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História



O Museu da Pessoa nasceu para o mundo em 1991, quando, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, a exposição Memória & Migração inaugurou um espaço para que toda e qualquer pessoa pudesse vir contar sua história.

A ideia havia germinado um pouco antes, em 1989, em meio à gravação de 200 horas de histórias de vida de judeus imigrantes vindos das mais variadas regiões do mundo. Este projeto - Heranças e Lembranças: imigrantes judeus no Rio de Janeiro - resultou em um livro, uma exposição no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro e um acervo composto por pastas com a história de cada entrevistado. Ao final do projeto, D. Matilde Lajta, judia austríaca então com 86 anos, disse: "Preciso agradecer a vocês por este projeto. Porque agora sei que já posso morrer. Tive uma vida interessante, marido, filhas, netos... mas agora sei que minha vida, aquela história que é só minha mesmo, minha alma, agora sei que vai ficar."

Ali confirmava-se o propósito do Museu da Pessoa: permitir com que cada pessoa tenha o direito e a oportunidade de ter sua história de vida eternizada e reconhecida como uma fonte de conhecimento e compreensão pela sociedade.

 

1991


Regina Worcman com sua mãe, irmã e 4 filhos antes de emigrar para o Brasil em 1939. Polônia, c.1938/39. Entrevistada pelo projeto Heranças & Lembranças em 1989

Cheguei, não me lembro em que mês, acho que foi antes do carnaval. Eu dancei na rua, eu beijei a terra, eu disse assim: oh, meu Deus, ninguém me chamou de judia! Cheguei, jogaram confete em cima de mim! Fiquei tão emocionada que nunca, nunca mais queria voltar para casa!"

Foi o que disse Regina Worcman quando entrevistada. Essa e muitas outras histórias fizeram parte da Exposição Memória & Migração, primeiro evento público do Museu da Pessoa.

 

1992


Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997), educador, pedagogo e filósofo nascido no Recife (PE). Entrevistado pelo Museu da Pessoa em 1992

“As memórias de mim mesmo me ajudaram a entender as tramas das quais fiz parte.” 

Foi como Paulo Freire resumiu o valor de contar a sua história. Foi entrevistado, em 1992, para o projeto Memória Oral do Idoso, uma oficina realizada pela Secretaria de Estado da Cultura por meio da Oficina Cultural Oswald de Andrade, reunindo historiadores, jornalistas, psicólogos e outros interessados em aprender a metodologia de história oral do Museu da Pessoa.

 

1993


Família de Maria Antonia Lubraico Figueiredo, bisavó e filhas. A foto foi tirada quando das festividades pela libertação dos escravos. São Paulo-SP, 1888. Entrevistada em 1992

“Acho que eu faria tudo de novo. Só que eu ia dar mais valor para o momento que a gente vive e não ficar só esperando o amanhã.”

Assim concluiu Maria Antonia, que teve sua história contada no AlmanaK da Idade de Pensar, a primeira publicação do Museu da Pessoa. O Almanak da Idade de Pensar foi uma iniciativa do projeto Memória Oral do Idoso, publicado em 1993 pelo Departamento de Formação Cultural da Secretaria de Cultura de São Paulo.

 

1994


Catharina Pugliese Serroni, cozinheira do São Paulo Futebol Clube, 1948. As refeições dos jogadores eram feitas na casa dos Serroni, na Rua Juruá, no Canindé

“Na Copa de 50, quando o São Paulo tinha sede no Canindé, a seleção do Uruguai ficou concentrada lá. E eles foram campeões. Depois de uns dias, mandaram um álbum e passagem para eu e meu marido irmos para o Uruguai, porque eles comeram na minha casa.”

Contou Catarina Serroni, cozinheira do São Paulo FC por 43 anos, quando entrevistada para o Memorial do São Paulo Futebol Clube, o primeiro grande projeto do Museu da Pessoa.  Junto à exposição das taças, dois quiosques multimídia contavam a história do time nas 37 vozes de ex-jogadores, diretores, fundadores, funcionários e torcedores.


