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Minha História Mulher

História de: Maria Lúcia Bianchini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/11/2015

Sinopse

Maria Lúcia relembra em seu depoimento a infância em Porto Alegre, seu contato com a Igreja Católica, sua experiência na faculdade de Serviço Social, onde abraçou a causa comunista e integrou a grupos políticos e começou a namorar com seu futuro marido. Mais tarde abandonou a militância e foi viver em comunidades cristãs alternativas, em casas onde habitavam diversas famílias que compartilhavam tudo o que tinham. Mãe de sete filhos, Maria Lúcia vive hoje em Embu das Artes, onde trabalha como assistente social judiciária no Tribunal de Justiça, além de realizar um projeto de coaching com mulheres de diversos lugares do país.

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História completa

Eu nasci em Santiago, Rio Grande do Sul. Meus pais são do Rio Grande do Sul. O pai morava no interior de São Francisco de Assis e a minha mãe vem de Santa Cruz do Sul. Da família do meu pai os avós vieram da Itália, tem ramo de Bianchini ali pelo Paraná e Santa Catarina. A mãe é ramo alemão, os pais dos avós dela vieram da Alemanha. Eles entraram no ramo de confeitaria e doces, por isso tem os doces Ritter. Em Santiago, na casa da minha mãe tinham nove irmãos, eles moravam em frente de uma praça que tinha um quartel do outro lado. E o meu pai estava servindo, diz que ele passava com os óculos Ray-Ban dele numa moto, daí olhou a mãe, a mãe olhou ele, e ele foi pedir a permissão pro pai da minha mãe e começaram a namorar. A mãe casou com 19 anos e o pai tinha nove a mais. E eu já nasci nove meses depois. E quando eu recém tinha nascido, encosta o pessoal do Exército na frente da nossa casa, que o meu pai estava tendo uma crise mental e teve que ser levado pra Porto Alegre. A minha mãe teve que encarar de cuidar de nós sem deixar a gente ser abalado por isso. Ela nunca falou pra gente que o nosso pai tinha esse problema mental. Só fomos saber depois de casados, já adultos. Eles estão juntos até hoje, o pai está estabilizado, está bem.


Quando eu nasci meu pai estava no Exército, em Santiago e a mãe ficava em casa, porque logo ela engravidou. Ela não tinha nenhuma profissão, foi buscar depois dessas crises do pai, que já estava comigo e minha irmã Suzana, daí também veio o meu outro irmão Henrique e ela foi fazer Pedagogia, e virou professora. Com sete anos a gente já foi pra Porto Alegre e eu entrei no jardim de infância. Eu era super moleca, gostava de andar de pé descalço, de carrinho de lomba, de tomar banho de chuva, subir em árvores e catar coisas assim nas sarjetas. Alguém sugeriu pra minha mãe que o pai tendo essa situação poderia se aposentar, então encaminhou a aposentadoria e conseguiu comprar uma casa pelo Exército e a gente mudou pra outro lugar em Porto Alegre. Meus pais eram católicos e a gente era obrigado a ir pra igreja. Quando chegou a adolescência a minha mãe me empurrou para ir pra esses grupos de jovens. Fui e foi super bom, encontrei um monte de gente de Deus, idealista. E dali começou o meu ideal: “Então tá, vamos fazer que nem São Francisco, vamos ajudar os pobres, vamos fazer radical”. E comecei a ver que a Igreja Católica não tinha esse radicalismo. Comecei a me decepcionar.

 

