Depoimento
 
   
 Luiz Fernando Moreira
  
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IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Luiz Fernando Moreira, eu nasci em Taubaté, em 13 de janeiro de 1949, portanto tenho 54 anos.

FAMÍLIA
Meus pais: Felício José Moreira, já falecido, e Georgina Mazela Moreira, ambos de Taubaté, nascidos em Taubaté.
Meus avós: Felipe José Moreira, Cândida Toledo Moreira, do lado de meu pai; do lado da minha mãe, Antônio Mazela e Beatriz Gomes Mazela, todos de Taubaté.
Um avô meu... Sempre meus avós foram ligados ao comércio. Meu avô paterno, nos idos de 1930, tinha uma banca lotérica, que hoje nada mais nada menos é jogo do bicho, mas naquele tempo era legalizado. E meu avô começou a vida sendo padeiro. Ele era imigrante italiano e começou a vida como padeiro. Adquiriu uma padaria, na rua Quatro de Março, que até hoje existe.
Meu avô materno era italiano de nascimento e veio pro Brasil com dois, três anos de idade, e toda vida morou em Taubaté, até falecer.
Naquela época a Itália sofria um problema de integração, a unidade italiana... No final dos anos de 1890, a Itália estava, vamos dizer, em guerra, e houve uma proposta muito grande de alguns... Cônsul brasileiro que originou toda essa leva de italianos aqui pro Brasil. Eles brigavam, não tinham condição nem de sobrevivência lá, então foram convidados e ofereceram uma terra maravilhosa para os italianos. Então meu avô, ou bisavô, eles tinham uma cultura de plantação de óleo de girassol nas montanhas italianas em Benevento, que eles chamam província Basala, no sul da Itália, perto de Nápoli. Era um frio danado, era muito complicada a maneira de vida lá, aí souberam dessa oferta, de um país novo como Brasil, e vieram, como a maior parte dos italianos, no final do século XIX. Meu bisavô veio nessa leva e trouxe alguns filhos pequenos, entre eles meu avô, Antônio Mazela, e os outros. Praticamente a maior parte dos Mazelas nasceram aqui no Brasil.
Vieram direto para Taubaté. Chegaram no porto de Santos e foram distribuídos pela lavoura, pelas cidades naquela época do café, na época áurea do café, o Vale o Paraíba. O Vale teve o privilégio de receber toda essa mão-de-obra do exterior e criaram-se grandes colônias, como a colônia do Quiririm, hoje em Taubaté, colônia do Quiririm. Os Sávios, os Gadiolis são originários dessa época... Os Mazelas, são originários dessa época.
A história que meu avô me contava quando eu era criança - além de tentar me ensinar o italiano, eles contavam histórias - é que no começo foi bom, foi muito produtivo, no início do século, mas depois, com a Primeira Guerra Mundial teve algum reflexo aqui no país, e a Itália se envolveu em briga também. Aí teve uma queda muito grande, durante a Primeira Guerra Mundial, a queda dos negócios do café, quando não estava sendo mais exportado, então teve uma queda na arrecadação. Taubaté teve um grande boom, graças a Félix Guisard, nos proporcionou o início da industrialização de Taubaté, com a CTI [Companhia Taubaté Industrial]. A CTI que trouxe um boom enorme, e meu avó montou a padaria, porque naquela época... A maior parte dos clientes dele eram os operários da CTI, idos de 1925,1926, então a padaria dele era perto da fábrica, da saída da fábrica, da rua que ligava - a rua Quatro de Março - a rua que ligava a CTI ao centro da cidade, aos bairros populosos da cidade. E meu avô, 80 a 90% dos clientes, segundo ele, eram operários da CTI, operários que preenchiam cadernetas. Naquele tempo ele pôde sobreviver e passar essa fase difícil graças ao pioneirismo de Félix Guisard, da CTI.
Meu avô queria plantar trigo e plantação de trigo no país era proibida, na época, porque é um país tropical, só se aceitava culturas tropicais como o café, e ele insistia no trigo. Então como ele tinha essa vocação - os antepassados dele tinham padaria também na Itália - ele teve essa vocação de ir para o comércio e escolher em comum acordo com o doutor Félix Guisard uma padaria que ficasse no caminho da CTI pra cidade de Taubaté, pro centro da cidade.
E ele queria, ele queria de qualquer jeito me ensinar o italiano, a gente acaba assimilando e aprendendo alguma coisa, principalmente os gestos, não na palavra, mas nas mãos. A gente teve pouco tempo de convivência, pouco tempo. Ele faleceu eu tinha doze, treze anos assim, então não teve oportunidade de aprender mais o italiano, mas deu pra assimilar alguma coisa.
Meus avós paternos... Meu avô era um imigrante também, imigrante libanês, e chegou no país na mesma época, casou-se com uma pessoa de uma tradicional família de Taubaté: eram donos das fazendas do Baracéia, aqui perto de Taubaté, no caminho pra Ubatuba, família de minha avó. Como todo bom imigrante libanês, foi pro comércio, montou uma banca lotérica, montou uma casa de tecidos - que vendia os tecidos fabricados pela CTI de Taubaté, Companhia Taubaté Industrial. E ele fez essa banca lotérica. Naquela época era legal, era um jogo do bicho legalizado. Depois ele, como todo bom libanês, foi vender os linhos da Companhia Taubaté Industrial em outras paradas. Ele ia fazer vendas em Piracicaba, na região de Piracicaba, sempre como vendedor.