1995


Consolato Laganá em sua loja de calçados, Praça da República, São Paulo, 1978

“De vez em quando sinto saudades, sonho ainda com o tempo em que era pequeno, tinha seis ou sete anos e brincava de sapateiro, fazia sapatinhos de boneca. Eu era apaixonado pelo meu trabalho."

Consolato foi um dos 60 entrevistados para a primeira etapa do projeto Memórias do Comércio em São Paulo, que deu origem a um dos primeiros CD-ROMs multimídia do país e inaugurava a parceria do Museu da Pessoa com o SESC-SP.

O projeto Memórias do Comércio em São Paulo teve o apoio inicial da Federação do Comércio de São Paulo, SENAC, SEBRAE e SESC-SP. As versões posteriores foram todas realizadas pelo SESC-SP. Em 22 anos, o projeto resultou em um acervo de 263 entrevistas registradas em vídeo e uma coleção de mais de mil fotos e documentos.


1996


Germano Araujo, nascido em 1875 , entrevistado em sua casa na Vila Missionária em 1996 (Foto de Marcia Zoet)

 “Filho, eu tenho um bocado. São 68 filhos. Mas não vi o século passar não. Eu queria que viesse outro."

Foi o que disse Seu Germano aos 121 anos, quando entrevistado em sua casa na Vila Missionária. Nascia ali o programa Conte sua História do Museu da Pessoa, que permite com que toda e qualquer pessoa possa narrar, preservar e disseminar sua história de vida. Germano faleceu em 1999.

 

1997


Crianças da tribo Xerente na Aldeia Rio do Sono(TO), 1997. Entrevista realizada para o projeto Abifarma 50 anos: Indústria Farmacêutica e Cidadania, sobre agentes comunitários de saúde e a história das terapias medicamentosas no Brasil (Foto de Márcia Zoet)

“Quando vi aquele montão de branco, falei pro meu pai: vamos embora papai. Meu pai falou: não sente medo não, meu filho. Eles não mexem com ninguém.”

Lembrou Teodoro Pasiku, agente comunitário de saúde da tribo Xerente, em Tocantins. Enquanto contava sua história, o gerador permitia que todos assistissem à Sessão da Tarde, misturando os tempos em que o Brasil se abria para a Internet e o Museu da Pessoa montava o seu primeiro site. Tornava-se, finalmente, um museu virtual.

 

1998


José Soares, Malta, Raimundo Nonato, Lula, Vicentinho, Djalma Bom e Paraná, membros da Chapa 1 para as eleições do Sindicato dos Metalúrgicos. São Bernardo do Campo-SP, 1981

"Quando eu morava em Acari, na minha juventude, a gente não ouvia falar em ditadura militar. Meu pai, por exemplo, ouvia falar em comunista, terrorista – porque lá tinha algumas famílias como a do seu Egídio. Todos diziam: 'Cuidado que ele é comunista, vamos passar em frente à casa do comunista, cuidado'. Mas minha mãe não sabia de nada disso. Eu me lembro que em casa ela sempre ouvia a Rádio Havana, de Cuba, que pegava lá em casa, em português.”

Relembra Vicente Paulo da Silva, mais conhecido como Vicentinho, durante o projeto que deu origem ao site ABCDELUTAS.org. Além de Vicentinho, Lula, Meneguelli, Guiba e outros líderes sindicais colaboraram para contar a história do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC sob o ponto de vista dos trabalhadores. O Museu da Pessoa começava a fazer centros de memória virtuais para sindicatos, empresas e instituições. Entre os anos de 1998 e 2001, foram coletados cerca 50 depoimentos em áudio e vídeo para o projeto.

 

1999


Eliezer Batista (ao centro) com grupo de técnicos do projeto de construção do Porto de Tubarão, Vitória (ES), 1962

“Nós tínhamos duas opções: crescer ou desaparecer. Então fomos salvos pelos japoneses, na junção de dois desesperos. O deles, que pretendiam reerguer suas siderurgias destruídas pela guerra, embora os países desenvolvidos não quisessem, e o nosso, na procura de compradores pelo mundo afora.”

