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Legado sustentável

História de: Ricardo Voltolini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Ricardo Voltolini nasceu em Santo André, na Grande São Paulo, no ano de 1964. Contando sua história, Ricardo fala da decisão de tornar-se jornalista, carreira que seguiu atuando em veiculos como as revistas Playboy e Placar e no jornal Folha de São Paulo.  A partir de 1993, começou a trabalhar como consultor especializado na questão da sustentabilidade. Com a experiência acumulada atuando neste segmento, cria a plataforma Liderança Sustentável, inspirada na metodologia dos TEDs, que fomenta o conhecimento sobre o assunto em video-palestras e encontros presenciais.

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História completa

Sou Ricardo Voltolini, nasci em Santo André e me mudei de lá com dez anos, quando fui para São Bernardo. Lá fiquei dos dez aos vinte e cinco, até casar. Eu lembro que eu era um cara imaginativo, tinha uma imaginação muito fértil. Imaginava histórias e contava as histórias para mim mesmo, criava personagens, enfim, e a ideia de escrever já começou a vir logo depois, um ou dois anos depois de eu me alfabetizar, porque eu me lembro que eu tinha dez, onze anos, já estava em São Bernardo quando tive a ideia de escrever o meu primeiro livro. Eu tinha um amigo da escola que desenhava, então eu fiz o texto e ele desenhou, aí a gente montou uma historinha, mimeografou e vendeu. Então, aos onze anos, eu era um pouco escritor e um pouco empreendedor, já tinha ali as duas sementes. Isso nunca me abandonou, e acho que isso foi fundamental quando eu fiz a opção para o Jornalismo, na verdade, fui influenciado pelo Heródoto Barbeiro, que foi meu professor no Colégio Objetivo, e decidi fazer Jornalismo por conta disso. Mas eu acho que talvez se eu tivesse que pensar no que queria ser quando crescer, acho que isso de escrever já estava lá comigo, de alguma maneira

Na faculdade, eu já gostava de ler, li muito, estudava todos os clássicos. Então, o professor dava Sartre para ler em Filosofia, eu lia Simone Beauvoir e mais uns dez franceses, eu tinha essa coisa de mergulhar mais profundamente sem que o professor me tivesse que pedir, não era o que valia para a prova, era o que eu queria pra mim. Me formei com louvor como o melhor amigo da turma, o que me deu o direito de escolher qual era o curso que eu queria fazer, porque tinha o curso Abril, curso Folha e o curso Estado e eu tinha que escolher, e eu pude escolher o curso Abril que foi o inicio da minha carreira profissional.

E o meu primeiro caminho, minha primeira porta profissional oficial foi Editora Abril, revista “Playboy”. Foi muito legal, foi muito divertido, eu fiquei alguns meses como trainee, do curso Abril, você pulava para algumas redações, e aí eu vi que eu não teria vida longa na “Playboy”, um dos editores me chamou um dia e muito educadamente falou: “Você é um cara muito legal e tal, só que não é teu mundo esse daqui, não é? Era um cara muito legal, foi até uma conversa divertida, o cara estava me dispensando, mas de um modo muito divertido, ele mesmo falou: “Tem mil revistas aqui na Editora Abril que você pode trabalhar, você tem talento, você escreve bem. Sobe um andar, vai falar com o Juca Kifouri ai, eu ligo para ele lá, falo de você. Você não gosta de futebol? Vai cobrir o futebol, pô, tem mais a tua cara. Isso aqui é um mundo muito gourmetizado, muito chique para você”. Fiquei na revista “Placar” por um ano e pouco até receber uma proposta para ir para o “Jornal da Tarde”, fazer um negócio que eu amava, que era Artes e espetáculos, lá fiquei por um ano também e eu gosto de lembrar porque era um tempo que você conseguia escrever uma matéria de uma página inteira, formato standard, algumas das melhores entrevistas que eu fiz na vida, eu fiz no “Jornal da tarde”.

Mas passado um ano, eu recebi uma proposta da “Folha”, fui para a “Folha” cobrir futebol, voltei para o futebol de novo, mas em uma condição de repórter diferenciado, cobria coisas que eu gostava de fazer. Ali, peguei o processo de implantação do manual da “Folha”, que foi um grande aprendizado, convivi com grandes jornalistas que eu tenho até hoje como referências. Na época eu namorava, já estava para casar, e tinha um mês de férias e mais três acumulados. Então, me casei, lua-de-mel, fiquei mais um tempo botando as coisas em ordem em casa, voltei e pedi demissão. Obviamente que isso não foi uma decisão aplaudida por todos, acharam que eu estava completamente louco: “Mas o quê que você quer fazer? Como abre-se mão de uma carreira? Você está começando. Você tá na “Folha de São Paulo”. Apesar disso eu sai e resolvi criar a minha própria empresa.

