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EMBALAGENS
E RÓTULOS
por Rafael Cardoso Denis
No meio do asfalto engarrafado, uma figura perambula na contramão
dos carros. Descamisado, bermudão, havaiana no pé.
Um enorme saco de plástico transparente, meio vazio, nas
mãos. Biscoito! Sal e doce! Biscoito! Cheias, as embalagens
de papel se acomodam lado a lado no fundo do saco. São visíveis
à distância suas cores predominantes: verde e amarelo
para o sal, vermelho e amarelo para o doce. Estamos no Rio de Janeiro,
e são biscoitos Globo, é claro.
- Me vê um de sal.
- É um real.
Pacote na mão, paro para examinar a embalagem,
que tão poucas alterações sofreu desde meus
tempos de menino na praia, quando mamãe comprava biscoito
de polvilho para acalmar a fome da garotada, junto com copos de
limão e mate servidos diretamente das reluzentes pipas de
inox que pendiam simétricas dos ombros do vendedor. "Biscoito
salgado de polvilho Globo," reza o cabeçalho; "o
biscoito que você não pára de comer," emenda
o texto do rodapé. Entre os dois, aquela velha e curiosa
imagem: tosca, ingênua, a um só tempo bizarra e familiar.
No centro, um ridículo boneco constituído por alguns
traços garranchosos, com pequenas mãos brancas, como
se calçasse luvas, empunhando em cada uma um biscoito de
polvilho que leva à boca. Sua cabeça é uma
representação esquemática de um globo terrestre,
estampando um rosto humano caricatural e um sorriso de casca de
banana. Coroando o informe bonequinho, um chapéu coco posa
sobre o globo em ângulo maroto, acentuado por pequenos grafismos
- linhas de força que irradiam de sua cabeça expressando
alegria e vitalidade. À sua volta, ocupam cada um dos quatro
cantos da imagem, representações convencionais de
monumentos famosos do mundo. Do lado esquerdo, em cima, a Torre
Eiffel; e, em baixo, a Torre de Pisa. Do lado direito, em cima,
o Pão de Açúcar; e, em baixo... o que diabos
é aquilo em baixo? Sempre presumi que fosse a Torre de Londres,
até que conheci a mesma e descobri não haver semelhança
alguma. Talvez algum castelo da Escócia, ou da Alemanha.
Não importa. É um castelo, daqueles com ponte movediça,
e certamente no estrangeiro, o que é mais importante. A representação
pode ser obscura, mas a mensagem é clara o suficiente para
ser compreendida por qualquer consumidor mirim. O Rio de Janeiro
entre os quatro cantos do planeta. O biscoito Globo, de qualidade
e aceitação internacionais. Da rua do Senado para
o mundo... ou, pelo menos, para o mundo que é o Rio de Janeiro
(já que os biscoitos Globo dificilmente chegam mesmo até
Niterói).
Que mistérios encerra uma embalagem? Quanto
do colorido e da textura do cotidiano não estão presentes
nas formas que vemos, sem atentar para sua aparência, e que
tocamos, mal percebendo aquilo que passa por nossas mãos?
Cerca de quinze anos atrás, uma incursão rápida
à padaria rendia, na mão esquerda, um saquinho de
leite suado, comprimido entre os dedos que se esforçavam
para manter intacta a tira molhada de papel com a qual o balconista
envolvera a embalagem escorregadia; debaixo do braço, um
saquinho de pão, do mesmo papel, ostentando dizeres como
"feito com amor" ou "pão fresco a toda hora";
na mão direita, o frio vidro gomado da garrafa de Coca litro,
repleta do peso e da promessa esvaídos do casco vazio que
a antecedera há poucos minutos na mesma empunhadura. Hoje,
o leite em saquinhos deu lugar ao longa-vida, em caixinhas tetra-pak;
e o refrigerante vem em garrafa PET, maior e descartável.
Não somente as embalagens mudaram. Com elas, mudou todo o
sistema de distribuição da mercadoria. É cada
vez mais provável, inclusive, que o consumidor venha a adquirir
tanto leite quanto refrigerante no supermercado, e não na
padaria. Essas mudanças vão se processando de modo
quase imperceptível e, quando a gente se dá conta,
a experiência em torno do consumo já mudou de vez.
Já foi, já era. Não é mais necessário
ir à padaria, nem mesmo para comprar pão. Talvez,
apenas, para um café com leite saudosista, barriga encostada
no balcão de alumínio.
