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História de: Ana Paula Xongani
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/12/2016

Sinopse

Ana Paula Xongani compartilha a história de amor dos pais, que se conheceram em um ônibus. A trajetória de Ana foi marcada pela luta logo ao nascer, pois passou seus primeiros dias de vida em uma incubadora. Sua saúde melhorou, mas a luta nunca a abandonou. Ela relata o preconceito vivido desde a época de escola, e com mais força nos anos de faculdade. Mas as dificuldades resultaram em vitória. Seu TCC foi uma resposta aos anos de discriminação. Ela colocou em prática os conhecimentos e abriu sua própria marca de roupa, resgatando toda sua ancestralidade negra e criando roupas para mulheres como ela.

História completa

Meu nome é Ana Paula Mendonça Costa Pedro Ferro, mas o nome que eu uso é Ana Paula Xongani. Toda a minha família é negra. Das vezes que eu fui pra Moçambique, as pessoas perguntavam se eu era angolana. Eu me reconheço nas características das angolanas, mas não tenho certeza. Meu pai e minha mãe moravam na zona Leste de São Paulo, e eles se conheceram no ônibus. Minha mãe sempre pegava o mesmo ônibus pra ir pra escola e um primo do meu pai pegava o mesmo ônibus. Ele se encantou com a minha mãe e comentou com o meu pai. Meu pai quis ver de perto e eles se apaixonaram.

 

Minha mãe sempre quis ter uma filha mulher, e durante a gravidez ela se cuidava muito, se arrumava muito. O médico dela quis adiantar o parto algumas semanas, porque queria viajar pra ver a fórmula um. Por causa disso eu nasci sem saber respirar, porque eu não tava pronta pra nascer. Fiquei na incubadora mais de uma semana, e foi um momento muito triste, de muito medo da minha mãe. Mas um dia ela foi na incubadora, pedindo pra que eu desse um sinal que eu ia viver, e eu fiz um sinal pra ela, abri a mão, fiz um gesto que ela acreditou que ia ficar tudo bem. Apesar dessa situação, eu fui uma criança muito forte.

 

Eu fui muito cuidada por toda a minha família, minha mãe, meu pai e meu irmão. Lembro muito das brincadeiras que o meu irmão fazia comigo, ele interpretava vários personagens. Lembro também de brincar muito com os meus amigos do prédio. Tinham algumas famílias negras no nosso condomínio e os pais criaram um elo, onde todo mundo era padrinho e madrinha de alguém. Então as crianças cresceram juntas, como primos. Nessa época minha mãe começou o processo de militância negra, e lembro que meus amigos eram filhos de militantes. E eu ia com ela nos encontros e ficava bagunçando com os meus amigos. E era um lugar onde eu me fortalecia enquanto menina negra, era um lugar onde eu era bonita, todos eram iguais.

 

Na minha infância eu sempre tive tudo que eu queria, meus pais eram muito bons pra mim. Lembro das histórias que minha mãe contava, ela tinha dislexia, então ela não lia livros, ela inventava histórias, cada vez uma diferente. E eu lembro muito de eu questionar essas diferenças nas histórias, e ela dizia que as histórias eram assim mesmo, cada dia de um jeito.

 

Minha escola foi bem difícil, passei por muitas experiências de racismo, e eu também era disléxica, tinha muita dificuldade de aprendizado. Foi um momento difícil de isolamento, eu era a única menina negra da classe, não podia falar o que eu queria, ser o que eu queria. Mas fora da escola eu me sentia bem, participava de um coral infanto-juvenil de musicas afro-brasileiras, fazia artes plásticas, dança, teatro, jazz, natação, participava dos projetos sociais junto com a minha mãe. Era legal porque a minha família era muito unida, onde um ia, todo mundo ia.

 

Minha adolescência também foi muito difícil, tenho registros de muita rejeição, das amigas e dos meninos. Comecei a trabalhar com 14 anos, foi minha forma de fugir das baladinhas, encontrinhos, festinhas, porque eu não conseguia acessar aqueles lugares. Aí eu pedi pra minha mãe pra poder trabalhar, comecei a fazer artesanato, crochê, tricô, bijuteria, e eu vendia aquilo. Depois quis trabalhar em algum lugar, e virei menor aprendiz e fazia processos administrativos no SESI. Aí foi legal, porque eu usava o trabalho pra não me importar com as questões da adolescência. E foi nesse momento que eu comecei a entender o racismo pesado. Lembro de algumas coisas que me deram força ao longo da vida, lembro da história da menina bonita do laço de fita, sobre uma menina negra que eu gostei muito. E teve a Laurin Hill que foi uma salvação na minha juventude.

