Busca avançada



Home / Explore / Blogs / Lembraria - Histórias de Comida

Açúcar de aniversário: sem docinho, não tem festa



Já falamos, aqui, em nossa primeira coluna, sobre como as memórias de infância costumam ser açucaradas, favorecidas que são pela distância cada vez maior com que olhamos para elas da plataforma da vida adulta. Hoje, tratamos de outro elemento que parece também contribuir para que as lembranças dos tempos de criança tenham gosto assim, tão doce: as festinhas de aniversário.

Marcos de nossa passagem pela infância, esses eventos até podem mudar conforme o endereço, a condição financeira, a década e a tradição da família que os realiza. Uma característica, no entanto, dificilmente se altera: a mesa do bolo, sempre bonito e bem açucarado, sempre rodeado por seus companheiros, os docinhos. O que não pode faltar em uma boa festinha, ao que parece, não é sal; é açúcar.

Em mais uma coleção criada a partir do acervo do Museu da Pessoa, selecionamos histórias contadas não em forma de entrevistas, mas por meio de fotografias de festas de aniversário. Clicadas entre 1952 e 1999, elas remetem a uma época em que era preciso escolher com cuidado o melhor ângulo para não desperdiçar o filme; revelam, portanto, cenas que quiseram ser registradas. E elas eram, quase sempre, as do parabéns, com a turma toda posando atrás da mesa dos doces.

Na festinha organizada em 1967 por Tufik Lutaif para as filhas Marina, então com 9 anos, e Márcia, que completava o primeiro, duas receitas surgem em destaque em meio à criançada. Uma delas é o bolo alto, provavelmente de três ou quatro camadas de massa, coberto com muito glacê branco, todo enfeitado. A outra, que aparece ao lado dele, constitui um clássico que demoraria a sair das fotos: as balas de coco embrulhadas em papel picotado, que, juntas e aos montes, formavam um grande tufo de pompons.

Mais do que as balas de coco, que ainda aparecem nas fotos de aniversário do filho de Nilson Ramos Almada, em 1976, e da irmãzinha de Rosana Biscaro, em 1979, outro docinho tomaria conta das mesas das festinhas a partir da metade do século XX: o brigadeiro. Na foto dos cinco anos da caçula de Juraci Maria da Silva, de 1999, as forminhas coloridas do docinho parecem até compor uma extensão do bolo, tamanha a fartura dele.

Apesar de não ser muita certa a origem da receita, que acabou virando símbolo da “gourmetização” dos nossos tempos, muita gente propaga a teoria que diz ser o brigadeiro uma invenção de 1945, quando ele teria sido vendido por um grupo de senhoras para arrecadar fundos para a campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da República, logo após o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Mais certo é que, em vez de ter sido criado naquele momento, o docinho-rei das festinhas de aniversário apenas ganhou ali nome próprio. Antes disso, já vinha sendo preparado país afora como uma espécie de bombom, resultado da moda do uso de ingredientes industrializados na culinária, que crescia desde os anos 1920 e se consolidava depois da Segunda Guerra. Dois desses principais enlatados seriam, afinal, sua base: leite condensado e chocolate em pó.

Na famosa coluna Lar, Doce Lar da revista O Cruzeiro, assinada pela então sumidade em assuntos domésticos Helena Sangirardi, a receita do brigadeiro surge em 1949 com uma fórmula um pouco diferente da atual. Segundo ela, o leite condensado deveria ser previamente cozido para virar doce de leite e, só então, ser misturado ao chocolate em pó e à manteiga até ganhar ponto de enrolar. Abaixo, a própria Sangirardi nos ensina a fazer brigadeiro à moda das festinhas de aniversário de 1949:

 

Brigadeiro à moda das festinhas de 1949

“Cozinhe em banho-maria uma lata de leite condensado. Sim, cozinhe antes o leite condensado! Muita gente abre a lata, despeja numa panela e fica mexendo até começar a enxergar o fundo da panela. Nós abreviamos o trabalho levando ao fogo, na panela de feijão, a lata fechada de condensado.

Depois de uma hora e meia – em panela comum ou meia hora, em panela de pressão – retire o leite condensado para uma panela, junte 3 ou 4 colheres (sopa) de chocolate em pó, 1 colher (chá) de manteiga, misture e leve ao fogo, mexendo até enxergar bem o fundo da panela.

Retire do fogo, deixe esfriar, faça bolas pequenas, passando-as por chocolate granulado.”

 

Veja aqui a coleção completa e leia mais sobre festinhas de aniversário e histórias do leite condensado e do brigadeiro no Lembraria.

* Quinzenalmente, o site Lembraria – Histórias de Comida, mantido pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi, publica uma coleção de histórias e um texto sobre memória e comida no site do Museu da Pessoa.




Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+