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Semayat - O sol negro do meio-dia



Como diz o Museu da Pessoa "Todo Mundo tem uma história pra contar". Mulher tem história, pois também é pessoa, embora muitos não as tratem como tal. Mas a luz sempre chega, a luz mais forte que chega ao planeta é a luz do sol do meio dia. Sol do meio dia em línguas africanas é chamado de Semayat. O codinome de Peter Tosh era Wolde Semayat. E fruto do amor de dois ativistas do movimento negro, nasceu na periferia paulista: Semayat.

Semayat Silva e Oliveira acompanhou os seus pais, militantes do movimento negro, que faziam batas africanas e viajavam o país as vendendo em movimentos de engajamento. Semayat cobriu seu corpo com as batas, mas o que vestiria por dentro de sua pele negra durante toda sua vida seria esse engajamento.

O racismo é uma semente transgênica que entrou no jardim de infância de Semayat. Embora metade da população brasileira seja negra, não havia sequer uma boneca negra no colo de suas amigas. Se é que as podemos chamar de amigas, pois uma delas recusou-se a brincar com Semayat pela cor de sua pele, essa menina que tão nova já tinha um olho pra discriminar cor, também já tinha um coração que se cegava.

O tempo passa, a vida passa, a luta não. Chegou sua adolescência e tinha o sonho de estudar, fazer faculdade. Recebia broncas por não chegar na hora, mas ela já estava firme e afirmava que pra ela chegar na hora, o ônibus precisava chegar na hora e já era chegada a hora de não ter que se deslocar tanto pra estudar em um local de qualidade. Aliás, se deslocar era o que ela mais fazia, conseguiu o cursinho em troca de trabalho, de distribuir folhetos.

A distribuição de folhetos a distribuiu pelos espaços de São Paulo. Fez aulas de Samba Rock na Galeria Olido, dormiu na igreja da Consolação, conheceu os meninos de rua do Vale do Anhangabaú. Foi apresentada ao assédio. Quer dizer, isso já conhecia bem.

"Uma esquina para uma mulher, nunca é só uma esquina". Estava parada na esquina, esperando um ônibus, mas foi um carro que chegou e um homem branco perguntou: “quanto é o programa?". Ele nem via o tamanho da violência que habitava numa só frase. Mas o único programa que Semayat fez foi o de estudos universitários, pois mesmo não acreditando, tendo que ser convencida pela secretária, Semayat tinha passado e com bolsa de 100% na Universidade.

O dia tinha de caber em um cronômetro. Horas de busão + faculdade+ hora de metrô + trabalho + horas de busão + estudo = noites e anos sem dormir e uma pessoa formada. Deformados são muitos cabelos pela chapinha, o seu na infância foi somente relaxado, mas ela não estava mais relaxada com essa situação, conhecimento era voz, e o volume de sua voz aumentava assim como o volume de seu cabelo, agora natural.

Cabelo, estômago, rins, fígado, cérebro, pulmões e intestino porque nenhum coração bate sem corpo. Jéssica , Cíntia, Bianca, Mayara, Priscila, Regiany, Lívia, Aline e Semayat  fazem todas esse corpo de mulher. Hora uma são os ouvidos que captam a história, já a outra se faz de cérebro pra planejar as ações, enquanto outra é a perna pra fazer o corre, uma é braço pra agarrar a oportunidade e todas são a boca pra contar o que é ser uma mulher na periferia.

Reproduzir notícias? Escrever sobre pautas que não fossem sua realidade? Aturar chefes aos gritos?  Já sabia que isso não queria. E na Agência Mural teve a oportunidade de escrever sobre o que verdadeiramente se importava, ser uma mulher na periferia. Foi essa a proposta que Semayat e outras quatro mulheres jornalistas receberam de uma editora. A matéria foi publicada dia 7 de março, um dia antes do Dia da Mulher. Viralizou. E o coletivo seguiu para ser um vírus para o machismo e racismo no Brasil.

Circularam para ouvir as histórias das mulheres que moravam nesse lugar. Essas ficavam surpresas. Por que alguém quer ouvir a minha história? Pensavam. Eu que não devo ser importante. Mas um bom ouvido é a chave porta de qualquer história, ouviram a mulher que ao morar numa ocupação economizou aluguel e deu uma alimentação melhor para o seu filho. A história da professora da Zona Leste que escreveu um livro sobre a ausência paterna, e ajudaram a tornar famosa a parteira periférica.

Semayat paria também. Cada sonho era um parto. Cada história, uma vida. E sua vida, esse projeto. Projeto que é um bebê, quer dizer uma bebê, mas que quando já for criança a sua boneca será negra.




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