
Ana Célia Pecci nasceu em Jaú (SP), em 15/04/1957. Filha de Sérgio Pecci, advogado já falecido, e de Dora de Almeida Prado Pecci, dona de casa. Cursou Direito e em seus trabalhos de advocacia ligados ao trabalho rural enveredou pela fiscalização de trabalho infantil e daí para o Direito Infantil. Hoje, coordena o Projeto 100 Muros do Projeto Aprendiz.
O Projeto Aprendiz é uma ONG, uma associação sem fins lucrativos, que é composta de três núcleos. Ele é, na verdade, um laboratório pra criar novas estratégias de educação baseadas na comunicação e na cidadania, para jovens de ensino médio. O primeiro núcleo q ue o Aprendiz montou foi o Núcleo de Comunicação, que faz a página na internet, baseada no livro do Gilberto Dimenstein, Aprendizes do Futuro, e que são alunos do ensino médio que alimentam esta página com notícias sobre educação, direitos humanos e cidadania que interessem a professores, alunos, pessoal voltado para a questão da educação, cidadania e comunicação. Depois, o segundo núcleo que o Aprendiz montou foi o Núcleo Design Social que é um laboratório de novas estratégias pedagógicas para alunos de ensino médio, cujo foco é voltado para a montagem de sites para entidades sociais. Os alunos ficam um ano no projeto, ao final eles elaboram uma home-page para uma instituição social e eles vão tendo as outras matérias como transversais. Então é o contrário da escola, ao invés de você ter o português, a história, a geografia e a cidadania entrar transversal, aqui, não. A cidadania entra como tema e entram transversais história, português, geografia, etc. Daí o terceiro núcleo que foi criado, há sete meses, foi a Escola da Rua, que é o núcleo de arte-educação do Projeto Aprendiz e que tem um primeiro projeto implantado que é o Projeto 100 Muros.
O Projeto 100 Muros é uma parceria entre o Projeto Aprendiz, a Fundação Bank Boston e a Fiat. Seu objetivo é trabalhar durante dois anos e meio com a população da cidade, discutindo temas de cidadania que se concretizam em painéis de mosaicos que cobrirão cem muros da cidade. Então, a gente realiza oficinas pedagógicas, com grupos, onde são discutidos desde o tema que vai ter aquele muro... E a gente ensina três técnicas: a técnica do mosaico, a técnica da pintura em azulejo e a técnica da modelagem. Daí, a partir da discussão de um tema que é interesse de todos, interesse da cidade, elabora-se um projeto e cada um vai construindo um pedaço desse painel que depois vai pras ruas.
A gente já tem 18 muros colocados. A gente trabalhou com cerca de 20 instituições que vão desde escolas públicas a escolas privadas, a Febem, Unidade de Infratores da Febem, crianças e adolescentes em atendidos abrigos com histórico de meninos de rua, que estão em programas de travessia... A grande concentração destes muros está aqui na Vila Madalena, inclusive o primeiro que é esse aqui da rua Aspicuelta, da Escola da Rua, que o símbolo é uma árvore, já que a gente estava plantando a semente do projeto que ia se espalhar pela cidade. E a idéia é que a gente vá concentrando esses muros aqui no bairro mesmo, porque o projeto tem uma concepção de que a gente vai trabalhar com as questões da arte, da cidadania e da comunidade. E a Vila Madalena tem essa característica de uma vida comunitária, tem inúmeras experiências artísticas e moram inúmeros artistas aqui e a gente pretende que a Escola da Rua seja um espaço onde a comunidade possa ser professor e aluno, e que esses artistas do bairro possam vir ensinar outras técnicas pra outros grupos. E que esses grupos também sejam daqui da comunidade e que a gente vá formando uma história comunitária e artística.
No primeiro grupo a gente quis trabalham com um grupo grande de instituições e que já desse um sinal para que tipo de entidades e instituições a gente estaria trabalhando. Naquele momento a gente não tinha um grupo de alunos do Projeto 100 Muros. A gente trabalhou em parceria com as outras instituições potencializando o trabalho deles mas também querendo dar visibilidade para os trabalhos que já existem na cidade. Então no grupo foram 14 instituições, desde o Instituto Lara Mara, que trabalha com deficientes visuais, a garotos com medidas de privação de liberdade que estão internos na Febem no Tatuapé, o Projeto Travessia, que é ligado ao Sindicato dos Bancários de são Paulo e à Fundação Bank Boston que trabalha com meninos de rua do centro da cidade, o Projeto Geração 21 que é da Fundação Bank Boston e que é uma ação afirmativa que trabalha com 21 jovens negros com complementação escolar, etc. Alguns grupos a gente foi trabalhando e o trabalho se encerrava e outros grupos quiseram fazer uma continuidade e fizeram uma contra-proposta, como é o caso do Colégio Equipe, que adotou isso no currículo, nas aulas de arte da 5a à 8a Séries e trabalhou os últimos seis meses de 1999 para construir os três muros que ficam na estação do trem metropolitano na Marginal, na estação CPTM.
A Febem, de início a gente já propôs pra eles montar um núcleo lá dentro porque o que a gente consegue atender é um número pequeno de adolescentes para o universo que a Febem tem de infratores, mas que a idéia é mostrar realmente que é possível um grupo de fora ir lá e realizar um trabalho. Então a gente montou um núcleo lá dentro e essa coisa foi aumentando, eles também foram descolando, hoje em dia já tem uma sala que foi inteirinha adaptada só pra ser a oficina do Projeto 100 Muros, tem três fornos, e a gente vai lá e faz a oficina três vezes por semana. Eu acho que esse trabalho com a Febem foi um grande mérito do Projeto, uma coisa que a gente ainda tem que saber explorar. A Febem teve uma visibilidade grande esse ano por conta das rebeliões e há décadas esse é um problema para o qual ninguém consegue tem uma proposta e eu acho que a arte-educação é uma grande possibilidade também pra Febem, principalmente pra Febem. Os meninos fizeram trabalhos muito bonitos e se engajaram de um jeito muito legal no Projeto. E a gente conseguiu alguns ganhos, conseguiu até que os meninos por três ou quatro vezes saíssem da Febem com autorização judicial, para participar de programações do projeto. Vieram pra inauguração do muro, uma festa aberta, na rua, na segunda vez foram visitar a exposição do Picasso no MASP, depois outras duas vezes eles vieram como auxiliares nossos de oficinas com outros grupos sociais que nós estávamos trabalhando. E eles puderam ensinar. Pra eles foi muito legal, saberem que eles podem aprender e puderam ensinar outra pessoas. Foi uma experiência muito rica, apesar do número de crianças envolvidas pro universo da Febem ser muito pequeno, mas mostra a possibilidade.