Contou Eliezer Batista sobre a construção do Porto de Tubarão, em Vitória. Essa é uma das muitas histórias contadas por ele nas 13 horas de entrevista para o projeto sobre as memórias da Vale.

A metodologia do Museu da Pessoa começava a ser utilizada para registrar histórias das grandes empresas do Brasil que completavam 50-60 anos de existência e refletiam o resultado da política de desenvolvimento de Getúlio Vargas.

Desde 1999, o projeto Memórias da Vale registrou mais de 500 histórias de vida, além de pesquisas documental e iconográfica e mapeamento de arquivos institucionais. Esse acervo foi matéria-prima de quatro videodocumentários, um centro de memória virtual e a publicação Histórias da Vale.


2000


Marius Vieira Gonçalves em campeonato de arremesso de disco. Pirassununga (SP), 1938

“Eu nunca me imaginei participar de um museu. Este trabalho é uma vacina contra o complexo de inferioridade.”

Foi o que disse o Marius Vieira quando formou-se agente de histórias, um programa de capacitação de idosos. Ali nascia o programa educativo do Museu da Pessoa.

O programa Agentes da História contou com 13 idosos que aprenderam a aplicar a metodologia utilizada pelo Museu da Pessoa.

 

2001


Alunos reconhecem a própria produção nos painéis da exposição do projeto Memória Local na Escola. Belo Horizonte, 2005

“Depois desse projeto passei a valorizar mais as histórias das pessoas da comunidade em sala de aula, como suas profissões, etnias etc., e a ler mais sobre temas que tratam sobre memória e acontecimentos do dia a dia.”

Foi o que disse Josiane Marcele Victor, professora, após participar do programa Memória Local na Escola, que tem o objetivo de juntar memória, leitura, escrita e trazer a comunidade para dentro da escola.

Memória Local na Escola é um programa realizado em parceria com o Instituto Avisa Lá e já mobilizou cerca de 2200 professores e 45.400 alunos.

 

2002


Sentados, Hélio Gusmão, Murilo Penchel, Aluizio Borba e Cândido. Rio de Janeiro (RJ), anos 50/60. Aluizio Borba foi auxiliar de portaria do BNDES por toda a vida; a foto pertencia ao acervo dele, falecido em 1995

“Era o ano de 1974, fazia três anos que eu chegara ao Rio de Janeiro. Eu já estava trabalhando e me ajustando ao modo carioca de ser. A leitura do jornal se fazia obrigatória, na leitura obrigatória pela melhoria do meu status de trabalhador. Encontro mais um edital de concurso público, era o BNDES oferecendo vaga para diversos cargos. Mas o que será o BNDES? Esse banco eu não conheço... Não importa, quando eu passar me preocuparei com isso."

Maria de Fátima foi uma das ganhadoras do concurso "Nossas histórias", para funcionários do BNDES. Executado em 2002, o projeto de memória "BNDES – 50 anos de Desenvolvimento” foi produzido pelo Museu da Pessoa e captou cerca de 100 histórias sobre os 50 anos do BNDES.

 

2003


Sebastião Marinho durante o encontro "rap x repente", uma das atividades do Seminário Internacional "Memória, Rede e Mudança Social", realizado pelo SESC-SP e Museu da Pessoa. São Paulo (SP), 2003

"Eu trazia a imagem da São Paulo toda iluminada, banhada a ouro, aquela maravilha. Tudo limpo. Tudo encantador. O chão, para mim, devia ser um tapete. Saltei, era abril de 1976, na estação Júlio Prestes e vi tudo ao contrário: o que mais tinha era cachorro vira-lata e mendigo, aqueles prédios sujos, a fuligem louca. Mas bebi da água e continuo aqui, são mais de trinta anos."

Contou Sebastião Marinho, cantador repentista profissional desde 1968, que participou do Seminário Memória, Rede e Mudança Social que deu início à construção da rede Brasil memória em Rede.