Eu fui fazer Serviço Social na PUC. No primeiro ano já em Filosofia entrou aquela coisa da consciência crítica contra consciência ingênua. Todos meus referenciais de religiosidade, Jesus, tudo foi questionado. Eu comecei também a ter um grupo de amigos ali na região e me apaixonei, foi minha primeira paixão. Ali na comunidade aconteciam as festas de garagem no sábado: “Ah, vai ter festa na casa do Fulano”, daí botava uma luzinha verdinha ou vermelhinha e os pais não deixavam por causa dessas luzes, mas às vezes a gente ia. Quando eu fui no Clube Teresópolis que eu conheci o meu marido. E eu estava nessa coisa de grupo de jovens ainda, não era comunista e eu me lembro que quando ele me chamou pra dançar a gente foi, começou a conversar, ele me perguntou: “Que cor são seus olhos?”, eu disse: “Ah, são verdes, azuis”, “E os seus?”, “Ah, os meus são cor de mel mas eu gosto quando estão vermelhos”. Daí que eu vi que ele fumava maconha e eu fiquei assim: “Uau! Então é esse tipo de pessoa que eu quero ajudar”. A gente começou a namorar, eu falando pra ele de Deus e ele me convencendo da maconha. Daí eu provei a maconha e ele começou a frequentar o grupo de jovens. A gente estava com 20 anos e ele e um amigo nosso decidem: “A gente vai sair de casa e vai morar só a gente”. Eu comuniquei a minha mãe que a gente ia morar junto: “Mas não vai casar?! E véu de noiva? Eu sempre idealizei”. “Eu não, tô indo, tchau”. A gente alugou uma casa. O Jairo trabalhava, eu estudava, os outros dois estudavam e trabalhavam e com esse dinheiro a gente pagava as despesas. A gente tinha uma proposta muito radical de ser tudo em comum. Só que não durou muito tempo isso. Começou a vir egoísmo, preguiça, ciúmes. Eu já estava grávida, o Amadeu e a Mara também estavam grávidos e a gente se separou, e nasceu a Gabriela, minha primeira filha.

 

Na faculdade virei comunista, comecei a participar de grupos radicais clandestinos, a gente estudava as coisas de Marx, Lênin. Eu convenci o Jairo pra essa proposta e ele virou também comunista. Era logo antes dos partidos de esquerda ser legalizados. A gente fez greve nacional e esse nosso partido e essa vertente era uma das que criaram o PT. Era um momento político de pode ter um partido. A gente ia ver os acampamentos dos sem-terra. Eu participei de diretório acadêmico, essas coisas aí. Depois de formada fui fazer residência, abriu um campo numa região bem legal, numa comunidade de baixa renda e precisavam de todos recém-formados, tinha médico, enfermeiro, veterinário, serviço social, psicólogo. Todos jovens, idealistas, numa comunidade que a gente podia ganhar pra nossa causa. Daí eu engravido e acontece algo forte, porque sou radical, a gente tinha livros de tática de guerrilha, eu cheguei a me inscrever pra Nicarágua como assistente social que estava tendo lá revolução sandinista. Não era mais cristã, era comunista, a nossa comunidadezinha de quatro, que eu pensava pô, tudo pra dar certo, já tinha quebrado, um fracasso no meu ideal. Comecei a me questionar. E a gente fez uma greve nacional de residentes nessa comunidade. Estava super legal, estava lá junto na liderança, mas começamos a ver que não ia dar em nada. Num dia desses da greve eu saio, estava de macacão jeans, eu não mostrava formas femininas, você nem sorri, toda essa coisa rígida. Peguei o ônibus, fui pro centro de Porto Alegre e entrei na Galeria Malcon, sem saber o que eu queria fazer lá, só assim, bem mal da vida. De repente vejo um pessoal que eu conhecia da minha adolescência, que era o pessoal que era conhecido como Meninos de Deus. Eles me viram de longe e vieram pelo meio da multidão com um sorriso direto pra mim. Eu comecei a questionar eles: “Cara, vocês só falam em Jesus e da bíblia? E o comunismo e outras propostas sociais?”. E eles começaram a me responder com a bíblia, com coisas de profecias, que estavam pra acontecer, que estavam se cumprindo, que já tinham se cumprido. E eu pensei comigo: “Nossa, esses caras sabem coisas que eu não sei”.

 

Comecei a atender e daí entrei pra essa comunidade. Eu estava com a Gabriela recém-nascida, e disse: “Jairo, cara, eu estou indo, isso é o que eu quero”. Eu fui lá, eu vejo que essas pessoas moram todas juntas, vejo que o que eles pregam o amor, eles vivem o amor. Eu entrei, o Jairo entrou e a gente ali começou. Dali a gente pra Guararema, foi pro Rio de Janeiro. É um grupo de várias comunidades alternativas cristãs, missionárias. Tem no mundo todo e a meta era viver junto num mesmo local, várias famílias, ter tudo em comum, o dia a dia, o estudar a palavra e pregar o evangelho. Tudo era de todos, roupa, carro, o cuidado dos filhos, tudo. E as pessoas ajudavam porque a gente fazia um trabalho de amor pelas comunidades. E eu tendo um filho atrás do outro, são sete no total. A gente viveu de milagres por pregar o amor de Deus todo esse tempo. Morava em torno de 30 a 80 pessoas na mesma casa. Eram grandes mansões ou grandes sítios. Eu vivi o socialismo que eu pregava que eu queria ter vivido antes. A gente ensinava nossas crianças em casa. E a nossa língua primeira era o inglês porque era uma comunidade internacional.

