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A
HISTÓRIA DO LEME E DE COPACABANA
Antes da ocupação portuguesa, Copacabana era apenas
uma grande praia, delimitada por uma cadeia de morros e habitada
por índios tamoios, que a chamavam Sacopenapã, denominação
que será encontrada nos mapas da cidade até meados
do século XVIII. O nome atual, de origem quíchua,
surgiu no século XVII, depois que pescadores da região
encontraram na praia uma imagem da virgem de Copacabana, santa venerada
pelos habitantes do lago Titicaca, no Peru, provavelmente trazida
para o Brasil por comerciantes daquele país.
Em 1746, o bispo d. Frei Antônio do Desterro, ao regressar
de uma viagem a Angola, já próximo ao litoral de Copabacana,
escapou com vida de um naufrágio. Em meio ao desespero da
situação, d. Antônio prometeu à santa
que, se sobrevivesse à intempérie, construiria uma
igreja em gratidão. Assim, no mesmo ano, a igreja em devoção
à virgem de Copacabana foi erguida onde hoje funciona o forte
de Copacabana, no Posto Seis. Durante muitos anos, a pequena igreja
foi uma das poucas construções da praia. A partir
de 1776, Copacabana foi integrada ao sistema defensivo da cidade,
com a construção de fortificações no
Leme.
A dificuldade de se chegar ao bairro, cujos acessos se davam pelas
trilhas tortuosas através dos morros que protegiam o extenso
areal, era o principal fator de isolamento de Copacabana, que seguia
alheia ao crescimento dos demais pontos da cidade. Mesmo assim,
os pescadores que habitavam o local viram o surgimento de chácaras
e sítios, onde os moradores abastados de outros bairros desfrutavam
seus períodos de veraneio.
O bairro só passou a ser sistematicamente ocupado a partir
de 1892, após a abertura do túnel Real Grandeza (atual
túnel Velho), pela Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico,
permitindo a ligação de Copacabana a Botafogo. A linha
de bondes se estendeu do bairro vizinho à praça Malvino
Reis (atual Serzedelo Correia). Dois anos mais tarde, o bonde chegava
à igrejinha de Copacabana, no Posto Seis e, em 1900, outro
ramal, partindo da praça Malvino Reis, fez a ligação
com o Leme. Com o acesso facilitado, começou a abertura de
ruas e a proliferação de loteamentos.
A inauguração do túnel do Leme (atual Túnel
Novo) aconteceu em 1906, mesmo ano em que foi aberta a avenida Atlântica.
No início do século XX, na gestão de Pereira
Passos, os banhos de mar entraram na moda, em horários regulamentados
pela Prefeitura. Por conselho médico, os banhos só
deviam ocorrer "ao morrer de madrugada" e "pouco antes de o sol
se pôr". Em 1918, quando o bairro já tinha um aspecto
residencial mais definido, com 45 ruas, uma avenida, quatro praças
e dois túneis, a igrejinha de Copacabana foi demolida para
dar lugar à construção do forte de Copabacana,
no Posto Seis.
Em 5 de julho de 1922, aconteceu o episódio conhecido como
a Revolta dos 18 do Forte, quando as tropas do forte de Copacabana
tomaram parte no movimento tenentista contra o governo Epitácio
Pessoa. Durante o incidente, o forte do Leme foi atingido por dois
tiros de canhão da fortificação revoltos. Ao
fracassarem as negociações, 32 soldados abandonaram
o forte para combater na avenida Atlântica. Um civil aderiu
ao grupo e, após a debandada de várias praças,
18 chegaram à areia, onde acabaram mortos ou gravemente feridos
pelas tropas legalistas.
O grande impulso de crescimento de Copacabana coincidiu com um momento
especial no país. O movimento Modernista, no campo das artes,
e a Revolução de 1930, na área política,
colocaram em evidência o Brasil urbano. O Rio de Janeiro,
então capital federal, viveu uma expansão industrial
importante e se tornou o principal centro urbano do país.
Com a construção do Copabacana Palace, em 1923, o
bairro entrou para o mapa do turismo internacional e acabou se tornando
placo de uma urbanização singular.
