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Sabores de Infância: a comida que lembra os tempos de criança



Quando levou à boca a primeira garfada de ratatouille – um refogado de vegetais tradicional da França –, o crítico gastronômico Anton Ego até se esqueceu de que estava ali, à mesa, para avaliar o restaurante que acabava de lhe servir aquele prato. De repente, aquele sabor fez o mundo parar, e ele pôde se sentir novamente o menino que, depois das brincadeiras, chegava em casa para a refeição, ganhava um afago da mãe e comia o ratatouille feito por ela com amor. De repente, ele não era mais um adulto ranzinza; era o garoto protegido pelos carinhos culinários da mãe.

Essa cena não está em um dos vídeos do Museu da Pessoa, mas poderia. É um trecho importante da animação Ratatouille, lançada pela Pixar em 2007, e trata, ainda que de um jeito breve, de memória e de como gestos e “coisas” do cotidiano da infância marcam nossa trajetória de uma maneira quase imperceptível. Apenas quando deparamos com determinados cheiros e gostos é que nos damos conta da impressionante capacidade que eles têm de nos transportar para o passado, de nos deixar pequenos e ingênuos de novo.

Anton Ego não foi o único a visitar a infância depois de provar uma receita que, sem ele saber, havia marcado um momento de sua vida. A cena, aliás, teve como inspiração um episódio vivido por outro personagem não de filme, mas de livro. Quase cem anos antes de Ratatouille, o escritor francês Marcel Proust contava uma história semelhante no primeiro volume de seu romance Em Busca do Tempo Perdido (Nova Fronteira, 2016), escrito originalmente ao longo da década de 1910. Sentado à mesa da casa da mãe, ele então vivia a experiência de voltar aos tempos de menino, na cidade de Combray, por meio do gosto do chá com madeleine, um bolinho em formato de concha, típico da França.

“Aquele gosto era o do pedacinho de madeleine que minha tia Léonie me dava aos domingos pela manhã em Combray (porque nesse dia eu não saía antes da hora da missa), quando ia lhe dar bom-dia no seu quarto, depois de mergulhá-lo em sua infusão de chá ou de tília.”

As madeleines de Proust viraram, desde então, uma espécie de símbolo das comidas capazes de nos fazer lembrar de momentos infantis que nem tínhamos consciência de terem existido. Nós, do Lembraria, um site que reúne memórias relacionadas ao comer e ao cozinhar, acreditamos que todo mundo tem sua madeleine, seu ratatouille, seu biscoitinho ou seu prato de arroz com feijão e bife que traz a infância (e a saudade dela) para mais perto. Nem sempre, no entanto, essas lembranças são ativadas involuntariamente, ao se provar sem querer essas comidas; mais recorrente é que elas sejam perseguidas por livre e declarada vontade: queremos voltar para aquele “tempo bom”.

“A infância é larga, quase sem margens, como um chão que cede a nossos pés e nos dá a sensação de que nossos passos afundam. Difícil transpor a infância e chegar à juventude. Aquela riquíssima gama de nuanças afetivas de pessoas, de vozes, de lugares...”, diz Ecléa Bosi em Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos (Companhia das Letras, 1994), obra de referência entre os estudiosos da psicologia social e da história oral, desenvolvida a partir de entrevistas com oito pessoas de mais de 70 anos e publicada pela primeira vez em 1979.

Segundo ela, por outro lado, “o território da juventude já é transposto com o passo mais desembaraçado. A idade madura com passo rápido. A partir da idade madura, a pobreza dos acontecimentos, a monótona sucessão das horas, a estagnação da narrativa no sempre igual pode fazer-nos pensar num remanso da correnteza. Mas não: é o tempo que se precipita, que gira sobre si mesmo em círculos iguais e cada vez mais rápidos sobre o sorvedouro”.

Ao vasculhar o vasto acervo do Museu da Pessoa, encontramos muitos depoimentos que mostram como é universal esse movimento de retornar aos vagarosos tempos de infância para procurar alguns dos momentos mais memoráveis da vida. E, mais do que isso, como é fácil usar as comidas e os sabores e aromas vindos da cozinha familiar para fazer essa busca.

Conhecemos gente que, no meio desse caminho da memória, fez uma parada na época em que o pai guardava as então raras maçãs no criado-mudo para perfumar o quarto (como narra Lauro), ou no tempo em que cozinhar era brincadeira – para mais tarde se tornar profissão (como conta a merendeira dona Rosinha). Encontramos também gente que, da infância, guarda apenas memórias suculentas da cozinha da mãe. Bernadete recheia o relato de sua história com o doce de banana que demorava dias para ficar pronto, o sugoli (um manjar de laranja azeda), a caprichada macarronada de domingo... E, ao terminar seu depoimento, chega a reconhecer a importância da comida como “portal” para as suas lembranças:

“É engraçado pensar como a comida pode ser um jeito de lembrar da família. Não em uma receita específica, é mais o momento do pessoal na cozinha, em volta da mesona... [...] Contar essas histórias faz vir o cheiro das receitas da minha mãe e tem cheiro e sabor de saudade.”

Parece mesmo que estão na época de criança, em meio aos afagos de pai e mãe e aos dias que demoooram para passar, os sabores que mais fundo (e do jeito mais feliz) ficam gravados em nossa memória, em nossa história.

Veja aqui a coleção Sabores de Infância completa, a primeira criada pelo Lembraria para o Museu da Pessoa.


* Quinzenalmente, às sextas-feiras, o site Lembraria - Histórias de Comida, mantido pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi, publica uma coleção de histórias e um texto sobre memória e comida no site do Museu da Pessoa.

 




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