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Viver um dia como se fosse o único

História de: Solange
Autor: Elenir Honorato Vieira
Publicado em: 31/01/2015

Sinopse

Como Solange viveu por quase sete anos, com um sarcoma, cuja sobrevida era de no máximo um ano e meio.

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História completa

Solange viveu 49 anos. Durante os primeiros 43 anos, sua vida foi como a de outras tantas pessoas do planeta. Ainda adolescente se viu apaixonada por uma outra jovem e, por isto, resolveu se afastar da família, principalmente no momento em que viu seus pais se separarem. Decidiu, então, cursar educação física em outra cidade. Só voltou á morar em sua cidade natal, meses após seu pai morrer, muito embora os pais já houvessem se reconciliado um ano antes. Formada em educação física, foi trabalhar em uma creche, onde desenvolveu com as crianças projetos inovadores em marcenaria. Lá conheceu duas de suas namoradoras que, de alguma forma, muito contribuíram para sua maturidade.

Com a primeira teve um relacionamento de seis anos. Deste relacionamento surgiu seu interesse por psicologia, sua segunda formação escolar. Findo este relacionamento, ela começou outro com uma colega da creche. Entre períodos de separação nos anos que se seguiram, foi com esta mulher que ela ficou até seus últimos dias, tendo inclusive assumido formalmente seu relacionamento um ano antes de morrer. Ela se desligou da creche quando foi aprovada em um concurso público e tornou-se professora de educação física. Solange revelou durante sua vida, um imenso interesse por construção e, diante desta sua paixão, resolveu cursar nova faculdade... desta vez em tecnologia em construção civil.

Este conhecimento permitiu a ela desenvolver o projeto e orientar a construção de sua casa, uma chácara e a casa de sua irmã. Era sim uma mulher única e especial. Homossexual assumida, teve relacionamentos duradouros e profundos. Mas seu grande triunfo foi fazer planos e torná-los realidade. Aos 43 anos, descobriu-se com um sarcoma raro e violento, no músculo liso. A médica informou que casos como o dela tinham uma sobrevida máxima de um ano e meio. Foi um período doloroso! Sua quimioterapia era intensa e rapidamente ela ficou sem cabelos e emagreceu muito. Dois dias após a primeira vez que tomou a quimioterapia,

Solange, uma pessoa forte, que não tinha algum problema em quebrar paredes ou realizar uma atividade física, ficou na cama. Dizia para sua irmã que se sentia sem forças, algo completamente novo naquele corpo que se revelava forte e cheio de energia. Foi a primeira de muitas outras reações á quimioterapia. Após este processo, o tumor voltou a crescer, o que levou a médica a indicar uma cirurgia. Este foi o primeiro de muitos outros processos de quimioterapias e cirurgias. Ela nunca conseguiu ficar mais de três meses sem que novo tumor crescesse. Mas Solange era forte! Incrivelmente após cada período de internação, vários deles em UTI, ela saia do hospital e fazia novos projetos.

Comprou uma casa velha, demoliu, fez o projeto e orientou a construção de sua casa, bem como o acabamento e a mobília, planejou e orientou a construção da casa e da chácara de sua irmã e cursou a faculdade de Pedagogia. Ela não aceitava a doença. Tanto assim que embora tenha ficado períodos de afastamento prolongados, nunca aceitou a ideia de se aposentar por invalidez. A cada retorno para o trabalho, desenvolvia projetos na escola, mesmo quando foi forçada pela doença a se afastar das aulas. Fora das aulas, ela organizou a biblioteca escolar, acertou a documentação de colegas que já estavam em condições de se aposentar, mas precisavam reunir a documentação, além de trabalhar com as crianças que, de alguma forma, tinham problemas de adaptação em sala de aula. Na escola, era conhecida como professora careca, tantas foram as vezes que ficou sem eles.

O câncer fez com que ela também buscasse apoio espiritual. Tornou-se kardecista, fato que a ajudou a dar conta de seus problemas e aceitar sua doença. Um ano antes de sua partida, Solange decidiu assumir formalmente seu relacionamento com a namorada e com ela se casou. Ao mesmo tempo, cuidou da mãe idosa que também enfrentou um câncer, neste caso, no intestino e com ela ficou até sua morte um ano antes de sua própria partida. Ela e a irmã ficaram ao lado da mãe até seu último suspiro. No momento da partida de sua mãe disse: "Até breve mamãe... logo, logo voltaremos a nos encontrar". Penso que a partida da mãe foi um momento intenso em sua vida. Poucos meses depois, o câncer retornou mas agora sem condição de tratamento ou cirurgia. O médico disse a ela o que estava acontecendo e, quando as dores ficaram intensas, informou que a colocaria em sono profundo e ela não mais acordaria. Mesmo assim, na noite em que a medicação foi intensificada, Solange acordou e ainda disse... "já parti, estou do outro lado da vida?".

O que mais me impressionou em todo este tempo e que me incentivaram a escrever a história de Solange, minha irmã mais jovem, foi a forma como ela lidava com a doença... a cada alta hospitalar, ela não queria mais falar do assunto. Um dia eu perguntei a ela a razão e ela me disse... é tão sofrido ficar naquele hospital que, quando saio dali, procuro viver cada dia como se fosse o único. Foi assim que ela viveu por quase sete anos, tempo muito superior a todos os outros pacientes com o mesmo problema que o seu. Espero que, onde quer que ela esteja, não mais sinta dor e continue trabalhando com a mesma energia que teve enquanto viveu.

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