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NA
BARRA DA TIJUCA E A BAIXADA DE JACAREPAGUÁ
por Geronimo Leitão
A ocupação da Baixada de Jacarepaguá
e da Barra da Tijuca, segundo os princípios e diretrizes
estabelecidos pelo plano urbanístico elaborado pelo arquiteto
Lucio Costa em 1969, representa a etapa mais recente de um processo
contínuo de produção de espaços residenciais
seletivos, iniciado, na cidade do Rio de Janeiro, na segunda metade
do século XIX.
Atualmente, é possível afirmar que
a Barra da Tijuca cumpre simultaneamente os papéis de área
de expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro e de centro
de prestação de serviços na escala metropolitana,
atraindo habitantes de municípios situados na Baixada Fluminense
e de Niterói e São Gonçalo, do outro lado da
baía de Guanabara.
Na construção desta "novíssima
fronteira de expansão urbana" 1(Abreu, 1987) da cidade
do Rio de Janeiro, a ação do Estado foi determinante:
através de investimentos maciços na construção
de um complexo sistema viário (estradas, vias elevadas, túneis),
da implantação da infra-estrutura urbana necessária
para a ocupação desta área e, principalmente,
da regulação, mediante um plano urbanístico
desse processo de ocupação. Com o objetivo de "estabelecer
critérios de urbanização capazes de motivar
e orientar o desenvolvimento ordenado da região"2, o
Plano Piloto para a ocupação da Baixada de Jacarepaguá
e Barra da Tijuca procurou, nas palavras de seu autor, o arquiteto
Lucio Costa, "conciliar a urbanização na escala
que se impõe, com a salvaguarda, embora parcial, dessas peculiaridades
(da natureza e do meio ambiente) que importam preservar", assegurando,
deste modo, uma expansão urbana "não predatória".
Para o autor do plano Piloto - que, à semelhança
de Brasília, é um expressivo exemplo da aplicação
dos princípios e conceitos do urbanismo moderno - , "tudo
o que for feito na Barra deverá ter como objetivo fundamental
servir o homem". Desse modo, a melhoria da qualidade de vida,
a preservação do meio ambiente e o adequado ordenamento
da ocupação da região seriam alcançados
através de um zoneamento rigoroso, que definiria relações
entre determinadas frações do território e
práticas sociais, o que, se acreditava, poderia eliminar
as deseconomias e os conflitos característicos das cidades
definidas como tradicionais.
Cobrindo cerca de 120 quilômetros quadrados
- uma área cinco vezes e meia mais extensa do que a superfície
da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro - o Plano Piloto tinha como
característica básica a nuclearização
das zonas de residências coletivas, com a previsão
de espaços intermediários para uso unifamiliar. Neste
sentido, o plano previa para a região moradias unifamiliares,
em lotes de tamanhos variados, sempre com reduzida taxa de ocupação
(20% do terreno em 1 pavimento, 10% em 2 pavimentos), procurando
equilibrar, dessa forma, a maior densidade alcançada pelas
edificações (de 8 a 10 pavimentos e de 18 a 30 pavimentos)
projetadas ao longo da Avenida das Américas - que formava
com a Avenida Alvorada (atual Avenida Ayrton Senna) o sistema viário
cruciforme estruturador da urbanização da área.
O caráter preservacionista do plano de Lucio
Costa pode ser observado, ainda, em algumas de suas proposições,
tais como: a previsão de grandes áreas verdes contínuas
- uma vez que o uso e a ocupação do solo eram correlacionadas
com a manutenção, sempre que possível in natura
das partes mais expressivas da baixada de Jacarepaguá - e
a conservação dos elementos mais significativos do
relevo local.
Ao longo de trinta anos de construção
do "Eldorado Urbano" - como denominavam a região
empresários do setor imobiliário -, diferentes fases
podem ser observadas, desde a etapa pioneira dos desbravadores responsáveis
pela "colonização" da nova fronteira, até
a estruturação da "cidade planejada para o século
XXI", ou, como preferem alguns, a "Miami brasileira".
