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Bolos de noiva: o que eles dizem sobre a história dos casamentos



Quando convidadas a contar suas histórias, as pessoas costumam recorrer a marcos que as ajudem a lembrar de certos casos, de certos períodos. O casamento, oficializado ou não, parece ser um dos mais frequentes “guias” da memória. Por muito tempo, a festa organizada para celebrá-lo era um dos raros eventos da vida a ganhar registro em fotografia; constituía, assim, um dos poucos momentos do passado a poder ser “olhado” e “re-olhado”, quantas vezes desse saudade. Quase todo mundo já folheou, alguma vez, um desses álbuns de casamento antigos, de pais ou avós, responsáveis por moldar e transmitir muitas recordações de família.

 

Ao falarem de suas vidas para o Museu da Pessoa, Renato, Luiz Carlos, Roberto, Antonia, Manuel, Dilson, Aparecido e Victor levaram para a entrevista lembranças não só guardadas na memória, como também congeladas em papel fotográfico. Entre essas imagens, havia cenas de infância, de família e de casamento; destas últimas, todas tinham outro algo em comum: a recorrente pose de noivos sorridentes, junto ao enfeitado bolo da cerimônia. Separadas do acervo do museu, essas fotos de noivos e bolos contam, sozinhas, uma história que, para além da subjetividade das festas que registraram, em anos e lugares diversos, revelam a coletividade de gostos, rituais e tendências que caracterizaram suas épocas.

 

Basta uma olhada rápida na coleção para notar o ir e vir da estética dos bolos e, indo mais a fundo, do próprio pensamento a respeito do casamento ao longo do século XX. Os bolos de dois ou mais andares ricamente decorados dos anos 1950 – como o da festa de Dilson e Estherzita, realizada em 1958 em Muriaé, Minas Gerais – pareciam selar o orgulho dos casais que seguiam mais do que uma tradição, uma obrigação cobrada pela sociedade daquele tempo. Por outro lado, a simplicidade dos bolos de uma só camada, sem tantos adereços, das celebrações de Antonia e Geraldo, em 1973, em São Paulo, e de Roberto e Walceli, em 1974, em Campinas, aludiam talvez ao contrário.

 

Em um momento pós-1968, em que a liberdade das ditaduras (inclusive nas relações entre homens e mulheres) era buscada, o casamento havia, então, se tornado “careta”. Casar deixava de ser um dever; “juntar” se tornava possível e aceito – ou, ao menos, se lutava para isso. Assim como o casório, o bolo tinha de ter menos fachada, mais sabor, como sugerem as imagens de casamento da década de 1970. O curioso é que, dez anos mais tarde, fotos como a dos noivos Renato e Leonor, que posaram atrás de um decoradíssimo megabolo que incluía até pontes para “bolos-satélites” em 1987, no Rio de Janeiro, revelam uma contradição. Em vez de darem sequência à simplificação, voltam a se aproximar da pompa reinante bem antes, nos anos 1950.

 

Esses megabolos são, de fato, representações dos exageros da moda da década de 1980, que pedia vestidos de noiva de mangas bufantes e ombreiras altíssimas. Entretanto, eles também podem representar o início de um movimento de revalorização do casamento como instituição social. Um movimento que, gradualmente, em direção ao presente, transformaria o bolo nas atuais esculturas de açúcar e pasta americana. Na mesma toada, o casamento deixaria de ser apenas celebração; para muitos, viraria espetáculo.

 

Apesar dessas mudanças ao longo do tempo, as fotos de noivos e bolos nos mostram também a permanência de símbolos fortes, resistentes a séculos. A cobertura quase sempre branca continua aludindo à antiquada ideia de “pureza” da noiva. O corte de mãos dadas na mesma faca mantém, embutido, o desejo de futura cumplicidade. Por fim, a ostentação de enfeites e glacê, em intensidades variadas, segue como necessidade para fazer bonito entre os convidados presentes e os futuros, quando estiverem debruçados no indestrutível e (ainda atual) álbum de casamento.

 

Leia mais sobre a história dos bolos de noiva e de casamento (sim, eles já tiveram significados bem diferentes) e veja a coleção completa no Lembraria e no Museu da Pessoa.

 

* Quinzenalmente, o site Lembraria – Histórias de Comida, mantido pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi, publica uma coleção de histórias e um texto sobre memória e comida no site do Museu da Pessoa.




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