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Escutar para transformar



O Museu da Pessoa está completando 25 anos de idade. Apesar de parecer muito para nós, sei que 25 anos é ainda uma idade de um jovem. Por isso, começo homenageando Sr. Germano, que aos 130 anos contou-nos sua história e tornou-se o entrevistado mais longevo de nosso acervo:

Nossa premissa é a de que toda história de vida tem valor e deve ser considerada um patrimônio de nossa sociedade. A ideia de que cada ser humano tem uma experiência de vida única e que vale a pena ouvi-lo é o que nos motivou a enfrentar vários desafios ao longo dos últimos 25 anos. Creio que ouvir o outro é também uma forma de cuidado. Um cuidado que nos leva a aprender com cada história de vida e a descobrir, por trás de cada narrativa, um pouco da alma humana.

Quando fundado, em 1991, em São Paulo, Brasil, o Museu da Pessoa já se denominava um museu virtual de histórias de vida aberto à participação de toda e qualquer pessoa da sociedade, independente de seu grupo social, raça, idade, profissão, credo e de todas as outras coisas que nos caracterizam na sociedade. Como assim? Nos perguntavam naquele momento. Qual o sentido de criar um museu de histórias de vida de pessoas comuns? Quem vai ter interesse neste tipo acervo? As perguntas não paravam aí: o que é um museu virtual? Onde é a casa do Museu? Isso é mesmo um Museu?  É importante lembrar que, naquele momento, a palavra virtual tinha pouquíssimo significado. A Internet era de uso restrito e poucos sabiam do que se tratava. Naquele momento o Brasil saía de um período de 20 anos de ditadura militar e de uma crise econômica e social que levaram ao que chamávamos, então,  as décadas perdidas. E, neste sentido, a criação de um museu independente do estado representava também um grande desafio.

Assim, vou tentar dar alguma das respostas. A primeira delas refere-se à pergunta, tantas vezes feita de por quê e para quê criar um Museu de histórias de vida de pessoas comuns. Qual o verdadeiro sentido de um Museu como este?

E começo esta resposta pela minha própria história de vida. Quando eu tinha 20 e poucos anos, ainda estudante de história na Universidade Federal Fluminense do Rio de janeiro, envolvi-me com um projeto, concebido por minha mãe, sobre a trajetória dos imigrantes judeus para o Brasil, mais precisamente para o Rio de Janeiro. A questão original do projeto era o levantamento e catalogação dos objetos que os judeus haviam trazido consigo. Como grande parte dos judeus emigraram em situações bastante extremas – como é o caso de grande parte dos emigrantes e refugiados no mundo até hoje- a ideia de que toda pessoa tem que decidir, muitas vezes sob pressão, o quê levará consigo me fascinou. Este pequeno momento representava uma escolha acerca do quê cada um atribuía significado.  Uma escolha que, percebi depois, fazemos permanentemente ao selecionar o que fica registrado em nossas memórias. Ao me integrar ao projeto, propus que organizássemos um segmento baseado em história oral, que buscasse, além da catalogação dos objetos, as histórias de vida dos imigrantes juntamente com suas fotos e documentos.  A partir daí fizemos um levantamento das principais levas de judeus e suas diversas origens,  criamos um roteiro básico de entrevista e desenvolvemos um método de processamento das mesmas de forma  a que elas pudessem se tornar um verdadeiro arquivo de memórias. Isso foi no final dos anos 80 e início dos 90.

Durante este processo de trabalho, passei por momentos em que me parecia entrar em contato   com questões muito profundas do ser humano. A sensação que eu tinha era a de que, em alguns momentos, me eram dadas as oportunidades de vislumbrar, quase que por uma fresta, a alma humana. E, nesses pequenos momentos, eu me maravilhava.