 

O meu primeiro amor foi um grande desprezo, eu tinha uns 14, 15 anos. Depois fui namorar só com 17, e eu me senti realizada por um tempo, via ele como um príncipe negro, assim. Até que um dia fui surpreendida com a notícia de que ele tinha sido preso. E aí fui descobrindo várias mentiras que ele tinha me contado, foi muito foda. O meu segundo namorado eu conheci quando comecei a frequentar saraus, ele sim é um príncipe negro, estou com ele até hoje, é meu marido e temos uma filha, AyoLuá Bassenga.

 

Eu fiz faculdade na Belas Artes, e lá eu sofri o pior racismo da minha vida. Eu era invisível, os professores nem liam meus trabalhos, me davam respostas rasas pra tudo que eu perguntava. Foi muito frustrante, fui pouco estimulada, pouco aproveitada. Mas era o único lugar que tinha o curso que eu queria, que era Design de Interiores, então eu fiz até o fim, e o meu TCC foi minha resposta a tudo aquilo, foi sobre a influência da arte africana no design brasileiro. Nenhum professor quis me orientar, mas meu companheiro e os nossos amigos fizemos tudo juntos, eles me orientaram, me ajudaram com a organização, com a apresentação. No dia da apresentação eu fui preparada. Não teve como eu ser invisível ali, todo mundo tinha que assistir. No fim da minha apresentação eu fiz um discurso enorme contando tudo o que eu passei, chorei tanto que lavei minha alma, dei nome para todos os bois. No dia da formatura, fui na colação e entrei com o braço estendido, vi os professores completamente constrangidos, mas a minha autoestima estava muito fortalecida.

 

Depois disso eu casei e fui pra Moçambique, e lá pude me conectar com muitas coisas, resgatar minha ancestralidade. Lá eu descobri que eu podia ter dread, uma referência que eu não tinha em lugar nenhum. Lá eu também descobri os tecidos africanos, e a partir daí tudo mudou. Levei vários tecidos de lá pra São Paulo, e eu e minha mãe começamos a fazer roupas com eles. Assim nasceu a Xongani, a nossa marca de produtos para as mulheres pretas, pensando no corpo delas, coisa que marca nenhuma fazia. Eu mesma tive que parar de fazer natação na minha infância porque não existia uma touca que cabia o meu cabelo. Eu e minha mãe paramos de andar de moto porque não tem um capacete que caiba os nossos cabelos. Então quando a gente começou a perceber que a gente podia cuidar desse corpo, dessa mulher negra, e que a moda podia comunicar e consolidar essa luta do negro no Brasil, a gente teve certeza que era isso que tínhamos que fazer, e fazemos até hoje.

 

O nome Xongani significa “enfeite-se, arrume-se, fique bonita”. Vem de uma língua Xangana que se fala no sul de Moçambique. Quando eu tava em Moçambique comprando tecido, meu marido disse que aquilo era “Xonga”, que é uma conjugação desse verbo. Ele me explicou o que era, e eu ganhei um nome.

 

A marca cresceu muito, passou por várias dificuldades, mas hoje estamos muito bem, nossas roupas são usadas na periferia e nas novelas da TV, em casamentos, batizados, graduações. É um sucesso. Entendo o ato de se vestir como contar história, a minha história. E fico muito feliz em poder ajudar outras mulheres pretas a contarem suas histórias, a se empoderarem, se fortalecerem. Também faço isso através de um canal no Youtube, onde postos vídeos trazendo essa força da mulher negra. Um vídeo que me marcou muito foi o “Vamos enegrecer o 8 de Março”, onde eu quis trazer a nossa força, falando sobre grandes mulheres negras da história.

 

Foi muito bacana porque inspirou um outro grupo de mulheres negras a contar suas próprias histórias. Outro vídeo que foi muito especial pra mim foi o da Pepa, que nasceu da experiência de um livro que eu achei extremamente racista, e na primeira semana já tinha quase 8 mil visualizações. E pelos comentários, percebi que as pessoas puderam repensar a partir daquele vídeo. Foi muito emocionante porque eu comecei aquilo como uma mãe que estava buscando proteger a sua filha, e no fim pude ver reais transformações em várias escolas por causa dele.

 

O processo de ser mãe foi muito especial pra mim, esperei seis anos de casada para engravidar, seguindo um conselho da minha mãe. Sinto que tive ela no momento certo, me senti completamente realizada e busco refazer a história da minha mãe, ser pela minha filha o que minha mãe foi e é por mim. Sei que ela vai passar por sofrimentos, pelo racismo, como eu passei, e isso me dói muito. Mas ao mesmo tempo me dá muita força pra lutar, entendo que preciso continuar para proteger ela, transformar o mundo em lugar melhor pra ela. Sinto que preciso conquistar algo pra minha filha, como minha mãe conquistou pra mim e minha vó conquistou pra ela, pra que a minha filha continue conquistando pras próximas mulheres que vierem.

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