O movimento Brasil Memória em Rede organizou-se em 9 polos regionais de memória em todas regiões do Brasil e marcou o início do Pontão de Memória Museu da Pessoa. Contando com nomes como Paul Thompson, Nicolau Sevcenko e Eduardo Coutinho, o evento propiciou uma série de reflexões sobre o registro, preservação e difusão de histórias. O seminário foi patrocinado pela Petrobras.

 

2004

Os Novos Baianos - Pepeu Gomes, Dadi, Galvão, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo - na casa de Toninho Horta (Antônio Maurício Horta de Melo). Belo Horizonte (MG), 1974

"O Milton já tinha desenvolvido a carreira dele, tinha ganhado o Festival Internacional da Canção com Travessia. Mas sempre que ele vinha a Belo Horizonte perguntava: 'Cadê o Lô?' E a minha família falava: está lá na esquina tocando violão. Um belo dia ele apareceu lá e eu resolvi mostrar a música que eu estava fazendo. E ele acabou fazendo a música comigo, o Clube da Esquina nº1."

Lô Borges foi um dos entrevistados para o Museu do Clube da Esquina que, com o apoio do Museu da Pessoa, reuniu depoimentos de artistas como Beto Guedes, Toninho Horta, entre outros.

O Museu Virtual do Clube da Esquina contou com mais de 74 depoimentos, fotos, documentos e a discografia do grupo. A iniciativa foi patrocinada pela Copasa, Governo de Minas Gerais, Petrobras e Ministério da Cultura. Além do site, também foi produzido um guia de Belo Horizonte a partir das memórias dos membros e amigos do clube, além de placas de rua por toda a cidade que contam a história do clube.

 

2005


Vanete Almeida (à direita) com seu pai, mãe, irmãs, tia e primo. Custódia (PE), 1949

“Eu fazia reunião com 200 homens e não via as mulheres, me incomodava de ficar sozinha no meio de tantos homens, e me perguntava: 'Por que só eu? Onde estão as mulheres rurais?'."

Foi a pergunta que levou Vanete de Almeida a criar a Rede de Mulheres Rurais da América Latina e Caribe. Vanete e mais dez mulheres latino-americanas aprenderam a metodologia do Museu da Pessoa para registrar a histórias das mulheres desta rede em suas comunidades.

Em 2005 o Museu da Pessoa iniciou, com o apoio da Fundação Banco do Brasil, o desenvolvimento de uma tecnologia social da memória. O esforço consistia em sistematizar uma metodologia de trabalho que permitisse que grupos, organizações e comunidades pudessem realizar projetos de memória. A tecnologia social de memória já foi disseminada em diversas ações e projetos para mais de 200 organizações. 

 

2006

Izabel Mendes da Cunha, internacionalmente conhecida como a famosa bonequeira do Vale do Jequitinhonha, em seu ateliê de trabalho.  Santana do Araçuaí (MG), 2007 (Foto de Antonia Domingues)

“Eu tinha muita vontade de brincar com boneca. Eu pegava sabugo de milho, enrolava um pedacinho, retalhinho de pano na cintura e falava que era boneca: boneca deve ser assim.  Depois eu via minha mãe mexendo, fazendo o barro, puxando o barro para fazer aquelas vasilhas. Aí eu falava assim: eu vou fazer uma bonequinha de barro para brincar. E com minha imaginação, fui fazendo experiência."

Izabel Mendes da Cunha foi entrevistada no Vale do Jequitinhonha durante uma expedição do projeto Memória dos Brasileiros.

Desde 2006, o projeto Memória dos Brasileiros do Museu da Pessoa percorreu 42 cidades em 15 estados em seis expedições culturais e captou mais de 300 relatos de brasileiros de todos os cantos do país.

O projeto teve o apoio do Instituto Camargo Corrêa, Petrobras, Fundação Toyota do Brasil, Avon, AmBev e Credit Suisse.

 

2007

Coleta de imagens pela equipe do Musée de la Personne de Montreal, s.d. 