Ao contrário do Centro e de outros bairros mais antigos,
Copacabana floresceu em um cenário sofisticado, com grandes
edifícios de apartamentos e um novo conceito de moradia e
vizinhança. Estes prédios, de estilos arquitetônicos
impecáveis - especialmente art déco -, começaram
a proliferar nos anos 1930. Copacabana já nasceu moderna
e cosmopolita, lançando modas e desenvolvendo hábitos
e costumes próprios, diferentes daqueles do interior e das
vilas e casas dos subúrbios. Trata-se de um bairro movimentado,
com muitos arranha-céus, comércio diversificado e
uma noite agitada. Em Copacabana instalou-se a elite urbana do país
estrangeiros, artistas e intelectuais. Em 1931, o transporte coletivo
ganhou novo impulso com a circulação dos ônibus
da Light.
Durante os anos de 1940, Copabacabana viu florescer sua vocação
para a boemia. Uma boemia marcada pela sofisticação.
Em vez dos tradicionais botequins e cafés do Centro, os notívagos
do novo bairro começaram a freqüentar seus dois cassinos
- o Copacabana e o Atlântico - , boates, cinemas e nightclubs.
Durante o dia, a praia era um centro de lazer natural, onde além
do banho de mar, se praticavam esportes, como o futebol de areia
(que acabou gerando inúmeros clubes) e a peteca. Na praia
conviviam as diferentes classes sociais que habitavam a área.
Mas o desenvolvimento do bairro, com grandes prédios e muitas
esquinas, também concentrou grupos de jovens nas ruas. Eram
as chamadas "turmas", sendo a mais famosa a da rua Miguel Lemos,
que até hoje promove festas coletivas em eventos como Carnaval
e nos jogos da seleção brasileira de futebol.
No dia 5 de agosto de 1954, no segundo governo de Getúlio
Vargas, outro evento violento colocou o bairro no centro da história
do país. Três pistoleiros tentaram matar, na rua Tonelero,
um dos opositores mias ferrenhos de Vargas, Carlos Lacerda. No atentado,
morreu o chefe da segurança de Lacerda, o major da Aeronáutica
Rubens Vaz. Mais tarde, o chefe da guarda pessoal do presidente,
Gregório Fortunato, foi associado ao atentado, abrindo uma
grave crise política no governo federal, que acabou culminando
no suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de
1954.
Nos anos de 1950, o bairro já concentrava toda a vida noturna
da cidade e boa parte do comércio. O consumo ganhou nova
dimensão. Transitar pelas calçadas de Copabacana passou
a ser um exercício de paciência devido ao grande número
de pessoas, a maioria em busca das novidades das vitrines. Do mesmo
modo, o número de veículos nas ruas era proporcionalmente
comparável ao do Centro da cidade, especialmente pela grande
quantidade de ônibus e carros de passeio. Rapidamente, a paisagem
da praia foi sendo cada vez mais confinada à estreita faixa
delimitada pela avenida Atlântica, ao mesmo tempo que os arranha-céus
foram ocupando 5,2 km2 do bairro.
Copacabana cresceu e atraiu moradores de classe média de
outras áreas, que chegaram para disputar o espaço
com a elite carioca. Migrantes de outros estados também se
transferiram para o famoso bairro. Todos em busca do glamour que
Copacabana conferia aos seus moradores, mesmo ao preço de
se viver apertado em espaços exíguos. A Zona Sul,
especialmente Copacabana, passou a ser a região da elite
carioca, privilegiada por uma ampla rede de serviços e de
infra-estrutura, além do belo balneário.
Morar em Copacabana virou então símbolo de status,
noção que estimulou uma ocupação desordenada.
A indústria imobiliária, estimulada pela demanda e
pela falta de leis de zoneamento e ocupação, construiu
freneticamente novos edifícios, de estilos duvidosos e bem
menos glamurosos do que as construções dos anos de
1930. Ao lado dos palacetes, com suas portaria suntuosas, surgiram,
a partir dos anos 1950, os edifícios chamados "cabeças-de-porco".
Apartamentos conjugados passaram a ser ocupados por famílias
economicamente menos favorecidas, em prédios com centenas
de unidades.