A fase pioneira do processo de ocupação
da Barra foi marcada pelo surgimento dos chamados condomínios
privados: na segunda metade da década de 70, os primeiros
empreendimentos deste tipo (Nova Ipanema, Novo Leblon) lançaram
um novo conceito de moradia, associando residências a serviços
e lazer. Muito procurados, inicialmente, como imóveis de
veraneio, sobretudo devido à ausência de infra-estrutura
na região - o que desestimulava sua ocupação
em caráter permanente -, gradualmente, com a melhoria das
condições de acessibilidade, muitas famílias
passaram a considerá-los como local de residência fixa,
o que contribuiu para consolidar a ocupação da Barra
da Tijuca. Com o lançamento dos condomínios privados,
seus idealizadores procuraram transformar o conceito de moradia,
acrescentando-lhe novos significados, por meio de um elaborado programa
arquitetônico e urbanístico que, entre outros aspectos,
se propõe a promover o "espírito de vizinhança"
entre os moradores e a recuperação da "escala
humana" no espaço urbano. Outra característica
deste programa inovador na década de 70 é a autonomia
que pretende proporcionar aos que residem no condomínio,
assegurando-lhes uma estrutura de comércio local bastante
desenvolvida, as mais diversas formas de lazer e, até mesmo,
um sistema de transporte coletivo próprio, ligando o condomínio
a outros pontos da cidade.
Não por acaso, os dois primeiros condomínios
privados da Barra da Tijuca foram intitulados Nova Ipanema e Novo
Leblon, numa evidente referência aos conhecidos bairros da
zona sul carioca, que, contudo, nesta nova versão, teriam
suas virtudes ampliadas e seus vícios eliminados. Valores
simbólicos3 seriam, deste modo, amplamente utilizados em
campanhas publicitárias desenvolvidas com o objetivo de atrair
para a região uma clientela que ainda resistia à idéia
de morar numa área que, poucos anos antes, nada mais era
do que um "longínquo areal desértico". Uma
campanha publicitária típica desse período
- a segunda metade da década de 70 - insinua que, ao comprar
um imóvel num dos condomínios da Barra da Tijuca,
se adquiria, além do apartamento, um "novo modo de vida",
tornando possível "morar onde se gostaria de passar
as férias". Esses apelos publicitários iriam
reforçar a idéia de que vale a pena tornar-se um "pioneiro"
dessa nova e seleta fronteira, deixando para trás os males
da "cidade caótica".
Os anos 80, por sua vez, registraram o surgimento
de comércio, serviços e lazer fora dos limites dos
condomínios privados e a construção de empreendimentos
residenciais de menor porte (prédios isolados), transformando
a Barra da Tijuca no "paraíso do mercado imobiliário",
já que diversos lançamentos imobiliários ocorreram
neste período. Na década seguinte, a região
já apresenta um significativo contingente populacional, o
que estimula o surgimento de edifícios comerciais de maior
porte, ocorrendo, deste modo, um novo "boom imobiliário",
com o lançamento de complexos de salas comerciais e de escritórios,
como, por exemplo, o Downtown e o Cittá América, e
a ampliação da chamada "catedral do consumo",
o Barrashopping. Nesse mesmo período, observa-se, ainda,
que grandes empresas começam a se estabelecer na Barra da
Tijuca, graças às melhores condições
de acessibilidade, às inovações tecnológicas
no campo das telecomunicações e, também, pelas
amenidades proporcionadas pela região. Do mesmo modo, surgiram
novos empreendimentos residenciais, que procuram expressar a "evolução
dos condomínios privados", com a introdução
do conceito de home office. O Condomínio Mundo Novo é,
desse modo, apresentado por seus idealizadores como uma evolução
dos condomínios privados construídos há duas
décadas, graças à incorporação
de inovações tecnológicas no campo da informática
e das telecomunicações, que procuram atender as necessidades
de uma nova clientela composta por profissionais liberais, empresários
e executivos - bem como suas famílias -, que, cada vez mais,
recorrem à sistemas informacionais para o exercício
de suas atividades profissionais. Se, nos anos 70, o slogan das
campanhas publicitárias que lançaram os condomínios
privados era "venha morar onde se gostaria de passar as férias",
o atual poderá ser "venha morar onde, além de
passar as férias, você pode também trabalhar":
o conceito "Home Office" é levado até as
últimas conseqüências neste empreendimento, que
possibilita aos moradores o acesso a um "sofisticado sistema
de rede computadorizado", "conexão à Internet
24hs/dia, 7 dias na semana", "central de impressão
com laser color e scanner", "central de fax e xerox"
e "central de PABX com um ramal por apartamento".
