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Saberes (e sabores) guardados: as receitas de uma mestre griô




Em cardápios de restaurantes, capas de livros de culinária e salões retrô de confeitarias, a alusão a uma cozinha de antigamente, caseira e singela, parece ser cada vez mais frequente. É tanto "marketing da saudade" que, às vezes, fica difícil dizer ou identificar o que seria mesmo a "comida de avó". Que comida, afinal, era essa e quem era essa avó imaginária, de mão cheia para cozinhar, que preparava receitas vigorosas como se fundasse, sem saber, a slow ou a comfort food

Certamente, essa avó existiu, mas a figura que fazemos dela parece um pouco confusa. Seu trabalho, de tão trivial e de tão parte das obrigações de dona de casa, não era notado como pode se sugerir agora: passou batido por décadas, escondido sob o mandamento do "lugar de mulher é na cozinha". Suas receitas eram certamente diferentes da forma como as percebemos hoje. De simples, por exemplo, só tinham mesmo a maneira como as enxergaríamos da plataforma das cozinhas atuais, limpas e vintage, equipadas com a facilidade de liquidificadores, batedeiras e ingredientes comprados no supermercado. 

A "comida de avó" tornou-se um elemento abstrato e difuso, mas capaz de matar a saudade de "bons tempos" que, na maioria das vezes, nem sequer vivemos. Ela nos remete a um passado idealizado e por isso, ao ser provada, talvez nos proporcione uma satisfação de missão cumprida; é como se estivéssemos contribuindo para que ela não seja extinta. Assim como cordéis, lendas e cantigas de roda, as receitas tradicionais são expressões anônimas transmitidas no boca a boca do povo e parecem ficar cada vez mais atraentes por integrarem um suposto limbo do não registro, correndo o risco de serem esquecidas.

Em meio ao modismo da nostalgia e do resgate do passado, é bom ser apresentado a uma avó de carne e osso (e riso solto) falando das receitas que ela considera especiais porque as aprendeu com a mãe, em outro tempo, e porque não quer que sejam esquecidas. No acervo do Museu da Pessoa, encontramos uma dessas avós de todos nós: Lucília Francisca de Souza, nascida em 1942 na zona rural de Nova Lima, em Minas Gerais, benzedeira de profissão, conhecedora de ervas e raízes de sua região, propagadora de cantigas de roda e quituteira à moda antiga.

Em seu bonito depoimento, o assunto principal eram as habilidades de benzedeira e intérprete de cantigas, que a fizeram receber o título de mestre griô, como são chamados senhores e senhoras que “guardam” e transmitem saberes populares e personificam algo como a memória viva de um lugar. A prosa, no entanto, desviou também para a cozinha, onde fez uma longa parada para que ela pudesse deixar registradas em vídeo as receitas que, da mesma forma que rezas e cantigas, conhece de cor e salteado.

É com o orgulho do artesão que domina seu ofício que Lucília fala das quitandas, da queca, do biscoito de vento, do doce de laranja que ela ainda faz com carinho, cuidado e, no mínimo, sessenta frutas. O trabalho que ela tem ao descascar tanta laranja e ao suar para bater à mão a massa do bolo não é motivo para preguiça ou para deixar de lado essas receitas; ao contrário, parece motivá-la a preparar mais e mais, para se destacar entre outras quituteiras, para provocar água na boca de quem já teve a chance de provar um de seus doces, para ter a satisfação de fazer sua parte na tentativa de não deixar uma tradição se apagar.

De certa forma, dona Lucília é uma dessas avós que procuramos, e suas comidas representam tudo aquilo de que sentimos falta em meio à correria da atualidade: calma, paciência, tempo. Embora soe romântica a ideia de que a cozinha dela seja melhor do que a do meio urbano afetado por tantos ingredientes enlatados, programas de culinária e receitas da internet, ouvi-la é tão reconfortante quanto uma autêntica comida de avó. Incentiva-nos a lembrar de nossas próprias mães, tias, avós e bisavós, e nos mostra o quão próximos estamos, afinal, daquilo que já sentimos saudade.

Veja aqui a coleção Saberes (e Sabores) Guardados e assista aos vídeos de dona Lucília ensinando a fazer doce de laranja e quitandas no site do Lembraria.

** Quinzenalmente, o site Lembraria - Histórias de Comida, mantido pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi, publica uma coleção de histórias e um texto sobre memória e comida no site do Museu da Pessoa 




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