O boom imobiliário aconteceu com mais força nos anos
de 1940 e 1950. As áreas verdes deram lugar a uma selva de
concreto, e o bairro cresceu verticalmente. Entre 1945 e 1965, o
número de habitantes praticamente dobrou.
Segundo o censo, entre 1920 e 1970, década a partir da qual
começou o declínio da fama ou do prestígio
do bairro, a população de Copacabana cresceu quase
1.500%, ao passo que a cidade do Rio expandiu-se apenas 240%. Enquanto
na década de 1920 o bairro abrigava apenas 1,5% da população
carioca, em 1970 esse número já girava em torno de
6%. Em 1963, foi proibida a construção de novos edifícios
com apartamentos conjugados, que proliferaram no bairro, sobretudo
na área do Lido e nos postos Quatro e Cinco. Um exemplo desse
tipo de moradia é o edifício Richard, na Rua Barata
Ribeiro (conhecido como "200"). Trata-se de um prédio de
dez andares, com 540 apartamentos de apenas um cômodo, com
cerca de 2500 moradores.
As favelas também fazem parte do cenário. Desde 1915,
a Empresa de Construções Civis reclamava que seus
terrenos vinham sendo invadidos e que as encostas estavam sendo
desmatadas para a construção de barracos. Nos anos
1930, quando floresceram os palacetes e prédios suntuosos.
Copacabana já tinha favelas de proporções razoáveis
os morros da Babilônia, Leme e do Cantagalo. As favelas do
Pavão, do morro dos Cabritos, Chapéu Mangueira e Babilônia
formam hoje comunidades importantes.
Estudos realizados nos anos de 1970, tomando por base o preço
do aluguel residencial, mostraram que, de um modo geral, as classes
mais ricas ocupavam as áreas da orla; a camada média,
já predominante, ocupava o trecho intermediário, entre
a avenida Nossa Senhora e Copacabana e a rua Barata Ribeiro e as
ruas transversais; a classe média baixa se situava em trechos
do Posto Quatro, além da rua Tonelero, e grande parte do
Posto Dois. Os fatores que valorizavam alguns trechos e desvalorizavam
outros são subjetivos, como estar perto da praia, ou, no
caso do Posto Seis, pelo fato de "quase ser Ipanema". Áreas
onde há grande concentração de comércio,
bares e restaurantes têm o aluguel mais barato, assim como
os trechos próximos às favelas.
Essas divisões mostram a complexidade do bairro. Transformado
em "caldeirão urbano", com uma mistura de classes sociais,
etnias e culturas distintas convivendo na mesma área, o bairro
viu surgir, no fim dos anos de 1950, a bossa-nova, movimento musical
que transformou o perfil da música popular brasileira e chamou
a atenção do mundo para a produção artística
do país. Nesta década, especialmente nos anos da gestão
de Juscelino Kubitschek, quando a economia do país experimentou
um de seus momentos mais vigorosos, Copacabana viveu seu apogeu
e foi o retrato do Brasil moderno.
Na década de 1960, Copacabana se tornou auto-suficiente.
Uma cidade dentro da cidade. Já era possível nascer,
viver e morrer sem sair do bairro. A febre imobiliária de
Copacabana começou a chegar aos bairros vizinhos, onde se
encontrava boa parte da elite carioca. E, a partir dos anos de 1970,
estes bairros, aparentemente mais tranqüilos, começaram
a "roubar" o status de Copacabana, como locais elegantes, sem o
caos urbano em que se transformara o gigante da Zona Sul, devido
ao crescimento desordenado.
A procura pelo bairro deixou de ser frenética, como nas décadas
anteriores, e Copacabana perdeu o status de bairro "sofisticado",
para se transformar em uma das maiores concentrações
urbanas do país, com problemas decorrentes dessa ocupação.
O prestígio do bairro entrou em decadência, mas mesmo
assim Copacabana manteve sua singularidade e vocação
cosmopolita, sendo ainda uma das principais referências de
modernidade do Rio de Janeiro.
Este texto é parte do guia Leme e
Copacabana, pertencente à coleção
Bairros do Rio, publicado pela Editora Fraiha [ fraiha@dh.com.br
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