“A rede internacional de Museus da Pessoa conecta pessoas e grupos para criar e compartilhar suas histórias. Os Museus da Pessoa estão localizados no Brasil, Portugal, Estados Unidos e Canadá. Nós acreditamos que o mundo se tornará um lugar melhor se reconhecer o valor de uma história de vida e se criar uma comunidade global de contadores e escutadores.”

Assim começava a Carta de Montreal, redigida - em um encontro em Montreal, Quebec - por representantes dos quatro núcleos de Museus da Pessoa em prol da criação de uma rede global de histórias de vida. A experiência do Museu da Pessoa inspirou a criação iniciativas semelhantes em Portugal, EUA e Canadá.

 

2008


Círculo de histórias na Índia, realizado no Dia Internacional de Histórias de Vida, em 16 de maio de 2008

“Concordo com Muriel Rukeyser, quando diz que ‘o universo é feito de histórias, não átomos', e de que as grandes mudanças só serão possíveis quando as histórias que as pessoas se contam mudarem. Por isso, apoio completa e entusiasticamente o Dia Internacional de Histórias de Vida." (Howard Rheingold, escritor, jornalista e professor da Stanford University, EUA)

O Dia Internacional de Histórias de Vida tem sua primeira edição em 16 de maio de 2008. Uma iniciativa liderada pela rede internacional de Museus da Pessoa e pelo Center for Digital Storytelling. Cem organizações de 30 países fizeram eventos nesse dia, incluindo círculos de histórias, performances, conferências, exposições e programas de rádio e TV. As edições de 2008 e 2009 envolveram mais de 200 organizações de diversos países.


2009


José Hermógenes de Andrade Filho, o professor Hermógenes, em uma postura de yoga, s.d.

"Um dia, numa livraria, encontrei um exemplar de um livro fino, pequeno, o Hatha Yoga, meses depois outro, aí eu formei a ideia do que era Hatha Yoga. Eu tratei de aplicar em mim escondido do médico e escondido da família; eu praticava num lugar solitário e silencioso para mim, que era o banheiro da casa."

Professor Hermógenes, mestre e pioneiro de yoga no Brasil com mais de 30 livros publicados, foi uma das 20 entrevistas realizadas para inspirar o Concurso Histórias que Mudam o Mundo, que estimulou jovens a produzirem vídeos de 1 minuto sobre o tema da mudança. O Museu da Pessoa começava a criar campanhas colaborativas de histórias por todo Brasil. O projeto Histórias que Mudam o Mundo marcou o início de campanhas e concursos online do Museu da Pessoa, que recebeu cerca de 100 vídeos de 1 minuto produzidos por jovens sobre o tema da mudança.

 Foi realizado em parceria com a Oi Futuro, patrocinado pelo Governo do Rio de Janeiro e realizado pelo Museu da Pessoa e pela Caema.

 

2010


Belísia Barreto Mourey (Dona Bela), na data em que deu depoimento para o "Transformações Amazônicas". Jaci-Paraná (RO), 2010 (Foto: Marcia Zoet)  

"Eu estava com 14 anos quando minha mãe morreu. Meu pai, seringueiro, falou: 'Vou botar vocês lá pro Jaci pra estudar, vou falar com meu irmão lá'. Vim pra casa de meu tio e a mulher dele era ruim, ruim, ruim. Amanhecia o dia, uma baciona grande, ela enchia de louça: 'Vai lavar, vai lavar louça'. Eu ficava pensando: 'Eu vinha pra cá pra estudar e essa mulher não me bota pra aula, me bota pra trabalhar'. Aí eu chorava, chorava..."

Contou Dona Bela quando entrevistada em Jaci-Paraná (RO). Transformações Amazônicas integrou o projeto Memória dos Brasileiros com o objetivo de registrar histórias de pessoas que vivem em locais impactados pela chegada de usinas hidrelétricas ou grandes indústrias.

 Além das 42 entrevistas, foi realizado um processo de formação das lideranças locais na tecnologia social de memória, que resultou em um material educativo adotado pelas escolas de Juruti. Esta expedição teve o patrocínio da Lei Rouanet e o apoio do Instituto Camargo Correia.

