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OS
PRIMÓRDIOS
Antes mesmo de sua fundação oficial, a 1º de
março de 1567, a vocação comercial do Rio de
Janeiro se fazia sentir em conseqüência de sua posição
geográfica privilegiada. Visitada desde os primeiros anos
que se seguem à viagem de Cabral, a região foi ocupada
entre 1555 e 1567 pelos franceses. Os portugueses reagiram e, depois
de vários combates, derrotaram os rivais, decidindo transferir
a cidade para o Morro do Castelo (hoje desaparecido), a cavaleiro
do ancoradouro protegido dos ventos e das correntes marinhas que
abrigaria por muitos séculos o porto do Rio de Janeiro e
onde hoje está a Praça XV de Novembro.
CIDADE EM CRESCIMENTO
No alvorecer do século XVII, a cidade começava a avançar
do morro do Castelo para a várzea que se estendia até
o morro de São Bento, a futura rua Direita. Um comércio
incipiente de gêneros alimentícios nascia na própria
praia, onde as canoas desembarcavam o produto das roças e
engenhos do interior. As mercadorias dos navios europeus que chegavam
eram disputadas com sofreguidão; vinho, veludos, tafetá,
azeitonas, vinagre e chapéus eram vendidos a bom preço.
Os compradores não eram somente os moradores, mas comerciantes
que transportavam os produtos para a América Espanhola. [saiba
mais...]
O ENTREPOSTO DO AÇÚCAR
Os jesuítas, que estiveram presentes nos embates que levaram
à fundação da cidade, haviam recebido em doação
grande quantidade de terras que dedicaram à agricultura,
criação de animais e pequenas manufaturas. O açúcar
era abundante e, na escassez de numerário, tinha valor de
moeda de troca. A política de monopólios da coroa
restringia a pesagem do açúcar, o desembarque de mercadorias
e até o fornecimento de escravos. Em 1625, a coroa tentava
criar um imposto de exportação, fixado em 80 réis
para cada caixa de açúcar exportado pelo Rio de Janeiro
e suspenso depois do protesto da Câmara e dos comerciantes.
MONOPÓLIOS E REGULAÇÃO
O sistema de monopólios tinha a antipatia da população,
que também pressionava a Câmara para adotar medidas
que a protegessem dos atravessadores que compravam mercadorias antes
que estas desembarcassem dos navios e posteriormente as revendiam
com grandes lucros. Assim, a 3 de outubro de 1626 a Câmara
mandou "fechar e pregar com travessas as portas dos atravessadores
e regatões"...
Outra queixa eram os preços dos fretes para Portugal e Angola,
de telhas e tijolos, e de vários gêneros de primeira
necessidade, periodicamente tabelados. As iniciativas regulatórias
seriam ampliadas com a exigência de aferição
dos pesos e a criação dos primeiros fiscais, os almotacés,
encarregados de vigiar os preços, a quantidade e a qualidade
dos produtos a venda.
O POVO SE REVOLTA
Os sucessivos impostos lançados sobre produtos e moradores,
para financiar obras públicas e pagar os soldos da guarnição,
contrariavam a população e culminaram com o levante
de 1642, quando foi comunicado ao governador Salvador Correia Benevides
que não havia como pagar tantos impostos. Em 1649 a situação
piorou com a criação, pela Coroa, da Companhia Geral
do Comércio do Brasil, que nascia com privilégios
enormes, a ainda por cima proibia-se o fabrico de vinho de mel,
aguardente e cachaça na Colônia. Os resultados foram
os piores possíveis: escassez de gêneros, aumento do
contrabando, tabelamento ineficaz de preços.
A IDADE DE OURO
A descoberta de ouro nas serras de Minas Gerais, no final do século
XVII, foi um fator decisivo para a prosperidade comercial do Rio
de Janeiro. A cidade se beneficiou como o principal escoadouro do
metal e ponto de partida para a entrada do abastecimento das regiões
auríferas. Embora inicialmente este lugar fosse ocupado por
Parati, a partir da abertura do "Caminho Novo", que partia
do Rio e encurtava a distância para as minas, o crescimento
da cidade foi vertiginoso. Em 1699, o Brasil exportava oficialmente
para Portugal 725 kg de ouro; em 1703, 4.350 kg; em 1712, 14.500
kg, a que deve ser acrescida uma quantidade enorme que era contrabandeada.
AS INVASÕES FRANCESAS
Na região das minas, tudo vinha de fora, e a maior parte
vinha do Rio, que em 1693 passava a centralizar a administração
da região das minas e logo teria a sua própria Casa
da Moeda, onde era feita a fundição de metais preciosos.
A cidade cresceu e enriqueceu, a ponto de despertar a cobiça
de piratas que protagonizaram duas invasões - a de Duclerc,
malsucedida, e a de Duguay-Trouin, em 1711, que forçou a
cidade a capitular, desembarcou suas tropas e só se retirou
depois de receber um resgate de 610 mil cruzados de ouro, 100 caixas
de açúcar e 200 cabeças de gado, que embarcou
em seus navios e levou para Saint-Malo, na França. Grande
parte do pagamento foi feita pelos comerciantes cariocas...