 

Mais tarde o Jairo foi intimado nessa comunidade, ele não estava se dando bem com as regrinhas e decidiu voltar pra Porto Alegre. Eu saio da comunidade junto com ele. A gente sai com uma barrinha de ouro que era só o que cada família tinha, uma reservinha para emergência e fomos de ônibus de Brasília até Porto Alegre. Chegamos e o Jairo troca essa barrinha de ouro por uma moto e sai pra fazer adestramento de cães a domicílio, porque ele gostava muito, lia muito sobre cães e daí pra ter o sustento pra gente. Eu acho uma outra família que era da comunidade, a gente vai morar junto, essa família, a minha e uma outra pessoa que era o dono da casa que era amigo e que bancava tudo. Daí esse amigo abre um canil, onde o meu marido ia ser o adestrador e a gente vai morar no fundo do canil. Aí ele conhece a veterinária e se envolve com ela, fica com ela. Aí começa o meu calvário. O que foi a minha força? E entrei pro concurso da Smed, da Secretaria Municipal de Educação, em Porto Alegre. O Jairo vai morar com a Angélica e eu estou com sete filhos e trabalhando.

 

A escola que as minhas duas filhas mais velhas, a Gabriela e a Tabita estavam era de baixa renda porque também eu não podia pagar escola. Atraía um monte de gente querendo namorar, querendo levar pra festas. A Gabriela disse: “Mãe, quando eu fizer 16 anos eu vou voltar pra comunidade”. Quando ela fez 16 ela disse: “Mãe, eu estou indo”. E a outra estava com 14 e disse: “Eu também vou!”. Eu busquei o Senhor em profecia daí o Senhor me mostrou Curitiba, não na mesma comunidade, cada uma numa comunidade próxima e elas foram. E eu fiquei com os cinco filhos ainda lá ainda, até que chegou num momento que eu disse: “Não consigo. O que esse mundo tem pra dar eu não quero pros meus filhos”. Eu falo com o secretário da educação: “Eu quero uma licença”. Daí eu vou pra Brasília com todos eles.

 

Mais tarde a proposta da comunidade muda: “Preparem-se porque se são missionários aqui vão ser missionários fora, mas não vai mais ser essa vida comunitária de tudo em comum”. E eu começo a fazer o coaching, eu me formei como coach. Eu tinha o meu diploma de assistente social e vim pra São Paulo, um amigo me deu um emprego como assistente social e vim com a Polly em 2010. Surge o concurso para o Tribunal de Justiça do Estado e eu não me achava em condições de fazer porque eu estive afastada todo esse tempo. Eu peguei a apostila, me dediquei. Tiro o primeiro lugar na região que eu queria. Entrei e estou como assistente social judiciária no Tribunal de Justiça no fórum de Embu das Artes. Acho que ali é um lugar onde o assistente social tem voz. Porque nós somos os olhos e braços do juiz. Eu estou muito feliz, parece que alinhado com toda a minha caminhada.

 

Eu tenho um site que chama Minha História Mulher. E eu tenho reunido mulheres de várias cidades e a gente faz um coaching individual, alguma mulher diz: “Malu, estou com algo embolado na minha vida, emocionalmente desestabilizada, preciso de uma ajuda”. Uma vez por semana a gente se encontra e eu ajudo ela se organizar e a ver como está sua vida. Valida cada aspecto, quão feliz você está em cada parte dessa tua vida, estabelecendo um objetivo. Eu tenho diário desde os 17 anos. Um dia eu tenho que resgatar tudo isso pra montar num livro. Um sonho meu escrever um livro sobre a minha história e daí, aqui é uma fatia.

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