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Artigo de Sevcenko integra o livro "História Falada - Memória, Rede e Mudança Social"



Em homenagem a um dos mais renomados historiadores do Brasil, Nicolau Sevcenko, resgatamos um artigo escrito por ele no livro do Museu da Pessoa, "História Falada - Memória, Rede e Mudança Social. Sevcenko graduou-se em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCHU) e lecionou na USP de 1985 até 2012, quando se aposentou. 

Confira o artigo "A Palavra e o Reencantamento do Mundo":

“Discutir memória, rede e mudança social é estar afinado com a rearticulação dos movimentos sociais em função das novas tecnologias de comunicação e como isso está revolucionando a conectividade, o envolvimento, o agenciamento e a participação política desses grupos, agora em âmbito planetário, que é a nossa resposta à globalização. Quanto mais conscientes e conhecedores desses mecanismos e possibilidades, mais vamos nos sentir dotados de recursos para levar adiante nossa resposta ao processo de concentração de riquezas, de poder de decisão e também de exclusão, que tem sido a norma da globalização.

O tema Tradição Oral no Mundo Digital coloca em evidência algo que esteve longamente fora de questão. Sabemos que a consolidação do sistema capitalista, base da cultura burguesa de raiz européia, centrou-se na imprensa a partir de Guttenberg. Conhecemos o seu efeito como agenciadora de conhecimentos que possibilitou a evolução tecnológica, que deu ao Ocidente o poder de domínio em escala global. Isso criou um preconceito de origem contra quem, como pessoa, comunidade ou cultura, não se organiza pela palavra escrita, mas pela comunicação oral, aqueles que, por essa razão, são classificados como analfabetos, com conotações de ignorantes e primitivos, conotações sempre negativas e excludentes.

Só muito recentemente é que pesquisadores, adotando perspectivas radicalmente inovadoras, tentaram reverter esse quadro. Estudaram as características da cultura oral tentando compreender sua enorme riqueza e como ela foi brutalmente sufocada pelo poder da escrita, causando a perda desse patrimônio para a cultura de toda a humanidade. 

É a partir desse ponto, nos anos 60/70, com teóricos como Marshall Mcluhan e muitos outros, que teve início o levantamento das características e conteúdos das culturas orais e da sua exuberante riqueza mítico-poética, assim como de sua ampla difusão em escala mundial. Temos nessa mesma linha, estudos de pesquisadores brasileiros, como os da professora Jerusa Pires Ferreira, demonstrando por exemplo que um dos mitos centrais da nossa cultura, o do Pavão Misterioso, na verdade é um mito de origem siberiana que chegou ao nordeste do Brasil via Península Ibérica, via Portugal. Essa é a magnitude

da cultura oral, que já era global antes de a cultura escrita assumir esse papel. O que se faz hoje é exatamente o inverso do enfoque tradicional. Tenta-se resgatar esse valor, esse patrimônio, e dele usufruir em benefício do alargamento dos nossos tesouros culturais.

O que há em comum entre todos os temas desse bloco, é a ênfase na questão da fragmentação, dos cacos a que foi reduzida a cultura popular, seja pela dimensão negra, pela dimensão indígena ou ainda pela dimensão ampla e difusa do povo de todo o Brasil. E o que é essa redução a cacos, a fragmentos? É o desencantamento do mundo. E do que essas criaturas vieram falar aqui, senão de uma busca do reencontro dessa comunhão entre todas as partes e gentes, e de nós com todas elas? Acho que a mensagem é dita aqui de forma, alta e clara, curta e grossa, em ritmo e em prosa, mostrando a força da palavra como o cimento que incorpora a nossa disposição

afetiva de recompor os cacos, de reencontrar o mundo, de reencontrar o alumbramento de todas as coisas e de tentar, assim, construir uma nova oralidade que substitua essa globalização que é abstrata, que acentua desigualdades, que acentua a exploração, por uma nova solidariedade orgânica. Como diz Ailton Krenak, a cultura é um ser vivo. E assim é a linguagem também, e assim é a humanidade.

O que essa nova oralidade deve exprimir é exatamente o primado da terra, do ser humano, da vida. Uma das poucas vantagens que temos em ser subdesenvolvidos é que, por conta do desleixo da elite com o povo deste país, apenas a minoria se ateve ao universo da língua escrita, enquanto a grande massa da população permaneceu na cultura oral. Passou direto para o rádio e a televisão, para a comunicação de massa, mantendo viva a comunicação oral, sendo agora capaz de retransmitir essa mesma cultura oral para as novas tecnologias. Se esse é o tesouro que hoje em dia a humanidade quer resgatar, ninguém tem uma porção maior desse tesouro e, portanto, uma missão maior do que a nossa.”

 

Para baixar o pdf da publicação clique aqui.




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