Depoimento
 
   
 Dirce Saloni Pires
  
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IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Dirce Saloni Pires. Nasci em São José dos Campos no dia 16 de novembro de 1924.

FAMÍLIA
O nome do meu pai era Carlos Saloni e da minha mãe era Benedita Cursino Saloni.
Meus avós, do lado do meu pai, italianos, eram Constantini Saloni e Maria Tereza Saloni, e da minha mãe eram Teodoro Cursino e Maria Gertrudes Cursino.
Meu pai era farmacêutico por vocação, porque ele adorava a profissão dele. Foi um farmacêutico muito atuante aqui em São José dos Campos e adorava o que fazia. Era uma característica da vida dele.
Minha mãe era aquela eterna companheira do meu pai: ela não só ajudava no lar como era oficial de farmácia, a pessoa da confiança do meu pai. Porque meu pai era farmacêutico e naquela ocasião farmacêutico formulava, e mamãe fazia as fórmulas dele. Mas os médicos, por exemplo, doutor Rezende - um médico, aqui, que perdeu as pernas e dava sempre as consultas numa cadeira de rodas - tinha tanta confiança em meu pai e papai estava tão acostumado com as receitas dele, que ele dava o receituário para o papai todo assinado; confiava muito nele e papai era quem dava aquelas fórmulas para crianças, aquelas mais conhecidas, em nome do doutor Rezende.
Meu avô, esse italiano, era um eterno boêmio. Ele veio da Itália solteiro ainda e, por coincidência, ele e minha avó vieram no mesmo navio, mas não se conheciam. Depois, foram se conhecer em terra firme. E daí foram para Taubaté e fizeram a sua família.
Meu pai nasceu em Bragança Paulista, mas ele dizia que nasceu em Bragança por acaso. Foi num dos passeios de meu avô com minha avó: ele nasceu lá, mas depois morou sempre em Taubaté. Estudou em Pindamonhangaba e veio morar em São José, quer dizer que era do Vale mesmo. Meu marido também era de Pindamonhangaba e então nós somos o Vale unido: Taubaté, Pinda e São José dos Campos.
Eu tenho três irmãos; um é farmacêutico, outro é juiz e outro é dentista.
Meu pai se formou, em 1923, e veio para São José dos Campos, ainda solteiro. Aqui foi morar com um cunhado dele. Conheceu a minha mãe, que estava junto com o meu tio, e logo depois se casaram. Quando chegou no final do ano de 1924, eu nasci aqui em São José e aqui vivi sempre e fiz toda a minha vida aqui.

MIGRAÇÃO
Meu pai veio para São José pelo seguinte: São José dos Campos era uma estância climatérica e, ele formadinho de novo, tinha que procurar um lugar onde a farmácia fosse lucrativa, onde tivesse freguesia, e aqui em São José a população daqui tinha mais doentes do que sãos. Então era a época da tuberculose, tanto que papai tratava e atendia... Até os médicos que vinham para cá eram tuberculosos: doutor Nelson D'Ávila, o doutor Ivan de Souza Lopes... Os dois foram compadres de papai. Papai batizou os filhos desses médicos. Morávamos lá na praça Afonso Pena. A farmácia de papai era o ponto de reunião dos políticos e dessas pessoas todas que têm nome de rua. Monteiro Lobato estava sempre lá em casa, lá na farmácia, e eu sempre, mesmo menina, com nove ou dez anos, eu sempre gostei muito de política. Talvez influência de meu pai. E por quê? Naquela ocasião, não havia reunião nos bares porque a tuberculose era uma moléstia muito contagiosa, então a pessoa fugia da moléstia. Nós tínhamos, aqui em São José, os sãos e os doentes completamente separados porque era contagioso. Ninguém queria tomar uma cerveja ou uma água num bar. Então, esses políticos, sadios ainda, eles se reuniam na farmácia do papai, que chamavam botica. Naquela ocasião, farmácia era botica. Boticário, botica. Então, eles se reuniam lá e eu, menina, pedia ao meu pai: "Ah, deixa eu ouvir a conversa de vocês?". "Eu deixo, desde que você fique bem quietinha."
O coração de São José pulsava na farmácia de meu pai e eu, então, sempre acompanhei aquilo, gostei, e também via o papai preparar os remédios, tanto que sempre quis ser médica, não que fosse possível, porque mulher naquela ocasião não saía para estudar. Os homens sim, a mulher não. Então eu vim a me tornar terapeuta, terapeuta floral. Aos setenta anos de idade realizei meu sonho. Eu fiz oito cursos. Fiz um curso também em Buenos Aires e tive meu consultório de terapia floral e me senti, ali, uma continuadora de papai. Sempre ouvi falar também em homeopatia, em remédio e tudo, então, a minha paixão era remédio, política e educação. E assim eu fui.
Você falou da minha infância. Foi uma delícia porque aquela rua da farmácia, a rua Quinze, era a principal rua daqui, era a da praça Afonso Pena, ao lado da rua Rubião Júnior. Na Rubião Júnior não tinha carro, não tinha nada, então nós formamos um time de futebol ali.
Os meus vizinhos eram homens de lado a lado, e eu a única mulher que brincava no meio deles.