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Passado que ilumina o futuro

História de: Cláudio Maçarico
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2016

Sinopse

Cláudio Maçarico é um paranaense, filho de um paulista e de uma cearense que migrou do norte do Paraná para Porto Feliz, interior de São Paulo, com a família. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, Cláudio nos falou sobre sua infância em Apucarana, no Paraná, o porquê da mudança da família para Porto Feliz e as dificuldades que a família passou nesse processo. Descreveu as brincadeiras preferidas, o cotidiano na escola e os trabalhos que fez para ajudar nas despesas da família.  Falou sobre o emprego na Eucatex, em Salto e como decidiu migrar para a capital paulista para trabalhar na Light. Descreveu os processos por que passou em todas as etapas da empresa e como decidiu pedir sua demissão quando a empresa foi privatizada. Contou sobre trabalho desenvolvido nos museus da Fundação Energia e Saneamento e como esse trabalho continua o atraindo até hoje. 

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História completa

Meu nome é Cláudio Maçarico. Eu nasci em Apucarana, no norte do Paraná, e a data de nascimento minha é 16 de junho de 1952. Meu pai é do interior de São Paulo, ele é filho de portugueses, o nome dele era João Maria Maçarico e na verdade ele era um sapateiro, um fabricante de calçados porque ele era um artesão da arte dele. E foi uma história interessante dele com a minha mãe, porque a minha mãe é do Ceará e eles vieram se encontrar no norte do Paraná. Somos cinco homens e quatro mulheres.

 

Na verdade maçarico é um pássaro e em Portugal tem muito desse pássaro. Então o português tem mania de pôr nome de fruta, de árvore, de bicho nos descendentes. Quando eu entrei na Light, por exemplo, lá na oficina onde eu trabalhava, tinha a parte de solda lá e tem o maçarico de solda. Então o pessoal falava: “Mas não é apelido seu?” “Não, mas o maçarico da solda, o nome dele já é por causa desse pássaro porque o bico dele se parece”. Então o nome do aparelho de solda já é derivado dessa ave aí. E eu conheci meus parentes maçarico, o pássaro, na Bahia. Lá tem muito maçarico na praia porque eles botam os ovos deles na praia. Eles fazem um buraquinho na areia e botam na praia, em alguma vegetação assim. Em Portugal também tem muito maçarico, então meu nome é derivado desse pássaro aí, não é do aparelho de solda, não (risos).

  

Quando eu fiz 18 anos meu primo já começou a agitar para eu vir trabalhar na Light, porque meu primo era da Light. O irmão dele era da Light aqui em São Paulo. Meu primo adorava minha mãe, então ele falou pra ela: “Manda esse moleque pra São Paulo, ele vai trabalhar na Light lá. O Durval arruma serviço pra ele lá”. Aí começou a amadurecer essa ideia.

 

Eu falei: “Pô, na Light”. O cara falava que trabalhava na Light, ele já tinha crédito: “Pode levar o que você quiser”, era assim mesmo. Aí eu vim, fiz o teste aí.

 

A Light, empresa canadense, era aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro. Eles vieram pro Brasil na época que foram implantados os bondes aqui no Brasil, entendeu? Começo do século. Tanto que chamava de São Paulo Tramway, Light and Power. Eles vieram, implantaram os bondes. Tanto que as oficinas gerais onde eu trabalhei, elas foram criadas pra fazer manutenção de bonde. Os bondes no começo do século eram movidos a animais, eram os animais que puxavam. Depois, quando veio a eletricidade pro Brasil, eles eletrificaram os bondes, aí eles criaram as oficinas gerais pra fazer manutenção dos bondes. Eu entrei com uma turma e eu e mais um rapaz fomos designados para trabalhar nas oficinas gerais do Cambuci. Quando nós chegamos lá nós fomos tão bem recebidos, só faltava ter uma banda lá (risos) porque os caras estavam tão necessitados de gente pra trabalhar que foi aquela festa. Eu cheguei lá na Seção do Pessoal, o cara ligou: “Ô Fulano! Estão chegando dois rapazes aqui pra trabalhar com nós”. Cara, aquilo encheu minha bola, sabe? Eu falei: “Nossa!”. Eu estou chegando do interior,  morrendo de medo, um medo! Aí nós fomos recebidos daquele jeito, sabe? E isso aí ajudou muito no meu início lá porque eu me senti valorizado, me senti bem, né?