CAPITAL DO REINO
Os ataques franceses, a necessidade de proteger as minas, a crescente
evasão fiscal, o aumento do contrabando e a intenção
de ampliar a presença portuguesa na região do Rio
da Prata determinaram que Portugal transferisse a capital do Reino
do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, quando a cidade
contava com aproximadamente 20 mil habitantes. Por esta época
a extração de ouro já começava a declinar,
pelo esgotamento das jazidas, o que se refletia na prosperidade
do comércio. A política monopolista, restringindo
o comércio com a África, a Ásia e a região
do Prata e favorecendo os grandes comerciantes da metrópole,
contribui para o aprofundamento da crise financeira.
COMÉRCIO E COMERCIANTES
Apesar dos entraves legais e das vicissitudes políticas e
econômicas, no final do século XVIII os negociantes
do Rio de Janeiro tinham constituído em grupo forte, próspero
e respeitado, que integrava, com a burocracia metropolitana e os
proprietários rurais, a elite carioca. Em 1799, os comerciantes
registrados já somavam algumas centenas, distribuindo-se
pelas mais diversas atividades. Havia 40 casas de café, 17
casas de pasto e 334 tavernas; nove lojas de louça fina e
vidro, 18 de ouro lavrado, 41 de prata lavrada; 10 relojoeiros,
85 alfaiates, 24 lojas de ferragens, 20 cabeleireiros, 37 barbeiros,
15 tinturarias e 2 livreiros, além de uma grande quantidade
de armazéns, peixarias, quitandas e açougues.
CHEGA D. JOÃO VI
Com a chegada da família real portuguesa, em 1808, o Rio
de Janeiro sofreria uma série de transformações
radicais, a começar pelo súbito crescimento da população,
devido aos portugueses que acompanharam D. João VI e, temendo
a ameaça napoleônica, trocaram Lisboa pelo Rio. Aos
50 mil habitantes da cidade somaram-se mais alguns milhares, o que
causou imediatamente grande procura por moradias e impulsionou a
construção de residências. Mais importante,
todavia, foi o primeiro decreto assinado por D. João no Brasil,
ainda em Salvador, a caminho do Rio: o da abertura dos portos às
nações amigas, que punha por terra todo o arsenal
legal que dificultava ou impedia o livre comércio.
VIVA O COMÉRCIO!
Esta verdadeira revolução foi completada com a revogação
da proibição de 1785, que vedava a fabricação
de bens de consumo e tinha atingido principalmente as manufaturas
de algodão e tecidos, para não concorrer com as que
vinham de Portugal. Um dos resultados foi o incremento significativo
do movimento do porto do Rio: o número de navios subiu de
810, em 1805, para 1636 em 1810. As flotilhas portuguesas dos tempos
coloniais, escoltadas por navios de guerra, deram lugar a um intenso
movimento de navegação de cabotagem e de longo curso
conduzido em sua maioria por embarcações norte-americanas,
francesas, inglesas, portuguesas e brasileiras.
RUAS LIBERADAS
Nos anos seguintes, uma série de medidas favoreceria o crescimento
das atividades comerciais, sendo um dos mais importantes o Decreto
de 1810, que suspendia a proibição de serem vendidas
mercadorias nas residências e nas vias públicas. Em
conseqüência, o comércio ambulante, livre de entraves,
incorporou à paisagem urbana uma série de personagens
marcantes: escravos de ganho e negros libertos que percorriam as
ruas vendendo capim, milho, aves, frutas, legumes, verduras, refrescos
e doces; estes seriam sucedidos, no futuro, por imigrantes que mascateavam
tecidos, miudezas e bijuterias.
PROSPERIDADE
Algumas estatísticas da década de 1820 possibilitam
que seja percebido o rápido crescimento da atividade comercial.
Em 1822, data da Independência, contavam-se 1.619 casas de
negócio, das quais 1.032 eram tavernas. Em 1840 estavam licenciadas
no Rio de Janeiro 3.501 casas comerciais. Em 1843, já eram
4.734. Destas, algumas dezenas eram de propriedade de franceses,
que depois da celebração da paz entre Portugal e a
França haviam acorrido às centenas ao Rio de Janeiro,
montando lojas de fazendas e modas, cabeleireiros, floriculturas,
charutarias e hotéis. Durante o reinado de D. Pedro I, estes
comerciantes se concentravam nas ruas Sete de Setembro, Miguel Couto
e Ouvidor.
