, o Marinho até comentou: "Parece que a gente está aqui para decidir uma greve." Então, esse clima foi muito bom. Muitos militantes, que se afastaram do partido há muitos anos, estão voltando a participar. E o Bagre: "Essa é uma boa notícia." Eu estou tomando alguns cuidados, por exemplo: em viagem em nome da CUT, eu procurei obter uma agenda a parte que era para contatar alguns prefeitos que nós escolhemos para conversar. Então, eu conversei com prefeito de Detroit que concordou em ser cidade irmã, sair nas eleições. Tem um problema comum que é uma cidade parecida; ela tem General Motors, tem Ford. Ela tem uma crista se levantando. O prefeito de Atlanta, na verdade, não nos recebeu porque tinha morrido o filho do Kennedy e ele foi chamado com urgência em Washington. Mas o principal lá nos recebeu. Em Atlanta também tive contato com os pastores, com as igrejas, com os operários e universidades negras. Fui homenageado lá numa universidade negra, visitei o túmulo de Martin Luther King. E um companheiro de Martin Luther King, o Reverendo Orange, vem à nossa campanha. Então, foi uma coisa muito linda em Atlanta. Foi muito marcante essas coisas todas. Conversei lá com empresas que são ligadas à Unesco e outras instituições internacionais que constróem casas populares e também conversei com o prefeito de Mountain Stones, que significa "pedra rolando." É uma cidadezinha turística muito bonita. E é uma cidade muito pragmática porque, na Guerra de Secessão, ali foi o último lugar em que guerrearam aqueles que estavam querendo manter a escravidão, continuaram guerreando até o fim. E lá é o lugar em que, do mesmo jeito que a gente escolhe a Vila Euclides para se reunir ou a Praça da Sé, a Kux Klux Klan se reúne todo ano. E, para surpresa generalizada, na eleição que aconteceu nessa cidade, ganhou um prefeito negro. Então, eu fui falar com esse prefeito que é ligado a uma Instituição Negra Mundial, que me convidou a participar dessa instituição e assim por diante. Também estive na Itália. Lá, eu tive o privilégio de ser acompanhado o dia inteiro pelo presidente da CGIL. E também falei com o prefeito Antônio Barsolini, de Nápoles. Nápoles tem uma outra história. Eles têm um projeto de valorização da micro e da pequena empresa. É uma coisa muito interessante. A matéria-prima que foi comprada, foi comprada lá. Se for mais caro, lá tem que baratear. É um processo muito interessante e o prefeito me acolheu muito bem e também se colocou à disposição para estar junto conosco, para fazer intercâmbio entre Nápoles e São Bernardo. Depois, eu estive numa cidade chamada Zaandam, na Holanda, onde conversei com o prefeito. É uma cidade que está em volta da água, como quase todo estado da Holanda, só que lá é uma cidade industrial. Então, os operários, na hora do almoço, vão descansar e pescar do lado da fábrica, na calçada, porque o rio é muito limpo. A fábrica é tão antiga e o rio tão limpo porque eles tem uma política de tratamento maravilhoso. E conheci, na Holanda, um projeto alternativo de geração ecológica de energia, a eólica. É uma coisa em que a gente pode pensar, já que a Represa Billings, em São Bernardo, existe para poder dar guarita a uma hidroelétrica que tem lá em baixo, em Cubatão, chamada Henry Born. Essa energia gera 3% das necessidades daqui da região. Então, é muito pouco. E, muitas vezes, para poder manter a pressão de água, eles abriam o esgoto do rio Pinheiros acabando com a represa. Isso é um crime hediondo. Também conversei com a prefeita de Wolfsburg. É uma vilela, quer dizer, é uma fábrica, no fundo a cidade da Mercedes Benz, da Volkswagen. Tem 50 mil operários numa cidade com 120 mil habitantes. Ela também demonstrou a mesma disposição de ter um intercâmbio porque tem a Volkswagen e assim por diante. E vou participar de um seminário mundial na África do Sul, na Cidade do Cabo. Lá nós vamos discutir as questões do racismo porque está se preparando a Conferência Mundial de Combate ao Racismo. Eu já estou contatado, vou me encontrar com o Nelson Mandela e estou procurando contato com o prefeito da Cidade do Cabo para também ter esse intercâmbio. Aqui no Brasil, procurei falar com cidades pobres, pequenininhas, do Vale do Jequitinhonha, do nordeste para também ter intercâmbio com elas. São coisas que eu considero importantes, coisas novas. Porque não dá para ficar num mundinho fechado. A nossa eleição tem um caráter nacional, tem a ver com a candidatura à presidência da República em 2002, do Lula ou outro nome. Tem a ver com a nossa caminhada e, lá, o prefeito é aliado do Ciro Gomes. O prefeito era PMDB, depois virou PT, depois virou PSDB, agora é PPS. Então, a gente espera que todo mundo dê a atenção devida para podermos enfrentar. Nós queremos fazer a melhor campanha possível, o melhor nível. Uma campanha tão boa que o resultado seja uma conseqüência natural. Ganhando ou perdendo, a gente saia satisfeito, com o Partido organizado, deixando a semente plantada. Mas a perspectiva de ganhar é boa, viu?