 

E eu conheci a minha esposa lá (risos). Trabalhávamos na mesma sala praticamente, mas eu sempre fui muito besta pra isso, medroso pra caramba, né cara, falei, jamais eu ia chegar e falar: “Pô, eu gostei de você, queria namorar”. Imagina (risos). Tanto é que isso foi em 73 e eu comecei a namorar com ela em 76, olha só! Eu levei três anos pra chegar e falar. Mas nessa época ela já sabia que eu estava a fim, né?

 

Por volta de 1998 foi criada a nossa Fundação, na época era Fundação Energia só. Eu entrei logo no começo. Tinha a Comgás e as empresas de energia elétrica. A Eletropaulo, a Emae, todas as empresas de energia elétrica. Agora na época o Governo do Estado criou essa fundação porque eles tinham medo que esse acervo todo caísse nas mãos dessas empresas estrangeiras e eles não dessem o devido valor pra isso.

 

Nós tínhamos o Museu de Itu que estava pra ser montado, estava em reforma, iam montar e todo esse acervo que chegava lá no Cambuci, eles não tinham quem mexesse nesse acervo e estava tudo muito deteriorado, muito sujo. Peças museológicas mesmo, da parte elétrica, que somos muito voltados pra parte elétrica, luminárias antigas, peças de iluminação, de residência, tomadas, mas coisas assim, muito antigas. Tinha muita coisa guardada. O Renato, esse rapaz, falou: “Maça, será que você consegue fazer essa parte de limpeza dessas peças e até conserto de alguma coisa que precisar, que estiver quebrado, que vai entrar no museu? A gente precisa fazer isso e a gente não tem quem faça”. E eu peguei a comecei a fazer. E eles gostaram, entendeu, gostaram. Eu dava um trato nas peças, dava um capricho lá e já deixava ela em condição de ser exposta. Nossa, trabalhei pra caramba. Demais, demais, demais. Eu pensava comigo: “Caramba, saí da Eletropaulo pra vir me matar aqui.” Eu me matava de trabalhar, mas com prazer, você entendeu? Porque o trabalho nunca me assustou. Tanto que se eu não gostasse eu não estaria hoje, até hoje trabalhando. Eu estou aposentado e continuo trabalhando.

 

Você entra lá e fala: “Pô, Museu da Energia”, o que você vai ver? Você vai ver coisa de energia elétrica. É luminária antiga, são peças que não são conhecidas do público em geral e as pessoas valorizam muito isso. Mas o Museu, além dele ser interessante, do acervo que está ali dentro, os nossos museus são prédios históricos. O prédio de Itu é maravilhoso, é um prédio centenário, é de 1850. Então tudo é bonito. O acervo é bonito, a gente faz umas exposições muito legais. Você fala: “Uma empresa como a Light, por exemplo, é uma coisa imensa, o que tem de memória uma empresa dessa!”. Tanto memória pessoal de funcionários e coisa, como de material mesmo. Só o que tem de história dentro desse prédio do Shopping Light, você não imagina. Você olha cada coisa que tem ali dentro tem uma história, entendeu? Você olha uma cúpula de vidro: “Pô, de onde veio isso aí?” “Veio da Suíça. Esse azulejo veio da Alemanha em 1910”. Os banheiros, as peças dos banheiros, se você visse as peças do banheiro da Xavier de Toledo você baba, cara, você baba. A gente guardou isso daí lá no Cambuci.

 

A iluminação foi uma mudança de cada década. Acho que nem de década. Porque o começo do século teve muita mudança, teve muita invenção. A própria invenção da lâmpada, acho que foi no final do século XIX, mas você vê que é uma coisa até recente. E foi feito muita experiência com essa questão de iluminação pública. Tinha iluminação com arco voltaico, que era esse negócio de carvão, umas coisas rudimentares, cara. Mas no centro de São Paulo isso aí. E aí criaram uma coisa moderna, porque até pouco tempo nós usávamos lâmpadas incandescentes, não existia nada de diferente. Aí surgiram as lâmpadas econômicas que aquilo foi, e realmente é muito melhor, muito mais eficiente, muito mais econômica. E hoje é o LED, né? Hoje as lâmpadas fluorescentes já estão ultrapassadas. Na minha casa mesmo eu já troquei tudo porque você pega hoje, você não precisa nem trocar uma lâmpada dessa, você não precisa trocar sua luminária pra colocar uma lâmpada de LED. Existem lâmpadas de LED que você pode usar nessas luminárias mesmo. Nessa época foi mais ou menos parecido com isso, entendeu? Foi assim, foram acontecendo coisas novas e foi mudando tudo muito rápido, né, cara. Então foi um período maravilhoso assim pra indústria. Nossa, a indústria, a energia elétrica foi tudo pra indústria.

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