A RUA DO OUVIDOR
A Rua do Ouvidor se tornou a artéria comercial por excelência
da metrópole que crescia; calçada em 1829, foi a primeira
rua da cidade a ter a iluminação de azeite substituída
pelo gás, em 1857. Em suas imediações estavam
instaladas Madame Finot, florista; Carceler, pasteleiro; Villain,
fabricante de guarda-chuvas; Desmarais, cabeleireiro; Vannet, fabricante
de fundas para hérnias; e a modista Madame Saisset, tida
como amante de D. Pedro I. Haviam as confeitarias Pascoal e Castelões,
redutos de artistas, intelectuais e boêmios; os restaurantes
Cabaça Grande, Minho e Cailteau, este último sede
do Club Rabelais, primeiro ponto de encontro dos gastrônomos
da cidade
SOFISTICAÇÃO
No centro também estavam o Grande Restaurante Chinês,
precursor em 1880 da culinária chinesa a preço acessível;
a joalheria Laboriau, o Café Londres, as casas fotográficas
de George Leuzinger e Insley Pacheco, os sapateiros James e George
Clark, a Camisaria Especial, as editoras Laemmert, Garnier e Francisco
Alves e os magazines Notre Dame e Torre Eiffel, precursores das
lojas de departamentos modernas. A loja do checo Fred Figner vendia
cilindros e discos fonográficos, e aparelhos para a sua reprodução;
e foi na rua do Ouvidor que o italiano Paschoal Segreto instalou
o primeiro cinematógrafo da cidade.
O COMÉRCIO ORGANIZADO
Os comerciantes do Rio de Janeiro estiveram organizados primeiramente
no Corpo do Comércio, cuja sede, a Praça do Comércio,
erguida pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny em 1820,
ainda existe e abriga a Casa França-Brasil. Em 1834, a antiga
associação deu lugar à Sociedade dos Assinantes
da Praça, cujos fundadores contribuíam para a sua
manutenção com 320 mil-réis por ano. Dispunha
de biblioteca, fiscalizava as atividades da Praça do Comércio
e foi inicialmente presidida por Felipe Néri, que além
de comerciante era banqueiro, proprietário de vários
imóveis e vereador. Em 1846, a presidência era exercida
por Irineu Evangelista de Sousa, futuro Barão de Mauá.
OUTROS IMIGRANTES
Não eram só os portugueses e franceses que se dedicavam
ao comércio: havia também ingleses, em geral agentes
marítimos, grandes importadores, seguradores, banqueiros
e comissários de café. Protegidos pelos tratados entre
Portugal e a Inglaterra, que favorecia a entrada de produtos ingleses,
eles constituíram ainda em 1810 a "Association of English
Merchants Trading in Brazil". A diretoria da Sociedade dos
Assinantes da Praça, até 1867, era composta tradicionalmente
por dois brasileiros, dois ingleses, um português, um alemão,
um espanhol e um alemão. Neste ano a entidade foi rebatizada
como Associação Comercial do Rio de Janeiro, nome
que conserva até hoje.
O RIO IMPERIAL
O Rio de Janeiro de Pedro II era a capital de um país independente,
sua maior cidade, porto mais importante e centro nervoso da região
de cultura do café. Com o crescimento da rede ferroviária,
melhora a comunicação com a capital, que cresce e
ultrapassa o antigo quadrilátero limitado pelos morros do
centro. Começam a ser ocupados, inicialmente pelos mais abastados,
os antigos arrabaldes rurais da Tijuca e Botafogo; palacetes são
construídos, ruas pavimentadas e a iluminação
a gás se estende aos subúrbios que, ao longo dos trilhos
ferroviários e dos bondes, concentram a população
que não tem meios para morar próxima ao centro ou
nos bairros elegantes. [saiba mais...]

BELLE-ÉPOQUE CARIOCA
As reformas urbanas empreendidas pelo prefeito Pereira Passos entre
1902 e 1906 alteraram radicalmente a paisagem do Rio de Janeiro
e a vida de seus habitantes. Sob o signo do saneamento e embelezamento
inspirado nas imagens de Paris, modelo das elites brasileiras cosmopolitas,
quarteirões inteiros do centro foram arrasados, ruas alargadas,
avenidas abertas e epidemias debeladas. As dezenas de trapiches
que se estendiam da Praça XV de Novembro à Gamboa
foram substituídos por um porto moderno, erguido sobre aterros
e dotado do mais moderno maquinário; a atividade comercial
emergiu da poeira se beneficiando da modernização.
[saiba mais...]

A METRÓPOLE

O Rio de Janeiro, que em 1920 se aproximava do milhão de
habitantes, crescia cada vez mais no eixo das linhas de bonde e
de trem, e via os automóveis se multiplicarem. O comércio
carioca, que tinha se enraizado sobre bases geográficas que
subsistiram pelo menos até os anos 50 do século XX,
e se baseava na concentração de estabelecimentos em
áreas tradicionalmente demarcadas, mudava rapidamente. Vieram
as galerias, as grandes cadeias de lojas, os shopping-centers e
a internet; mudou a cidade, mudaram os clientes, e com eles os comerciantes.
Ficaram as imagens, os estabelecimentos tradicionais e principalmente
as memórias, que também não param de se transformar.
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