Pessoas Frei Beto
O Frei Beto é uma grande referência para mim. Eu fiz uma viagem com o Frei Beto para Israel. Fizemos os caminhos que Jesus fez. Foi muito emocionante. Agora, o que mais me marcou no Frei Beto foi a humildade dele e ele faz muitas orações. Então, a gente vê o Frei Beto assim, mas é um homem muito místico. Aquilo me emocionava até. Primeiro, muito humilde. É um homem que tem dinheiro porque ele vende livros. Deve sustentar famílias, amigos e tal. Já até me ajudou, inclusive, a comprar a minha casa, ajudou minha sogra a comprar a casa dela também lá na Santa Terezinha, emprestando dinheiro para a gente ir pagando devagarinho. A minha foi em 1982. Mas o Frei Beto é essa pessoa que tem uma sensibilidade muito grande.

Pessoas Pessoas que influenciaram
É muito difícil falar nas pessoas que me influenciaram, porque a gente pode cometer injustiças até. Tem tanta gente séria, tanta gente boa que foi uma referência para mim O Lula, sem dúvida, é uma referência para todos nós, de competência, de sensibilidade, de compromisso. Quem mais? Eu gostei muito de ler Rosa de Luxemburgo. Gostei muito dela, mas o que mais me sensibilizou em relação a Rosa de Luxemburgo não foi o Folheto Júniors ou suas posições sobre a União Soviética. Foram as declarações de amor, a simplicidade que ela tinha, o gesto de beleza que ela tinha quando estava presa, quando declarava paixão pelo companheiro dela que não ligava para ela. Em Che Guevara, o que mais me marcou não foi sua saga em Cuba. Duas coisa que marcaram muito Che Guevara: o diário dele, o sofrimento que ele teve fugindo a cada momento, a cada instante e uma simples frase; "ser duro sem perder a ternura". Aquilo é o que me marcou muito. Para outros, o Che pode ter outro significado, os documentos econômicos da revolução e tal. Em mim foi essa coisa que o Che deixou como referência. E tem um monte de gente, aqui entre nós, que também tenho como referência. Admiro muito a coragem de um, a inteligência de outro, a esperteza de outro, mas eu não queria falar nomes porque vou cometer injustiças mil.

