Depoimento
 
   
 José Indiani
  
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IDENTIFICAÇÃO
Eu me chamo José Indiani. Nasci no distrito de Quiririm, no dia 13 de janeiro de 1931, no sobrado que é hoje o Museu da Imigração Italiana.

FAMÍLIA
Meu pai chamava-se Luiz Caetano Indiani e minha mãe Adélia Salari Indiani.
Meus avós chamavam-se, paterno, Galdêncio Indiani e Blandina Faraboli Indiani, e maternos, Joseph Salari e Ana Maria Benasi.
Meus avós eram italianos da província da região da Lombardia, do Norte da Itália, da província de Cremona, e de lá eles embarcaram como imigrantes. Desembarcaram no porto de Santos no dia 15 de outubro de 1892. De lá subiram pra São Paulo, lá na hospedaria, e da hospedaria com destino ao Vale do Paraíba. Eles desembarcaram aqui em Taubaté, de Taubaté foram pra Fazenda do Quilombo, chamada também de Fazenda do Barreiro. Posteriormente - isso foi em 92, 1892 - depois, em 94, se estabeleceram definitivamente em Quiririm.
Eles já não foram das primeiras levas [de imigrantes], porque eles chegaram em 1892. Em 1890, e até 89, já tinha chegado em São Paulo os imigrantes com destino pro Vale do Paraíba.
Meus pais vieram de lá, da Itália, porque meu pai chegou com seis anos, junto com meu avô. Eram seis filhos: cinco vieram com meu avô e o mais velho já estava casado e ficou lá porque ele queria ingressar nos Carabineri - na polícia italiana. Mas não sei o que aconteceu, não deu certo, aí ele chegou seis meses depois. Veio por conta própria, desembarcou, fez o mesmo trajeto e foi pra fazenda se ajuntar com os pais. Então eram seis irmãos.
Minha mãe já é outra história, muito complicada. Eles fizeram a vida aqui, meu pai, meu avô, minha avó, e quando foi já no século XX meu pai voltou pra Itália pra passear - isso foi em 1919, porque já tinha acabado a Primeira Guerra Mundial. Então ele já achou diferente, porque ele já estava com 27, 26, 27 [anos] - porque ele nasceu em 86, 1886. E voltou [para o Brasil] novamente, trabalhou mais um pouco, e em 1905 ele foi novamente pra lá, voltou. Em 1929 começa a história, porque aí ele foi, namorou, noivou e casou-se com a minha mãe no dia 5 de fevereiro 1930.
Casou lá na Itália.
Ela era de Calvatoni - é a mesma coisa que Quiririm - Taubaté: é um lugarzinho pequeno que por enquanto nem está no mapa, que eu tenho o mapa da Itália e não está no mapa, e pertence a Cremona. Agora Cremona já [é] uma cidade bem atualizada. Então ele já conhecia, mas quando ele conheceu, porque aí é um contraste, meu pai - eu estou aqui contando a história porque meu pai se casou muito tarde, com 44 anos, caminho pra 45, minha mãe tinha 27, e minha mãe sempre foi obediente aos meus pais, aos meus avós, aliás. Ela até falou assim: "Vocês não querem que eu case pra ir embora pro Brasil, eu não caso com ele". Ele disse: "Não, você vai fazer sua vida, você vai se casar e você vai pra lá". E foi o que aconteceu.
Meu pai ficou lá oito meses lá, mas acertou tudo, porque meu avô já era conhecido da família Indiani lá, os Salari e os Indiani, então já era conhecido. Eu acredito que meu pai estava esperando amadurecer mais um pouco pra depois ele - porque ele já estava passando da idade, pode-se dizer, eu já fiz a conta, porque o meu pai, se tivesse casado na idade que eu casei, acho que eu não estava mais aqui contando história, eu devia estar com 91 anos, por aí.
Então, casaram em 5 de fevereiro de 1930. Já vieram pro Brasil. Eu até tenho o convite original, eu coloquei no museu, porque eu sou enterrado lá dentro do museu lá, e eu não abandono aquilo.
Só tiveram um filho: eu.
Sabe por quê? É que eu não contei, e aí é que começa a história: porque eles tiveram só eu, pra ser mais fácil pra voltar. Porque meu pai encheu minha mãe de conversa, que ele ia vender tudo que ele tinha e depois ele voltaria pra lá. E aí eu nasci em 31, 13 de janeiro de 31, e passou um ano, dois - e minha mãe - , três... E eu já, desde de pequeninho, com três anos, eu já, eu lembro do que acontecia, então minha mãe sempre, não era assim aquela coisa, mas sempre, né... Minha mãe levou uma vida sofrida, sofrida, foi sofrida demais.
Outra: lá tinha três jornais que chegavam no sobrado, um era o Diário Oficial, porque minha prima era professora, outro era a Folha de São Paulo e o outro era o Fanfula - deve ter por algum museu em São Paulo, deve ter. Através do jornal Fanfula - era um jornal que circula na Itália, mas trazia todas a notícias da Europa inteira - , então já estava começando a cheirar a Segunda Guerra Mundial. Meu pai era uma pessoa vivida, uma pessoa que andava muito, ele trabalhava com banco, ele ia pra São Paulo, ia pro Rio, nós tínhamos fábrica de corda, então ele era uma pessoa experiente da vida, ele sabia de tudo. Ele sabia deixar o céu pra ir pro inferno, ele ia contentar minha mãe, mas iam correr risco de vida. Porque depois que a Itália se associou com a Alemanha, fizeram pacto ali do Eixo, acabou, não teve mais jeito. E quanto mais foi passando os anos 34, 35 a coisa foi piorando, e eles lá escreviam pra gente que a coisa estava ruim, estava feio o negócio. Tinha gente saindo, vindo embora, saindo da Itália, porque estava feio, o negócio estava piorando. E quando foi final de setembro de 39 estourou a Segunda Guerra. Então um tio meu, casado com a irmã da minha mãe, morreu nos frontes da Rússia, nunca mais acharam o corpo, morreu congelado - foi uma tristeza, contar tudo. As tropas alemãs, italianas quando invadiram - porque praticamente a Itália foi invadida, quem passou o domínio, então tudo isso ajuntou tudo. Então não adiantou nada eles terem eu só pra ser mais fácil voltar, porque não conseguiram nunca.