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História

A Itinerância do Encantamento

História de: Mel Duarte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/12/2016

Sinopse

Mel Duarte é filha de artistas e militantes. Teve uma infância vivendo na periferia paulistana, com gosto do interior. Aprendeu a escrever bem pequena e cedo se apaixonou pela literatura. Mas foi aos 18 anos que sua vida mudou, quando descobriu o movimento dos saraus, passou a integrar o grupo Poetas Ambulantes e a organizar um slam de poesia para mulheres, onde chegou a ser campeã de poesia falada.

História completa

Os meus pais vieram do interior, a minha mãe e meu pai vieram pra São Paulo pelas artes. Os dois por serem artistas não queriam nomes comuns para os seus filhos, minha mãe queria que eu me chamasse Joana D´Arc, mas meu pai achou o nome comum. Então um dia os dois olhando um dicionário de nomes diferentes viram o nome Mel, um olhou pra cara do outro e então se confirmou, eu ia ser Mel. O que acontece é que meu pai quando foi registrar no cartório, mas não quiseram deixar, foi então que o meu pai cismou com a ideia, ele entrou na justiça e conseguiu com a condição de que se eu quisesse eu poderia mudar de nome até os meus 18 anos. Então eu ficava viajando nessa ideia de inventar um nome para mim, mas deixei esse mesmo.

 

O meu nome não foi Joana D´Arc mas eu era muito encantada com bruxas, minha mãe ficava até surpresa de como eu era tão conectada com bruxas, eu enchia o meu quarto inteiro de bruxas. Desde cedo minha mãe sempre soube que eu era uma criança diferente, e nunca me podou por isso, mais pra frente eu comecei a ter muitos sonhos impressionantes, e as coisas que eu sonhava aconteciam, então eu não sabia se acontecia porque eu sonhava, ou se eu sonhava porque ia acontecer, e o que fazer com isso. Uma vez minha mãe tinha comprado um celular grande, e na hora que ela mostrou pra mim, eu senti um arrepio muito forte, mas não falei nada. Logo depois ela me ligou, e não era desse celular, estava me dizendo que tinham roubado ele, e eu meio que já sabia, e ela questionou porque não avisei ela. Assim fui aprendendo a confiar na minha sensibilidade, porque espiritualidade está muito além de religião, não tenho a arrogância de achar que nós somos os únicos aqui, a questão é como usar isso para melhorar a minha vida e a vida dos outros.

 

Eu também ouvia muita música, minha casa ficava num lugar que era tipo cidade do interior, assim se minha cachorra fugia, vinha a minha vizinha de 3 quadras de distância da minha casa e me avisava. E eu ficava brincando na rua mesmo, ouvindo música. Ouvia música até dormindo, mas nunca tinha pensado que para haver uma música, alguém tinha que fazer uma letra. Foi na escola que eu vi isso, quando ensinaram as trovas, eu fiquei muito empolgada com aquilo. Queria ter sempre a aula que eu pudesse escrever.

 

Depois eu descobri uma amiga minha que também escrevia e a gente ficava se desafiando. Eu dava 3 palavras pra ela, e ela tinha que fazer um poema com isso e vice-versa. Mas eu deixava aquilo escondido, pois pra mim não existia poeta, digo poeta vivo, se chegasse alguém um dia e falasse que era escritor que aquele era o seu livro eu ia ficar muito impressionada. Até que um dia eu dei um caderno meu para uma professora que eu gostava muito, ela me devolveu no final do ano dizendo que havia amado e com um recado escrito, para que eu nunca parasse com aquilo, que haviam pessoas que conseguiam viver daquilo, e que isso era muito especial.

 

Meus pais foram muito especiais para mim mesmo quando eles se separaram, eu fui de um extremo até o outro, fui desde morar numa casa espaçosa naquele espaço bem verdade até ir morar num outro extremo, num apertamento. Mas eu compreendo que foi importante, a minha mãe precisava do espaço dela. Um dia meus pais me chamaram em um parque e me contaram que iam se separar, eles até me colocaram em um psicólogo para eu receber melhor a separação, mas o próprio psicólogo disse que não havia motivo de eu estar ali, pois eu estava super bem resolvida, na minha cabeça todas as coisas boas iam se multiplicar por 2. Os dois eram super guerreiros e me ensinavam coisas diferentes.

