
Cesinha da Vila nasceu em Iepê (SP), em 1954. Foi batizado como José Anfrísio dos Santos, mas os amigos só o conhecem pelo apelido. Já trabalhou como auxiliar administrativo, funcionário do Jóquei Clube e há 21 anos trabalha na Companhia de Engenharia de Tráfego. Na Vila Madalena, morou nas ruas Patizal, Mourato Coelho, Original e Delfina. Possui uma pequena loja de conveniência na rua Delfina (Comércio de Doces Marilyn), administrada pela esposa Marisa e pelos filhos Raphael e Carolina.
Aqui acontece muita coisa engraçada. Vou contar uma história. A nossa lojinha tem um quadro de fotos das personalidades que aparecem por aqui. Num determinado dia, neste ano, acho que foi em março, apareceu o Sebastian, da C & A, aquele rapaz que faz as propagandas. Ele é ator, dançarino e está no ar há muito tempo. Ele foi apresentado a mim pelo Bola, que é um cliente e colega também. Porque não só clientes vêm aqui; os colegas também. Como você sabe, nós não temos fins lucrativos no nosso comércio aqui. Aí o Sebastian chegou aqui, nós começamos a bater um papo. Ele pediu uma cervejinha... De repente ele deu uma olhadinha e viu o quadro ali, viu umas fotos de alguns artistas e modelos que vêm aqui na lojinha. E ele falou: "Vamos tirar uma foto". Opa, vamos tirar não! É primeira vez que você chega aqui e já quer tirar foto? "Mas eu não sou famoso?" Sei que você é famoso, mas na primeira vez e quer tirar foto? Sinto muito mas hoje não dá para tirar foto, não. Quando você retornar aqui a gente tira uma foto, mas hoje infelizmente não vou poder, não. Passaram-se aproximadamente uns 13 ou 14 dias e ele retornou. "E aí, já podemos tirar a foto?" Bom, já que você está virando cliente, amigo da gente, nós podemos tirar a foto. Aí tiramos a foto dele e colocamos no quadro. Evidentemente que esta foto não pode ficar mais do que 3 meses no quadro, senão o pessoal vai enjoar, tem que ser renovado. A cada 90 dias nós renovamos.
A gente tem um amigo que mora aqui na rua, naquele prédio ao lado - não sei exatamente o número - onde é o zelador. Ele veio de Caicó, Rio Grande do Norte, para trabalhar ali. E ele conta muita cascata, muita mentira, e eu sou um cara sério, eu não sou um cara de contar cascata para ninguém. E o zelador não deixa o pessoal em paz, ele inventa muito, já deixou as pessoas em má situação. Uma coisa engraçada: numa oportunidade, a gente estava batendo papo aqui, tinha um rapaz argentino que mora aqui na frente. Ele chegou e o zelador estava aqui. Aí o zelador começou a malhar os argentinos. Como o zelador não entende nada, pensou que o cara tinha algum problema na língua. Mas o cara era gringo! Aí o zelador começou a malhar e, de repente, o homem ficou muito bravo com o zelador. Também, malhar os argentinos na frente de um... E não é que o zelador ainda quis colocar a culpa em mim? Aí tem sempre aquela frase de dono de bar:"Nem sei do que vocês estão falando, tô chegando agora".
Eu fui passar as férias em Caraguatatuba, foi em 96. Fomos pra casa de uns amigos. Aí então todo dia tem que fazer um churrasquinho, e tal, né? Comer um camarão, tirar um lazer... Eu fiquei lá 20 dias. No primeiro dia eu fui na Prainha do Jacaré, uma Prainha famosa, local reservado pro pessoal dum edifício, entendeu? Então, estava numa época de Operação Praia Limpa, e chegou o pessoal que estava fazendo estágio em faculdade, tudo com aqueles saquinhos, né? E eu no coqueirinho lá, eu com a minha família. Aí um cara todo suado, andando pra lá, distribuindo saquinho, eu falei: garotão, chega aí... isso no primeiro dia! O cara: "Ô, pois não, senhor". Falei: faz favor, toma uma, vê uma boca redonda aí, né? Aí ele falou: "Não, muito obrigado. Mas eu poderia ficar na sombra um pouquinho?" Falei: ô, tranqüilo, pode ficar. Comecei a bater papo, fiquei conhecendo rapaz. Ele falou: "Será que eu podia deixar aqui?" Tinha um saco maior com outros saquinhos, que era pra distribuir pro pessoal. Falei tudo bem. Aí foi embora, fazer o trampo dele lá, tal. Falei: ó, duas e vinte e sete eu vou embora. Eu sou meio assim, negócio de horário eu sou fera. Gosto de marcar, o negócio tem que ser certinho. Tipo duas e vinte e seis o rapaz chegou lá, todo queimado: "Sabe o que é? A gente não tem lugar pra ficar". Então nós vamos fazer uma negociação: a partir de amanhã eu vou ficar aqui aproximadamente de 15 a 20 dias... que hora que você chega na praia? "Sete e meia eu já tenho que estar na praia, senhor". Faz favor, pra começar vamos parar de chamar de senhor. É Cesinha e acabou. É o seguinte: você vai chegar amanhã, colocar a sua sacola aqui nesse coqueirinho aqui, colocar um guarda-sol que vou deixar naquele barzinho lá. Nessas alturas eu já tinha amizade já com o cara do quiosque. Peguei o rapaz, mostrei lá e falei: você vai guardar esse coqueirinho pra nós aí, tem jeito? Eu só chego nove e quinze aqui. Falou: "Tudo bem". Não deu outra. No outro dia, chego lá, beleza. Dei uma filmada, meu guarda-sol lá, a sacola do rapaz lá, pronto. Isso, simplesmente ficaram de 18 a 19 dias, todos os dias o rapaz me guardou isso daí. Um rapaz super-simpático, cara. A praia cheia e o coqueiro reservado. E eu fiquei muito conhecido dele, um dia ele falou que nunca tinha visto um cara tão cara de pau que nem eu. Falei, olha, você vai me desculpar, eu não sou cara de pau não, amigo. Eu pedi um favor pra você e estou retribuindo. Se não sou eu, você tinha que ficar tomando sol direto aí. Entendeu? Você deu uma força, tudo bem. Agora você tem onde sentar, beleza! Isso aí é uma troca de gentileza uma pessoa com a outra. Papo sério, cara.