
Wellington Cabola Romano nasceu em São Paulo em agosto de 1964 e, passou a infância em uma típica vila paulistana, na Rua dos Macunis, na Vila Madalena.
Meu nome é Wellington Cabola Romano, nasci na cidade de São Paulo em agosto de 1964. Sou descendente de portugueses e italianos. Quando meus avós por parte de pai se casaram, procuravam um lugar que fosse plano e que não fosse caro para morar, afinal de contas eles eram imigrantes não tinham grana.
Como eram floristas, procuravam um sitiozinho pra alugar, e encontraram um aqui na Praça Panamericana, que hoje é lugar top, mas naquela época, segundo o que diz meu avô, era um grande charco, um lugar sem muitos atrativos.
Montaram a chácara, mas resolvem comprar um terreno para eles. Compram aqui na Rua dos Macunis. A família da minha mãe morava no Jardim América, mas quando ela tinha uns catorze anos, pelo que ela me contou, eles vieram aqui para a região também, a dois quarteirões da casa do meu pai.
Eles acabaram se conhecendo. Meu pai foi o primeiro namorado e o único da minha mãe. Ele teve outras histórias: ele até namorou com a minha mãe durante um tempo, se separaram e ele ficou noivo de uma outra moça. Depois, ele rompeu esse noivado, minha mãe continuou esperando e deu certo. Eles estão juntos até hoje.
Eu nasci nessa região também, na Macunis. Eu sou o primeiro de três. Eu tive que trabalhar muito o meu nome Wellington. Pra mim era uma coisa que não me cabia, um nome de origem inglesa. Eu sempre questionava isso, eu lembro de falar: “Poxa! Ninguém fala meu nome! Foi meu pai que escolheu e ele dizia que era porque o nome e sobrenome dele eram muito comuns: Antônio Carlos Romano. Para tudo o que ele ia fazer (casar, abrir empresa, comprar casa etc.) sempre tinha que ficar se justificando porque os homônimos tinham o nome sujo.
Nossa casa ficava numa espécie de vila, uma ruazinha sem saída. Tinha três casas e uma floricultura, que era dos meus avós e que está aí até hoje. Minha infância foi ali.Éramos cinco crianças ali brincando. Tinha o Marcelo, que ainda mora aqui até hoje, tinha os filhos da dona Anita, que também estão por aqui ainda.
Então a gente andava nesse grupinho. Era muito gostoso, porque eram brincadeiras sempre saudáveis. A gente sempre ia para o que chamávamos de morrão, hoje em dia morro do pôr-do-sol. Era um morro mesmo, um barranco de terra vermelha.
Nós brincávamos de bolinha de gude, de amarelinha, empinávamos pipa (tinha um vento fantástico), pulávamos corda, “esquibunda” (a gente arrumava sempre um pedaço de papelão e descia aquilo sentado e ia parar lá no meio da rua). Era muito legal, brincadeiras bem daquelas antigas de infância.
Com uns doze anos, a gente mudou para perto da minha outra avó, na Vila Beatriz, foram apenas dois quarteirões de mudança. A Rua chama Baeta Neves, uma ruazinha do lado da Rua Isabel de Castela. Ali tinha muitas crianças, muitas crianças mesmo, todos mais ou menos da mesma faixa etária. Foi uma época muito saudável. A gente brincava de polícia e bandido, de futebol na rua, descalço, bicicleta, bolinha de gude, peão, corda.
Meu pai foi violinista da Sinfônica de São Paulo quando garoto, na adolescência, jogou futebol profissionalmente no Corinthians, depois deve loja de acessórios para carros, que não deu muito certo, em seguida, migrou para o ramo de tinta automotiva, depois para tinta residencial e todo tipo de tinta. Também não deu certo: a empresa não estava muito bem estruturada e ele teve que vender porque ele ia falir. Ele vendeu a empresa e relutava, porque não queria ser florista, como a família toda, ele queria ser diferente. Relutou, relutou, acho que uns três anos ficou sem emprego e o dinheiro das lojas acabando, até que, por pressão da minha mãe, montaram uma floricultura.
