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Memórias de supermercado: a loja que revolucionou a cozinha



Já se tornou até batida aquela história de que as crianças das grandes cidades, cada vez mais distantes da vida rural, acreditam que o frango vem direto do supermercado, daquele jeito limpinho, cortado em filés (ou empanado), congelado e embalado. A constatação de que a carne possa ter sido “fabricada” no supermercado soa ingênua, mas não surpreende: essas superlojas tanto fazem parte da vida das pessoas que parecem ter sempre existido; é quase como se estivessem no mundo antes mesmo do ovo ou da galinha. 

Mas, se os frangos surgiram ali, os supermercados, por sua vez, vieram de onde? Quando e como esses super ou hiper pontos comerciais entraram em nosso cotidiano? Alguns depoimentos do acervo do Museu da Pessoa contam um pouco dessa história. Um deles é o de Antônio Peres, que aparece na foto acima, em uma Convenção de Supermercados realizada em 1968; outro remete a uma data anterior, setembro de 1953, quando uma loja diferente abria as portas na Rua da Consolação, quase na esquina com a Alameda Santos, em São Paulo.

Nos dias que se seguiram ao da inauguração, moradores de perto e de longe se dirigiram até aquele local ressabiados, curiosos pela novidade. No letreiro da fachada, lia-se “SírvaSe”, mas, na entrada, catracas daquelas de cinema intrigavam a desavisada clientela. Seria preciso comprar ingresso para adentrar o estabelecimento? O gerente da casa, o paulistano Mário Gomes D’Almeida, percebendo a dúvida, passou dias plantado na porta, avisando que não, não era preciso pagar nada: todos eram bem-vindos ao supermercado.

Em meio àquela confusão curiosa, tinha início a história desses grandes mercados no Brasil. O SírvaSe, mais tarde comprado pela rede Pão de Açúcar, foi o primeiro (ou o segundo) do país a aderir ao sistema que, nos Estados Unidos, já era sucesso. Em gôndolas e prateleiras, alimentos e bebidas ficavam à mostra e, diferentemente do que acontecia nos tradicionais armazéns de secos e molhados, podiam ser manuseados e selecionados pelas pessoas. O chamado autosserviço, ou o famoso “pegue e pague”, era a grande atração.

A partir de então, a relação de compra de ingredientes ficaria menos pessoal – já não haveria, no balcão, o seu Manoel sugerindo o melhor bacalhau, ou a dona Esperança ensinando a preparar massa com a farinha de trigo a granel. Sem sequer trocar uma palavra, qualquer um poderia entrar, escolher e comprar. Em vez de mediar pequenos produtores e consumidores, como faziam os antigos armazéns, o supermercado passaria a “ligar” a indústria de alimentos e os novos clientes, influenciados, sobretudo, pelo american way of life.

As primeiras propagandas da casa direcionavam-se, não à toa, às donas de casa, mulheres que passavam a encontrar em um só lugar tudo de que precisavam para cozinhar – e tudo já embalado, industrializado, higienizado. Não era mais necessário duvidar do asseio do empório ou do açougue da esquina: a brancura dos aventais e dos chapeuzinhos dos funcionários – e a elegância das gravatas borboletas que, como tudo ali, traziam os modernosos Estados Unidos para perto – dava a entender que a limpeza reinava.

Foi a partir dessa época, e de uma crescente concorrência entre indústrias e marcas de alimentos, que, em casa, as receitas tradicionais começaram a se transformar. Etapas foram perdendo função e sendo, muitas vezes, inteiramente substituídas por um único e baratinho ingrediente, agora mais conhecido por seu nome comercial. O extrato Elefante, por exemplo, tornou-se onipresente e tomou para si a antiga e trabalhosa tarefa de descascar o tomate, tirar as sementes, apurar o molho.  

O supermercado não era, portanto, apenas o lugar em que se concretizavam a modernidade e a praticidade do “se servir” ou do “pegar e pagar”. Era, sobretudo, o lugar que levava para dentro das cozinhas a modernidade, a praticidade e a solução para uma falta de tempo que crescia conforme a mulher deixava de lado a função “do lar” para se inserir no mercado de trabalho.

Dentro de casa, alimentos enlatados e industrializados iam enchendo as prateleiras na despensa, ao mesmo tempo que outro “ingrediente” da modernidade ia se fazendo notar na copa: a televisão. O novo aparelho transmitiria o pioneiro comercial gravado ao vivo pelo gerente Mário, vendendo latas de marmelada da marca Peixe. O supermercado e a cozinha ficavam, assim, cada vez mais íntimos; e a silenciosa revolução dos modos de cozinhar e comer ia se processando quase sem ninguém notar – ao menos, até que as crianças passassem a falar de uma “supermercadiana” origem do frango...

Veja a coleção completa Memórias de Supermercado e assista aos vídeos com as curiosas histórias contadas por Mário Gomes D’Almeida no site do Lembraria.

 

* Quinzenalmente, o site Lembraria - Histórias de Comida, mantido pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi, publica uma coleção de histórias e um texto sobre memória e comida no site do Museu da Pessoa




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