 

O meu pai ele é grafiteiro até hoje da vanguarda do Stencil, até hoje me surpreendo com alguns trabalhos históricos na qual eu ia com ele no ateliê do artista. Como é difícil se sustentar apenas do grafite, ele começou a trabalhar com camisetas também, então ele manjava de tudo isso, dos tecidos e das tintas. Como eu ia com eles nos rolês passei a manjar também. Ele tinha uma coisa cultural muito forte, valorizava e sempre me lembrava da força de eu ser uma Mulher Negra, quando eu fiz os meus primeiros dreads, ele me deu muita força e falou agora sim!

 

Quando eu cheguei em casa a minha mãe fez o maior escândalo e ela também era uma mulher negra. Porque meu pai era o homem lúdico, mas a minha mãe me passou outros tipos de aprendizado, ela me ensinou a ser uma mulher independente. Desde sempre ela falou, ó você quer ir para algum lugar, fala com o cobrador, dá sinal, tchau! Quer cozinhar? Aqui liga o fogão, ali as panelas, ali a comida, boa sorte!

 

E na minha independência eu comecei a trabalhar cedo, e foi em Shopping. Quando se começa a trabalhar nesses ambientes é mais complicado sair. Mas rodando por lugares que gostei mais, que gostei menos, acabei trabalhando na livraria cultura dentro de um Shopping também. Lá conheci figuras como o Pedro Tostes que era um escritor com livro publicado e estava ali na livraria, foi quando eu vi que escritores eram pessoas normais. Tinha um outro menino que ele lia muito e lia muito mesmo, tanto que depois ele foi demitido de uma livraria por ler demais, imagine? E esse menino me perguntou se eu conhecia sarau, eu disse que não, ele me contou que vários jovens se reuniam para ler poesia. Ele decidiu me levar e nessa primeira vez que eu fui, o meu corpo tremia e tremia e eu pensava, nossa, isso existe.

 

Fiquei em choque ao ver que os jovens se reuniam na periferia apenas para ler poesia. Eu frequentei durante dois anos esse espaço e demorou muito, muito para eu declamar. Demorou muito para minha mãe acreditar também que eu não estava saindo do extremo da Zona Sul e indo para o extremo da Zona Norte pegando vários ônibus, trens e metrôs não pra usar droga e sim para compartilhar literatura, e não uma literatura do Fernando Pessoa ou de outro autor conhecido, mas a nossa literatura, os textos que criávamos.

 

E já fazem 10 anos da primeira vez que eu fui no sarau, aquele foi o verdadeiro start da minha caminhada literária, e dali comecei a rodar por outros saraus. Eu me sentia muito bem em Saraus como o do Buzo. Tinham muitos saraus que havia pouquíssimas mulheres e meus textos muitas vezes eram eróticos. E eu pensava nossa o que estou fazendo aqui com um bando de homem falando de sensualidade? Mas eu sempre deixei bem claro que eu estava ali pela poesia, e até questionávamos atitudes de alguns homens por maneiras que eles tratavam a gente, ali não era uma vitrine para o homem escolher a mulher que quisesse. E foi justamente nesses espaços que eu encontrei mulheres militantes e aprendi muito com elas em todos os recortes de mulher, de negra e de periférica e nessas conexões enxerguei que eu podia usar a palavra para as mulheres se empoderarem.