Por causa daquelas coisas do acaso, a floricultura ficava exatamente na Praça Panamericana e meus pais estão lá até hoje. Meu irmão e minha irmã estão lá com ele. Agora o diferente sou eu. Nunca trabalhei com flores.
A Rua Macunis se chamava, antigamente, de Estrada da Boiada, porque era exatamente o caminho que faziam os bois: atravessavam a região da Avenida Paulista e desciam ali como quem vem pela Rebouças, entravam pela Pedroso de Morais, passavam pela Macunis e iam em direção ao rio.
Depois, virou caminho do bonde, acho que porque era um lugar mais aberto, de mais fluxo. Quando eu nasci, ainda existia o bonde, que parou de passar no fim da década de 60. Já existia ônibus.
Mas eu me lembro de sentar com meu avô ali na Estrada da Boiada e eu ficava com ele olhando o bonde e o movimento dos carros. Ele me perguntava: “Olha, que carro é aquele?”. E eu sabia os nomes: tinha o Opala e todos os carros daquela época, já tinha Fusca e, de vez em quando, passava o bonde naquele trilho. A rua era toda de paralelepípedo e passava o bonde.
A minha história com a música também começou aqui. Minha avó paterna tinha muito dinheiro. Ela vendia muita flor e chegava em casa em dia de festa de Natal, dia das mães, esses dias que se vendem muita flor, ela chegava com a kombi com seis, até oito latas grandes daquelas de óleo cheias de dinheiro.
Então, com sete anos, eu cismei que queria um violão e que queria ser músico. Mas, “de jeito nenhum”. Primeiro que músico não era profissão. Imagina? Ser músico? E como comprar um violão? Como ter aula de violão?
E eu achava isso o cúmulo porque meu pai tocava violino. Por que só ele podia ter incentivo? Minha mãe veio, muito do jeitinho dela e falou: “se alguém pode te dar esse presente, esse alguém é a sua avó, então converse com ela”. E eu, muito envergonhado, fiquei esperando minha avó um dia perguntar o que eu ia querer ganhar de aniversario. Quando ela perguntou, falei que queria um violão e ela disse que tudo bem. Então ela me colocou na kombi e me levou até uma loja.
Fiquei dos oito aos dez anos tentando entender sozinho o que acontecia e já tava com ódio do violão, às vezes eu tinha tanta raiva, que eu chorava e eu mordia o instrumento, eu roia ele, porque eu queria tocar e não tinha como.
Quando eu tinha catorze anos naquela época de ginásio de sair para ir para o colegial, eu já dava aula de violão eu sabia já tudo. Foi uma coisa engraçada, porque eu também não consigo entender: eu aprendi sozinho aquilo.
Depois, com vinte e poucos anos, solteiro, já havia feito faculdade de Publicidade, eu queria ser músico de qualquer jeito. Eu precisava tocar, mas morria de vergonha. Pensei: “poxa vida, e agora?”. Como eu tinha uma certa grana, eu decidi montar um lugar para eu tocar e montei um bar aqui na Vila Madalena.
Na Vila Madalena não tinha nada ainda. Tinha dois botecos e fora isso não tinha nada, apenas oficina mecânica, muita residência. Então eu descobri um lugarzinho na esquina da Rua Fidalga com a Rua Aspicuelta e montei um bar com música ao vivo. Hoje a Vila Madalena é cheia de bares e o meu foi o primeiro, chamava Mont Bews, um nome meio maluco, mas era um bar muito interessante porque ele tinha um porão e eu resolvi usar esse espaço, que era muito baixo. Para resolver, eu e meu sócio resolvemos contratar garçons anões, então eles eram todos anõezinhos de circo.