 

2011


Alunos e entrevistados da EMEF São Francisco de Assis, participantes do projeto Memória Local na Escola. Guaíba (RS), 2011

“É nossa proposta dar continuidade ao trabalho em 2013, pois a partir do Projeto Memória Local na Escola incluímos o conteúdo 'memória' no nosso currículo dos anos iniciais, pois acreditamos na importância desse trabalho na formação dos nossos alunos, tornando-os cidadãos capazes de reconhecer o valor das pessoas e das suas histórias.”

A afirmação é de Lucia Polanczyk, Secretária Municipal de Educação de Guaíba (RS). Ao completar dez anos, o programa Memória Local na Escola torna-se política publica em quatro municípios: ApiaíGuaíbaIndaiatuba e São Bernardo do Campo. Hoje o projeto Memória Local multiplicou-se em outros projetos educativos, que passaram por 67 municípios e pelo menos 1180 escolas.

Entre os parceiros e apoiadores que já patrocinaram esses projetos estão CTBC, Instituto Pão de Açúcar, Instituto Algar, Fundação Toyota do Brasil, CHS, Instituto AES Eletropaulo, Pfizer, Votorantim Cimentos, Instituto Votorantim, Boeing, Special Dog.

 

2012


"Dalva", aluna egressa do projeto VIRAVIDA. Campina Grande (PB), 2012 (Foto: Ilana Bar-Nissim Wirgues/Illumina)

Estudei até a terceira série. Como não aguentava mais os maus tratos, as surras constantes de meu pai, da minha tia, dos meus avós, aos treze anos resolvi viver definitivamente nas ruas. Para sobreviver, vendia meu corpo em troca de comida ou uma cama para dormir."

Muitas histórias como essa foram relatadas por jovens vítimas de abuso ou exploração sexual como parte do projeto Vira Vida.

O projeto "Memória, Histórias de Vidas Transformadas" foi idealizado pelo Conselho Nacional do SESI e executado pelo Museu da Pessoa. Foram realizadas 90 entrevistas, entre jovens, familiares, profissionais e parceiros do projeto VIRA VIDA em 19 cidades do Brasil.

O conteúdo gerado resultou ainda em exposições e duas publicações, uma em português e uma em italiano.

 

2013

Isabel, esposa do entrevistado Raimundo Castro. Almeirim (PA), 2013 (Foto: Marcia Zoet) 

 

Uma vez meu irmão e uns coleguinhas de escola foram lá pra Ilha da Bexiga, entrou um sudoeste, eles estavam apavorados e aí eu resolvi atravessar contra o sudoeste até a Fazenda do Engenho da Boa Vista pra pedir ajuda pro Japão, pra vir com uma baleeira buscar a turma. Eu sei que eu levei umas quatro horas. Quando eu cheguei estava todo mundo em pânico, achando que eu tinha morrido. Eu já devia ter uns 13, talvez 14 anos. Foi minha primeira experiência no mar."

Amir Klink foi um dos entrevistados entre esportistas, artistas, filatelistas e ribeirinhos em mais uma expedição pelo Brasil como parte das comemorações dos 350 anos dos Correios no Brasil. O Projeto Aproximando Pessoas realizou coleta de depoimentos nas cinco regiões do país, transformando as 137 histórias de vida em acervo do Museu da Pessoa e em coleções virtuais. Destas, 26 foram captadas em uma expedição no Vale do Jari, entre os Estados do Amapá e Pará.

 

2014


A bicicleta dupla adaptada para acompanhantes era a sensação dos passeios e da prática de esportes à beira mar. Aqui, Lúcia Tanzi (esq.) segue acompanhada de uma amiga

Pensar nos espaços que habitei para falar do tempo que vivi. É esta a ideia deste texto, que conta um tanto da minha vida inteira. Ao falar das casas nas quais morei, registro minhas memórias, as mudanças, adaptações, identificações. Nas tantas casas, assim como no mundo, sentir-me em casa sempre foi desafio.”

