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Comer e beber a cidade: os estabelecimentos que lembram São Paulo



"São Paulo é uma cidade sem memória", dizem por aí. Mais certo, talvez, seja dizer que São Paulo é uma cidade que, voluntariamente, se tornou desmemoriada. Em certo momento, parece ter ficado combinado que ela não iria se lembrar do passado, porque a lembrança desnudaria a imagem que ela mesma insistia em fazer de si própria: a cidade dos modernos, do cosmopolitismo, do progresso, do que está sempre por vir, e não do que passou, do que... já era.

“Esquecer um período de sua vida é perder contato com aqueles que então nos rodearam”, afirma o sociólogo Maurice Halbwachs, em sua obra A Memória Coletiva. A lembrança, segundo ele, só permanece se for alimentada por um grupo que tenha vivido (ou se lembre se ter vivido) as mesmas coisas, em um mesmo tempo e em um mesmo espaço. Afastar-se de quem e do que nos fazia lembrar de algo do passado é, inevitavelmente, esquecer-se dele.

O tempo não para, já diziam os poetas; mas também a capital paulista não para de mudar e de perder seus pontos de referência para a memória. Mesmo assim, ainda que seus “monumentos” históricos estejam escondidos sob camadas de obras viárias e de varandas gourmet, São Paulo, como toda cidade, é também um importante e rico espaço de memória.

Alguns de seus “monumentos” invisíveis ainda podem ser visitados e frequentados, inclusive. São empórios, confeitarias, bares e restaurantes que, abertos há muito tempo, ganharam múltiplas funções: além de oferecer seus comes e bebes, viraram pontos de encontro de gerações, testemunhas das transformações do espaço urbano e participantes ativos nessas mudanças. Mais do que tudo isso, se tornaram pontos de referência para a fraquinha memória da cidade.

 

Recordações localizadas

Em uma metrópole tão enorme, os bairros chegam a ter vida e lembranças próprias – e também clichês para chamar de seus. O Bom Retiro, por exemplo, é tido como o lugar dos imigrantes desde o fim do século XIX. Das sucessivas levas de moradores italianos, judeus do Leste Europeu e coreanos, permaneceram emblemas como a Casa Búlgara, que, há mais de quarenta anos, serve burekas, folhados doces ou salgados, tradicionais do país de origem da fundadora, Lina Levi.

Em meio às receitas que preparava na cozinha e ao vaivém de clientes no salão, dona Lina observou de perto as mudanças do lado de fora. “Quando nós chegamos, era diferente São Paulo! Não era como agora”, diz. A Vila Madalena também era outra. Embora pareça ter sido sempre o bairro da boemia, o burburinho de bares começou ali há menos tempo do que já acumula a Casa Búlgara de dona Lina... Ainda assim, a Vila é endereço de lugares com história. O Empanadas Bar, comandado pelo pernambucano Robson Cavalcante, muito contribuiu com a formação do espírito botequeiro da região.

Mais perto do Centro, as mudanças foram tantas que as lembranças chegam até a se confundir, a se sobrepor umas às outras. Na Augusta, rua-memória como poucas outras, as recordações de Álvaro Lopes, que era criança quando o pai inaugurou ali a Casa Santa Luzia (hoje na alameda Lorena), praticamente se colidem com as de Roberto Vicente Frizzo, filho do fundador da lanchonete Frevo. O primeiro rememora os tempos em que as cabras de leite dividiam a via com os bondes; o segundo retorna à década de 1960, quando os rachas e as loucuras da "juventude transviada" tomaram conta da rua. 

No Centrão, também é assim: cada edifício de cara antiga guarda muitas lembranças, embora nem sempre existam interlocutores para contá-las – as constantes mudanças de comércio costumam levar consigo antigos proprietários e antigas lembranças. No Mercado Municipal, Leonardo Chiappetta, do Empório Chiappetta, tem muito para falar. Ele vem, afinal, acompanhando as mudanças de São Paulo do balcão da loja, enquanto vende bacalhau, azeitonas e queijos importados, há mais de cinquenta anos. Na época em que seu pai e seu avô italianos instalaram na avenida São João o primeiro empório da família, a Ladeira Porto Geral, que cruza a Rua 25 de Março, desembocava de fato em um dos portos improvisados para as canoas que transitavam no hoje quase desaparecido rio Tamanduateí. “Pra você ver o tamanho que era São Paulo!”, lembra ele.

Veja aqui a coleção Comer e Beber a Cidade completa.

 

* Quinzenalmente, às sextas-feiras, o site Lembraria - Histórias de Comida, mantido pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi, publica uma coleção de histórias e um texto sobre memória e comida no site do Museu da Pessoa.




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