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A História é dona de si

História de: Cristino Wapichana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2019

Sinopse

Entrar na história de Cristino Wapichana é passear por ásperas realidades, mas com um tom de fábula, desde os preconceitos que passou por ser indígena, as encantarias que viu e ouviu contar, se transformou em músico e até mudou regulamento de festival inserindo línguas indígenas. Cristino Wapichana foi de pedreiro e do caminhar da roça até se transformar no nome mais premiado da arte de Roraima sendo o primeiro indígena a levar um Jabuti, numa história que transcreveu, mas que foi relatada por um encantado. A única dúvida é quem é mais encantado a história ou o contador?

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História completa

Eu sabia que era Wapichana, no entanto, não assumia, pela violência como a gente era tratado e sempre falava assim do civilizado: “Olha o civilizado”, como se o civilizado fosse a melhor coisa,  e no fundo, é só gente. Gente que maltrata gente. 

Eu lembro quando eu trabalhei em borracharia quando era adolescente, o cara me chamava de índio e eu tinha a maior raiva disso. Eu o xingava, até, na cabeça, mas eu achava isso porque quando falava de índio era aquele ser atrasado, sujo, preguiçoso, era tudo de ruim, então eu estava, embora na cidade, sendo tratado com toda essa carga suja que a sociedade aprendeu, que o colonizador colocou e vem ensinando que indígena é isso. Nunca que ele é gente, que ele é igual ao outro, que tem a mesma potencialidade. Mas essa carga permanece até hoje e aí eu ficava pensando: “Poxa vida, que desgraçado!” Mas eu terminei, lá pelos 20, 25, mais e falei: ‘Não. Eu sou. Nada do que eu fizer, falar, vai mudar. Eu sou isso. Eu tenho que assumir isso. Eu sou wapichana, agora eu vou atrás”.

 

 Mamãe contou muita história pra gente, é a que mais contava história. Vovó contava uma ou outra história. Lá tem um igarapé, na comunidade, que tem locais que há muitas pedras redondas, como se fosse uma sobreposta à outra. Por dentro dá pra você nadar, água bem fria, é um lugar quente pra caramba... E a vovó falava, uma tia também contava uma história assim, que ela viu uma sereia lá, uma tia viu, casada com meu tio. E ela conta, assim, com uma força, e que ela teve febre por três dias quando ela viu essa sereia. 

  A sereia olhou pra ela, depois que olhou pra ela, que ela desceu, ela era menina, correu pra casa e teve febre por três dias. Bom, o lugar está lá e embora eu tenha 47 anos, eu vou lá e o que me vem? A memória daquela sereia. A mamãe contava a história de umas pedras que andavam à noite. Elas mudavam de lugar. Deixava marca. Eu ando no lugar e, quando eu estou lá, eu lembro exatamente das pedras que, quando estou passando, estou lembrando daquelas pedras que andavam ali. Ela contava de uns pássaros que ficavam bicando. Uns pássaros pretos que bicavam, se não fechasse bem a casa, eles podiam entrar e furavam olho, comia gente... Bom, ela falava isso e se teu pai te conta uma história, tua mãe te conta uma história, tua tia conta, tua avó conta, é história real.

(…)

Foi a partir do Daniel Munduruku, da publicação e eu comecei a fazer falas, a contar histórias, a escrever, a pensar nas histórias com mais profundidade e aí saiu Boca da Noite já nessa outra visão, de que a história tem a sua origem, as suas funções, de ensinar, de encantar, de carregar toda uma memória, de carregar com ela encantamento, carregar milagres, carrega essa força que move a gente. Ela tem a função de dizer como tudo foi feito: esse lugar, essa câmera, microfone, a minha roupa, tudo. Essa roupa tem uma história dela, a partir de que a Sandra comprou, pra gente fazer o trabalho da Ceuci, a Velha Gulosa. Essa é a história que eu sei, mas até chegar a esse desenho, alguém fez, pensou, alguém costurou, cortou. Tudo isso é uma história, desde o algodão, então, cada um tem uma história. Então, a história nos localiza, nos diz como tudo existiu. Então, a partir desse momento, é que eu comecei a compreender que a história, com toda essa força, magia, é dona de si. Por isso que algumas histórias não deixam a gente contar, não deixam, simplesmente não deixam. A história que ainda não foi materializada em livro ou foi materializada numa contação, por alguém, que estão por aí, têm a força, o direito de achar alguém que possa materializá-la. Então, as histórias, a maioria não é aquela que a gente concebe: “Vou conceber uma história”. Não. Ela vai se entregando.

E um dia cheguei do Sesc de Três Rios com dois autores: o Tiago Hakyi e o Roni  Wasiry, ambos com mais de seis livros cada um e falei: “E vocês, se inscreveram no concurso?” “Colocamos, cada um, dois”. Falaram os nomes e eu falei: “Cara, eu ainda não escrevi. Semana que vem está terminando o prazo, mas eu vou fazer o seguinte: amanhã, domingo, vamos fazer um churrasquinho, vocês podem beber à vontade” - eu não bebia, quase ou ainda – “e quando for oito horas da noite eu vou entrar no quarto pra parir a história que vai ganhar o concurso”. Falei sério. Como eu estou falando aqui. Eles não acreditaram,  brincaram: “Vai ser história tal”. Eu falei: “Tudo bem”. Passamos o dia, quando foi oito horas da noite falei: “Chegou o momento. Eu vou entrar no quarto pra parir a história que vai ganhar o concurso”. Até então estava ainda Cantos e Cores, mas eu sabia que ia parir. Então eles falaram: “Não, quem vai ganhar é o fulano de tal”. Então eu falei: “Beleza”. Quando eu empurrei a porta o Curumim chegou com o pai. Seis anos. Ele falou: “A Boca da Noite”. Eu só virei pra eles disse: “A Boca da Noite, não esqueçam. A Boca da Noite! A Boca da Noite!”. Brincaram, entrei, fechei a porta, liguei o computador. O moleque ficou comigo de oito à meia noite. Eu fui dormir, quando foi quatro da manhã, o moleque retornou, me acordou, liguei o computador, fomos até nove da manhã, saiu a história da Boca da Noite. Não alterei palavra, não coloquei palavra bonita, não fiquei mudando depois, pensando depois. Não. É o que está aí como foi contado pelo menino espiritual, depois traduzido pro sueco, vários prêmios, entre eles o Jabuti, o primeiro da história de Roraima. 

Tem uma criança. Ela tem uma certa... Eu não sei o nome, se é autista, eu não sei o que é. A partir do momento que ela ganhou esse livro, não sei nem se ela fala direito, mas ela dorme com esse livro. Todas as noites a mãe tem que ler esse livro pra ela, tem que mostrar esse livro pra ela. Então, isso é extraordinário. Ver que uma criança, ver que uma coisa dessas age na vida dela, entende? Por isso que eu acredito que a história tem o seu poder próprio.

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