Valeria Tessari, internauta, conta sua história e monta sua coleção a partir de objetos cotidianos, fabricados (pelas) e fabricantes (das) relações humanas. A nova plataforma permite a toda e qualquer pessoa tornar-se, além de parte do acervo, curador do Museu da Pessoa.

A partir de 2014 a ferramenta "Monte sua Coleção" passou a funcionar no portal do Museu, que tornou-se mais colaborativo ao permitir que todo internauta possa compor sua própria coleção a partir do acervo do Museu.

 

2015

Kombiblioteca Poética no dia de lançamento do minidocumentário do projeto, na Casa das Rosas. São Paulo (SP), 2015

“Eu gosto de contar minha história, que é uma história que tinha tudo para ter outro final. É como se eu dissesse ao passado: 'Achou que eu não ia ser ninguém, olha eu aqui!'.”

Foi o que disse Sergio Vaz, poeta e cofundador da Cooperifa, um dos saraus de periferia pioneiros de São Paulo. As histórias coletadas misturaram memória e a história dos saraus que estão mudando a arte e a cara das periferias de São Paulo e do Brasil.

 Kombiblioteca Poética é um projeto que recolheu histórias de vida de poetas de São Paulo, e é uma biblioteca itinerante que percorre os saraus paulistanos e escolas públicas, parques e praças. Foram entrevistados 16 poetas no Museu da Pessoa e a Kombi visitou dezenas de saraus, distribuindo 2000 livros do Museu da Pessoa e pelo menos 300 livros de poetas em escolas públicas.

 O Projeto Kombiblioteca Poética é premiado no edital PROAC 44/2014 - Concurso de apoio a projetos de Artes Integradas I - Estado de São Paulo. Com a realização do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria da Cultura e Museu da Pessoa.

 

2016


Ailton Alves Lacerda Krenak nasceu em 1953 e cresceu às margens do Rio Doce. É uma das mais importantes lideranças indígenas do país. Foi entrevistado em 2007

Os seres humanos, independente da sua tribo, da sua cultura, compartilham uma memória, um grande rio onde águas de vários lugares, a água da chuva, a água dos igarapés, a água das nascentes, a água dele mesmo, dos lagos, vai se integrando, vai rolando, vai fazendo fluxo. Esse grande rio é a experiência que a humanidade viveu até hoje. Esse rio de memória é tão poderoso que é o que permite que a gente se entenda nesse instante.

A fala de Ailton Krenak fecha um dos 5 documentários que integraram a exposição "Resiliência – Récits de vie du Brésil" montada pelo Museu da Pessoa no Museu da Civilização do Quebec, no Canadá.

"Resiliência – Récits de vie du Brésil" apresentou o Brasil a partir das narrativas do acervo do Museu da Pessoa. Entre 2016 e 2017 recebeu cerca de 100.000 visitantes.


2017


Em 2017 o Museu da Pessoa comemorou sua trajetória de 25 anos com uma série de ações, eventos e, como sempre, muitas histórias. A publicação "Quase Canções" foi lançada e agrega histórias captadas entre 2015 e 2016 pelo programa Conte sua História. A exposição "Quem Sou Eu?" ficou de setembro a dezembro em funcionamento no Sesc Vila Mariana, trazendo uma releitura do acervo sob o olhar de três curadores convidados: Cristiano Burlan, Diógenes Moura e Viviane Ferreira.  A exposição ainda apresentou um espaço dedicado à educação, onde estiveram presentes narrativas registradas por funcionários das 37 unidades do Sesc-SP, que utilizaram a tecnologia social de memória para conhecer seu público. Também foi montada uma cabine interativa aberta ao público, à disposição de todas as pessoas que quisessem fazer um breve relato narrando um pouco sobre si.





Belísia Barreto Mourey (Dona Bela), na data em que deu depoimento para o "Transformações Amazônicas". Jaci-Paraná-RO, 2010. Foto: Marcia Zoet



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