Realizações
Eu, quando nasci, quase morri. Fui sempre muito pobre. Sair do Rio Grande do Norte, vir para cá sem ter nada amarrado com ninguém, virar presidente do Sindicato mais importante do país, presidente da CUT. Quer realização maior do que essa, rapaz? Isso é uma raridade, não é verdade? Por isso, todos os problemas difíceis que eu vivi na luta sindical são pequenininhos, eu ponho de lado. Eu quero ter é alegria, que a gente comunga com todo mundo. Isso foi uma grande realização pessoal, até porque nem programei. O meu planejamento, a minha idéia, como a de muita gente, era ser uma pessoa rica. "Olha, eu vou para São Paulo, vou ganhar dinheiro e vou voltar. Vou voltar, construir minha vida aqui, ou então, fazer uma fábrica lá, uma empresa, VPS S/A." Foi mudando o sonho, não é? Hoje, eu não sonho jamais ser rico. Nunca, isso não está na minha cabeça. Aliás, é opção minha não ser rico. Diferente, não é? Agora, essa riqueza que hoje eu tenho, é a coisa mais linda do mundo, a coisa mais fantástica do mundo. Agradeço a Deus todos os dias por esse tipo de realização. Outra realização foi ter os meus filhos porque cuidar de sete, ter sete, é um privilégio muito grande. Tenho sete verdadeiros amigos, mesmo que um dia possam até me decepcionar. Acho que isso pode acontecer, embora eu tenha dificuldade de imaginar. A gente não quer isso, mas pode acontecer. Mas são todos de boa índole, a gente sente no jeito deles, carinhosos, solidários, amigos, mesmo brigando, mesmo com essas coisas todas. Eu fico tranqüilo porque sei que eles, pelo menos até agora, escolhem os melhores amigos, gente boa, não se envolvem com droga, com bebida, essas coisas todas. Quer privilégio maior do que isso? Tenho um sonho que gostaria de ver realizado um dia: é ter uma casinha para não pagar aluguel. Um dia eu quero ter. Eu sonho com uma casa boa. Quando vai ser? Espero que seja logo porque eu não vou agüentar ficar pagando, muito tempo, aluguel. E agora eu estou pagando aluguel assim: tive que mudar de apartamento, passar para um maior por causa da história da ameaça de morte e também porque sou candidato. Também tenho que ter uma casa para receber as pessoas, um apartamento melhor, e a CUT está me ajudando a pagar. Uma parte, o que eu não agüento pagar, a CUT ajuda. Mas, já estou até preparado para sair desse apartamento, quando sair da CUT, e voltar a morar em um lugar mais simples, até porque até lá passaram as eleições. Se eu ganhar é uma história, se eu não ganhar é muito normal. Eu estou muito preparado para isso, para mim não tem nenhum problema não. Graças a Deus, essa coisa eu administro muito tranqüilamente, porque é um problema sério para alguns. Por que muitos dirigentes sofrem? Porque eles viram dirigentes, saem na televisão, saem nos jornais, têm assessores, têm vários tipos de condições, aí, não querem nunca mais perder essa condição. E, aí, ele faz de tudo para permanecer eternamente no cargo ou nos cargos. Ah, não, graças a Deus eu já fiz essa reflexão junto com a Roseli. Nós estamos tranqüilos, preparadíssimos para isso. Como presidente da CUT, você tem carro, tem telefone celular, tem ajuda de custo, tem viagens pelo mundo. Não vai ter mais nada disso, mas e daí? Nós não nascemos assim. Então, o que eu queria era que os nossos dirigentes, principalmente os principais, tomassem cuidado com isso porque isso é um problema sério para muita gente. Isso é sério. Eu não planejei a minha vida. Se tivesse planejado, falado "eu planejei isso, errei nisso e faria isso". Então, você está sendo levado pelos acontecimentos. Eu também não programei ser diretor de Sindicato. Então, foi uma surpresa quando fui chamado para ser diretor. Surpresa dois: quando lá, eu nem sabia, e me colocaram como vice. Agora, como vice, consegui aproveitar as oportunidades. Fui cassado, mas tive o privilégio de ser indicado pelo grupo para ser um dos quatro que, cassados, voltariam. A partir daí, comecei a pensar em ser presidente da CUT, do Sindicato, porque muita gente falava. Mas não há um planejamento. Aí fui. Primeiro mandato, pensei em ir para a CUT? Não. Segundo mandato, já falavam: "Vicentinho, você tem que ir para a CUT depois do Meneguelli." Então, já pensei. É como agora, a Prefeitura. Eu estou pensando. Falam até mais coisas. Tem gente que fala: "Vicentinho, você tem que ser candidato a presidente da República." Eu não vou planejar isso, jamais. Eu me toco, inclusive, sei que sou um companheiro como qualquer um, mas tem gente que fala por aí, nos estados, em alguns lugares: "Vicentinho, você é o cara que vai substituir o Lula." Ora, eu fico pensando porque falam, mas eu não planejo, até porque essa história é diferente. O Lula é uma liderança que, independente do cargo, é o nosso Lula de sempre. Nós outros somos iguais. Está certo? Somos iguais. Então, eu estou muito preparado. O que eu quero é sempre contribuir com cada gesto, com cada atuação, cada discussão. Entre o que fiz, em que eu poderia ter mudado a trajetória da minha vida? Talvez eu tenha começado a namorar muito cedo. Namorar com 16 anos, casar com 20, não sei se seria muito normal. Quando eu vejo o meu filho hoje com 22 anos, acho que ele não deve casar ainda. Quando vejo meu filho com 17, com 18, tão meninos, não é? Então, às vezes, eu fico pensando assim. Mas foi o destino que fez com que as coisas acontecessem. Nem me arrependo, não é isso. Talvez, não sei, eu era profundamente apaixonado. A Preta foi a maior paixão que eu tive na minha vida. Ela não me queria, eu é que a queria. Depois, ela me quis, evidentemente, senão a gente não tinha casado. Sou feliz por ter entrado na Tamet, por ter entrado na Mercedes, mais feliz ainda. Eu queria entrar na Mercedes. Sinceramente, não me lembro o que eu poderia ter feito que não fiz. Pode ser uma falha minha. Pode ser até petulância minha, mas eu não consigo me lembrar.

