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Haiti



“Quando você for convidado para subir a escada da estação da Sé para ver do alto a fila de encapuzados (talvez soldados), quase todos pretos dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos”. Peço licença ao poeta, mas não achei forma melhor de expressar minha insatisfação com o ocorrido há 11 anos e meu luto e homenagem às vítimas do que com essa paráfrase (se não conhece a música, escute).

No dia 19 de agosto de 2004, o centro de São Paulo foi marcado por uma chacina em que sete pessoas em situação de rua foram assassinadas e oito feridas com golpes na cabeça enquanto dormiam. “Um carro parou perto da gente e de dentro dele saíram alguns homens encapuzados com barras de ferro e de madeira na mão”, as palavras são de Antônio, um sobrevivente do “Massacre da Sé” em entrevista ao SP Invisível – “Um deles me atingiu com uma barra de ferro e a minha costela quebrou. Graças a Deus eu consegui ficar vivo e corri na mesma hora para o hospital”. – Completa o homem negro de 40 anos que hoje só dorme em albergue, pois não aguenta mais a rua depois da pancada.

Infelizmente, 11 anos depois a máscara (ou o capuz) da escravidão ainda não caiu e no dia 13 de agosto dez homens foram baleados por homens encapuzados dentro de um bar no bairro Jardim Munhoz em Osasco, quatro morreram no local e os outros seis no hospital Jardim Mutinga. - “Favela ainda é senzala, jão”! – Poucos quilômetros daquele bar, Davidson Ferreira, de 26 anos, (cujo o pai gostava da moto Harley Davidson) foi encontrado executado com 10 tiros no corpo na rua Vitantônio D’Abril, no bairro da Vila Menck. Os outros ataques dos assassinos foram todos pela região de Osasco e Barueri resultando em 19 mortes no total.

Três dias depois, uma São Paulo ocupava a maior avenida da cidade, enquanto outra ocupava o Jardim Munhoz, bairro onde ocorreu a execução no bar em Osasco. A primeira São Paulo era uma cidade branca, quase rica, mas com cabeça de rico, indignada com a corrupção que vestia a camisa da CBF, o manto da honestidade e da transparência. A outra era uma cidade negra, pobre, periférica e protestava pela vida de seus pais, suas mães, filhos, filhas, irmãos e irmãs. Aqueles da Av. Paulista estavam no lugar certo, já os de Osasco, pra variar, no lugar errado. Ai deles, se pegarem o metrô e descerem na Consolação, lá não é lugar deles, “A nossa bandeira jamais será vermelha!”, nem que o vermelho seja do sangue daqueles que construíram as varandas gourmets, dirigem os ônibus, cuidam dos nossos filhos ou limpam nossas casas. Como bem disse uma moça da manifestação do dia 16, “coisa da periferia tem que ser resolvida na periferia”.

É muito triste ver duas cidades tão diferentes dentro de uma só, duas realidades tão próximas. É doloroso ouvir o “silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina”. A polícia militar de São Paulo bateu recorde de mortes e todos sabem que essa bala tem endereço e cor, todos sabem que não tem “bala perdida” em inocente na Av. Paulista e que quase todo dia tem “bala perdida” em inocente em Osasco, todos sabem que uma “bala perdida” na Av. Paulista chamaria mais atenção que todas “balas perdidas” de Osasco.

O Haiti é aqui, Caetano. O Haiti é na praça da Sé, o Haiti é na Candelária, o Haiti é no Carandiru, o Haiti é no Vigário Geral, o Haiti é em Urso Branco, o Haiti é na quadra do Pavilhão Nove, o Haiti são as Mães de Maio. O Haiti é o Brasil, é São Paulo, é o cotidiano da periferia. O Haiti é Osasco e Barueri. E à Avenida Paulista, “peço que pense no Haiti e reze pelo Haiti”. 




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