 

O Nosso Slam também surgiu para empoderar as minas. O Slam Poetry é uma competição de poesia falada, esse movimento veio para Brasil com a Roberta Estrela D´Alva e cresceu bastante e todo ano quem vence vai para a França disputar o mundial. Mas a gente estava reparando que tinham poucas mulheres que saíam vencedoras, muitas vezes elas apresentavam o mesmo tema e uma qualidade grande, mas era o homem que ganhava o Slam. Então uma forma que encontramos de sempre garantir que haverá uma mulher competindo para ir para a França e também para achar e reunir quem estava fazendo poemas de empoderamento feminino nós criamos o Slam das Minas que acontece uma vez por mês, no terceiro Domingo do mês e ele acontece principalmente em casas que sejam gerenciadas por mulheres para fortalecermos o trabalho e rola também um Pocket Show junto. Uma vez que foi emocionante para mim foi quando fizemos uma edição na Casa das Rosas em homenagem ao mês da mulher e eu nunca havia visto uma diversidade tão grande, de estilos, faixas etárias. Iagiban Bar, Casa Goiaba, uma vez lá na Bela Vista foram bem lindas. E gostamos de rodar, basta o mínimo de estrutura como caixa de som, microfone e etc e quem sabe um dia tenhamos o nosso espaço próprio, mas somos itinerantes.

 

Falando em itinerância tem uma parte da minha vida que eu preciso falar que são os Poetas Ambulantes. Nossa parece até coisa de vida passada, pois tenho a sensação de que eu conheço eles desde sempre, eu sei que a Carol Peixoto e a Luz Ribeiro já se conheciam e elas queriam fazer algo que disseminasse a poesia, elas pensaram primeiro em sair tocando campainha da casa dos outros e falando poemas, mas ia ser meio estranho né? Então aonde estava o povo? No transporte público, e decidiram falar lá. Elas tentaram uma vez, mas elas ficaram com vergonha e acabou não rolando. Quando fomos nós todos um olhou pra cara do outro e pensou: Vai você, vai você, vai você e uma hora fomos e não paramos até hoje. Na época todos nós éramos ratos de sarau, então a gente pensava um sarau que queria ir, tipo vamos na Cooperifa e íamos nos transportes falando antes para chegar lá. O nome Ambulantes vem de uma admiração que temos pelos vendedores ambulantes de comida no metrô, mas não cobrávamos nossa saída, embora os metrô e ônibus estejam cobrando muito.

 

E teve cada saída bonita, nós já vimos um casal que estava brigando no telefone parar de brigar e ouvir nossas poesias. Quando levamos o Sergio Vaz o fundador da Cooperifa com a gente, foi algo muito diferente para ele. E era algo muito inusitado, nós falávamos que estávamos lançando o livro da pessoa dentro do trem, teve uma senhorinha que desacreditou que era mesmo o Sergio Vaz e ficou lá abraçando ele emocionada. Nós realizamos várias ações comemorativas e também apoiando causas como a saída "Não vai ter golpe" e a saída "Não a Redução da Maioridade Penal", pois a nossa poesia ela não é só bonitinha, ela vem para cutucar, provocar e encantar, todos meus amigos que diziam que poesia era chato que sarau era cansativo depois que eu levava ficavam muito felizes, todos escreviam algo depois daquilo. Eu me emocionei muito com uma oficina que a gente deu na Fundação Casa de escrita, entre várias ações, organizamos um concurso de poesia e o vencedor pode sair de lá um dia e ir na Cooperifa com a gente, todos nós choramos com isso. Pois isso que fazemos faz a diferença, teve um menino dessa oficina, depois de muito tempo, me escreveu uma carta simplesmente para agradecer, fiquei muito tempo pensando nisso, lendo essa carta, assimilando nosso processo.

 

E esse é o rolê de ser independente, de fazer a coisa acontecer e a importância de circular. Uma vez no Sarau do Buzo conheci uma editora e ela me orientou a publicar meu livro, 12 grafiteiros fizeram um grafite para cada poema meu, era possível destacar o poema do livro, e o preço era popular também, era 10 reais. E teve o livro "Negra nua e crua" e eu precisaria ficar muito tempo aqui me aprofundando muito para contar cada parte da minha vida, mas do pouco que eu contei agora, nunca que eu ia imaginar quando eu ia brincar com as trovinhas há vários anos atrás quando eu saí da livraria para ir num sarau, como eu ia imaginar que a poesia me faria ter 2 coletivos firmados, 2 livros publicados e me levaria para todos esses lugares inimagináveis?

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