A ideia sustentável começou efetivamente em 1993, com uma proposta de ser uma empresa prestadora de serviços de consultoria em comunicação organizacional e marketing institucional. Isso durou mais ou menos um ano, porque ai veio a primeira grande causa que foi a de gestão de terceiro setor. Depois de dez anos eu fiz a transição para investimento social privado, já vislumbrando outras maneiras de trabalhar, não só com gestão do terceiro setor. Naquela época o movimento de responsabilidade social época estava ganhando força no Brasil. Os primeiros momentos dessa discussão são momentos muito marcantes para mim, eu me lembro que eu ia a empresas e queria falar de responsabilidade social empresarial tal como eu a enxergava, como eu a estava vendo, e queria mostrar que aquele conceito era um conceito de gestão de empresas, mas, obviamente, as pessoas não estavam preparadas para esse discurso e ninguém enxergava isso, por mais eloquente que eu fosse nos meus argumentos, ninguém enxergava isso.

A plataforma de liderança sustentável tem para a minha carreira um peso tão importante quanto a minha entrada no campo da responsabilidade empresarial em 98, quanto a minha entrada em 94 na gestão de terceiro setor, ela tem um peso de um marco, e por que é um marco? Porque em 2009, eu já estava há onze anos trabalhando com responsabilidade social empresarial, já tinha alguns clientes e lembro que eu encaminhava proposta de trabalho para esses clientes e essas propostas que ficavam na etapa um, às vezes, tinham seis etapas. E o cliente realizava a primeira etapa e parecia já: “Olha, estou satisfeitíssimo, está muito bom isso aqui, eu nem imaginei que eu fosse fazer essa mudança”, eu olhava para aquilo e pensava: “mas que mudança? A gente nem começou a fazer mudança”. E aquilo me gerava um pouco de frustração porque eu pensava que não conseguia levar meu trabalho até o final. Aquilo começou a ficar frequente, chegando a um ponto que eu comecei a pensar e essa foi a primeira vez que eu pensei: “qual é o meu legado? O quê que eu quero deixar com este trabalho que eu faço há tanto tempo? ”, porque não é só um trabalho de consultoria, o trabalho para mim é uma causa.

Então eu chamei a minha equipe e disse: “Olha, a gente precisa tentar entender porquê que em algumas empresas a sustentabilidade avança mais do que em outras? ”, e quando digo avançar é sobre mudar o jeito de pensar e de fazer negócios. Esse era o meu dilema. Aí fizemos uma pesquisa com cinquenta líderes empresariais para tentar entender porquê que avançava mais em umas e menos em outras e ao final, a gente chegou a um estudo que apontou cinco fatores comuns nas empresas que avançavam mais e o mais importante desses fatores comuns era presença de uma liderança forte apaixonada pelo tema. Isso é que fazia a diferença, não era dinheiro, não era a estrutura, não era ser nacional ou multinacional, nada disso, era isso, era convicção de fazer e poder de fazer. Pensando nisso, em tentar entender como estes líderes pensam, agem, tomam decisões e em que valores acreditam, produzi o meu primeiro livro chamado “Conversas com lideres sustentáveis”. Quando estava terminando o livro, eu tive uma sensação, um insight muito interessante de que eu tinha um conjunto de histórias ali muito legal, mas que um livro seria um instrumento insuficiente para fazer essas histórias ganharem corpo e disseminação, então convidei alguns dos lideres que estavam lá para virem comigo em encontros regionais em que eles contariam as suas histórias no objetivo ou na missão de inspirar outros lideres a agirem da mesma maneira.

A minha ideia é mostrar para uma nova geração de lideres que é possível ser bem-sucedido e sustentável e que não existe nenhuma incompatibilidade, pelo contrário, entre ter lucro e ser sustentável. Os encontros cresceram e acabamos percebendo que não se tratava de um evento, mas sim de um movimento, tinha o peso de um movimento. Comecei a pensar em algo mais longo, que teria cada ano um tema e a cada ano eu convidaria dez presidentes para integrarem a plataforma a partir de um tema novo e assim, nasceu a plataforma Liderança Sustentável. Inspirado na metodologia do TED, eu comecei a definir encontros em que eu chamava esses presidentes, eles têm doze minutos para contar as suas histórias, suas histórias viram uma vídeo-palestra que depois, é disseminada pelas redes. E hoje, essas vídeo-palestras, são mais de 70, já foram vistas por 1.800 mil pessoas. A gente já fez trezentos encontros regionais e falamos presencialmente para 90 mil pessoas.

A percepção do consumidor sobre o tema sustentabilidade avançou muito, mas eu acho que o muito que avançou ainda é insuficiente. Os momentos que a gente mais aprendeu no Brasil, que mais evoluiu do ponto de vista de consumo consciente foram os momentos de escassez.  Em 2001, por exemplo, tivemos a crise de energia, o apagão. As pessoas precisaram economizar energia:  se você tem quatro lâmpadas, tira duas; use menos o chuveiro, porque o chuveiro é intensivo no uso de energia elétrica; e por aí vai. Foi naquele momento, se você lembrar, que surgiu no Brasil o selo Procel de eficiência energética. Eu não vejo que a questão de sustentabilidade está colocada em um projeto de país acho que o salto só virá quando a gente colocar esse tema no projeto de país que queremos viver, pensar qual é o espaço que o consumo consciente vai ter. Tem muito trabalho para ser feito, ainda.

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