Algumas situações que vivi foram responsáveis por transformações pessoais. Uma delas, talvez uma das mais impactantes, foi quando participei diretamente das entrevistas de um casal de imigrantes judeus poloneses: Adam e Krystyna Drozdowicz.  Eles moravam em um pequeno apartamento, escuro e redondo, quase no centro do Rio de Janeiro. Se, quando entrávamos, fossemos para a direita, era a parte de Krystyna, e, se fossemos para a esquerda, a parte de Adam. Ambos tinham mais de 70 anos. Na parte de Krystyna, o caos imperava. Quando sentávamos no sofá, tinha livros, roupas e até garfos escondidos no sofá. Na parede, vários quadros, gravuras, polonesas, judaicas, confusas. Nada estava em ordem. Na parte de Adam, imperava a organização total. Os livros cuidadosamente organizados, a roupa dobrada. Adam e Krystyna tinham entre 70 e 80 anos. Ela andava com uma muleta e ele ainda ia, todos os dias, de ônibus, trabalhar no hospital universitário. Adam era microbiologista desde a Polônia. Uma raridade naqueles tempos. Tinha cursado universidade e estava fazendo o doutorado quando a Alemanha invadiu a Polônia. Os dois tinham sido heróis. Além de apoiarem a guerrilha, Krystyna salvou toda a sua família dos campos de concentração (mãe, pai, irmão, irmã, cunhados); e Adam tornou-se o anti-mohel, especializando-se em ajudar judeus a apagarem as marcas de circuncisão.

Entrevistamos, cada um, por 1 mês. Apesar de filha e neta de judeus e de ter escutado histórias do holocausto desde sempre, com eles, fui vislumbrando um outro jeito de entender a guerra, o gueto e o cotidiano daquele momento. Soube, por exemplo, como foi que os judeus organizaram uma universidade de medicina no gueto de Varsóvia. Dito por Adam Drozdowicz:

“ ... Devia parecer um curso para sanitaristas, mas o nível era o de uma faculdade de medicina de antes da Guerra. A cada dia procurávamos um lugar onde fazer as aulas. Precisávamos de salas bem grandes porque logo que foi anunciado este curso apareceram duzentos ou mais candidatos… as cinco horas começavam as aulas, porque antes muitos dos alunos eram pegos para trabalhar para os alemães. Tanto este laboratório quanto essa faculdade funcionaram até a liquidação do gueto, que começou e 22 de junho de 1942. …nesse período desenvolveram-se também muitas pesquisas. Muitos pesquisadores judeus, médicos, aproveitaram a oportunidade e fizeram um estudo sobre a fisiologia da fome…porque o pano de fundo dessa universidade, dessa vida intelectual maravilhosa, era de cadáveres nas ruas. E cadáver já não era tão trágico. Trágico eram as crianças, num dia tão magrinhas, no outra tão inchadas. Os sintomas típicos da fome…”

Minhas entrevistas com eles eram, em geral, à noite. Uma das noites, ao final da sessão em que Adam me contava como ele e a família tinham voltado da Rússia para o apartamento de antes da guerra na Polônia e de como os judeus construíam, dia após dia, os muros que os cercavam; e de como ele tinha perdido a primeira esposa, o pai e todos na liquidação do gueto perguntei, quase que com uma certa raiva: porque vocês voltaram da Rússia? Porque você ficou? Porque os judeus ficaram fazendo os muros e não saíram ou se rebelaram? Como vocês foram ficando e deixando tudo acontecer? Ele me olhou, do alto dos seus 70 e tantos anos: “hoje nós sabemos o que aconteceu. Naquele instante, era um dia atrás do outro. A luta era pela sobrevivência e pela tentativa de ficar com o que conhecíamos. As coisas iam acontecendo e nós íamos nos adaptando. Não tem como julgar com os olhos de hoje.”

Terminamos o encontro. Era noite. Como eu morava perto,  fui caminhando para minha casa. Eram mais ou menos 11 horas da noite. Nas calçadas, passei por mendigos, famílias dormindo na rua. Eu me esquivando para não pisar em ninguém. Aquela cheiro de fim de noite, lixo, as pessoas estiradas no meio das ruas. E pensei: “qual a diferença entre eles e eu?”  Também acho normal sair e ter tantas pessoas dormindo nas ruas. Também me adaptei. Também nós queremos ter nosso dia a dia, como se nada estivesse acontecendo.  Este foi meu primeiro estranhamento. Minha primeira transformação. Acho que foi uma lição de humildade. Sem julgamentos. Também nós nos adaptamos. Ou não. É uma decisão que temos que tomar, dia após dia, acerca daquilo que queremos enfrentar e transformar e daquilo que acabamos por deixar como está. E vamos nos adaptando. É sempre uma escolha. Apenas não percebemos que ela existe. E tomamos o resto como fatalidade. Ali, naquele momento, percebi o poder transformador de OUVIR uma história de vida. Ali nasceu a semente da ideia do que veio a se tornar o Museu da Pessoa.

