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Cozinha imigrante: receitas judaicas em trânsito



 

 

Eles não se conheciam. Mas, logo que se mudaram para o Brasil, o iugoslavo Avraham Ben Avran e a búlgara Lina Levi, ambos de origem judaica, acabaram se tornando vizinhos no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, quando este ainda era um reduto majoritário de imigrantes judeus. Mais ou menos na mesma época, década de 1970, os dois decidiram abrir estabelecimentos que não tinham nenhuma relação comercial entre si, embora fossem parecidos: o primeiro fundou a Doceria Burikita; a segunda, a Casa Búlgara.

Ambas as lojas surgiram com foco na venda de um quitute de massa folhada recheada, trivial nos dois países do Leste Europeu, diferenciado apenas pelo formato: a burikita iugoslava se fecha como uma trouxinha, enquanto a bureka búlgara parece mais uma rosca. Apesar das diferenças na aparência – e, certamente, em algum segredo do modo de preparo –, as duas receitas se assemelham um pouco no sabor e bastante na razão de ser. São, enfim, as memórias eleitas por seu Avraham e por dona Lina para não só lembrá-los de seus países de origem, como também firmá-los na nova terra. 

Ao reconhecer uma comida que antes passava despercebida no dia a dia como uma tradição, e ao tornar pública essa percepção, os dois imigrantes podem ter buscado, sem querer, a impressão de que uma parte de sua memória estava a salvo, protegida dos encontros com os costumes culinários do país de destino. “Os meus filhos adoram arroz e feijão. Desde que chegaram aqui, eles gostam disso. Em qualquer lugar que vão, eles gostam de comer feijão e arroz, bife, pronto! Estão satisfeitos. Eles quase não comem as comidas que eu fazia antigamente”, contou Lina, em um dos depoimentos do acervo do Museu da Pessoa.

O “arroz e feijão” preferido pelos filhos nascidos ou criados no Brasil, os molhos industrializados dos supermercados, os legumes e as frutas diferentes na feira... Não são apenas os imigrantes que têm de aprender uma nova língua ao chegar de mudança; também as comidas migram e têm de se adaptar a um cenário diferente. As receitas antes cotidianas deixam as refeições do dia a dia e se deslocam. Vão para o almoço de domingo, para o cardápio da Doceria Burikita ou da Casa Búlgara, para a Páscoa ou o ano-novo judaico. 

“Os filhos comem arroz e feijão, e eu também gosto. Acostumei com a comida aqui, mas nas festas faço a minha comida. No ano-novo, na Páscoa. Na Páscoa, comida judaica, e, no ano-novo, também comida judaica”, descreveu a polonesa Rosa Fajersztajn, judia e então moradora do Bom Retiro, em outro depoimento do acervo do Museu da Pessoa. Rosa não abriu nenhum estabelecimento dedicado a uma das receitas de seu país-natal. Mas, assim como Avraham e Lina, elegeu alguns pratos como memórias-símbolos de seu passado, de quem ela foi e de onde ela viveu, para serem marcos das festas em família. 

A burikita, a bureka e tantas receitas imigrantes rumaram da banalidade do cotidiano para a excepcionalidade dos cardápios de docerias, das datas comemorativas. No artigo Comida como narrativa da memória social, a psicóloga Denise Amon e a antropóloga Renata Menasche analisam as receitas deixadas pela tia-avó de uma delas, judia, imigrante da Turquia. E citam uma terceira pesquisadora, Nefissa Naguib, que estudou como os judeus sefardim egípcios estabelecidos em Paris transformaram um prato de favas, comum na época em que viviam no Cairo, em “comida ritual, um prato servido aos domingos, em torno do qual a memória é cultivada e a identidade, reafirmada”.

Não é difícil chegar, assim, à macarronada de domingo, prato que, do cotidiano italiano, se transformou em “comida ritual” do dia de descanso da semana, para, então, mais uma vez voltar ao cotidiano, não só entre imigrantes ou descendentes, mas entre boa parte dos brasileiros. Os movimentos da culinária italiana, entretanto, parecem seguir trajetos até meio globalizantes, que mereceriam um texto à parte. Neste capítulo da coleção Cozinha Imigrante, nos restringimos, por enquanto, aos depoimentos de judeus, que contam, por meio da comida, um pouco de suas histórias de chegada ao Brasil.

Veja a coleção completa aqui e também no Lembraria.

 

* Quinzenalmente, o site Lembraria - Histórias de Comida, mantido pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi, publica uma coleção de histórias e um texto sobre memória e comida no site do Museu da Pessoa




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