Na década de 90, observa-se, do mesmo modo,
a consolidação da Barra como lugar privilegiado do
lazer e do turismo, com o surgimento de novas opções
de entretenimento, representadas, principalmente, pelos parques
temáticos, o que aponta para investimentos futuros do setor
hoteleiro, bem como a construção de novos shopping
centers de diferentes dimensões, que reafirmam a tendência
desta região se transformar num centro funcional de escala
metropolitana. Os novos shopping-centers lançados, ou na
fase de construção, seguem uma estratégia de
planejamento e comercialização que procura criar novos
nichos de mercado, recorrendo, inclusive, à dimensões
simbólicas - uma prática que, de maneiras variadas,
sempre esteve presente no processo de urbanização
da Barra da Tijuca. Um exemplo expressivo desse uso da dimensão
simbólica na estratégia de planejamento de um empreendimento
é o Barra World Shop - "o primeiro shopping temático
da América Latina".
Localizado na Avenida das Américas, esse empreendimento,
"inspirado no Epcot Center", possui lojas, restaurantes
e escritórios dispostos em torno de praças, cuja ambiência
faz referências a diferentes países europeus. "Toda
a arquitetura da praça é uma réplica de um
determinado lugar", afirma o corretor de imóveis Salvador
Neto, um dos responsáveis pela comercialização
do empreendimento. Desse modo, numa das praças é possível
encontrar uma réplica da Torre Eiffel, enquanto noutra, por
exemplo, o marco referencial é a torre de Pisa. Pretende-se,
desta maneira, "fazer com que as pessoas se sintam nessas cidades,
sem sair do Rio de Janeiro", conclui Salvador Neto. Na Barra
da Tijuca, nos anos 90, os projetos arquitetônico-urbanísticos
são cada vez mais vinculados à estratégias
de marketing, podendo se observar como afirma Rheingantz4 (1997)
que "o discurso "de mercado" de certos arquitetos
está inserido nas estratégias do marketing pós-moderno,
que manipula as informações e seus significados para
divulgar suas mercadorias-signo, dando origem a um mundo simulacional
que aboliu a distinção entre o real e o imaginário".
Ao longo dos últimos trinta anos, a Barra
da Tijuca deixou de ser o "mundo intocado, primevo", apontado
por Lúcio Costa, para tornar-se o "Eldorado urbano"
do capital imobiliário - um "lugar pródigo em
delícias e riqueza", ou, mesmo, a "Miami brasileira"5
Mas o processo de construção da "novíssima
Zona Sul" da cidade do Rio de Janeiro continua em curso: as
limitações impostas pela legislação
urbanística tornaram o Recreio dos Bandeirantes - a extremidade
oeste da orla oceânica carioca - o detentor das virtudes originalmente
atribuídas à Barra da Tijuca. Acrescente-se a isto
a melhoria das condições de acessibilidade, asseguradas
pela implantação da Linha Amarela, e estão
criadas as condições para a construção
do mais recente espaço residencial destinado às elites
- "o lugar onde ", como apregoam as campanhas publicitárias,
"a Barra é mais Barra".
Geronimo Leitão
é arquiteto, professor da Escola de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade Federal Fluminense, autor do livro "A construção
do eldorado urbano - O plano piloto da Barra da Tijuca e Baixada
de Jacarepaguá - 1970-1988". |