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Comida de avô: feijão-tropeiro



A imagem do feijão-tropeiro cristalizou-se como a de um potente PF de tutu ou virado com bastante toucinho (ou bacon), acrescido de couve e, às vezes, linguiça. Alguns dizem que a diferença entre essas receitas seria a farinha utilizada para engrossar o feijão: de mandioca, para o tropeiro; de milho, para o tutu e o viradinho. Entretanto, como ocorre com qualquer prato de que se investigue a "receita verdadeira", para ele também não há autenticidade possível.

 

São várias as "verdades" para esse feijão, mesmo entre os próprios tropeiros que o tiravam de suas residências, onde eram de preparo cotidiano e exclusivo das mulheres, para prepará-lo em fogões improvisados em ranchos e acampamentos no meio das trilhas. Uma coisa, contudo, é certa: ele consistia em prato muito simples, fruto mais da necessidade e das possibilidades do lugar em que seria feito do que do gosto de quem iria prová-lo. Possivelmente, não levava linguiça nem couve e era engrossado com a farinha disponível no momento.

 

Se é para se referir ao feijão-tropeiro como expressão culinária da quase extinta profissão que seu nome eterniza, ele parece ter sido mais uma "comida de avô" do que de avó – a imaginária cozinheira de mão cheia (mineira de preferência) que, ultimamente, costuma se associar aos pratos caseiros e caipiras de nossa memória. Assim como as avós reais do passado, esse avô tropeiro viveu as agruras de um universo rural nada idílico e trabalhou duro para sobreviver em um tempo que, afinal, não está assim tão distante.

 

Até mais ou menos os anos 1950 e 1960, antes de o caminhão se consolidar como principal meio de transporte de carga e de os alimentos industrializados ganharem espaço (assim como os grandes mercados), os tropeiros – sempre no masculino – eram figuras muito frequentes no sertão do Brasil, em todas as suas regiões. Tinham a primordial e difícil função de transportar, de um povoado para o outro, os alimentos produzidos nas roças ou processados em pequenas "indústrias" domésticas.

 

Faziam isso com a ajuda de burros, que equipavam com a cangalha, uma sela dotada de uma estrutura de madeira em que pendiam duas cestas, uma de cada lado, carregadas com os principais produtos: feijão, farinha de milho ou mandioca, toucinho de porco, carne-seca, rapadura. Guiavam os animais por trilhas no meio de mato, enfrentando subidas, descidas, rios e chuvas repentinas. Entre um destino e outro, paravam para dormir em ranchos de pau a pique abertos pelo caminho ou montavam, eles mesmos, suas barracas e fogueiras em algum descampado.

 

José Marçal de Oliveira, um dos últimos tropeiros do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, falou de sua vida ao Museu da Pessoa quando já caminhava para os 86 anos, em 2007. Ele começou na profissão pouco depois da morte do pai, também tropeiro. Tinha, então, 10 anos de idade, e sua primeira função foi a mesma de todos aqueles que se iniciavam na tropa: cozinheiro.

 

“O que eu aprendi a cozinhar? De tudo eu sabia fazer, mas carne que eu mais sabia fazer. O que mais a gente usava: carne, feijão e farinha. É o que fazia. Dali, você fazia uma farofa, você fazia uma sopa. Com farinha, você fazia sopa. Às vezes, cozinhava carne de boi ou cozinhava osso de boi e fazia a sopa. Tudo era gosto, né? Você chegava de manhã cedo, você levantava cedo, você comia uma sopa boa com carne, uma delícia. Quando a gente chegava na rancharia, você pegava aquela comida que sobrava, você punha dentro do caldeirão, punha farinhazinha para poder não entornar na caixa de cozinha. Quando você chegava lá, você fritava seis barrilzinhos de toucinho, tirava o toucinho e fritava. Fritava o toucinho e passava. Aí, você fazia uma comidinha. Quando você refogava aquela comida de novo, nossa, o que cheirava, menina, fazia gosto!"

 

José Alves de Mira, o Zé Mira, foi tropeiro no Vale do Paraíba desde os 7 anos de idade, seguindo a profissão do pai e do avô, de quem recebeu como herança uma cangalha antiga, "feita em 1800", segundo ele se orgulhava de precisar. Ao contar sua história ao Museu da Pessoa, em 2008, um ano antes de falecer, ele tinha 83 anos e se lembrava que o feijão-tropeiro, além de servir para almoço e janta, era também consumido no café da manhã.

 

"Se eu levantar quatro horas e comer um virado de feijão com torresmo, eu estou almoçado, que era o meu trabalho de tropeiro, que a gente fazia para poder sair com a tropa, porque saía de madrugada e não sabia que hora que ia fazer almoço. Tinha dia que não fazia almoço. O almoço era um feijão-tropeiro feito na trempe, os dois ferros fincados para pôr aquele ganchinho, para pôr a panela, para pôr o fogo embaixo para ferver, fritar o torresmo. É o que comia.”

 

Para acompanhar o feijão-tropeiro, o café era coado de uma forma que hoje pode parecer estranha. O vídeo produzido pelo Instituto Marlin Azul, que integra o acervo do Museu da Pessoa, retrata o trabalho de antigos tropeiros da região de Carnaubeira da Penha, em Pernambuco. Aos 9 minutos, um deles ensina o preparo do café tropeiro. Anote os ingredientes: uma cuia, uma fogueira, pedras, pó de café, açúcar e um pedaço de pau para mexer. O tropeiro enchia a cuia de água, açúcar e pó de café, e fervia a mistura – que não era coada – apenas jogando nela três pedras quentes.

 

"Agora eu vou pro café. Vai a água. Vou pegar o açúcar. Água na cuia para fazer o café. O café. Pronto. Agora vamos lá. [Pegando uma das pedras aquecidas na fogueira.] Olha as pedras. Mas vai. Ferveu ou não, uai? Eita, vai embora. Com umas três pedras, faz o café. Agora isso: quando já terminar de ferver, tira as pedras fora e usar. Tá pronto o café. Fica mais gostoso do que o café em casa. Ô, café gostoso!"

 

 

Ser tropeiro era, enfim, um ideal para muitos jovens das zonas rurais, que viam nessa profissão a possibilidade de ter a aprovação da comunidade para levar uma vida errante, viajando pela região, se divertindo nos bailes da roça, sem pressão familiar, sem hora certa para voltar para casa.

 

Para eles, cozinhar era uma necessidade da profissão, que não exerciam quando retornavam ao ambiente doméstico, onde o mitificado "feijão-tropeiro" deixava de ter a aura quixotesca das viagens por aí para voltar a ser apenas o "tutu", o "viradinho" do dia a dia, preparado na reclusão da cozinha, exclusivamente pelas mulheres. Eles aprendiam a preparar essas receitas de forma rústica, como "machos" que deveriam ser, e a transmitiam de pai para filho, de tropeiro velho para tropeiro jovem, como parte do universo de companheirismo masculino e de liberdade que vivenciavam nas tropas.

 

 

Veja a coleção completa Comida de avô no site do Museu da Pessoa e no Lembraria.

 

 

* Quinzenalmente, o site Lembraria – Histórias de Comida, mantido pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi, publica uma coleção de histórias e um texto sobre memória e comida no site do Museu da Pessoa.



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