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"Franco da Rocha, onde o “sim” não chega"



Sempre fui muito tímido e morria de vergonha e medo na hora de correr atrás de assuntos do meu interesse ou falar com pessoas novas, embora aos poucos tenha me soltado mais. Devido a essa timidez, minha mãe sempre me disse, “filho, o não você já tem, precisa conseguir o sim”. Cresci com essa frase me alertando em diversas situações da vida, desde quando fiz o teste para o time de basquete do Palmeiras aos 10 anos, até o vestibular para o curso de Jornalismo há dois anos atrás.

Nem todos sabem, mas joguei basquete federado até os 16 anos. Por ser apenas uma criança gordinha que estava cansada de ser goleiro, fui tentar a sorte em uma peneira com  uma molecada nascida em 1995. Um mês depois do teste a frase da minha mãe fez sentido e recebi um “sim” do técnico para entrar no time. Com o vestibular foi a mesma situação, apenas um mês antes de fazer a prova, foi que eu decidi o que eu iria cursar. Havia passado o ensino médio inteiro querendo Engenharia e devido a umas notas baixas em matemática e uns elogios da professora de português, mudei para Jornalismo no último minuto. Mesmo em cima da hora, veio o “sim” no vestibular e ingressei em uma faculdade de comunicação.

Menos pessoas ainda sabem disso, mas desde 2011 visito a unidade da Fundação CASA de Franco da Rocha com um grupo de voluntários. Comecei com menos idade que os meninos que estavam presos lá dentro e sempre me chamou a atenção o fato de eu ter muitas coisas me assemelham àqueles meninos privados de sua liberdade. Tínhamos quase a mesma idade, quase todos órfãos de pai, gostávamos das mesmas músicas e de fazer as mesmas coisas.

Porém, apesar de ambos serem apenas criados pela mãe; a maioria das mães dos meninos era doméstica e tinha mais filhos, enquanto a minha era professora e eu era filho único. Embora eu e aqueles adolescentes tivéssemos quase 17 anos, eu tinha que me preocupar com minhas notas na escola e alguns deles com o filho que havia acabado de nascer. Enquanto eu morava na Pompeia e estudava nas Perdizes, eles moravam no interior a 5 horas de São Paulo e só estudavam na Fundação CASA. Mas além de tudo isso, o pior contraste é que eu tinha a oportunidade de fumar maconha como diversão na minha escola, e eles tinham que deixar de ir à escola para vender maconha aos meus amigos, como forma de sustento para a sua casa.

Do pouco que você ouve de um menino desses, fica claro que eles têm vontades, desejos e sonhos muito próximos dos de um jovem de classe média que compartilha da mesma idade deles. Só que é muito nítido também que a distância para eles conseguirem o “sim” que minha mãe falava é muito maior e por isso colecionam “não” atrás de “não”. Muitos lá gostariam de entrar em um time de basquete ou numa faculdade que lhes proporcionassem um emprego legal. Porém eles não recebem um “não” do técnico, ou do vestibular, pois a porta do “sim” se fecha antes. O “não” vem do transporte público porque o menino mora em Parelheiros e não chega num clube na Barra Funda às 9 da manhã durante a semana para uma peneira, da taxa caríssima do vestibular que ele não tem condição de pagar ou da roupa que ele não pode comprar para ir em uma entrevista.

Um papo lá dentro me marcou muito. Tinha um menino que cantava funk e fazia umas letras geniais. Um dia perguntei para ele se já havia tentado gravar ou fazer um show, ele respondeu para mim que o que sempre ouvia era, “pra você não vai rolar” e completou, “o sim veio do crime né senhor e agora to aqui”. A vida inteira daqueles meninos foi uma sequência “nãos” e mesmo assim a sociedade quer discutir punições e crimes, enquanto o debate tem que ser de oportunidades e portas.

Todas essas histórias minhas e dos adolescentes internos da Fundação CASA são para mostrar que é muito mais complexo a questão da redução da maioridade penal. Não é simplesmente dizer que o jovem em conflito com a lei tem escolhas e se quiser ele faz a coisa certa. É tentar entender os porquês que levam adolescentes ao crime e porque a maioria dos adolescentes da fundação Casa são negros. É também saber qual adolescente colocaremos dentro de um presídio, eu e outros meninos que estudaram na minha escola (se fizer uma vasculha, encontrara alguma quantidade de droga em qualquer condomínio, escola ou universidade) ou um menino que de uma escola pública sem professores e estrutura, o que visita a fundação Casa ou o que recebe a visita, o que se fizer algum esforço mínimo consegue o “sim” ou o que recebe “não” todos os dias? 




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