As embalagens são o ponto de contato mais
imediato entre o usuário e toda a complexa teia de relações
produtivas e mercadológicas que estão por trás
do fornecimento de qualquer produto. A embalagem é, por assim
dizer, a única parte do comércio que o consumidor
leva para casa. Por isto mesmo, ela tende a se naturalizar aos olhos
de quem usa um produto com regularidade, a se tornar parte da intimidade
de cada um. Com a passagem do tempo, e das embalagens, vira também
memória afetiva, marco do passado, cultura material. É
tomado por um sentimento inequívoco de nostalgia quem contempla
com um mínimo de carinho um frasco de Leite de Rosas ou de
Seiva de Alfazema ("lavanda extra"), produtos que ocupam
as prateleiras do Brasil há três gerações
ou mais. Algumas acabam por tornar-se mesmo objetos de culto e de
fetiche. Um re-projeto da embalagem de biscoitos Globo? Como dizem
nos filmes enlatados: só se for por cima do meu cadáver.
Mas, nem só de nostalgia vivem as embalagens
e rótulos. Ao contrário, sua função
primordial no comércio contemporâneo parece ser a de
assinalar com a novidade perene, a promessa do desconhecido, o brilho
de grandes esperanças depositadas no poder "disciplinante"
de um xampu ou na milagrosa versatilidade de uma goma de mascar
que "protege os dentes". Detergentes e alvejantes explodem
em brilho de estrelas e em raios do sol nascente. Sabonetes e xaropes
descortinam janelas para um mundo luxuriante de ingredientes raros
e plantas exóticas. Pacotes de arroz e de café, garrafas
de vinho e de suco, conjugam as cores alegres da simplicidade caseira
com ocasionais remissões arabescas ao requinte ornamentado
do restaurante francês, insinuando por vezes obscuros parentescos
com "tios", "barões" e outros personagens
arquetípicos. Das embalagens de todas as espécies,
sorriem-nos rostos alegres de donas-de-casa, de crianças,
de ursinhos fofos. Um imenso universo, como se vê, de possibilidades,
de aspirações, de sonhos e de fantasias... de identidades
as mais variadas ao alcance de qualquer um pelo preço módico
do produto, às vezes em oferta de paga dois, leva três.
Quem busca a plenitude da sociedade do consumo tem
apenas de entrar em uma drogaria ou um supermercado, sempre iluminados
com alva intensidade, e percorrer suas prateleiras com um olhar
atento para as nuances de cor, de forma, de brilho e de textura
que se depreendem das mercadorias ali enfileiradas e empilhadas
em grandes vultos que subjugam a complexidade informacional de cada
embalagem à simplicidade elegante da lógica do display.
Verdadeiros altares do deus-mercado, essas prateleiras exibem todos
os santos do panteão pós-moderno, e sua decodificação
precisa corresponde ao exercício iconográfico hoje
desusado de reconhecer os milagres e martírios de cada santo
por seus atributos. Do "seja mais linda esta noite" ao
"porque eu mereço", as embalagens e rótulos
se oferecem a nós como relíquias das deusas e dos
deuses que cultuamos, vestígios luminosos e mágicos
do feitiço que nossos ídolos da TV, do cinema, da
propaganda e da moda exercem sobre nós. Se são as
novelas e a publicidade que hoje ocupam o lugar antes reservado
para os ícones, as imagens e as pinturas de natureza religiosa
- ou seja, a representação do sagrado -, então
pode-se dizer que as embalagens são deveras as novas relíquias
- provas materiais e concretas da existência do mesmo sagrado,
depositadas estrategicamente em meio à nossa existência
profana.
E o Rio de Janeiro, onde fica em tudo isso? Cidade
profana que é, suja e barulhenta, bela e sensual, de ruas
e avenidas que desfilam todo o esplendor e a miséria da Corte
que foi, da Capital que insiste em resistir, das favelas e da periferia
a se perder de vista. Profana, sim, mas que se sagra aos olhos de
seus habitantes a cada vez que se faz representar, icônica,
pelos seus marcos familiares: Pão de Açúcar
e Corcovado, Arcos da Lapa e Maracanã, Posto 9 e Baixo Gávea.
Uma cidade digna de ser eternizada em filmes e cartazes, quadros
e cartões postais, e também em rótulos e embalagens,
que envolvem com carinho e proteção as identidades
que se sucedem em tantas prateleiras e que se trocam por sobre tantos
balcões. Assim, vai-se construindo uma rica iconografia comercial
da paisagem carioca, a qual se estende desde o Corcovado da Miscelânea
em Tabletes da Casa Colombo até o Pão de Açúcar
do Café Capital, e além. Um Rio de Janeiro mítico,
capaz de sobreviver às vicissitudes do tempo e dos costumes
cambiantes, na intimidade dos velhos sonhos que nos embalam.
Rafael Cardoso Denis
é doutor em História da Arte, University of London,
Inglaterra, 1995; Mestre em História da Arte, UFRJ; professor
da PUC-RJ, autor de textos para os livros "Marcas de valor"
e "Debret", entre outros. |