Depoimento
 
   
 Carlos Marcelo Cezar
  
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IDENTIFICAÇÃO
Meu nome completo é Carlos Marcelo César, eu nasci dia 8 de dezembro de 1966, em Pindamonhangaba.

FAMÍLIA
Meu pai é Ademir César e minha mãe é Antônia Cândida César.
São comerciantes.
Meus avós, também comerciantes: avô, Etelvino Abraão Raimundo e minha avó é Maria Cândida Raimundo. Os maternos: meu avô, parte do meu pai é Onofre César e Maria César, minha avó.
Infelizmente, perdi um irmão num acidente e hoje eu sou filho único.
A origem da família é portuguesa.
Do meu avô, da família dele, vieram de São Paulo. A família do meu pai já é daqui, meu irmão e minha mãe nasceram aqui também, mas meu avô veio de São Paulo para cá.

MORADIA
A rua onde eu morava era de terra. Eu moro até hoje do lado da linha de trem. E naquela época eram poucas casas que existiam ali. Era um bambuzal, um riacho que passava por ali. Então era o bar, algumas casas, era o terreno baldio, vinha outra casinha, depois bambuzal, eucalipteiro, outra casinha e foi ali que a gente... Eu nasci por ali e depois a cidade começou a crescer de uma forma... Teve uma época que eu conhecia todo mundo em Pindamonhangaba. Meu nome... O pessoal me conhecia no escuro, eu era bem conhecido, eu trabalhava com rádio - até hoje trabalho na 94 FM - e fazia som nos clubes da cidade, dez anos num clube só. Quer dizer, toquei em todas as casas noturnas que tinha em Pinda. Era uma pessoa muito conhecida, então teve uma época, em 88, que andava de noite assim, o pessoal: "Ó o Marcelo, ó o rato", porque o meu apelido de escola, de infância, desde os oito anos de idade é Marcelo Rato. Então chega em Pinda, pergunta se conhece o Marcelo, muita gente: "Qual Marcelo? O rato? Ah, ele mora ali". Todo mundo me conhece, me acha facinho.

COMÉRCIO
Bar, sempre tivemos, meu pai também é comerciante desde a infância, e ele era açougueiro. Meu avô tinha açougue no Mercado Municipal e o meu pai toda vida trabalhou com meu avô. Depois que o meu avô, que é pai da minha mãe, veio a ficar com idade, passou o bar para minha mãe. Hoje, meu pai e minha mãe tocam o bar. Meu pai passou a ser do ramo do bar, mas ele toda vida foi açougueiro, também na área do comércio.
O açougue era no Mercado Municipal, muitos anos meu avô foi... Eu lembro que o meu pai, a gente ia para o açougue - eu sempre acompanhava ele até o açougue de bicicleta - a gente passava lá em frente do presídio, mas já era na época que estava destruindo. Eu lembro mais da destruição do que de ver o funcionamento. Isso há muito tempo, eu tinha uns sete, oito anos de idade.

INFÂNCIA
Com seis anos ia para o mercado com o meu pai.
Olha, era a barraca de peixe, era o açougue, a barraquinha de vender amendoim, pipoca, então era ali que a gente via muita gente, para lá e para cá. Quando chegavam os bois - que o matadouro era mesmo na cidade - meu pai sempre saía, saía para ir para o matadouro, matar um porco, ou a vaca que seja. Já cheguei até a ir com ele uma vez, a gente, tinha até dó: "Não pode ter dó não, é assim, você tem que...", a gente lembra, mais ou menos, disso aí. Era bem legal, nessa época. Era uma correria só, a cidade era meio pequena e a gente conhecia muita gente. A família da gente é bem conhecida na cidade.
Os bois vinham de caminhão. Um caminhão muito estranho, um caminhão daqueles antigão, bem estranho. Tinha época que vinha de charrete. Uma época que chegava de charrete, enrolada em um saco, isso é bem... Das vezes que eu cheguei a presenciar isso - porque quando é criança você pensa mais em brincar, ia lá para ficar brincando com o filho do outro proprietário, e pedir as coisas: "Dá isso, dá aquilo, compra bala". Era mais essa parte do que ficar analisando o que estava acontecendo ao redor.
Naquela época a brincadeira era a bolinha de gude, que era o forte, depois, mais para frente, já começou o pião, que a gente usava o pião, era bem brinquedo primitivo, mas era o que divertia bastante a gente.
A gente acordava... Uma coisa que minha mãe sempre fez questão foi que a gente estudasse. Até mesmo hoje eu não tenho o segundo grau completo, porque eu não agüento ficar dentro de uma sala de aula. Não tem jeito, eu não... Mas não foi por falta de conhecimento, porque hoje eu tenho bem mais conhecimento do que se eu tivesse estudado. Mas o meu irmão chegou a terminar o colégio. Mas a gente levantava: primeiro era a lição de casa, antes de você fazer qualquer coisa, então se a gente não tivesse a tabuada e a cartilha na ponta da língua, não tinha futebol, não tinha soltar pipa, não tinha nada. Era primeiro o dever de escola para depois partir para o divertimento.
Minha mãe costurava e eu me lembro que ela ficava na máquina costurando, e a gente estudando. Ela só falava assim: "Está pronto?", "Tá", aí tomava a lição. Se tivesse pronto, continuava, saía para brincar; se não, continuava estudando.
Eu ia para a escola à tarde.
Se estivesse tudo nos conformes, com certeza, a gente ia brincar, e se não, continuava estudando até estar. Tinha que estar na ponta da língua, se não... No primário, se eu tirasse nove, eu já chegava chorando em casa, tinha que ser dez, dez, dez.
Era exigência dos meus pais. Primeiro, o estudo, para depois... Até mesmo a gente ajudava no bar, mas assim, tinha o horário de todo mundo: quem estuda de manhã, ajuda no bar à tarde. [Eu] estudava de manhã. Aí, o contrário: o outro que estudava de tarde, trabalhava de manhã.