Quase 30  anos se passaram e chegou-me às mãos o livro de Vitor Frankl  “Em Busca do Sentido”, escrito em 1945, logo após sua libertação dos campos de concentração nazistas, nos quais perdeu os pais e a esposa. Vitor Frankl, criador da logoterapia, considerada a terceira linha de psicanálise de Viena, nasceu na Áustria em 1905. Já era médico e psiquiatra, especializado em tendências suicidas, quando foi levado para um campo de concentração. Em seu livro, ele faz uma análise de sua experiência e tenta compreender a si próprio e ao ser humano:

“Para nós, no campo de concentração, nada disso era uma especulação inútil sobre a vida... o que nos importava já não era mais a pergunta pelo sentido da vida como ela é tantas vezes colocada, ingenuamente, referindo-se a nada mais do que a realização de um ato qualquer através de nossa produção criativa. O que nos importava era o objetivo da vida naquela totalidade que inclui também a morte e assim não somente atribui sentido à “vida”, mas também ao sofrimento e à morte. Esse era o sentido pelo qual estávamos lutando!”(pp. 103)

Talvez, a conclusão mais pungente de suas experiências seja a de que, a cada um de nós é dada a responsabilidade de atribuir à própria vida um dado sentido: “a liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe, até o ultimo suspiro, configurar sua vida de modo a que tenha sentido.”(p.89)

O livro de Frankl fechou um ciclo na minha compreensão sobre o Museu da Pessoa. Nossas narrativas de vida traduzem, de forma bastante singular, o sentido que damos à nossa vida. Nelas estão presentes os momentos, fatos e emoções cujos significados ancoram nossas memórias da mesma maneira que guardamos objetos, fotos e documentos.  O processo de “narrar” a própria história impacta o indivíduo na medida em que o leva a criar e/ou rever o sentido de sua vida.

Creio que a história oral é e sempre será uma prática de fronteiras. Fronteiras entre disciplinas e também entre possibilidades de uso. Por sua natureza, e como definição, na minha perspectiva, o que define a história oral é que, de todas as disciplinas da prática histórica, ela é precisamente aquela que cria uma fonte histórica, isto é, o registro de uma narrativa na história oral é a construção de uma fonte histórica única e inédita até aquele momento. E que tipo de fonte é essa? Talvez a maior característica desse tipo de fonte − os depoimentos − não seja a subjetividade, mas a singularidade da narrativa, isto é, o fato de que cada narrativa constitui uma articulação, singular, feita por alguém. Trata-se de uma narrativa que traduz – sempre − a perspectiva pessoal que o indivíduo tem sobre a própria experiência ou sobre um tema específico. Creio que essa é uma colocação fundamental para compreendermos, de fato, aquilo que é mais precioso em um depoimento, ou seja, a articulação que cada narrador faz para construir sua própria história. Essa articulação explicita as relações de causa e efeito, as definições das tramas e os destaques dados ao conjunto de eventos. Ela traz a singularidade de cada pessoa. Nesse sentido, é um equívoco ver/perceber o narrador apenas como um representante de um dado segmento social ou contexto histórico.  O que conseguimos, de fato, compreender por trás de cada história é a PESSOA. 

Recentemente fui surpreendida por uma história realizada por uma parceria muito bonita da ONG É DE LEI, que trouxe moradores de rua para contar suas histórias. Acho que essa história me tocou especialmente porque, apesar de toda minha crença de que cada pessoa tem sua humanidade, a situação limite de moradores de rua e crack sempre me chamaram atenção. Vou ao CEASA praticamente todo domingo. No caminho, vejo várias barracas ou semi-barracas de moradores de rua. Algumas delas me chama atenção, como a de um morador em frente ao cemitério da Leopoldina. Cada domingo, ao redor de sua pequena barraca feita por plásticos pretos, existe uma pequena instalação: bonecas, objetos, pequenas panelas criam, no meio daquele tumulto, a sua “casa”.. Passar ali me faz lembrar de novo Vitor Frankl e nossa luta eterna para permanecermos humanos.

Acho que esta pequena história me levou a rever, mais uma vez, um pré-conceito sobre esses moradores e suas drogas. 

É DE Lei.

O que me chama atenção é que, ao inverso do que cada um de nós supões, a luta dele não está vencida. Ele tem sua questão na vida e sua forma muito própria de lidar com ela.




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