Importância do Sindicato
O Sindicato foi a maior aula de democracia e de cidadania que eu tive na minha vida. Eu entrei em uma Diretoria e as discussões quais eram? Eu me sentia até, de certa forma, meio isolado, às vezes, porque falavam: "Ai, porque na minha chácara, é porque meu carro, é porque eu pintei a minha casa." Eu não tinha casa, não tinha chácara, não tinha carro. Não tinha nada e estava lá em uma Diretoria cujos sobrenomes eram Meneguelli, Bargas, Okamoto, Domingues. Só tinha eu da Silva. Negro, o único naquela Direção Executiva. Do nordeste, só tinha eu também. Tinha o João Paulo que era de Minas, né? E não foi só no Sindicato não, na Mercedes, era a mesma coisa. O colega tinha qualquer motivo era "porque quebrou o meu carro", é "porque fui pescar em Mato Grosso", é porque não sei o quê. Eu morava em um cômodo só, apertadinho, e sempre muito simples, muito pobre porque a minha história era nova. Cheguei aqui em 1976. Não tinha, até hoje não tenho, mas naquele tempo tinha menos ainda. Então, chega no Sindicato e os sobrenomes, nas fábricas e, na base, a grande maioria era Bertoletto, Simionatto, Antonietto, Meneguelli, não sei quem. E você é eleito vice-presidente, depois é eleito presidente. É o que eu digo por aí afora: onde há democracia as pessoas são medidas pela sua capacidade, não pela sua cor, pela sua religião, pelo seu sobrenome, pela sua origem. Então, para mim, o Sindicato foi a coisa mais importante e quero confessar que tenho saudade quando eu chego lá. Toda vez que eu chego lá pinta uma saudade danada da vivência, da convivência. É isso. Acho que vou ter sempre muito mais saudade do Sindicato do que da CUT. Acho. Mas também vou ter saudade da CUT.

Sonho
Os sonhos são muitos, não é? Mas acho que vou lidar com pessoas a vida inteira. Até pensei na hipótese, não sendo mais dirigente sindical, não sendo dirigente político, de dar aula. Fiquei muito feliz quando descobri que quem faz a Universidade pode dar aula. Então, tenho uma condição que eu já posso dar aula amanhã, se quiser. Mas acho que vou sempre lidar com pessoas. Sempre. E sempre, ao lidar com pessoas, ajudar com a mensagem de conscientização, formação, é o que eu vou querer fazer a vida inteira. Às vezes, fico frustrado porque você tenta, grita, chama, não vêm, mas eu acho que a minha vida vai ser inteiramente com esse projeto, onde quer que eu esteja.

Projeto Memória dos Trabalhadores
Achei interessante dar o meu depoimento para esse projeto. Eu acho bom porque tudo o que eu falei – muitas vezes pode até ser que tenha dados da história que não sejam os mais corretos – foi o que eu vivi, foi o que eu apreendi, consegui gravar na minha história. E é a minha versão. A minha versão não tem quem tire. Pode ser que eu esteja errado em um monte de coisa que falei aqui. Outros podem dar versão diferente. E, assim, espero estar contribuindo para a nossa própria história, que é uma falha que nós temos. Eu sempre dizia no Sindicato, e também na CUT, que a nossa vida é como vida de bombeiro, correndo atrás dos acontecimentos. Mas o ideal era pegar um companheiro que foi fundador do Sindicato, levar para tomar uma cerveja, sentar com ele e deixa ele falar. Entendeu? Eu adoro ouvir essas coisas. De vez em quando eu fazia isso. Falava com velho comunista, falava com velho militante. Com o jeito deles, muitas vezes, a gente nem concordava com tudo, mas falava, ouvia, porque a história é muito importante. E essa história bem contada é um resgate para constituir também um novo país. Afinal de contas, a gente só ouve a história contada pela classe dominante e eu não quero que a história dos operários do ABC, ou nossa, seja contada pela direção da Volks, ou da Mercedes, ou pela FIESP.

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